Mostrar mensagens com a etiqueta Padre Paul Scalia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Padre Paul Scalia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Esperança Podada

Pe. Paul Scalia

No passado domingo começámos um tempo litúrgico marcado pela esperança. O prefácio para a Missa diz que ousamos esperar. De facto, a esperança parece ser cada vez mais um atrevimento. Mas é precisamente por isso que é cada vez mais importante. Como diz Chesterton, num dos seus famosos aforismos, “esperança é esperar no desespero”. A importância da esperança aumenta em proporção ao seu absurdo.

Ousamos esperar. Neste período que o nosso país e a nossa Igreja atravessam, muitos têm dificuldade em ter qualquer tipo de esperança, quanto mais em abundância, como nos exorta São Paulo (Rom 15,13). Neste contexto fazemos bem em recordar a imagem que Cristo nos deixa, da videira e dos ramos:

“Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.” (Jo. 15, 1-2)

Sempre achei que esta bela imagem da videira e dos ramos é posta em causa, até certo ponto, pela referência dura à podagem. Não sei grande coisa sobre horticultura, mas sei o suficiente para saber que podar – embora necessário – parece, na altura, uma crueldade gratuita, uma vez que se livra de ramos perfeitamente saudáveis. Conseguimos compreender que se cortem os ramos maus, mas a poda atinge também muitos que são bons.

Tenho uns amigos que plantaram recentemente vinhas na sua propriedade. Ainda não fui lá ajudar com a poda, mas já serviu para aprender mais duas coisas. Primeiro, que a altura certa para podar é no final do Inverno e início da Primavera. Por outras palavras, é precisamente na altura em que aguardamos novos rebentos que se corta ainda mais. Segundo, que o vinhateiro tem de ser impiedoso. Deve podar ainda que pareça que está a matar a videira. Talvez já tenham visto nos campos essas videiras despidas, aparentemente mortas. Mas não estão mortas, não estão sem vida, apenas foram podadas.

Claro que essa podagem e esse despir dos ramos é necessário – não só para que dê fruto, mas para que o dê em abundância. E para que as coisas abundem, é necessário alguma podagem. A expressão latina “succisa virescit”, que significa “se for cortado, volta a crescer” toca neste ponto. É o lema do mosteiro de Monte Cassino, que já foi pilhado, saqueado e bombardeado ao longo da história. Porém, perdura.

Succisa virescit: este lema e toda a prática da podagem são importantes para a Igreja neste momento. Não sabemos porque é que o Senhor está a permitir que a Igreja seja posta à prova desta forma; porque é que está a permitir esta confusão e declínio. O mais difícil é aceitar a vontade permissiva de Deus. Mas pelo menos, ainda que sem conhecer toda a sua mente e propósito, podemos aceitar esta período de provação como um momento de podagem. As coisas estão a ser desbastadas, nalguns casos de forma severa. Mas isso é necessário para que haja renovação. 

De facto, estamos a experimentar uma podagem da nossa esperança. Cometemos o erro de relegar a virtude da esperança para as situações esperançosas. Quando tudo é cor-de-rosa, aí temos esperança. Mas mais uma vez, como nos ensina Chesterton, o contrário é que deve ser verdade. Demasiados de nós assentámos – talvez sem o saber – a nossa esperança em coisas mundanas, tornando-a uma esperança mundana. Era fácil ter esperança quando a Igreja desempenhava um papel importante no nosso país, quando estávamos a construir paróquias, escolas, seminários, hospitais, faculdades e universidades, e por aí fora. Era fácil ter esperança no tempo de gigantes como João Paulo II e Bento XVI. Nessa altura vimos o vigor da Igreja e tivemos esperança, mas talvez tenha sido pelas razões erradas.

O tronco de Jessé
Podemos esperar agora que as coisas sejam diferentes? Quando a Igreja já não é um dos actores principais, quando muitas das nossas instituições estão a fechar as portas e as propriedades estão a ser vendidas, quando a frequência dominical diminui e somos assaltados pela confusão? Ainda ousamos esperar?

