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Tuesday, 16 March 2021

Inconstitucionalidade eutanasial

O Tribunal Constitucional decidiu que a lei da eutanásia viola a Constituição.

Os bispos e outras organizações católicas saudaram a decisão, embora sublinhando – ao contrário do acórdão – que a eutanásia é sempre um grave mal que viola o direito à vida.

Houve muita discussão sobre a decisão do tribunal, tendo em conta que a sentença diz que a eutanásia, propriamente dita, não viola o direito à vida. Assim, esta pode parecer uma vitória fugaz, mas sugiro que leiam com atenção esta entrevista a Jorge Silva Pereira, da Faculdade de Direito da Universidade Católica, que ajuda a pôr as coisas em perspetiva.

Hoje é o dia em que os portugueses são chamados a rezar pelas vítimas da pandemia. É uma iniciativa europeia e Portugal ficou com o dia 16.

Fantástica descoberta arqueológica em Israel!

Os Estados Unidos poderão ter em breve o seu primeiro juiz federal de religião muçulmana.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre as semelhanças entre a Quaresma e a jardinagem.

Wednesday, 4 December 2019

O arcebispo que quer impedir as ovelhas de fugir

D. Francisco Senra Coelho,
um arcebispo com cada vez menos ovelhas
A Igreja dos Estados Unidos está a preparar-se para uma nova vaga de processos e indemnizações por causa de abusos sexuais. Tudo porque vários estados mudaram as leis, acabando com prazos de prescrição deste crime.




Quem percebe de jardinagem sabe que é preciso podar uma árvore para dar fruto. Não são só os ramos maus e doentes que são podados, são também os sãos e fortes. Mas no final o fruto chega em abundância! Jesus falou disto nos Evangelhos. No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia pergunta se não será mesmo isso que se passa com a Igreja, nesta fase de incerteza e de provações? Vale a pena ler.

Wednesday, 20 November 2019

Uma América Pós-Cristã?

Gunnar Gundersen
A sondagem recentemente publicada pela Pew Forum, que dá conta da continuada erosão da fé cristã nos Estados Unidos, levou a uma torrente de comentários sobre a América “pós-cristã”. E mesmo antes desta última ronda de previsões o termo “pós-cristão” já tinha sido usado por muitos comentadores.

Entre estes inclui-se o Rod Dreher, que o usou no subtítulo do seu livro “A Opção Beneditina”. Mas será que uma nação pode alguma vez tornar-se pós-cristã?

Tendemos a discutir o estado da religião na América da mesma maneira que falamos de modas sociais que vamos ultrapassar, como perucas ou cassetes VHS – a sociedade há de se esquecer. A América, pensamos, vai cansar-se do Cristianismo.

Mas o Cristianismo não é uma teoria, é um encontro com uma Pessoa, com o Alpha e o Omega. Cristo é o fim de todas as coisas. Não é possível simplesmente ultrapassá-lo depois de O ter aceite.

Tal como diz o Papa Bento XVI em Spe Salvi, uma sociedade que rejeita Cristo não se limita a seguir em frente. Pelo contrário, este tipo de sociedade irá, como disse Kant, colocar-se em oposição a Cristo. Assim, em vez de pós-cristã, uma sociedade que rejeitou o Cristianismo deve tornar-se necessariamente anticristã. “Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas, descrito por Kant [reino do Anticristo]: já o vimos e vemo-lo sempre de novo.” [23]

Nos lugares onde a Cruz é substituída por símbolos estranhos e novas ideologias, aqueles que vivem de acordo com a Cruz não podem se tolerados. Desde a Revolução Francesa à Revolução de Outubro da Rússia, já vimos esta novela vezes e vezes sem conta. A nossa deriva nesta direção poderá estar disfarçada pelas boas maneiras anglo-americanas, mas isso não muda o objetivo final pretendido.

A imagem romântica de cristãos resistentes a sobreviver segundo a “opção beneditina” numa América pós-cristã pode parecer bonita, mas não passa de uma fantasia. Não haverá onde nos escondermos se os nossos vizinhos decidirem que o Cristianismo não é digno do seu amor.

É de realçar que alguns académicos e activistas de esquerda já começaram a descrever o baptismo infantil e a formação cristã como formas de abuso infantil ou violações dos direitos humanos. Se a tendência de descristianização continuar não é provável que esta posição continue remetida para as margens durante muito mais tempo, partindo do princípio que ainda o é. Aliás, uma das principais defensoras desta teoria é a antiga Presidente da Irlanda, Mary McAleese, que a desenvolveu na sua tese, feita na Universidade Gregoriana de Roma. Não é propriamente uma pessoa das margens.

