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Thursday, 27 April 2023

Afinal a única coisa natural que o PAN quer ver extinta somos nós


Ainda pensei tentar rebater alguns dos pontos neste vídeo, mas não vale a pena.

Começo por dizer que o recebi num grupo do WhatsApp, e não faço ideia se a tal proposta que está a ser discutida é boa ou não. Mas a razão pela qual não vale a pena rebater os argumentos expostos é porque o deputado municipal do PAN tem razão. 

Atenção, não é que eu concorde com ele! Mas ele tem razão porque está a operar dentro de um paradigma em que tudo o que diz faz todo o sentido. Logo tem razão, dentro da realidade que subscreve. O que não implica que tenha razão à luz da verdade, porque eu sou daqueles antiquados que para além de defender que a família "convencional" é uma coisa porreira que faz sentido preservar - tipo lince de Malcata, mas para melhor - acredita também que existe uma verdade, e não muitas, ao sabor das ideologias de cada um. 

Porque o problema aqui é ideológico mesmo, daí ter falado de paradigma. O problema não é a lógica que o deputado municipal usa, é a ideologia que está por detrás e essa, é bom que entendamos, é incompatível com a minha, e a de muitos. Não é apenas diferente, é incompatível.

Eu acredito num mundo em que o ser humano tem a responsabilidade de cuidar da criação. Toda. A sua e a do reino natural. Não o fazemos bem, e até eu falho muitas vezes nesse aspecto, mas temos essa responsabilidade. Ele acredita num mundo em que o humano está a mais. Muito a mais, pelos vistos. 

Eu compreendo que os animais, fazendo parte da criação infinitamente sábia e bela de Deus, estão num plano diferente da do ser humano, que é dotado de razão e, acima de tudo, de capacidade de se relacionar e de amar, não apenas para preservação da espécie, mas por total altruísmo. Ele acredita num mundo em que o animal e o homem estão exactamente ao mesmo nível, pese embora eu tenha muita dificuldade em acreditar que se os leões pudessem formar um partido as suas preocupações fossem as mesmas que as do PAN. 

Eu acho que os casais devem poder ter os filhos que desejam ter e que o Estado, que tem por função zelar pelo bem-estar e pelos interesses das pessoas, deve fazer o que estiver ao seu alcance para permitir que elas se concretizem dessa forma. Ele acha que a função do Estado é dar às pessoas os meios para não terem filhos, e que se ainda assim insistirem em os ter, então o problema é deles e não merecem qualquer ajuda ou apoio. 

Eu acho que uma família composta por um casal estável, mãe e pai, é o melhor ambiente para se criarem filhos saudáveis, realizados e equilibrados, o que por sua vez é um bem social. Ele nota com satisfação que as famílias "convencionais" já são minoria, estão em vias de extinção, e "assim esperemos que fiquem", que isto da monogamia é só para os pinguins, pelos vistos, e afinal há coisas naturais que o PAN até defende que se extingam. 

Eu acho que submeter os animais, quaisquer que sejam, a tratamentos hormonais é uma violência pouco saudável que desrespeita o equilibrio biológico. Ele concorda, desde que esses animais não sejam as nossas mulheres.

Eu acho que devemos evitar o uso do plástico a nível social, ele considera que todos os homens heterossexuais que tenham relações sexuais devem plastificar determinada parte do seu corpo, para evitar essa doença sexualmente transmissível que é a gravidez. 

Tenho, contudo, uma dúvida. Eu acho que este senhor tem direito a ter as suas opiniões anti-natalidade, anti-humanas e anti-família. Acho, porque considero que o direito à liberdade de consciência é uma coisa sagrada. Discordo, e espero que ele mude as suas opiniões nefastas, mas respeito a liberdade de as ter. Será que ele acha o mesmo em relação às minhas?

Quando o PAN apareceu notei com frustração que muitas pessoas iam votar no partido dos "animais" porque achavam giro e fofo que estivessem representados no Parlamento. Pois bem, é nisto que acreditam? É isto que defendem? Porque é isto que o PAN é. E não é coisa boa. Um partido que diz às famílias numerosas: "Demo-vos contracepção e aborto. Se ainda assim quiserem poluir a terra com a vossa prole, problema vosso", não é uma coisa boa. 

E para quem assim pensa nada tenho a argumentar. Só posso responder que temos visões diferentes do mundo e da realidade, e que eu e a minha casa escolhemos a vida, e escolhemos acreditar que a família - tenha ela o tamanho que tiver - é uma coisa boa. 

Por isso para vocês e para a vossa cultura da morte, não faço mais do que responder com uma fotografia da minha família orgulhosamente numerosa. 



Wednesday, 10 March 2021

O Animal Jardineiro

Stephen P. White
A Quaresma é um tempo de preparação. As nossas observâncias quaresmais de oração, penitência e esmola ajudam-nos a limpar o afeiçoamento que desenvolvemos por vícios, que de outra forma inibiriam o nosso crescimento espiritual. O trabalho da Quaresma prepara-nos, corpo e alma, para as alegrias da Páscoa e a celebração de nova vida na Ressurreição.

