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Wednesday, 4 March 2020

Não Devemos Branquear o Legado de McCarrick

Stephen P. White
Há uma tradição, que ainda é observada nalguns lugares, segundo a qual o chapéu cerimonial de um cardeal – o galero encarnado – é pendurado do tecto da catedral quando ele morre. Ali fica, pendurado pelo seu cordel eclesiástico, até que sucumbe à corrupção do tempo e cai. Essa última desintegração do galero é entendido como um sinal – numa mostra de humor católico – que a alma do defunto saiu finalmente do purgatório.

Tendo sido despido do seu cargo de cardeal e laicizado, o galero de Theodore McCarrick não será pendurado com o dos seus antecessores na catedral de St. Matthew, em Washington. Mais, as suas armas foram removidas da parede da catedral, onde tinham estado entre as dos seus antecessores e sucessores.

Quem visitar hoje a Catedral de St. Matthew não encontrará qualquer referência a Theodore McCarrick enquanto Arcebispo de Washington.

Há muitas razões pelas quais podemos querer apagar o legado de McCarrick da catedral. Certamente aqueles que foram traídos por ele – as suas vítimas, os seus amigos, os padres, o seu rebanho – não gostariam de ver o seu nome e as suas armas expostas publicamente, sobretudo, como era o caso, tão perto do sacrário.

Tal memorial ao McCarrick poderia tornar ainda mais difícil a alguns ultrapassar a revolta e a confusão dos últimos anos, rumo à cura e à restauração da confiança. É por isso, segundo nos dizem, que o actual arcebispo de Washington, Wilton Gregory, ordenou pessoalmente que a placa de McCarrick fosse retirada.

Com o devido respeito pelo arcebispo Gregory, porém, julgo que se tratou de um erro.

A remoção do nome e das armas de McCarrick da catedral poderá tornar as coisas menos dolorosas para nós no curto prazo, mas duvido que melhorem o que quer que seja a longo prazo. Nem para nós, nem para ele, nem para os fiéis que virão muito depois de todos nós termos partido.

Em primeiro lugar temos o simples facto de que Theodore McCarrick foi, na verdade, arcebispo de Washington. Foi nomeado para o cargo no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e manteve-se até à reforma em 2006. Toda a vergonha com que cobriu esse mandato, o mal que fez à arquidiocese, não será desfeito por ignorarmos essa realidade e as questões difíceis que levanta.

O escândalo do pecado é uma preocupação legítima e a obsessão lasciva com o pecado – sobretudo o pecado sexual – é moralmente perigosa. A tentativa de nos protegermos da dor e do escândalo do pecado – nosso ou dos outros – transforma-se, com demasiada facilidade, num exercício de autoilusão. Por demasiadas vezes a tentação de proteger os fiéis da realidade dos pecados do clero tornou uma situação má ainda pior.

Ninguém pode dizer, com seriedade, que nas últimas décadas a Igreja Católica americana tem sido demasiado transparente em relação às fraquezas dos seus padres e (sobretudo) dos seus bispos. Uma cultura eclesiástica que tentou branquear as falhas da Igreja acabou, sem dúvida, por tornar a crise dos abusos ainda pior. Haverá maior prova disso do que a carreira do próprio Theodore McCarrick?

Alguns poderão argumentar que apagar o nome de McCarrick da catedral é um castigo justo. Talvez a dor de ver o seu legado destruído desta forma seja uma certa forma de justiça, e talvez até lhe faça algum bem, espiritualmente. Talvez.

Mas também há algum valor em reconhecer os limites da justiça que podemos fazer. A justiça de Deus não vem apenas nesta vida, mas na plenitude dos tempos. Se nos esquecermos disto o impulso para tentar à força obter toda a justiça no espaço das nossas curtas vidas, e à nossa maneira, torna-se incomportável. Enganamo-nos se pensamos que tudo deve – ou pode – ser corrigido à medida das nossas expectativas.  

O que leva a outra razão pela qual me preocupa a decisão de apagar a ligação entre McCarrick e a catedral: o próprio Theodore McCarrick.