A ideia de que será possível chegar a um nobre entendimento entre os cristãos e os arquitectos da América pós-cristã não deve ser levada a sério. Aquilo de que precisamos é de testemunho e da disposição para sermos francos sobre a necessidade do Cristianismo para o correcto funcionamento da democracia no Ocidente, como explica o cardeal Joseph Ratzinger:

Entretanto o facto permanece que esta democracia [moderna] é produto da fusão das heranças grega e cristã e por isso apenas pode sobreviver com esta ligação fundacional. Se não voltarmos a reconhecê-lo e, por conseguinte, aprendermos a viver a democracia com vista ao Cristianismo e o Cristianismo com vista ao estado livre democrático, arriscamo-nos certamente a perder a democracia.

O pacto do Mayflower
John Adams disse o mesmo, da seguinte maneira: “A nossa Constituição foi feita para um povo moral e religioso. É inteiramente desadequado ao governo de qualquer outro”. E em Gettysburg Abraham Lincoln também reconhece que esta República se colocava “sob Deus”. Este entendimento penetrou o nosso juramento, o lema e os feriados nacionais.  

Os cristãos devem insistir que a sociedade não pode ser livre e simultaneamente anticristã. As primeiras colónias foram fundadas para promover a religião cristã através do Governo consentido. Isso fica claro nas palavras do Pacto do Mayflower: Tendo empreendido para a Glória de Deus, e Avanço da Fé Cristã, e Honra do nosso Rei e País, uma viagem para estabelecer a primeira colônia no norte da Virgínia; os presentes fazemos pacto solene e mutuamente na Presença de Deus e nós próprios, para conjuntamente formar um Corpo Político Civil para nossa Ordem, Preservação e Fomento dos objetivos referidos acima.

Ratzinger reconheceu que a fusão dos ideais democráticos com o dever cristão, própria da América, marcou o nascimento da democracia moderna: “A democracia como a entendemos hoje não surgiu automaticamente a partir desta raiz mas, de facto, foi formada primeiramente à luz das circunstâncias especiais do congregacionalismo americano, ou seja, à parte das tradições clássicas europeias da relação Igreja-Estado que cá se desenvolveu historicamente”. Esta fusão espalhou-se depois pelo mundo à medida que a influência global da América aumentou.

Os nossos concidadãos precisam de ouvir dizer que a democracia americana não pode sobreviver sem o respeito e o apoio da moral e da religião judaico-cristãs. Isto não é o mesmo que defender uma visão teocrática de Governo, é simplesmente reconhecer a raiz que alimenta o sistema democrático, que hoje muitos reconhecem como estando em perigo.

John F. Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama todos reconheceram a vontade dos primeiros colonos de fundar a América como uma cidade no topo de um monte – recordando o sermão de John Winthrop: 

Veremos que o Deus de Israel está entre nós, quando dez de nós serão capazes de resistir a mil dos nossos inimigos, quando ele fizer de nós um louvor e uma glória, tanto que os homens dirão das próximas colónias: ‘que o Senhor a faça como a de Nova Inglaterra’. Pois devemos considerar que seremos como uma cidade no topo de um monte.

Winthrop acrescentou um aviso, que os nossos políticos tendem a não mencionar mas que ecoa nas palavras de Bento XVI : 

Os olhos de todos os povos estão sobre nós. E se formos falsos com o nosso Deus nesta obra que empreendemos, e assim o levarmos a retirar de entre nós a sua presença, fará de nós uma história e uma lição para o mundo.

Um aviso pertinente de que apenas teremos esta República – sob Deus – enquanto a conseguirmos manter.


Gunnar Gundersen é investigador na James Wilson Institute on Natural Rights and the American Founding. A sua área de pesquisa inclui Liberdade Religiosa, Direitos de Propriedade e Jurisprudência.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 16 de Novembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 30 October 2019

Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


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Thursday, 17 October 2019

Cristãos em queda nos EUA e aliviados na Síria

Inês Leitão
O Cristianismo continua a perder peso nos Estados Unidos, com o número de pessoa que se identificam com esta religião a cair 12 pontos percentuais nos últimos dez anos.

Na Síria chegámos a um ponto em que a operação “Primavera da Paz” se está a transformar na operação “Pesadelo de Erdogan”. A bola parece estar no campo dos curdos, agora, mas os cristãos contactados pela Ajuda à Igreja que Sofre dizem-se aliviados pela chegada das tropas leais ao regime de Bashar al-Assad.

No dia para a erradicação da Pobreza a Renascença falou com Inês Leitão, a realizadora que foi a Moçambique ver o que a Cáritas tem feito para ajudar as vítimas dos ciclones.