No final do inverno e início da primavera, o trabalho de cuidar de um jardim é semelhante aos esforços da Quaresma. As coisas velhas, mortas ou doentes, precisam de ser cortadas e retiradas dos canteiros para abrir espaço para novo crescimento – crescimento que ainda não vejo mas que sei (espero?) se manifestará em breve. E depois há as ervas daninhas, que por manha demoníaca continuam a propagar-se e a crescer enquanto o resto do jardim faz o seu descanso invernal. Estas devem ser arrancadas pela raiz.

Na Virgínia do Norte, onde eu vivo, começam-se a ver já os primeiros indícios da primavera. Alguns narcisos e túlipas começam a emergir da terra encharcada. As primeiras flores de açafrão e amarilidáceas começam a florescer. A relva está molhada e enlameada, especialmente nos locais onde as crianças estiveram a brincar. As rosas precisam de ser podadas e a terra pesada da horta tem de ser revirada. Na maior parte o jardim parece morto e até um bocado descuidado. Quando chegar a primavera já vai estar tudo diferente, um festival de vida e de cor.

Os paralelos entre o trabalho de um jardineiro e um penitente na Quaresma, ou entre as flores da primavera e a alegria da Páscoa, não são difíceis de ver. Mas a analogia entre a jardinagem e a vida espiritual vale a pena ser contemplada de forma mais profunda também. Ao longo de toda a história da salvação, frequentemente nos momentos mais críticos, encontramos um jardim.

A primeira habitação natural do homem é um jardim, O Jardim: “O Senhor Deus plantou um jardim no Eden, a oriente, e colocou lá o homem que tinha formado”. Vale a pena reparar que um jardim não é um espaço silvestre, incorrupto pela mão do homem, mas um espaço que está ordenado e cuidado. É o próprio Deus que planta. O Paraíso – a etimologia sugere um jardim murado – é um local de ordem e de harmonia entre Deus e o homem, homem e Criação, sobre a qual nos foi dado o domínio.

O nosso castigo pelo pecado é a perda do Paraíso, e da relação ordenada que existia no Jardim. Pelo pecado tornámo-nos distantes do nosso Criador e a nossa relação com a criação passou a ser marcada pelo esforço e o desejo de poder. Caim tornou-se um trabalhador da terra mas a sua oferta não agradou a Deus. O homem colabora com a natureza para conseguir sustento – qualquer agricultor sabe que a sua colheita depende da terra, das sementes e do tempo. Depois da Queda, essa colaboração mantém-se, mas está marcada pela aflição e pela necessidade. Uma quinta, tal como a selva, pode ser bela e boa, mas não é um jardim.

Os jardins reaparecem ao longo das Escrituras. No Cântico dos Cânticos, por exemplo, o jardim é um lugar de intimidade entre o amante e a amada, e, deforma alegórica, entre Deus e o seu povo esponsal, Israel. Mais uma vez, o jardim é um local onde a relação correcta entre Deus e o homem se reflecte na ordem e na beleza das redondezas.


Nos Evangelhos, o pecado e a desobediência de Adão, que nos custaram o Jardim de Eden, foi desfeito pela obediência de Cristo à vontade do Pai no Jardim do Getsémani. Cristo não foi expulso do Gétsemani, foi levado à força. E quando o seu trabalho de redenção se cumpre, São João diz-nos onde depositaram o seu corpo crucificado: “No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado.”

Por isso, quando Cristo, o Novo Adão, ressuscita na Páscoa, fá-lo da terra de um jardim. Naquela manhã gloriosa, Maria Madalena veio ao sepulcro onde encontrou o Cristo ressuscitado. Mas de início ela não reconhece Jesus, confunde-o com o jardineiro. Todos formos feitos para um jardim; fomos redimidos num Jardim pelo Divino Jardineiro.

No meio disto tudo, o jardim é mais do que uma alegoria para a harmonia com o nosso Criador e a sua criação. Jardinar é, ou pode ser, um empreendimento moral. Um jardineiro precisa de conhecer diferentes plantas, os solos, o sol e o vento, a chuva e o tempo. Se ele quiser ordenar o seu jardim para que seja mais belo tem de usar esse conhecimento para trabalhar com a natureza e não contra ela.

Cada jardim é uma escola de teleologia: a semente brota, não porque o jardineiro o fez brotar, mas porque é isso que as sementes fazem! A flor floresce para produzir fruto e o fruto para a semente! Esta é uma lição elementar, mas uma que, nos nossos dias, é positivamente subversiva: A natureza tem propósitos! Todos os jardineiros sabem-no, não como um princípio abstracto, mas como um simples facto.

Não consigo pensar num antídoto mais poderoso para a nossa era tecnocrata e utilitária do que aprender a trabalhar com a natureza e não contra ela. Não somos, como pretendia Descartes, “senhores e donos da natureza”. Recordemos a definição de Cícero da virtude: “A virtude é um hábito da mente, consistente com a natureza, a moderação e a razão”. Por todas estas razões, a jardinagem é uma excelente escola para adquirir estes hábitos.

Podemos dizer muita coisa sobre o animal humano – que é racional, político, social, e por aí fora. Talvez lhe devemos acrescentar mais uma: O homem é o “animal jardineiro”. Veremos se pega. Eu estarei a ponderar estas coisas muito depois de a Quaresma dar lugar à Páscoa.

Entretanto, no meu jardim está sol (por enquanto) ar fresco e ervas para arrancar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 4 de Março de 2021)

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