A nossa Esperança já foi devidamente podada. Está a ser desbastada até ao que é autenticamente cristão e não mundano. As dificuldades que afligem a Igreja desafiam-nos a esperar de forma diferente, não com base em considerações mundanas, mas no Senhor.

Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.

Estas são palavras de verdadeira esperança. Não daquela esperança fugaz e mundana de que nós tanto gostamos e que promete uma solução fácil. Não aquela esperança falsa, mas a esperança que vê as dificuldades e os revezes como parte da Providência Divina e, por isso, ordenados para o nosso bem. Resumindo, esperamos não porque é tudo cor-de-rosa, porque somos populares, bem aceites ou estamos bem na vida, mas por causa dele.

A esperança encontra-se num ramo podado, naquilo que é negligenciável e aparentemente inerte. É assim que o Senhor prefere agir. No próximo domingo ouviremos dizer que do tronco de Jessé brotará um ramo (Isaías, 11,1). Notem bem: não é da árvore frondosa de Jessé, mas do tronco, daquilo que parece não ser capaz de gerar vida, quanto mais fruto.

É aqui que encontramos sempre nova vida na Igreja. Não entre os grandes e poderosos, não nos corredores do poder, ou nos “think tanks” de Washington, não nas enormes iniciativas que em tempos caracterizaram a Igreja nos Estados Unidos. Vem dos simples, dos pequenos e dos aparentemente infrutíferos: das simples orações devocionais; da confiança sem rodeios nos sacramentos; das obras escondidas e das orações das religiosas; de pais que se esforçam por criar filhos entre uma geração depravada e torcida; de padres que se mantêm fiéis por entre a tempestade de escândalos e, sobretudo, de uma vila sem grande história na Galileia, de uma virgem desposada de um homem chamado José, da esquecida e arruinada casa de David.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Dezembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Críquete por amor a Maria

St. Peter's Cricket Club
Se está a pensar peregrinar a Fátima, não deixe de seguir os conselhos que a Renascença vai dando. Hoje, a importância de ter sempre identificação pessoal e de grupo.

Com a aproximação do centenário das aparições, não há falta de iniciativas comemorativas. Mas nenhuma será mais bizarra que o torneio inter-religioso de críquete em Miranda do Corvo, que conta com a selecção do Vaticano…

Amanhã há consistório em Roma e deverá ser decidida a data da canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta. A Renascença vai estar em cima do acontecimento, sigam online e em antena para serem os primeiros a saber!

E eu sei que isto não tem nada de religioso, mas porque sou pai e já vi tanta gente a crucificar os pais da rapariga que morreu de sarampo, esta manhã, leiam esta notícia para terem acesso a uma versão mais correcta dos factos…

Termino chamando atenção para o artigo desta semana do The Catholic Thing. Voltamos a ter a sorte de poder ler o padre Paul Scalia, desta vez a falar sobre o carácter nupcial da Paixão de Cristo. É fascinante… não percam!

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

terça-feira, 18 de abril de 2017

Terror no Egipto e miliatares a caminho de Fátima

Militares a caminho de Fátima, fingindo ser servitas...
Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Dificilmente terá sido pior que a de tantos coptas que no Egipto foram vítimas de um brutal duplo atentado no Domingo de Ramos. A Páscoa é uma época em que os terroristas gostam de vitimar cristãos, como aconteceu no ano passado no Paquistão, mas este ano as autoridades paquistanesas e egípcias dizem que impediram vários ataques novos.

São cerca de 100 os militares e familiares que este ano vão peregrinar a Fátima. Conheça mais sobre esta peregrinação muito especial.

Houve uma polémica durante a semana passada sobre as renúncias quaresmais no Patriarcado de Lisboa. Os serviços do patriarcado negam qualquer problema ou mau uso de fundos e dizem onde e como foi gasto o dinheiro desde 2011.