Se não conhece ainda, fique a conhecer o trabalho feito pela Irmandade da Misericórdia de São Roque, que cumpre o importantíssimo trabalho de sepultar os mortos que não têm ninguém.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é da autoria de Michael Pakaluk, que analisa o mais recente livro de R.R. Reno. Vale a pena ler.

Wednesday, 25 September 2019

Como Viver na Era do Transgénero?

Hadley Arkes
Estamos a chegar a Outubro, um mês que nos reserva muitos sustos para além do Dia das Bruxas, com o começo dos trabalhos do Supremo Tribunal. Nenhuma outra instituição se aproxima enquanto motor de engenharia cultural.

Em assuntos raciais essa engenharia tem sido em larga medida positiva, mas no que diz respeito à vida humana e à sexualidade – à forma como nos entendemos enquanto pessoas e portadores de direitos – o Supremo tem sido uma máquina de profunda inversão moral.

Um dos casos que vai servir de teste será apresentado ao Tribunal em breve. No segundo dia do novo semestre do Supremo, os juízes vão analisar o caso de Harris Funeral Homes v. Equal Employment Opportunity Commission. A agência funerária no Michigan está nas mãos da mesma família há cinco gerações, mas um tal Anthony Stephens, que foi contratado como director funerário em 2007, acabou por causar alguns distúrbios.

Trata-se de uma posição com responsabilidade importante no acompanhamento de famílias durante os seus momentos de luto. Mas essa situação complicou-se quando Stephens anunciou, em 2013, que estava a experienciar “disforia de género”. Apesar de ser casado (com uma mulher, entenda-se bem), estava convencido de que agora a sua verdadeira identidade era a de uma mulher e que se queria apresentar, ao nível de aparência e vestuário, como tal.

Stephens insistiu que estava a respeitar o código de vestuário da empresa ao usar roupa feminina, mas a questão nem era essa. Foi despedido e, como é evidente, processou a agência por “discriminação” sexual, ao abrigo do artigo VII da Lei de Direitos Civis de 1964. A sua posição foi apoiada por um tribunal distrital federal, que se deixou levar de tal forma pelas suas premissas que insistiu em referir-se a ele no feminino.

O recurso chegou ao Supremo Tribunal e claro que a primeira coisa que os advogados e os juízes vão fazer é considerar a lei ao abrigo da qual foi feita a queixa de discriminação. Será sequer remotamente plausível que, em 1964, quando o Congresso proibiu a discriminação por causa de sexo, alguém presumia que isso iria abranger homens que querem usar as casas de banho ou balneários femininos, independentemente do quanto se sentem mulheres?

É muito mais sensato presumir, como argumentam os advogados que representam Harris, que “a discriminação sexual significa um tratamento diferenciado [e adverso] com base no sexo biológico de alguém, algo fixo e objectivamente determinado pelos cromossomas e a anatomia reprodutiva.”

Tudo bem. Mas quando se começa a questionar o significado das palavras na lei, isso é bem diferente de perguntar: o que significa verdadeiramente a palavra “sexo”, independentemente de como era compreendido pelo legislador em 1964?

O casal Stephens
Não devemos ficar admirados ao ouvir os advogados do lado de Stephens a argumentar que uma compreensão informada pelas mais recentes contribuições da “teoria de género” nos daria uma visão mais abrangente do que significa ser maltratado com base no “sexo”.

É então que se torna necessário ir mais ao fundo da questão. E acontece que, neste caso, isso foi feito, de forma decisiva e muito bonita. Foi dito num “Parecer Académico”, escrito por Michael Hanby, David Crawford e Maggie McCarthy; um parecer que merece ser lido por inteiro, pela forma graciosa como está escrito e pela argumentação convincente.

Segundo os autores, o que está verdadeiramente em causa neste caso é “inerentemente filosófico, ou mesmo metafísico”, pois “diz respeito a verdades sobre a própria natureza das coisas”. Existe uma verdade objetiva sobre o nosso corpo, ou devemos entender o corpo “de acordo com os sentimentos ou escolhas de cada um, e não de forma orgânica ou natural?” Aceitar essa perspectiva seria pôr em causa “a realidade dos homens e das mulheres, sugerindo que aquilo que os torna homens e mulheres são apenas os seus sentimentos sobre si mesmos, ou a construção social desses sentimentos.”

Uma criança tem um sentido natural de quem é e das pessoas que preenchem a sua vida, dos seus pais e avós. Contudo, agora estamos a codificar uma “antropologia filosófica” que põe em causa todo esse esquema como sendo “artificial e arbitrário, em vez de natural”.

O que Stephens afirma, segundo estes autores, “não é que tem o direito de se vestir como lhe apetece, mas antes que é, na verdade, uma mulher, e que por isso tem o direito a ser tratado como tal”.