A velha tradição de a queda do galero significar que a alma de um prelado saiu do purgatório tem uma fundação séria. Os nossos pastores precisam das nossas orações, mesmo depois da morte. Não rezamos pelos nossos mortos porque temos a certeza da sua bondade, mas precisamente porque não temos. As lembranças do nosso pecado e da nossa fraqueza – e sobretudo do pecado e da fraqueza dos nossos pastores – são importantes porque nos recordam da necessidade de rezar fervorosamente pela salvação das almas.

Ao contrário daqueles homens cujos chapéus encarnados estão pendurados nas catedrais pelo mundo, Theodore McCarrick ainda está vivo. Quem somos nós para dizer que não existe esperança para a sua salvação? E se existe, então não devemos rezar por ele?

O Evangelho instrui-nos: “Ama o teu inimigo e reza por quem te persegue”. Parece um mandamento fácil de obedecer, no abstracto, mas eu, pelo menos, acho muito complicado fazê-lo com convicção quando estamos a falar de um homem como Theodore McCarrick. Rezar pelas suas vítimas? Claro. Pelo seu sucessor? Evidente. Pelo seu antigo rebanho? Sem dúvida. Mas pelo próprio “Uncle Ted”?

Mas algo me diz que eram precisamente de “casos difíceis” como este que o Senhor estava a pensar.

Quer queiramos, quer não, Theodore McCarrick continua a ser nosso irmão. Une-nos o nosso baptismo, em Cristo. Não é por ignorar as suas feridas, nem esquecendo-nos de como elas surgiram, que tornamos o Corpo de Cristo mais perfeito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 11 September 2019

Suicídio Assistido: Uma História de Duas Narrativas

Richard Doerflinger
Apresento-vos uma narrativa recentemente promovida a nível nacional, a começar por Seattle, pela Associated Press.

Em Maio um homem chamado Robert Fuller, de 75 anos e doente com cancro, foi sujeito a uma overdose letal de drogas, ao abrigo da lei de “Morte com Dignidade” do Estado de Washington e planeou até ao último detalhe o seu suicídio, com a ajuda de adeptos do suicídio, da organização “End of Life Washington”. Organizou o seu enterro na paróquia católica de St. Therese, que frequentava; teve uma festa de despedida no seu apartamento em Seattle; casou com o seu parceiro de alguns anos e, mais tarde nesse mesmo dia, diante de testemunhas, tomou as drogas e morreu. Tinha convidado um jornalista e um fotógrafo da AP para o acompanhar durante todo o processo porque “queria mostrar às pessoas do país como é que estas leis funcionam”.

Algo parecido (normalmente sem as festividades nem a presença mediática orquestrada) já aconteceu no meu Estado de Washington cerca de 1.200 vezes desde que o suicídio medicamente assistido foi legalizado, em 2008.

A AP acrescenta isto: No domingo antes do seu suicídio de 10 de maio, Fuller foi pela última vez à missa e alegadamente recebeu uma bênção para aquilo que estava prestes a fazer (fotografada pela AP) do padre local, o jesuíta Quentin Dupont, acompanhado de crianças com alvas brancas que faziam a Primeira Comunhão. Em defesa desta narrativa, alguns já apontaram para um post na página do Facebook de Fuller em que ele escreveu: “O meu pastor/padrinho deu-me a sua bênção. E é jesuíta!!!”

A verdade é que Fuller publicou esse post em Março, por isso não poderia estar a referir-se â bênção de Fuller no dia 5 de Maio. O pároco, Pe. Maurice Mamba, não é jesuíta. Poderemos nunca saber quem era esse jesuíta, ou se existe sequer.

Afinal de contas, ao que se soube, o padre Dupont mal conhecia Fuller e não fazia a menor ideia que ele planeava suicidar-se. Descendo o corredor no final da missa foi confrontado por um homem que pedia uma bênção porque estava a morrer. O padre Dupont liderou as crianças numa oração, pedindo força e coragem neste tempo difícil. Viu alguém a tirar uma fotografia, mas não sabia que era um repórter e nunca assinou qualquer documento a autorizar a sua publicação. Parece muito um esquema, pensado por Fuller (ou pelos ativistas que o ajudaram) para colocar a Igreja numa posição embaraçosa e minar o seu testemunho contra o movimento do suicídio assistido.

