quarta-feira, 31 de março de 2021

Barrabás: Um Exame de Consciência da Semana Santa

Pe. Paul Scalia

Nas suas respetivas narrativas da Paixão do Senhor, todos os quatro Evangelhos referem o facto de a multidão ter preferido Barrabás a Jesus. A escolha surge no final da tentativa, meia irresoluta, de Pôncio Pilatos de libertar Jesus. É o momento em que a multidão rejeita definitivamente Cristo e abraça o mal. 

A narrativa capta o pecado humano em poucos versos. Primeiro Pilatos coloca diante da multidão “Jesus Barrabás” (Mt. 27,17) – isto é, Jesus, filho do pai” – e depois Jesus o Filho eterno do Pai. A multidão é chamada a escolher o verdadeiro filho do Pai ou a sua contrafação, a verdadeira filiação ou a falsa. A escolha da contrafação e do falso resume o nosso estado pecaminoso.

Nas liturgias de Domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa a congregação pede a libertação de Barrabás. Ao desempenhar esse papel no drama, o povo de Deus está também, de certa forma, a fazer uma confissão. Porque na verdade escolhemos Barrabás. Preferimos o falso filho do pai ao filho de Deus. Tal como os israelitas um dia “trocaram a sua glória pela imagem do Touro que come relva” (Salmos 106,20), também nós preferimos uma pseudofiliação em vez da “Glória que em nós será revelada” (Rom. 8,18). Escolhemos ser filhos no espírito de Barrabás e não de Cristo.

Quem é este que escolhemos? Barrabás é descrito alternadamente como um rebelde, um assaltante e um assassino. Estas acusações não são mutuamente exclusivas. Cada uma delas ilumina uma dimensão diferente da nossa pecaminosidade. E seguem-se muito bem uma à outra. Primeiro, como disse C.S. Lewis, “Não somos meramente criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas; somos rebeldes que devem depor as armas”. A nossa insistência por autonomia total, de sermos uma lei para nós mesmos – para ser como Deus (Gen. 3,5) – não pode existir na ordem de Deus. É rebelião aberta.

E somos também assaltantes. Tomámos os dons e a glória de Deus para nós mesmos. Tudo o que somos e temos é um dom de Deus a ser oferecido. Mas mantivemos estas coisas como nossas possessões, para nosso propósito e glória. E gabamo-nos delas como se fossem as nossas conquistas.

E tudo isto faz de nós homicidas também. Deus é a condenação e repreensão final e o travão para a nossa rebelião e o nosso roubo. Não podemos continuá-los se ele estiver em cena. Para preservar a nossa autonomia e a nossa glória temos de nos desfazer dele. O mundo moderno não é mais que esta verdade escrita em letras garrafais. Mas cada um de nós vive-a pessoalmente.  

No fundo a escolha entre Jesus Barrabás e Jesus Cristo é uma escolha entre a nossa autopreservação e o dom de nós mesmos. É a escolha fundamental que o Senhor articula repetidamente e à qual regressa pouco antes da sua Paixão. “Quem amar a sua vida perdê-la-á, e quem odiar a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”. (Jo. 12,25; conferir Mt. 16,25; Lc 17,33).

Barrabás é a imagem do homem que ama a sua vida e procura preservá-la a todo o custo. Rebeldia, furto e homicídio são apenas formas diferentes que arranjou para poder manter o seu pequeno reino seguro. Por outro lado, Nosso Senhor – espancado, flagelado e coroado de espinhos – é o homem que odeia a sua vida neste mundo. Perdeu tudo: poder, possessões, saúde, dignidade, amigos, etc., mas sabe que esta perda não é o final mas o começo, o plantar de uma semente.


Seguimos Barrabás quando abraçámos esta autopreservação desordenada. Podíamos dizer que é orgulho, mas na nossa cultura essa palavra implica tradicionalmente autoafirmação e exige reconhecimento. Embora possa ser ambas essas coisas, na maioria das vezes o nosso orgulho – essa preservação das nossas vidas, do nosso conforto, da nossa reputação acima de tudo – não é altivo e forte, mas incómodo e fraco. É no interesse da autopreservação que os apóstolos fogem e abandonam Nosso Senhor. É para preservar a sua vida que Pedro hesita diante da pergunta da criada e renega Cristo. É para preservar o seu reinado inconsequente que Pilatos entrega Cristo para ser crucificado. 

Este medo desordenado de perder a nossa autonomia, esta ânsia de preservar as nossas vidas, é a fonte de todo o pecado. Reagimos enfurecidos quando sentimos uma ameaça à nossa reputação e ao nosso ego. A nossa gula leva-nos a açambarcar mais e mais coisas, para nos protegermos e assegurar as nossas fronteiras. Deixamo-nos cair na preguiça para evitar Deus e preservar o nosso tempo como nosso. E por aí fora. Cada pecado tem esta característica de autopreservação.

Jesus Cristo é o verdadeiro Filho do Pai. O seu despojamento é o meio da nossa redenção e o padrão para vivermos a nossa filiação. “Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil. 2, 7-8). A conversão contínua do cristão requer esta repetida rejeição de Barrabás e o abraço a Nosso Senhor. A Semana Santa é o tempo certo para aprofundar essa conversão, para nos dedicarmos de novo ao verdadeiro Filho.

“A quem querem que eu liberte, [Jesus] Barrabás, ou Jesus, a quem chamam o Messias?” (Mt. 27,17). No passado temos clamado por Barrabás, para que também nós pudéssemos viver essa falsa filiação. Agora arrependemo-nos e clamamos por Cristo, para que sejamos libertados para seguir o verdadeiro Filho do Pai e o seu caminho de autodoação.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de março de 2021 em The Catholic Thing

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