Quem olha de fora poderá ser levado ao engano pelo argumento de que tudo o que Stephens quer é viver de acordo com o seu entendimento de si mesmo. Mas isso é uma profunda falsidade, porque o seu processo implica “a afirmação, legalmente imposta, da sua alegada identidade por todos os que trabalham com ele”. Ou seja, toda a gente que trabalha no mesmo espaço que ele terá a obrigação de admitir que aceita o seu direito a alterar a sua personalidade sexual, caso contrário podem ser processados por contribuir para “um ambiente laboral hostil” e assim criar ameaças legais para os seus empregadores.

Estas são as implicações que continuam a surpreender advogados e cidadãos, que ainda não estão habituados ao facto de a lógica do “certo ou errado” ganhar tanta força ao levar com o carimbo da verdade à luz da lei.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 23 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 4 September 2019

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Monday, 27 May 2019

Alabama, Henrique Raposo e Legítima Defesa

Qual dos dois foi concebido por violação?
Causou alguma polémica um artigo de opinião publicado na Renascença por Henrique Raposo na passada semana, sobre a lei que recentemente proibiu o aborto, quase por completo, no Estado do Alabama, nos Estados Unidos.

Argumenta o Henrique que embora seja contra o aborto e a sua legalização, acha indispensável que haja exceções para casos de violação e de incesto, invocando para isto a noção de legítima defesa.

Gosto de ler os artigos do Henrique e penso que não estou só em admirar a forma honesta como ele tem descrito a caminhada religiosa e ideológica que tem feito ao longo dos últimos anos. Mas neste caso penso que comete alguns erros básicos de raciocínio, que devem ser confrontados.

Para começar, a analogia é muito fraca. Permitir o aborto por “legítima defesa” apenas faria sentido se considerássemos que o feto gerado é um agressor. Sem dúvida que existe um agressor em todos os casos de violação, e na maior parte dos casos de incesto, mas não é o bebé.

A questão do aborto é fraturante, e as discussões sobre ele tendem a tornar-se conversas de surdos. Mas na verdade o assunto é muito mais simples do que muitas vezes pensamos. O nascituro ou é um ser humano com dignidade e direitos, ou não é. Se acreditamos que é – e parece-me que o Henrique assim pensa – então basta pensarmos se o que propomos faria sentido se ele já fosse nascido. O Henrique aceitaria que uma mãe matasse, ou mandasse matar o seu filho recém-nascido, ou de dois anos, por ser parecido com o pai, violador? Claro que não.

Se, pelo contrário, acreditamos que o feto não é merecedor de qualquer direito e não tem dignidade humana, então é descartável.

A discussão centra-se então na ideia de quando é que o feto se torna um ser humano, com todos os direitos e dignidade inerentes. Sobre isso compreendo que existam posições diferentes, embora o defensor do aborto encontra-se na situação difícil de mostrar então precisamente quando é que se dá essa transformação mística. Por mais que não o queiram admitir, a embriologia e a lógica estão solidamente do lado dos pró-vida neste aspeto.

Logo, o aborto ou é uma coisa aceitável – nem se devia falar em mal-menor – ou não é. Qualquer posição intermédia, como dizer que é aceitável em casos em que o feto é deficiente, mas não quando é saudável; ou que é aceitável em casos de violação, mas não quando o bebé é desejado pode satisfazer a nossa vontade de não ofender sensibilidades, mas não têm ponta por onde se pegue em termos lógicos.

Neste sentido, a lei do Alabama é perfeitamente compreensível e os argumentos de Henrique Raposo não convencem quem pensa que a vida intrauterina tem tanto valor às 10 semanas como às 40, ou como aos quatro anos ou aos 18, seja quem for o progenitor, seja qual for a condição em que foi gerado. Não se trata de falta de sensibilidade pelo drama vivido pela mulher que, certamente, merece toda a nossa compaixão e ajuda. Posso, até, dizer que compreendo que uma mulher nessa situação aborte, ou queira abortar, sem ter de ceder que do ponto de vista racional não o devia fazer nem a sociedade tem a obrigação de a ajudar nesse propósito.

Desafio ao Supremo Tribunal
Já outra questão é a oportunidade política da lei do Alabama. Aqui devemos compreender que esta lei é um balão de ensaio. Vai inevitavelmente chegar ao Supremo Tribunal, criando assim a oportunidade de os juízes, agora com maioria conservadora, reverterem o famoso “Roe v. Wade” que na prática legalizou o aborto nos Estados Unidos a nível federal, podendo levar à proibição do aborto em muitos outros Estados americanos. A lei só entrará em efeito depois de passar esse obstáculo, e não é de todo certo que passe.