Quando o padre soube dos planos de Fuller visitou-o e tentou dissuadi-lo – e quando isso não funcionou consultou a diocese para saber se devia aceitar fazer o seu enterro. A decisão foi de avançar e fornecer cuidados pastorais aos enlutados mas com o cuidado de ser claro que isso não constituía uma concordância com a forma como ele pôs fim à vida.

O que é que podemos aprender com isto?

Em primeiro lugar, alguns paroquianos (sobretudo os seus amigos de longa data que cantavam com ele no coro) sabiam dos seus planos e aceitaram-nos, ao ponto de frequentarem aquela festa final. Isso é errado e um grave escândalo. Contudo, alguns católicos têm dificuldade em acreditar que os padres não estavam a par das intenções de Fuller. Como paroquiano da diocese de Seattle, permitam-me discordar.

A falta de padres por estes lados é severa. O meu próprio pároco cuida de quatro paróquias e uma missão e durante boa parte deste ano não teve um vigário. Faz um trabalho magnífico em circunstâncias difíceis, com a ajuda de padres reformados ou que estejam de visita e administradores leigos.

O padre Dupont, que é aluno a tempo inteiro na Universidade de Washington, estava em St. Therese só para celebrar missa, como já tinha feito antes (bem como noutra paróquia, apesar do trabalho académico). O pároco, padre Maurice, cuida de duas paróquias sozinho e naquela manhã estava a celebrar missa na outra igreja, onde reside.
Se não gosta do facto de que os nossos padres mal têm tempo para celebrar os sacramentos, quanto mais conhecer os detalhes de vida dos paroquianos, concordo plenamente. Juntem-se a mim, por favor, a rezar por mais sacerdotes.

Em segundo lugar, alguém poderia ter feito alguma coisa para impedir os planos de Fuller? Não me parece. Aparentemente, durante a maior parte da sua vida mostrou estar “meio apaixonado com a morte fácil”. A AP explica que aos oito anos, quando vivia em New Hampshire, a sua querida avó afogou-se no Rio Merrimack. Com isto aprendeu que “se a vida se tornar dolorosa, vai-se até ao Merrimack”.

Em 1975 tentou suicidar-se depois de ter dito à sua mulher que era homossexual e o seu casamento ter acabado. Mais tarde ajudou a cuidar de amigos com HIV, administrou uma dose letal de drogas a um deles e levou uma vida sexual que “se aproximava do suicida” – aparentemente a tentar contrair a doença porque “todos os meus amigos estavam a morrer”. Ainda antes de ser diagnosticado com cancro fazia parte do Hemlock Society e revelou grande interesse na lei de Washington quando uma mulher no seu prédio o usou para se matar.

Porque é que esta obsessão de longa data pelo suicídio não surgiu durante as suas avaliações psicológicas, ao abrigo da lei de Washington? Porque 96% dos doentes que obtêm as drogas letais nunca chegam a ser avaliadas. Tal como outras “salvaguardas” que a lei prevê contra abusos, esta não passa de uma anedota.

Em terceiro lugar a Associated Press violou todas as orientações da Organização Mundial de Saúde e de organizações para a prevenção de suicídios, que estipulam que não se noticiem casos de suicídio, para evitar que outras pessoas deprimidas e vulneráveis se matem. A reportagem da AP fornece detalhes sobre o método utilizado, apresenta o suicídio como uma solução e romantiza toda a questão (a manchete era “A Festa de uma Vida”). Se mais pessoas se matarem por causa desta publicidade mal disfarçada, então a AP tem sangue nas mãos. 

Em quarto lugar, qual é a posição da Igreja? O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 2280-83) deixa três coisas claras: O suicídio é um mal grave; nestes casos a responsabilidade pessoal podem ser muito mitigadas por fatores como angústia, medo do sofrimento ou distúrbios psicológicos; e a Igreja não desespera da salvação daqueles que põem fim às suas próprias vidas, mas reza por elas, sabendo que Deus pode conduzir as pessoas ao arrependimento em qualquer momento, de formas que só Ele conhece.

Neste caso as ações do clero parecem estar em linha com a máxima de Santo Agostinho de odiar o pecado mas amar o pecador (ou, melhor, odiar o pecado porque se ama o pecador). Essa máxima, alvo de gozo por parte de secularistas, é difícil de cumprir – sobretudo em assuntos de sexualidade ou da vida. Alguns católicos são tentados a errar, odiando o pecado e o pecador em conjunto, e outros acham que têm de amar e aceitar os dois. Quanto a mim, diria que a manutenção dessas distinções – e desse equilíbrio – é central para a nossa fé católica.


