quarta-feira, 24 de março de 2021

O que Cobre uma Multidão de Pecados?

O conceito de pecado privado não existe. As nossas falhas morais – sejam quais forem – têm consequências que vão bem para além da nossa culpa ou inocência pessoal. As minhas falhas morais têm consequências para a minha mulher e filhos, para os meus amigos e por aí fora. Os meus falhanços causam sofrimento nos outros, muitas vezes de forma invisível. O meu pecado fomenta o pecado e limita a virtude, em mim e nos outros. Como o mundo seria melhor se eu fosse santo!

Às vezes conseguimos apenas vislumbrar os filamentos morais que ligam as nossas ações às vidas de quem nos rodeia. Noutras alturas as consequências dos nossos pecados são muito evidentes. Qualquer pai que ouve o seu filho a repetir as suas próprias palavras menos que caridosas conhece o poder do seu próprio mau exemplo. Às vezes pecados que, insensatamente, esperávamos que se mantivessem secretos são expostos à luz para que todos os possam ver, para nosso horror e humilhação.

Estes momentos de reconhecimento podem ser ocasiões para a graça mexer com a consciência – como o canto do galo que levou Pedro a chorar lágrimas de amargura. Mas tais ocasiões, em que somos postos em situações embaraçosas pelas nossas próprias consciências, nem sempre levam a arrependimento e conversão. Pelo menos não no imediato.

No Evangelho de Marcos um homem rico vai ter com Jesus, ansioso por fazer o que for preciso para herdar a vida eterna. De início fica satisfeito por ouvir que já fez tudo o que é necessário, mas a sua alegria transforma-se em desapontamento quando Nosso Senhor lhe pede mais. Todos conhecemos a história:

“Só te falta uma coisa. Vai, vende tudo o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.”

Perante essas palavras caiu-lhe o semblante e afastou-se, triste, pois tinha muitos bens.

O homem rico estava tão perto, só lhe faltava uma coisa. Mas não era capaz de abdicar dessa amarra. E Cristo, que “olhando para ele o amou”, deixou-o ir.

Lembrei-me novamente desta passagem esta semana por causa da resposta da Congregação para a Doutrina da Fé (aqui) a uma questão sobre “bênçãos de uniões entre pessoas do mesmo sexo”. A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé, apoiada pelo Papa Francisco, é de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. “[Deus] não abençoa, nem pode abençoar, o pecado”. A resposta causou angústia entre aqueles que esperavam há muito tempo que a Igreja encontrasse uma forma de contornar a Escritura e a Tradição para abraçar as uniões homossexuais.

Que isto tenha vindo do Papa Francisco – o Papa do “Quem sou eu para julgar”, o Papa que deu apoio cauteloso a uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, o Papa em quem tantos tinham colocado as suas esperanças por mudanças radicais de doutrina – tornou esta questão ainda mais difícil de aceitar.

O que me leva de volta à história do homem rico.

Para aqueles que, como eu, vêem a clarificação da CDF como necessária e bem-vinda, a tentação é a de responder à revolta e à dissidência com um “Ainda bem! Se preferem agarrar-se ao que lhes é caro em vez de seguir a verdade, então deixem-nos ir!”

Poderá chegar a isso. Alguns poderão mesmo abandonar, mas isso não seria uma coisa boa. A Igreja é para os pecadores.

Não. Fazer pouco da derrota dos outros, perante verdades difíceis, é sobranceria. Todos precisamos de misericórdia e sabê-lo deve servir para nos tornar humildes.

Não foi por ver alguns a abandonar Cristo e a Sua Igreja que me lembrei da história do homem rico, foi porque é muito fácil ver-me a mim próprio no seu lugar: orgulhoso, satisfeito e indisposto a despojar-me daquilo que me impede de crescer em união com Deus.

O que a Igreja pede aos católicos com atração pelo mesmo sexo pode ser simplesmente e claramente a castidade – mas isso não o torna fácil. Deus oferece a sua misericórdia a todos, mas a sua oferta de misericórdia não nos poupa às escolhas difíceis. De certa forma, a sua maior misericórdia é mesmo essa escolha, ele oferece-nos uma saída, por mais estreita que possa ser, em vez de nos deixar como somos. E embora Ele nos olhe e nos ame, como com o homem rico, deixa ao nosso critério aceitar essa oferta. Ou não.

Só de pensar nisso devemos tremer.

Nas semanas e nos meses que se seguem vai haver muita discussão sobre esta declaração da CDF. Haverá muitas verdades difíceis para defender e argumentos a expor. A questão entrará sem dúvida nos nossos debates políticos: basta pensar no “Equality Act” que está atualmente a ser discutido pelo Congresso. E é natural que continue a gerar mal-estar entre católicos.

Mas se o pecado fomenta o pecado e limita a virtude, então o amor alcança o oposto. Por mais bem-vinda que seja a clareza da resposta da CDF, essa clareza não nos absolve do trabalho de amar aos nossos inimigos, quanto mais os nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Deixamos passar essa oportunidade à nossa conta e risco.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Março de 2021)

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