O problema é que estes tiros podem sair pela culatra. Já estamos a ver vários Estados a liberalizar as suas leis ao ponto do absurdo e esta semana a Câmara dos Representantes voltou a rejeitar, pela 49ª vez, uma lei que obrigaria um médico a fazer tudo para salvar a vida de um bebé que nasça vivo após uma tentativa de aborto.

Tendo em conta o estado de divisão que existe atualmente entre republicanos e democratas sobre esta questão, o tempo dirá se esta lei do Alabama faz mais bem do que mal.

Filipe d'Avillez

Tuesday, 19 February 2019

Igrejas restauradas e montanhas fumegantes

Nestes próximos dias vamos olhando para alguns dos principais países que já foram afetados pela crise dos abusos sexuais. Começamos pelos Estados Unidos, o pais onde a montanha pariu um vulcão

Mas nem tudo são notícias dramáticas! Hoje temos três artigos sobre o melhor que se faz em termos de nova evangelização, ainda por cima feita por jovens. Temos por um lado a Missão País. Aqui pode ler a entrevista de um dos responsáveis, Manuel Azevedo Mendes, à minha colega Ângela Roque, e aqui a reportagem de outra colega, a Olímpia Mairos, sobre uma missão em Santa Marta de Penaguião.

O outro tema é o Faith’s Night Out, de que já falei aqui há dias. Pois esta grande iniciativa das Equipas de Jovens de Nossa Senhora já tem seis anos e julgando-se crescida até quer ir ao estrangeiro. Leiam que vale a pena.

E por fim, um convite para conhecerem melhor a Igreja da Misericórdia, em Évora, que reabriu ao culto depois de obras de restauro .

Wednesday, 21 June 2017

Bernie Sanders: Cristófobo e (Indirectamente) Islamófobo

Pe. Mark A. Pilon
Nota prévia: Este artigo do Pe. Mark A. Pilon é importante na medida em que realça uma questão crucial do nosso tempo, nomeadamente a ideia crescente de que os cristãos são indignos de exercerem cargos públicos de responsabilidade simplesmente porque professam certas crenças, mesmo que elas em nada afectem o seu trabalho. O exemplo do interrogatório do senador Bernie Sanders a Russ Vought, aqui descrita, é claro a esse respeito.

Dito isso, o facto de ter escolhido este artigo para traduzir não significa que eu concorde nem com a posição de Vought nem com a posição que o autor parece defender, de que os cristãos e os muçulmanos não adoram o mesmo Deus. Que o fazem já foi repetido não só pelos últimos Papas mas por outros na história da Igreja e está escrito preto no branco em documentos do Concílio Vaticano II.

Filipe


Quando ouvimos falar na perseguição aos cristãos pensamos normalmente nos cada vez mais frequentes ataques levados a cabo por extremistas islâmicos radicais em países de maioria muçulmana no mundo. Mas estas perseguições também acontecem em países ocidentais, embora não assumam a forma de violência física que vemos noutras partes. É mais subtil e acontece ao nível do Governo e de empresas privadas, normalmente sem atenção mediática.

Mas recentemente um exemplo desta perseguição foi filmado durante uma audiência de confirmação no Senado americano. Só causou uma pequena polémica, porque os grandes meios de comunicação não se interessam e não é natural que o Senado faça alguma coisa sobre o assunto. Isto porque o autor das palavras é um menino bonito dos media e de muitos senadores: Bernie Sanders. E para muitos é impensável comparar Sanders a um qualquer Joe McCarthy – ainda que o seu ataque a um candidato cristão, que não é cristão ao modo que Sanders aprova, tenha sido desprezível segundo os padrões do próprio Senado.

O alvo do seu ataque foi Russell Vought, nomeado pelo Presidente Trump para ocupar o cargo de Vice-director do Gabinete de Gestão e do Orçamento. Vought tem ocupado vários cargos no aparelho do Partido Republicano e foi assessor do senador Phil Gramm, o democrata vira-casacas que não é muito popular entre políticos como Sanders. Só isso já teria sido o suficiente para o desclassificar aos olhos de Sanders, mas ele optou por perseguir Vought por causa das suas convicções religiosas, expressas num blog chamado The Resurgent. Um dos assessores de Sanders deve ter desenterrado a informação e entendido que seria um dado capaz de descarrilar a sua nomeação.

Nesse texto Vought defendia a decisão da universidade em que se formou, Wheaton College, uma instituição abertamente cristã, de suspender a professora assistente de ciências políticas Larycia Hawkins, que postou uma fotografia de si mesma no Facebook com um véu islâmico dizendo que o iria usar no trabalho, em aviões e eventos sociais durante as semanas do Advento em solidariedade com os muçulmanos que enfrentavam discriminação religiosa.

Na altura escreveu: “Estou solidária com os muçulmanos porque eles, como eu, que sou cristã, são povos do livro… E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus.”