Richard Doerflinger trabalhou durante trinta e seis anos como secretário de atividades pró-vida na Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Faz parte do Nicola Center for Ethics and Culture da Universidade de Notre Dame e é professor associado no Charlotte Lozier Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Setembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 25 July 2018

Tocando lira enquanto a América – e Roma – ardem?

O conhecido filósofo político Leo Strauss terá dito certa vez que os teoristas políticos modernos são piores que o imperador Nero, de Roma. Porque ao contrário deste, eles não sabem que estão a tocar lira, nem que Roma está a arder.

Há poucas semanas, em Junho, os bispos americanos tiveram a sua reunião anual em Fort Lauderdale e, segundo os relatos, passaram grande parte do tempo a discutir política contemporânea e as alterações a fazer ao guia para as eleições do Outono.

Entretanto em Roma, na semana passada, o padre Antonio Spadaro, S.J., editor da revista semi-oficial do Vaticano, La Civiltá Cattolica, publicou em conjunto com Marcelo Figueroa, o presbiteriano escolhido pessoalmente pelo Papa Francisco para ser editor da edição argentina do L’Osservatore Romano, um longo ensaio que ataca um fenómeno religioso americano: “O Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente”.

Ao contrário do seu anterior esforço conjunto, que argumentava que a colaboração entre evangélicos e católicos conservadores era uma forma de “ecumenismo de ódio”, este artigo atraiu pouca atenção. O que não é surpreendente.

Embora os promotores do Evangelho da Prosperidade tenham ligações ao Presidente Trump – que parece ser o verdadeiro alvo deste ensaio – poucos dos que conhecem a religião nos Estados Unidos diriam que este fenómeno é de alguma forma importante. Na verdade, a maioria dos religiosos, tanto à Esquerda como à Direita, encaram-nos como uma excêntrica seita cristã.

Entretanto, em simultâneo em vários países, está a emergir uma nova ameaça à Igreja, uma crise de confiança na liderança católica e na Igreja em si, que poderá fazer com que estas outras preocupações, que são todas bastante periféricas à vida e missão da Igreja, pareçam mera música.

Na América são muitos os que se têm sentido chocados com revelações de que o Cardeal Theodore McCarrick, um dos prelados mais importantes da Igreja Católica americana ao longo das últimas décadas e a face pública da Igreja depois da revelação, em 2002, da crise de abusos sexuais por parte de padres, era ele próprio um abusador.

Inicialmente surgiram histórias da sua relação com homens adultos, dois dos quais receberam indemnizações das dioceses de Metuchen e de Newark, onde McCarrick tinha servido enquanto bispo e arcebispo. Essas histórias confirmavam o que se dizia em rumores há muitos anos, que o “Tio Ted” tinha o hábito de pressionar jovens seminaristas e outros para encontros sexuais.

Mas agora surgiu um homem com histórias de abusos praticados por McCarrick quando aquele tinha apenas 11 anos. E, tendo em conta o que já sabemos, não há dúvidas que mais escândalos estão para vir.

Tudo isto tem levado a mais revelações por parte de pessoas que foram abusadas por padres e bispos, alguns de forma chocante, bem como o facto doentio de praticamente ninguém em posição de autoridade ter agido, sobretudo quando havia bispos envolvidos. Se aguentar os detalhes, alguns dos quais são blasfemos e verdadeiramente diabólicos, poderá ficar com uma ideia da natureza do problema aqui, aqui, aqui e, sobretudo, aqui.

Perante isto, não admira que estejamos a assistir a uma onda de revolta na América, mesmo entre católicos fiéis. A julgar pelas muitas pessoas com quem estou em contacto regularmente e que conhecem bem esta matéria, poderemos estar à beira de mais uma profunda interrogação na Igreja, desta feita não devido a queixas sobre padres, mas sim sobre bispos que deveriam ter feito algo sobre outros bispos e pessoas em posição de autoridade.