O Patriarca de Lisboa alertou na Quinta-feira Santa para os riscos da manipulação da natureza humana. D. Manuel deu também uma entrevista à Renascença, a propósito dos 80 anos da Rádio, que pode ver aqui.

Veja também a minha entrevista a Santiago, um seminarista Chinês que explica como mesmo antes de nascer os cristãos já são perseguidos naquele país… A transcrição integral da entrevista pode ser lida aqui.

Na quarta-feira passada publiquei um interessantíssimo artigo do Pe. Paul Scalia no The Catholic Thing que, em plena Semana Santa, nos convida a olhar para Judas e vermos até que ponto não temos muito em comum comele. Não deixem de ler, pois é intemporal. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um dos Doze

Pe. Paul Scalia 
Durante a Semana Santa lemos o Evangelho da Paixão, incluindo o momento em que Jesus foi traído. Todos os evangelistas apontam para o facto de que o homem que traiu Jesus era um dos seus amigos mais próximos. No início da vida pública de Jesus, quando chama os Apóstolos, Judas já é descrito como o que o virá a trair (Lc. 6,16; Mt. 10,4; Mc. 3,19). No Evangelho de João é o próprio Senhor quem observa: “Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.” (Jo. 6,70)

Em certo sentido a frase muitas vezes repetida “um dos 12” relata um simples facto histórico. Jesus não foi apenas entregue por um dos seus inimigos, mas traído por um dos seus eleitos. Mas num sentido mais profundo serve também de aviso para todos os que seguem Cristo – mais até para os que lhe são mais próximos. Judas esteve com Jesus durante os mesmos três anos que os outros. Tal como eles ouviu os sermões, testemunhou os milagres e foi enviado por Cristo. Porém, traiu Nosso Senhor. Nunca devemos achar que estamos aquém da maldade de Judas. A proximidade a Jesus nem sempre significa intimidade com Ele.

Faz-nos bem, por isso, reflectir sobre o exemplo negativo de Judas. Não com o objectivo de o condenar novamente nem para nos sentirmos superiores. Pelo contrário, fazemo-lo com uma certa empatia, sabendo que lutamos contra as mesmas fraquezas humanas e que também nós somos capazes de um pecado grave – traição. Então o que é que encontramos no traidor que também possa estar em nós?

Em primeiro lugar, temos a falta de Judas em perseverar na sua conversão. Nosso Senhor escolheu-o com a mesma segurança com que escolheu Pedro e João. Não o fez contrariado nem por necessidade. Quando o Senhor se dirige a Judas como “amigo”, no Jardim das Oliveiras, não o diz por ironia ou sarcasmo. A dada altura a conversão de Judas parece ter falhado. Talvez tenha sido mera preguiça. Talvez um ensinamento que não foi capaz de aceitar. João dá a entender que foi o discurso sobre o Pão da Vida que levou ao afastamento de Judas – daí Jesus se ter referido a ele como “o diabo” no final do mesmo.

Ou talvez Judas se tenha sentido traído pelo Senhor. Poderá ter tido expectativas de um Messias que Jesus não satisfazia – expectativas de glória e de poder, difíceis de conciliar com as repetidas referências ao sofrimento, rejeição e morte do Filho do Homem. Durante três anos ele seguiu este rabino, mas a glória antecipada nunca chegou. Ficou impaciente com a conversa do Senhor sobre sofrimento. Romano Guardini observa, a este respeito, que: “O facto de ele não ter saído, mas ter permanecido como um dos doze, foi o começo da sua traição. Não sabemos porque ficou. Talvez esperasse ir avançando interiormente, ou quisesse saber pelo menos como é que as coisas iam passar-se – a não ser que já sonhasse lucrar com a situação.” (O Senhor).