Ainda que o Papa Francisco “pense” que cristãos e muçulmanos adorem exactamente o mesmo Deus, há literalmente milhões de outros cristãos e católicos que “pensam” o contrário, com base nas suas crenças num Deus que é uma trindade de pessoas e de que Jesus Cristo é o único mediador da salvação da humanidade. Francisco não fala em nome de todos os católicos nesta matéria, menos ainda em nome dos milhões de protestantes evangélicos – incluindo a Wheaton College.

Em relação a isto Vought escreveu simplesmente: “Os muçulmanos não têm apenas uma teologia deficiente. Eles não conhecem Deus porque rejeitaram o seu Filho, Jesus Cristo, e por isso estão condenados”.

Sanders revoltou-se: “Do meu ponto de vista a afirmação feita pelo Sr. Vought é indefensável, é odiosa, é islamofóbica e um insulto a mais de mil milhões de muçulmanos em todo o mundo”. Tentou provocar Vought a negar a sua fé. Vought tentou responder, dizendo, “Senador, eu sou cristão.” Mas Sanders interrompeu: “Acha que os não-cristãos vão ser condenados?” e mais tarde perguntou “está a sugerir que todas estas pessoas estão condenadas?” e, enfurecido, “e os judeus? Eles também estão condenados?”

Vought limitou-se a reafirmar a sua crença cristã de que a salvação vem apenas por Jesus Cristo. Mas Sanders concluiu que esta crença era incompatível com uma função pública. “Diria, senhor presidente, que este candidato não tem nada a ver com aquilo que este país representa”.

Incrível é pouco… Vought nunca sugeriu que as suas opiniões religiosas o levariam a negar aos muçulmanos os seus direitos humanos ou sociais e Sanders nem lhe perguntou. Aliás, Vought disse acreditar que “todas as pessoas são criadas à imagem de Deus e são dignas de respeito, independentemente das suas crenças religiosas”. Mas isso não chegou para Bernie, que argumentou que devia ser chumbado precisamente por causa dessa sua fé.

Sanders não é uma pessoa particularmente bem informada no que diz respeito a religiões mundiais e não é muito perspicaz quando sai da redoma da guerrilha política. O que ele não percebe é que ao excluir cristãos como Vought deve, logicamente, excluir a maioria dos muçulmanos também. Para os muçulmanos ortodoxos todos os não-muçulmanos são infiéis, mushrikun (politeístas, idólatras, pagãos, etc.), e como tal não podem entrar no Paraíso. Quase todos os muçulmanos acreditam que todos os infiéis são condenados.

Sobre os infiéis, por exemplo, o Alcorão diz, “São aqueles, cujas obras se tornaram sem efeito, e que morarão eternamente no fogo infernal” (9:17). Quando Hussain Nadim, professor da Universidade Quaid-e-Azam em Islamabad, Paquistão, perguntou aos seus alunos se a Madre Teresa de Calcutá iria para o Céu, “para minha grande surpresa, mais de 80% desta elite académica respondeu claramente que não. Todos os que responderam assim explicaram que embora a Madre Teresa fosse uma mulher nobre, não era muçulmana e, por isso, não podia entrar no Céu”.

A crença de que só os muçulmanos podem entrar no Céu não é professada propriamente por uma minoria de muçulmanos educados, mas é a opinião geral, o que significa que de acordo com o Bernieismo a maioria dos muçulmanos nos Estados Unidos não estão em condições de ocupar um cargo público.

Será que ele os apelidaria de cristófobos que insultam mais de mil milhões de cristãos? Duvido, seria perigoso.

Não, pessoas como Bernie Sanders vêem os cristãos que defendem posições impopulares como “o aborto é homicídio” e “o casamento é apenas entre um homem e uma mulher” como a única verdadeira ameaça ao paraíso secular que quer edificar. Há demasiados poucos muçulmanos neste país para serem uma verdadeira ameaça, mesmo que defendam as mesmas posições. Contudo, servem perfeitamente como instrumentos para classificar os cristãos como inimigos do sistema político americano.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 18 May 2016

Chegou a Hora de Agir

Hadley Arkes
Na Era de Obama aquilo que em tempos era inimaginável na nossa política e no direito tem-se tornado gradualmente “normal”, de tal forma integrado nas nossas vidas que mal se dá por ele. Em Setembro, como já fiz questão de dizer, 177 democratas no Congresso votaram contra uma lei que puniria “cirurgiões” que matam bebés que sobrevivem ao aborto. Até católicos notáveis na imprensa não acham que o assunto seja suficientemente importante para referir quando entrevistam Hillary Clinton, Donald Trump ou outros candidatos.

