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Wednesday, 3 March 2021

Quaresma no Deserto

Randall Smith
Enquanto suportava o frio gélido e a escuridão em Houston, na semana passada, sem eletricidade e sem água, ocorreram-me duas coisas. A primeira foi como na nossa era de abstração da realidade as pessoas sentem-se perfeitamente qualificadas para falar de “energia verde” apesar de não terem qualquer ideia de como funciona uma rede eléctrica complexa. Mas a segunda foi esta: “Bom, esta é uma forma interessante de começar a Quaresma”.

Estava a ler um maravilhoso pequeno livro do meu amigo Chris Dorn, chamado “Following Jesus on the Way:Biblical Meditations on Lenten Themes”, à luz da vela, apesar da escuridão e do frio, e lembrei-me de que a Quaresma é frequentemente comparada ao deserto, tanto o deserto que o povo judeu atravessou durante quarenta anos antes de poderem entrar na Terra Prometida e o deserto para onde Jesus foi durante quarenta dias e quarenta noites de oração e jejum.

Como diz, e bem, o padre Dorn, o deserto é ao mesmo tempo um lugar de purificação e de tentação. Na verdade é pouco provável alguém conseguir atingir a purificação sem a tentação, ainda que seja apenas a tentação de não se purificar.

O deserto também tem os seus demónios. Nunca me apetece comer carne mais do que nas sextas-feiras da Quaresma, tal como nunca tenho mais fome do que entre aquelas refeições ligeiras de Quarta-feira de Cinzas. Cristo venceu as suas tentações no deserto, escolhendo o caminho da Cruz acima das tentações do dinheiro, poder e prazer e também nós o devemos fazer.

“Os sinais dos tempos” sugerem que os Cristãos possam ter de passar um bom bocado “no deserto”. Só Deus sabe. Sabemos que nunca é fácil deixar para trás as “panelas de carne do Egipto”. Mas na verdade só isso nos dá liberdade.

A questão que a Quaresma nos obriga a enfrentar é esta: Estamos prontos? Estamos prontos para quarenta anos no deserto? Sessenta anos de exílio na Babilónia? Estamos prontos a abraçar o caminho da Cruz?

Muitos católicos partem do princípio que podem continuar a ser católicos devotos e manter o estatuto cultural e a riqueza de que gozam outros americanos. Mas será que é assim? Será? A Quaresma convida-nos a perguntar-nos a nós mesmos o que é que estamos dispostos a sacrificar para viver o chamamento do Evangelho. Um bom emprego? Uma casa num bom bairro? O carro e a roupa que condizem com a classe social com a qual gosto de me identificar? O meu estatuto social entre os meus vizinhos?

Pede-se aos católicos que “abdiquem” de coisas durante a Quaresma – alguma carne, talvez doces ou aquela colher de natas no café. São boas observâncias pessoais. Mas temos ainda outras obrigações públicas. “Dar esmola” é uma expressão dessa obrigação, mas há outras.

Ouçamos o que diz o profeta Isaías:

Como se fossem uma nação

que faz o que é direito

e que não abandonou

os mandamentos do seu Deus.

Pedem-me decisões justas

e parecem desejosos

de que Deus se aproxime deles.

“Por que jejuamos”, dizem,

“e não o viste?

Por que nos humilhamos,

e não reparaste?”

Esta é a queixa de Israel. Será a nossa? Eis a resposta do Senhor.

No dia do vosso jejum

fazem o que é do vosso agrado

e exploram os seus empregados.

O vosso jejum termina em discussão e rixa

e em brigas de socos brutais.

Vocês não podem jejuar como fazem hoje

e esperar que a vossa voz seja ouvida no alto.

Será esse o jejum que escolhi,

que apenas um dia o homem se humilhe,

incline a cabeça como o junco

e se deite sobre pano de saco e cinzas?

É isso que vocês chamam jejum,

um dia aceitável ao Senhor?

O jejum que desejo não é este:

soltar as correntes da injustiça,

desatar as cordas do jugo,

pôr em liberdade os oprimidos

e romper todo jugo?

Não é partilhar sua comida

com o faminto,

abrigar o pobre desamparado,

vestir o nu que encontram,

e não recusar ajuda ao próximo?

Aí sim, a vossa luz irromperá

como a alvorada,

e prontamente surgirá a vossa cura.

Então do que estamos dispostos a abdicar nesta Quaresma? Que esmola estamos preparados para dar?

Estamos dispostos a abdicar do nosso individualismo atomizado que nos impede de pensar que devemos algo mais aos outros do que a civilidade mais básica?

Estamos dispostos a abdicar da “liberdade de todos os constrangimentos” que nos permite fazer tudo aquilo que queremos, independentemente das necessidades dos outros, livres de obrigações para com eles?

Estamos dispostos a abdicar do nosso partidarismo hipercrítico? Da nossa revolta e da nossa amargura para com toda a gente que não vê as coisas como nós vemos e não pensa da mesma forma que nós?

Estamos dispostos a abdicar dos prazeres de indignação presunçosa sobre as falhas dos outros e preocupar-nos mais com a trave no nosso olho em vez do cisco no olho do outro?

Estamos dispostos a desistir de trabalhar em primeiro lugar por nós mesmos e pelos nossos objetivos, e de trabalhar ao invés com e pelos outros, atendendo às suas necessidades, esperanças e desejos, tanto quanto os nossos?