O que nos leva ao ponto seguinte: A ganância de Judas. Quando Judas protestou com o facto de Maria ter ungido Jesus com um óleo caro, não o fez porque se preocupava com os pobres, mas “porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava”. A ganância é uma questão de sofreguidão. Tem menos a ver com posse do que com controlo – ter os meios ao nosso dispor para não termos de depender dos outros, nem mesmo de Deus. É “prático” no pior sentido da palavra. E Judas era um homem sobretudo prático. Na verdade, uma das teorias é de que ele previu a derrota do Senhor e estava a procurar posicionar-se politica e financeiramente para lucrar com a traição. Uma consideração muitíssimo prática.

Parece ainda haver uma superficialidade sobre Judas, uma tendência de ver apenas as coisas em termos naturais e mundanos (o que não é surpreendente para um homem prático). Na Última Ceia, o Senhor disse aos Seus Apóstolos, “Verdadeiramente, eu vos digo, um de vós me vai trair”. Eles perguntam, um após o outro, “serei eu, Senhor?”. Excepto Judas. Ele pergunta: “Serei eu, rabbi?” (Mt. 26,21-25). Os outros viam Jesus como Senhor. Judas via-o apenas como um rabbi, um professor.

Jesus é traído
Claro que um professor é importante. Mas não se adora um professor. As palavras de um professor podem ser poderosas, talvez até possam mudar a vida. Mas no final de contas não passa de um homem, limitado pela sabedoria do mundo e do tempo. As palavras de Jesus perdurarão. “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mt. 24,35). Judas não parece ter compreendido a profundidade das palavras Senhor nem de se ter confiado à sua autoridade. Talvez elas tenham sido interessantes e desafiantes para ele, mas careciam de autoridade. Quantas vezes não ouvimos dizer o mesmo sobre os seus ensinamentos nos nossos dias?

Finalmente, e tristemente, Judas não se arrepende. Sente remorsos por aquilo que fez, certamente. E isso em si não é coisa pouca. No emaranhado que era o seu coração, ainda sentia algum amor por Jesus. Mas reparem: Não é a Jesus que ele torna, mas aos sumos-sacerdotes, que com ele conspiraram. Diante deles é que ele reconhece o seu pecado. Judas não sente arrependimento, mas remorso. No arrependimento voltamo-nos para o bom Deus, para o Redentor, para aquele que é Misericórdia. À sua luz, rejeitamos o pecado. Com os remorsos olhamos para nós próprios, voltamo-nos cada vez mais para o nosso interior e fechamo-nos para a reconciliação e a cura que vêm apenas de Deus.

Durante a Semana Santa gostaríamos de ser mais como João, que permaneceu fielmente aos pés da Cruz, ou como Maria Madalena, que manteve uma triste vigília no Calvário. Mas isso seria presunção da nossa parte. Esta não é a hora de pensar nas nossas forças, mas nas nossas fraquezas. Não é tempo de olhar de soslaio para Judas, mas de compreender que caminhamos à sombra da mesma fraqueza humana que ele.

Como Judas, não perseveramos na nossa conversão. Satisfaz-nos a piedade em vez da santidade. Desviamo-nos quando o caminho se torna difícil e assim não aprofundamos a nossa devoção. Talvez até nos sintamos traídos pelo Senhor – se Ele não atendeu as nossas orações como queríamos, ou não correspondeu à imagem que tínhamos dele.

Como Judas, somos sôfregos – por dinheiro, posses, poder. Numa palavra, por controlo, para mantermos à distância a nossa dependência de Deus. Como ele, tendemos para a superficialidade, tornando a nossa fé um assunto meramente de sabedoria humana, intuições interessantes, conforto psicológico em vez de um encontro com a Palavra feita carne. Adoptamos uma visão mundana da religião em vez de tentarmos pensar como Cristo.

Logo, não nos confiamos às suas palavras como devíamos; A não ser que se tornem como crianças, não entrarão no Reino do Céu… Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, vive em mim, e eu nele… Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrarás; batei se ser-vos-á aberto… Assim como fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes.