E caso não tenham estado a prestar atenção às notícias das últimas semanas, houve outra questão recente que tornou o bizarro não só plausível mas mesmo obrigatório nas nossas leis. Um tribunal anulou a decisão da Comissão de Educação do Estado da Virgínia, que obrigava as crianças a usar as casas de banho nas suas escolas de acordo com o seu sexo biológico.

O juiz Henry Floyd, nomeado por Obama, decidiu a dar crédito à ideia de que a Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act], que proíbe a discriminação sexual, pode agora ser lida de forma a abranger a discriminação de “género”. Ou seja, que a lei pode ser usada para obrigar a respeitar a visão que um jovem tem da sua própria “identidade” sexual, independentemente da sua anatomia.

O artigo IX das Emendas da Educação de 1972 torna claro que ao proibir a discriminação sexual a lei não puniria as instituições de ensino por manterem “residências separadas, com base no sexo”. O sentido de sexo, aqui, era claramente de “homens e mulheres”, rapazes e raparigas, e seria muito pouco plausível por parte da administração promulgar uma lei tão claramente distante dos estatutos e do senso comum.

O juiz Floyd decidiu impor essa leitura da lei com base apenas num parecer escrito pela Divisão dos Direitos Civis do Departamento de Educação. Na mesma altura, a Procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, acusou o congresso estadual da Carolina do Norte de violar a Lei dos Direitos Civis, fazendo uma leitura idêntica do estatuto.

O congresso estadual tinha anulado a política adoptada em Charlotte, consagrando o direito de pessoas “transgénero” a usar a casa de banho que quiserem, independentemente dos sentimentos de terceiros. A procuradora-geral fez acompanhar a sua decisão de uma ameaça de cortar os fundos federais que o sistema educativo da Carolina do Norte recebe, em todos os níveis de ensino.

Vou deixar de lado, por hoje, a questão da implausibilidade da fantasia do “transgénero”. O Dr. Paul McHugh, da Escola de Medicina da John Hopkins, deixou de fazer operações de mudança de órgãos sexuais. Segundo ele, os estudos revelam um triste encadeamento de depressão, bem como um desejo de “voltar atrás” quando se torna claro que a operação não consegue alterar os factos profundos da natureza sobre aquilo que nos constitui. Estes jovens confusos precisam de aconselhamento sério e não de cirurgia.

Neste momento o meu enfoque é outro. Aquilo a que estamos a assistir é, em primeiro lugar, a esquerda libertada de qualquer respeito pelo lugar da “natureza” e das restrições morais em matéria de sexualidade.

Estamos ainda a assistir a uma vontade por parte da esquerda de utilizar os poderes do Estado administrativo, separados de qualquer ligação plausível aos estatutos que, por si só, constituem as bases de autoridade das ordens administrativas.

E vemos ainda a disposição de alargar os poderes do governo federal de tal forma que tornam nulas as barreiras e as restrições do federalismo.

Entre 2001 e 2011, o financiamento federal das escolas na Carolina do Norte aumentaram em cerca de 400 milhões de dólares. Quando eu era mais novo, nos dias de Eisenhower, o financiamento federal da educação era uma questão séria. À medida que esses subsídios foram sendo alargados, tanto aqui como noutras áreas, temos visto crescer o poder do governo federal para manipular os Estados, chegando ao ponto de impor uma política perversa.

Já escrevi antes neste espaço, registando o meu desconforto, partilhado por muitos, sobre o facto de ter de escolher entre Clinton e Trump e, por enquanto, decidi-me pelo “joker” em vez da “Coisa Certa e Brutal”. Tenho amigos, porém, que dizem que mais vale esperar quatro anos, deixar a Hillary nomear o sucessor de Scalia [juiz do Supremo Tribunal que morreu este ano] e absorver o mal que for feito, em vez de arriscar ver o Trump transformar o partido conservador.

Mas temo que os meus amigos sejam demasiado optimistas. Subestimem seriamente a profundidade dos danos que podem ser infligidos se uma administração de esquerda encher os tribunais federais menores de juízes como Floyd. Esses juízes estarão mais que dispostos a defender as teorias dos intelectuais de esquerda sobre sexualidade e a extensão dos poderes executivos bem para lá dos limites da Constituição.

Estamos a subestimar seriamente o facto de que se estas novidades e corrupções continuarem durante mais quatro ou oito anos, poderão tornar-se de tal forma entranhados que serão impossíveis de desenraizar. Chegou a hora de homens e mulheres prudentes morderem o lábio e fazerem o que é preciso fazer.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 17 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 7 April 2016

Lei anti-gay ou pró-liberdade de consciência?