Já vimos como este assunto azedou a viagem do Papa ao Chile no início deste ano. Dois cardeais chilenos, incluindo um dos que pertence ao grupo de nove conselheiros do Papa Francisco, estão implicados em encobrimento e possivelmente no envio de desinformação ao Papa Francisco. Ainda ontem as autoridades chilenas anunciaram que estão a investigar 158 membros da Igreja que são suspeitos de ter abusado, ou de ter encoberto abusos.

Outro dos principais conselheiros do Papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, das Honduras, foi acusado de corrupção financeira. Mas potencialmente mais sério é o caso do seu subordinado, o bispo Juan José Pineda Fasquelle, que gere a arquidiocese durante as longas ausências de Maradiaga, que teve de resignar depois de várias revelações de abuso sexual de seminaristas, numa situação em tudo semelhante à de McCarrick.

Mas o que é pouco usual no caso de McCarrick é que se trata de um cardeal em exercício que agora foi julgado pelas autoridades competentes por ter cometido ofensas ao longo de muitos anos, mas que continua a ser cardeal. O Papa Francisco tem de fazer algo sobre isto, bem como sobre aqueles que permitiram que a situação se mantivesse.

Porque apesar de o negarem, muitos bispos americanos receberam queixas sobre McCarrick e nada fizeram para o impedir. Mesmo Roma teve de ser informada sobre as indemnizações devido a abusos cometidos mais cedo e sabemos que uma delegação de leigos esteve em Roma para tentar impedir a nomeação de McCarrick para Washington, precisamente por causa das suas inclinações sexuais.

Mesmo o “The Washington Post”, que anteriormente não tinha mostrado qualquer interesse nos boatos sobre McCarrick, observou: “Muitos comentadores na Igreja acham que este é um momento crucial para o pontificado de Francisco, devido à estatura de McCarrick e o facto de estarem a rebentar escândalos de abusos sexuais no Chile e nas Honduras.”

O nosso amigo Phil Lawler escreveu um ensaio de leitura obrigatória, que foi publicado ontem no site da First Things. Saber como é que McCarrick conseguiu abusar de crianças e adultos durante tanto tempo, diz ele, é uma questão importante para a protecção de futuras vítimas, mas: “é menos importante do que saber como é que a sua ascensão pela hierarquia eclesial continuou, apesar de já existirem rumores sobre as suas actividades homossexuais. Porque é que McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e feito cardeal? Porque é que o deixaram promover os seus protegidos, que depois desempenharam missões diplomáticas para o Vaticano? Como é que pôde influenciar a nomeação de bispos e até de um Papa, depois das suas aventuras na casa da praia se terem tornado conhecimento comum?

Descobrir a resposta a estas perguntas exige um autoexame muito doloroso, tanto nos Estados Unidos como em Roma. Mas a alternativa é continuar como se nada fosse, e isso está a tornar-se impossível.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 25 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 28 February 2018

Guarda & Suíça

Coach
O Santo Sepulcro reabriu esta quarta-feira, após a intervenção do primeiro-ministro de Israel. Situação resolvida, por enquanto.

Dezenas de freiras, padres e até um bispo foram detidos ontem em Washington. Correu tudo bem, portanto.

Leia a história de uma freira das Irmãs da Caridade que foi roubada e esfaqueada, mas perdoa os criminosos.

O Papa pediu hoje, novamente, orações pela Síria, no dia em que se soube que em Junho vai à Suíça, também por causa da Síria. Conheça também os dois livros com os quais Francisco colaborou e que saem em breve.

Sabe como descontraem os padres da Guarda? A jogar futebol, como tantos outros homens… Ainda assim, não perca esta divertida reportagem de Liliana Carona com os padres que “não jogam grande coisa”, mas são campeões do fairplay.

Aproveito para partilhar convosco a última oração escrita pelo padre Dâmaso.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing. Pela primeira vez publicamos um artigo de Nicholas Senz, que se insurge contra as pessoas que insistem em ver a Igreja pela lente das disputas políticas.

Wednesday, 15 February 2017

A Difamação do Cardeal Burke

Uma das figuras mais exóticas da Marcha pela Vida este ano em Washington, era um excêntrico entusiasmado – provavelmente pentecostal ou fundamentalista – que carregava um grande cartaz anticatólico e gritava por um megafone. Só apanhei um bocado do que ele dizia, mas era o habitual sobre o facto de o Papa ser o anticristo e os católicos “adorarem Maria como uma deusa”. Coitado. Mas uma coisa ninguém lhe tira: Debaixo da loucura ele acredita sinceramente que as formas de liderança e o conteúdo da fé cristã são realmente importantes. Ouvi-o a dizer a outro participante da marcha que “isto são coisas sérias, meu!”