E mais que tudo falhamos no aprofundamento do nosso arrependimento. Sentimos remorsos por nós mesmos, porque os nossos pecados nos deixam mal vistos. Por todos estes pecados e estas falhas, o Senhor concedeu-nos agora a oportunidade para o verdadeiro arrependimento: “É este o tempo favorável, é este o dia da salvação” (2 Cor 6,2)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 9 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Brexit e ideologias demoníacas

O Brexit é o tema da semana e o Patriarca de Lisboa não lhe passou ao lado. Segundo D. Manuel Clemente a Europa deve guardar o lugar do Reino Unido.

Infelizmente existem racistas idiotas em todo o lado, no Reino Unido, porém, são tão idiotas que pensam que os 17 milhões que votaram para sair da Europa estão com eles e por isso têm protagonizado alguns tristes incidentes. São fenómenos que o arcebispo católico de Westminster rejeita absolutamente.

O Papa Francisco encontrou-se ontem com Bento XVI e os dois elogiaram-se mutuamente. Em Lisboa o encontro foi outro, Marcelo Rebelo de Sousa concedeu ao cardeal Sean O’Malley uma condecoração e cardeal até contou anedotas.

A actualidade está a ser marcada pelo terrível ataque terrorista em Istambul. O Papa já lamentou o atentado que fez cerca de meia centena de mortos e muitos feridos.

A ideologia de género está por detrás de muitos dos ataques à família e ao homem nos nossos dias. No artigo desta semana do The Catholic Thing, o padre Paul Scalia, filho do falecido juiz do Supremo Tribunal americano Antonin Scalia, explica porque é que se trata de uma teoria demoníaca, no puro sentido da palavra.Leiam que vale a pena.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Presentes de Despedida

Pe. Paul Scalia
“Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.”

Hoje acompanhamos Nosso Senhor até ao monte para a sua Ascensão. Talvez não saibamos o que dizer. Ele tentou preparar-nos para este momento. Disse-nos que devemos ficar felizes por Ele, porque regressa para o Pai (Jo. 14,28). E na verdade esta festa é caracterizada pela alegria simples do regresso do Filho para junto do Pai. Mais uma vez Ele nos instrui que regozijemos porque, ao regressar para o Pai, enviará sobre nós o Espírito Santo. Se Ele não for, o Espírito não virá. Por isso é melhor para nós que Ele vá. (Jo. 16,7)

Todavia, tal como os discípulos, não conseguimos compreender tudo o que Ele nos diz. Mateus diz-nos que os discípulos foram com ele até ao monte da Ascensão: “Quando o viram adoraram, mas alguns duvidaram” (Mt. 28,17). Lucas diz-nos que as suas mentes continuavam centradas em coisas terrenas, preocupados com a restauração do reino de Israel. (Actos 1,6)

Então como é que abordamos este mistério? Qual deve ser a nossa disposição e quais as nossas palavras? Há duas histórias do Antigo Testamento que podem ilustrar e guiar-nos neste mistério da Ascensão.
 
Em primeiro lugar temos o episódio de Jacob e do anjo (Gen, 32, 25-32). O livro do Genesis diz simplesmente que, nesse evento, “e lutou com ele um homem, até que a alva subiu”. Quem, ou o que, é que tenha sido essa figura, Jacob compreendia que vinha do Céu e que lhe podia dar uma bênção. Por isso não o largou e exigiu: “Não te deixarei ir, se não me abençoares”. Dessa forma Jacob recebeu uma bênção divina e tornou-se Israel, o Patriarca de uma nova nação.

Tal como Jacob depois desse encontro, qualquer analogia é coxa. Não nos podemos agarrar a Nosso Senhor como Jacob agarrou o anjo. Jesus não criticou Maria Madalena precisamente por isso? (Jo. 20,17). Mas se não nos podemos agarrar literalmente ao Senhor para o deter, não devemos deixar de imitar a insistência de Jacob. Ele tinha uma tenacidade e uma confiança que se adequam bem à festa da Ascensão. Revela a confiança de que aquele que vai para o Céu pode dar dons aos que estão cá em baixo. “Subindo ao alto… Deus dons aos homens” (Ef. 4,8)

Jacob luta com o anjo
Devido à sua insistência, Jacob recebeu um novo nome, uma nova vida e um novo propósito. De igual modo, as nossas últimas palavras para Jesus não deviam ser perguntas sobre um qualquer reino terreno nem nada que seja deste mundo. Antes, devemos pedir-lhe uma bênção – que aquele que Ascende nos dê uma nova vida e propósito através do dom do Espírito Santo.