Governador Phil Bryant
Discriminador ou defensor da
liberdade de consciência?
Tenho visto várias pessoas a manifestar revolta pela aprovação de uma lei no Mississippi, nos EUA, que, segundo a imprensa “permite a discriminação contra homossexuais”.

Eu, se me fiasse no título, também ficaria revoltado. Mas não me fio nas manchetes porque sei que estes assuntos raramente são assim tão simples.

Ninguém pense que com esta nova lei uma gelataria pode recusar servir gelados a uma pessoa simplesmente porque é homossexual. Os artigos da lei são claros e pretendem evitar situações que têm surgido nos Estados Unidos nos últimos anos, como por exemplo: 

- Pastelarias que foram multadas por se recusarem a fazer bolos para casamentos homossexuais, ou fotógrafos por se recusarem a trabalhar nesse tipo de evento. O que está em causa aqui não é discriminação contra homossexuais, mas a recusa em participar num evento que atenta contra as suas consciências. Se dois homossexuais tivessem pedido um bolo de anos, ou umas flores para enfeitar a casa, isso não seria um problema. Por isso, como é evidente, o problema não está nem na pessoa nem na orientação sexual mas sim no acto do casamento.

- Escolas, Igrejas, instituições de carácter religioso etc. que podem ter muitas razões para não querer contratar alguém que professa valores ou vive publicamente de uma forma que choca com os valores da instituição.
Para dar um exemplo, eu compreendo que uma escola católica prefira não contratar para trabalhar na cantina, à vista das crianças, um travesti que insiste em ir vestido de mulher para o trabalho apesar de ser um homem; ou um professor que decidiu casar com outro homem, numa cerimónia pública, e insiste em falar disso à frente dos alunos como se fosse uma coisa boa. É uma questão de respeito pelos valores da instituição, como o professor em causa deve compreender.
Para tornar o exemplo mais próximo, se amanhã o Sporting me contratasse para fazer tradução simultânea numa conferência, e eu aparecesse com camisola do Benfica, compreenderia que me mandassem embora.

- Escolas ou outras instituições que não querem permitir que alunos do sexo masculino usem os balneários femininos apenas porque se "identificam" como raparigas. Parece absurdo? Está a acontecer e não é só um caso. A lei menciona especificamente isso.

- Pessoas que alugam quartos ou casas e preferem, por razões morais, não o fazer a casais homossexuais e/ou casais heterossexuais não casados.

- Agências de adopção que, independentemente de a adopção por homossexuais ser legal ou não, recusam colocar crianças com casais homossexuais ou não casados. A verdade é que se existisse uma lei destas no Reino Unido talvez não tivessem sido encerradas TODAS as agências de adopção católicas em Inglaterra e na Escócia.

Quero apenas deixar muito claro, porque me parece fundamental, que existe uma grande diferença entre recusar um serviço a alguém simplesmente porque é homossexual – o que me parece absolutamente condenável – e recusar tomar parte activamente numa cerimónia ou num ritual que atenta gravemente contra a consciência. Esta lei, a meu ver e tendo-a lido, procura não consagrar a discriminação contra os homossexuais ou quaisquer outros, mas sim proteger o direito à objecção de consciênciade prestadores de serviços e funcionários públicos.

Não me surpreende que alguns órgãos de imprensa apresentem isto como um acto de discriminação, mas é pena e não me parece que contribua para um debate racional.

Repito que li a lei e, sinceramente, não me parece que haja nela margem de manobra para fazer discriminação pura, tipo rejeitar um cliente num restaurante porque não gostamos da roupa que tem vestido, mas como não sou jurista não posso garantir que alguém não tente invocar esta lei para fazer precisamente isso. O que posso dizer, tendo acompanhado o debate, é que a lei não tem esse objectivo e espero muito sinceramente que isso não aconteça.

Se mesmo assim não estão convencidos, convido-vos a ler o documento por completo, como eu fiz agora, e que me digam com base nessa leitura quais as vossas objecções.

Thursday, 3 December 2015

Mais uma tragédia nos EUA, porta da Misericórdia em Vila Viçosa

Alaa Murabit, a especialista canadiana de origem libía
Nova tragédia, desta feita nos Estados Unidos. Um casal matou 14 pessoas e feriu mais de 20 num ataque. Sabe-se que o casal é muçulmano e tudo indica que o ataque foi bem planeado, mas ainda não é dado como adquirido que se trata de um acto de terrorismo islâmico.

Sobre esta questão da radicalização, a Renascença falou hoje com uma jovem activista canadiana de ascendência líbia, que se encontra em Portugal para participar numa conferência, precisamente dedicada ao combate à radicalização.



Fátima já tem programa para o novo Ano Litúrgico e, atenção a todos os devotos de Nossa Senhora da Conceição, a única porta santa da diocese de Évora será no santuário em Vila Viçosa.

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