De facto.

Sexta-feira o “The Washington Post” brindou-nos com algo muito pouco sério. Uma difamação ridícula do Cardeal Raymond Burke, debaixo da manchete “Como o Papa Francisco pode Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”. Assinada pela jornalista Emma-Kate Symons, a peça tinha tanta noção da realidade e do contexto da Igreja como o tipo do megafone. O texto arrancava assim: “O Papa Francisco precisa de tomar medidas mais duras contra o católico americano mais influente em Roma, o Cardeal Raymond ‘Breitbart’ Burke”.

É que a Breitbart entrevistou uma vez Burke – ainda por cima sobre o Islão – por isso agora, segundo o “Post”, Breitbart passou a ser o nome do meio, estão a ver?

Há pessoas que não gostam do Catolicismo ortodoxo, sempre houve e sempre haverá. Mas esta “jornalista” não estava a lamentar-se numa esquina ou num blogue de extrema-esquerda, mas nas páginas de um jornal que em tempos foi moderado mas que teve uma forte viragem à esquerda desde que foi adquirido por Jeff Bezos, da Amazon. Mas qualquer editor, seja qual for a sua orientação ideológica, deveria ter olhado de relance para este artigo de opinião e compreendido que não passava de uma parvoíce.

Mas o “Post” não está sozinho nesta coisa de deixar o profissionalismo pelo caminho por uma questão de paixão política. Ainda esta semana o “New York Times” publicou uma “notícia” de primeira página – mas que na verdade era um ataque pessoal mal investigado – assinado por Jason Horowitz, muito na mesma linha: “Steve Bannon Leva a sua Batalha para Outro Local Influente: O Vaticano”.

Toda a história assenta numa reunião que teve lugar em 2014 entre o Cardeal Burke e Steve Bannon, o arruaceiro da Casa Branca. Na sua histeria contra o Presidente Trump, os media adoram caracterizar Bannon como uma espécie de “storm trooper”. Não sou fã de Bannon ou da Breitbart, que ele geria. (Aliás, uma vez recusei um convite para aparecer na Rádio Breitbart para conversar com Bannon sobre católicos críticos de Trump porque sabia que ele me ia atacar. Prometeu que não o faria, mas depois fez exactamente isso à pessoa que compareceu, o Robert P. George.) Ainda assim, a verdade é a verdade. Do meu ponto de vista o modus operandi de Bannon é muitas vezes autodestrutivo, mas os media estão simplesmente a descredibilizar-se com esta caça às bruxas no gabinete de Trump.

Mas regressemos a Burke. A história do “Post” parte dessa reunião de 2014 e tece uma narrativa absolutamente delirante: Que Burke faz parte de um movimento global anti-islâmico, anti-mulher, nacionalista e pró-tudo-o-que-é-mau, que chegou ao poder com a vitória de Trump e que tem à cabeça Steve Bannon. Mas como o nosso amigo astuto Phil Lawler fez notar, essa reunião aconteceu em 2014, ou seja quase dois anos antes de Trump se candidatar sequer à Presidência e muito tempo antes de alguém imaginar sequer que Bannon viesse a trabalhar para ele. Então como é que essa reunião de há anos marca Burke de tal forma que obriga o Papa Francisco a “Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”?

Bom, Bannon também falou numa conferência patrocinada pela Fundação Dignitatis Humanae, em Roma, em 2014. Burke faz parte da direcção da DH. Logo, o político três vezes divorciado e o defensor incansável da indissolubilidade matrimonial devem estar completamente alinhados, não?

E a nossa colunista intrépida ainda conseguiu descobrir que outro cardeal da direcção da DH também assinou a carta com as Dubia sobre o Amoris laetitia. Com isto está a insinuar, claro, que a oposição à comunhão para divorciados recasados faz parte do pacote de “podridão de extrema-direita”.