Numa segunda história do Antigo Testamento temos os profetas Elias e Eliseu (2 Reis 2: 1-14). Quando o seu mentor e mestre é elevado ao Céu, Eliseu segue Elias desde Betel ao Jordão, em Jericó. Ambos parecem saber que Elias está prestes a partir. A multidão pergunta a Eliseu: “Sabes que o Senhor hoje tomará o teu senhor por sobre a tua cabeça?”. Ele responde, de forma abrupta, “Também eu bem o sei. Calai-vos”. Depois, quando chega a hora de Elias ser arrebatado aos Céus, Eliseu suplica: “Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim”.

Porquê uma porção dobrada? Uma porção não seria mais que suficiente? É um pedido curioso e muito se tem escrito sobre ele. Mas para o que hoje nos interessa bastará focarmo-nos no atrevimento do pedido. Eliseu não se limita a pedir, não pede sequer o mesmo, não pede apenas um pouco! Ele pede uma porção dobrada daquele mesmo Espírito que fez de Elias tão grande testemunha da aliança.

Este atrevimento deve ser também o nosso quando acompanhamos o Senhor até à sua Ascensão: Dai-me uma porção dobrada do vosso espírito. Para quê fazer cerimónia a pedir aquilo que Ele já deseja oferecer – e oferecer em abundância – e que ascende precisamente para poder conceder? Este é o atrevimento que devia caracterizar os próximos nove dias, enquanto rezamos pelo dom do Espírito prometido. Esse atrevimento alarga o nosso coração para receber aquilo que Ele já tenciona conceder.

Agora ele ascendeu para poder dar-nos dons. Ordenou que esperemos pelo poder que vem do Céu. Agora, enquanto nos preparamos para o Pentecostes e para receber o dom do Espírito Santo, rezemos com a insistência de Jacob e com o atrevimento de Elias. Vinde, Espírito Santo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Acolhimento Evangélico

Pe. Paul Scalia
A noção de acolhimento tem estado muito nas notícias católicas nos últimos tempos. O relatório intercalar do sínodo extraordinário sobre a família colocou questões, por exemplo, sobre a capacidade da Igreja de acolher homossexuais. Pouco depois, o padre jesuíta Timothy Lannon, presidente da Creighton University, explicou a sua curiosa decisão de alargar benefícios a “esposos” de funcionários homossexuais com a ainda mais curiosa frase: “Perguntei-me, o que é que Jesus faria num caso destes? Só consigo imaginar Jesus a acolher toda a gente”.

Este Jesus Acolhedor é um bom trunfo. Não acolher, ou não parecer acolhedor, seria portanto equivalente a discordar de Jesus. Claro que o Jesus que “acolhia a todos” não é uma invenção do sacerdote. Pelo contrário, é profundamente real. Mais real do que muitos querem imaginar. Mas dar benefícios a quem adopta um estilo de vida pecaminoso ultrapassa os limites do significado cristão de acolhimento. E isto leva-nos a questionar o verdadeiro significado de acolhimento cristão.

Todos nos queremos sentir acolhidos. Podemo-nos recordar de momentos em que o sentimento de acolhimento foi palpável, e por isso encorajador. Com igual facilidade, podemos apontar momentos em que nos sentimos profundamente mal acolhidos, e por isso sozinhos. Um dos efeitos do pecado é a alienação e o isolamento. Por isso, falar de Nosso Senhor como aquele que acolhe é algo que ressoa em todos os corações que desejam a reconciliação e a cura.