Tal como acontece com grande parte da imprensa, o que se está a fazer aqui é traçar uma linha imaginária entre as duas realidades que qualquer pessoa que saiba o mínimo sobre o assunto só pode descartar. O Bannon é, como já disse, um arruaceiro – às vezes o mundo precisa de certo tipo de arruaceiros. Burke, por outro lado, é um homem profundamente gentil – e o mundo também precisa destes. Quem não sabe isto não conhece o Burke. Bannon tem falado da ameaça do Islão e do Marxismo cultural para o Ocidente e da necessidade de os combater politicamente. Burke também – como muitos de nós – mas como devem imaginar fê-lo por razões bastante diferentes e, sobretudo, com uma entoação muito diferente.

Cardeal Raymond Burke
De forma geral Burke tem-se preocupado com assuntos doutrinais na Igreja e – não nos esqueçamos – foi prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. Estamos a falar de coisas técnicas e intelectuais e não de populismo nem de política partidária. De facto ele fala frequentemente – de uma forma que, quanto a mim, exprime a sua maior paixão – sobre como o falhanço da educação católica ao longo dos últimos 50 anos feriu a Igreja e obscureceu os ensinamentos que Jesus lhe confiou para nossa salvação. Tem dito francamente pouco que pudesse ser considerado político, no sentido normal da palavra.

Mas liga-se o Bannon ao Burke, sugerindo culpa por associação, e tem-se uma verdadeira festa para a esquerda. O Cardeal já estava nas más graças de Francisco por causa da situação da Ordem de Malta – outro assunto confuso. Mas ainda por cima o Papa acaba de nomear um delegado pessoal para a Ordem de Malta o que parece deixar o Cardeal Patrono sem portfolio. O artigo do “Post” não ajuda em nada.

E depois, claro, há a questão de Burke e outros três cardeais terem publicado as “dúbia” sobre o Amoris laetitia – perguntando não só se agora, contrariando a história católica, é permitido dar comunhão aos divorciados recasados, mas também se estamos perante mudanças no campo da teologia moral em relação à consciência, normas sem excepção, mal intrínseco e a própria teologia da Santa Eucaristia.

Até se pode acreditar que Burke e companhia erraram ao publicar as “dubia”, que anteriormente tinham sido apresentadas privadamente ao Papa. Ou então que Burke tem sido tratado injustamente, como tem acontecido a outros na Curia, ao ser demitido das suas funções sem explicação. Mas é preciso ser completamente louco para colocar no mesmo saco este cardeal de brandos costumes e tudo o que os media acham repugnante – ou pior – na nova Administração americana.

É mais um sinal da confusão que existe actualmente na Igreja e no mundo.

Uma das categorias morais que tem desaparecido, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a noção de difamação. É pior do que mentir. É mentir com a intenção de causar dano. Vejam no dicionário. E por favor, reconheçam-na quando a virem.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 9 November 2016

Eutanásia: Vidas Que Não Contam

David Walsh
Numa altura em que “Black Lives Matter” [Vidas Negras Contam] se tornou um slogan tremendamente eficaz, não deixa de ser irónico que em Washington D.C., uma cidade com uma grande proporção de afro-americanos, a Câmara esteja a pensar em legalizar o suicídio medicamente assistido.

A contradição tornou-se palpável numa reportagem franca, publicada pelo “Washington Post” recentemente, com as reacções dos cidadãos que tendiam a ver a medida como direccionada a “idosos negros”. Num claro contraste com o tom positivo do editorial do mesmo jornal sobre o assunto, os residentes não hesitaram em manifestar as suas desconfianças. Intuitivamente, eles sabem que a opção do suicídio assistido, quando colocada, dificilmente se manteria dentro dos limites da liberdade de escolha.

A pressão, por vezes subtil, por vezes nem tanto, será inevitável. Não há seguranças legais que removam a suspeição de que a opção do suicídio se torne uma forma de remover os membros mais fracos e marginais da comunidade.

Tal como acontece com grande parte destas iniciativas paternalistas, não é preciso atribuir um propósito nefasto a quem defende esta medida. O mal pode ser feito sem que isso seja intenção de ninguém. Isso é particularmente verdade quando a intenção é o alívio, por compaixão, do sofrimento dos doentes terminais.

O perigo do suicídio medicamente induzido não se encontra na possibilidade de ser mal utilizado nem na forma como ameaça a relação entre médico e doente, mas sim no próprio conceito. Mesmo sem que ninguém tenha sido eutanasiado, o Estado, ou neste caso o Distrito, já declarou que há vidas que não contam.

Quando o sofrimento ou o fardo se tornam suficientes, estas pessoas e os seus médicos têm luz verde para se eliminarem. Os profissionais de medicina que estão na linha da frente deste encontro têm bem presente o abismo que se abre nesta situação.

Mas o mesmo se aplica a todos nós, familiares, amigos e concidadãos. Podemos nós julgar, como temos de fazer no caso de aceitar o seu pedido, que a vida do paciente já não vale a pena ser vivida?

É particularmente quando pensamos que estamos a agir com os mais nobres motivos que esses motivos devem ser alvo de maior escrutínio. Quando ajudamos alguém a matar-se, essa ajuda esconde uma reverência diminuída pelo doente? Não falo aqui do perigo de um caminho que leva inevitavelmente à expansão do suicídio assistido dos doentes terminais para os meramente doentes, digo apenas que essa desvalorização já aconteceu no preciso momento em que temos a presunção de julgar o valor de uma vida.

Mesmo que o doente terminal esteja disposto a encarar a sua vida como indigna de ser vivida, nós não podemos simplesmente aceitar esse desânimo como definitivo. A nossa responsabilidade é afirmar que, mesmo nos seus últimos dias, essa vida tornou-se para nós ainda mais preciosa.

A morte não é o fim da vida, mas sim o momento em que ela existe com maior profundidade. Toda uma vida pode ser dada a conhecer no apertar de uma mão. Mesmo na morte, estamos ligados. É por isso que não podemos simplesmente aceitar a morte como sendo o fim da pessoa, porque os mortos já nos falaram de além da fronteira que nos separa.

Só quando seguimos a lógica da eutanásia é que começamos a ver a fonte das confusões em que nos deixámos apanhar. Pensando agir com compaixão, ajudamos a executar a pessoa, aniquilando precisamente aquele que tencionávamos servir.

O suicídio nunca pode ser um meio de tratamento médico, uma vez que todo o tratamento pressupõe a existência de um doente a quem se serve. A prática da medicina sofre uma bizarra distorção se passar a incluir a eliminação dos seus pacientes.

De igual forma, a comunidade política tem como obrigação primária guardar a vida, liberdade e felicidade dos seus constituintes. Não pode simplesmente declarar que eles serão mais bem servidos pondo fim às suas vidas.

É por isso que não se pode instalar na nossa constituição um “direito à morte”. O cuidado pelos mortos não pode incluir a imposição deliberada da morte. Quando a Santa Teresa de Calcutá saía às ruas daquela cidade para trazer consigo os moribundos, nunca tinha por objectivo acelerar a sua morte. Pelo contrário, era para esbanjar neles a maior quantidade de amor possível nas horas e nos dias finais das suas vidas. 

Não podemos dizer às pessoas que elas têm um valor inesgotável e depois, enquanto as ajudamos a morrer, dizer-lhes que o seu valor se esgotou.

Tal como a compaixão não pode incluir a abolição do outro, a liberdade não pode incluir a eliminação da vida em que assenta. Não nos podemos vender para a escravidão, porque isso é literalmente impossível. Da mesma forma, não podemos encarar a destruição da nossa liberdade como um exercício legítimo da mesma liberdade.

Ao concluir que um certo tipo de vida já não conta, lançamos uma sombra sobre toda a vida humana. A partir deste momento todas as vidas se tornaram susceptíveis de serem avaliadas e por isso sujeitas àquela negociação da qual são sempre os mais fortes que saem vitoriosos.

O perigo de admitir o suicídio medicamente assistido não está só no facto de que alguns indivíduos possam ser despachados antes de tempo, mas no facto de deslocarmos a primazia do direito à vida em todo o nosso entendimento político.

Se a vida deixar de ser absoluta, então nenhum dos nossos direitos são invioláveis. Em vez de ver cada vida humana como sendo de valor inestimável, atribuímos a todas elas um preço.


David Walsh é professor de política na Catholic University of America e autor de muitos livros, entre os quais “Politics of the Person as the Politics of Being”.
(Publicado pela primeira vez no Sábado, 5 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

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