E Ele é, verdadeiramente, acolhedor. As suas acções e a suas palavras ecoam com acolhimento. As multidões vão ter com Ele precisamente porque se sentem acolhidas – porque Ele lhes fala de perdão; Ele dá prioridade aos pobres e excluídos; toca nos intocáveis. Em casa de Simão, o fariseu, acolhe a mulher arrependida. Zanga-se com os discípulos que impedem as crianças de vir ter com Ele. Acolhe o clamor do cego Bartimeu, mesmo quando as multidões o tentam silenciar. E numa variação do mesmo tema, faz-se acolhido em casa de Zaqueu. Os seus críticos dirigem-lhe palavras que supostamente serão um insulto: “Este homem acolhe pecadores e come à mesa com eles”. (Lc 15,2)

A sua doutrina invoca esse mesmo acolhimento e inclusivismo. Entendemos a parábola do grão de mostarda como símbolo do acolhimento de todas as nações pela Igreja. Conta outra parábola de um Rei que, querendo encher a sua sala com convidados, ordena os servos: “Ide, pois, para as encruzilhadas, e convidai para a festa todos os que encontrardes”. É o que eles fazem, trazendo: “Todos os que encontraram, bons e maus”. (Mt. 22, 9-10). E talvez de forma mais significativa, na parábola que é vista como um resumo do Evangelho, o pai acolhe de novo em sua casa o filho pródigo.

Porém…

Jesus cura Bartimeu
Acholhimento Evangélico...
O seu acolhimento é curioso. Afinal de contas, as primeiras palavras do seu ministério são “Arrependei-vos”! e não “Bem-vindos”! Ele não acolhe aqueles que são falsos ou, mais directamente, aqueles que procuram justificar as suas próprias vidas, em vez de aderir à sua verdade. O seu acolhimento exige um mínimo de aceitação da sua verdade. Os Evangelhos narram várias vezes a sua frustração com as multidões. De vez em quando deixa mesmo escapar uma frase acusadora: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês e terei que suportar-vos?” (Lc 9,41) e “Esta geração é uma geração iníqua...” (Lc 11, 29)

E também não altera a sua doutrina para que as pessoas se sintam mais bem acolhidas. Quando a multidão fica ofendida com o seu ensinamento sobre a Eucaristia, é significativo que Ele os deixa partir. A belíssima parábola sobre a multidão chamada para a festa de casamento termina com a expulsão de um homem que entrou sem “veste nupcial” e a lição de Jesus: “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14)

E são estas palavras que chegam ao cerne do que significa o acolhimento. Por mais que queiramos ser acolhidos e convidados, também sabemos que cada convite inclui uma expectativa e o entendimento de que não podemos fazer como nos apetecer quando entrarmos pela porta. “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos”, porque nem todos moldam as suas vidas às exigências do convite.

Este acolhimento evangélico deve parecer muito estranho para o mundo. É um acolhimento... do arrependimento. Um convite... à mudança de coração. Ele acolhe todos os que se arrependem, que tiram proveito do seu perdão e da sua cura – todos os que, reconhecendo o seu pecado e a sua ignorância, abraçam a sua graça e verdade. É, na verdade, o acolhimento mais importante para uma humanidade pecadora: um acolhimento no seu Sagrado Coração... Isto, claro, se reconhecermos que precisamos dele.

Como o Senhor, assim a sua Igreja. Para a Igreja ser autêntica deve proclamar o convite de Jesus de forma universal e acolher todos os que desejam a graça da conversão. Mas não pode esvaziar esse acolhimento do seu significado, nem sendo demasiado severa, nem demasiado permissiva. Se os meios da graça não fossem postos à disposição de todos os que procuram Cristo, então não seria acolhimento nenhum. Mas ao mesmo tempo seria uma mentira, e por isso falta de caridade, não dar a conhecer as exigências desse acolhimento evangélico.

Defraudar tanto o convite como as exigências é não saber imitar o Bom Pastor.


O Pe. Paul Scalia (filho do juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 2 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Partilhar