Estamos dispostos a deixar-nos das desculpas engenhosas que fazemos para nós mesmos para nos permitirmos violar sejam quais forem as normas que decidimos que não queremos, enquanto mantemos em vigor aquelas que obrigam aos outros?

Que artifícios próprios estamos dispostos a deixar para trás para abraçar as virtudes da caridade e da dádiva altruísta de nós mesmos aos outros?

Faço estas perguntas porque tudo indica que estamos prestes a entrar num longo período no deserto. Quanto tempo, não sei. Mas já ouço muito queixume. Demasiado dele vem de mim. Por isso talvez valha a pena lembrarmo-nos, agora que começamos esta caminhada para o deserto, que não existe outro caminho do que aquele da Cruz. E que a liberdade da Terra Prometida não é para aqueles que sonham com as panelas de carne no Egipto, nem os dons do Reino Deus são para aqueles que gostam do sentimento de poder que acompanha a indignação presunçosa.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 7 November 2018

Leigos Preocupados e Sacrifício Espiritual

Pe. Bevil Bramwell
Ao longo destes dias muitos padres têm recebido mensagens de pessoas preocupadas com o estado da Igreja. É uma questão grande, para a qual não temos respostas imediatas nem muito confortantes. Muitas pessoas estão a par da situação: redes de padres homossexuais; abusos sexuais de crianças e jovens adultos; a deturpação da doutrina; a incapacidade dos bispos de responder à crise; sinais confusos de Roma.

Os leigos têm todo o direito a estarem horrorizados – até zangados – com tudo isto. Mas algumas coisas não mudaram, como por exemplo o facto de continuarem a ser baptizados e crismados. Chegou a altura em que vamos ver do que são feitos os leigos.

Os sacramentos do Baptismo e do Crisma significam que os leigos são membros adultos da comunidade católica, responsáveis pela “prática da Fé” – palavras sugeridas para as homilias nos baptismos.

A prática da fé envolve tudo o que tem a ver com a nossa adesão pessoal a Jesus Cristo, tornando a comunidade cristã uma realidade viva e participando na missão redentora da Igreja. Isto envolve aquilo que o Vaticano II e a tradição descrevem como “sacrifício espiritual”.

O sacrifício espiritual é uma opção espiritual interior e positiva do cristão individual. Trata-se da atitude básica para confrontar qualquer crise, incluindo a actual.

O primeiro passo é não tratar a pertença à Igreja como se fosse um clube, mas reconhecer os elos espirituais profundos que nos ligam. Entre outras coisas isso implica não abandonar a Igreja, amuado – mas caso esteja a pensar em fazê-lo, talvez queira averiguar primeiro o registo de abusos na igreja ou instituição secular a que pensa aderir.

Os sacrifícios espirituais interiores não dependem do clero, nem de Roma. São sacrifícios necessários para edificar, ao mesmo tempo, uma vida pessoal de virtude, a vida da comunidade eclesial e para fazer chegar mais longe a missão da Igreja.

O ensinamento no Catecismo é mais que suficiente para ajudar as pessoas a compreender as virtudes de uma vida católica, que implica tentar conformar tudo o que fazemos ou dizemos à verdade divina – isto é, procurando viver uma vida inteiramente cristã e alcançando a santidade (ver a III parte do Catecismo). Quando os leigos aplicam esse ensinamento, então mostram do que são feitos!

Depois temos a participação na vida dos sacramentos. Também isto envolve o sacrifício espiritual, na medida em que a pessoa se associa às orações comunitárias e responde vivamente com o seu “ámen” às orações do sacerdote. Podemos participar nas celebrações eucarísticas independentemente das crises na Igreja.

A Eucaristia é o momento certo para oferecer o sacrifício perfeito ao Pai. Não há crise que lhe possa tocar. A Eucaristia é a principal realização temporal do que significa a Igreja. Juntamo-nos de forma ritual para oferecer louvor e adoração e para pedir ajuda a Deus, a razão principal da nossa existência.

Nas nossas respostas à actual crise católica não devemos cair na forma secular e revoltada de comunicar que vemos à nossa volta. A crise não é uma oportunidade para birras adolescentes. É necessário um grande e constante sacrifício espiritual para nos juntarmos e comunicarmos como cristãos – sempre, em todos os assuntos.

O equivalente católico a “reuniões de condomínio” poderá alcançar alguma coisa, mas não resolve os muitos desafios profundos que enfrentamos, a não ser que também seja espaço de oração. A revolta legítima poderá levar um bispo a despertar para as suas responsabilidades doutrinais e morais. Mas a solução a longo-prazo exige uma mudança de atitude espiritual que conduz tanto a uma mudança de comportamento como a uma vontade de remediar as muitas más escolhas feitas no passado.

Outro sacrifício importante para os leigos é estar mais bem informado – e com isso não me refiro à revelação de estatísticas sobre abusos ou assuntos clericais. Estou a falar em estar bem formado interiormente sobre como se pode ser um leigo católico em pleno. Como é que eu participo nesta Igreja pecaminosa, como santo, em vez de me fechar em copas e esperar que a crise passe?

Quanto mais compreender isto, melhor se aguentará como leigo e poderá questionar o clero. Tome nota, contudo, que a maioria do clero está tão enfurecido como você sobre o abuso de jovens, mas também sobre o abuso da própria Igreja. Basta a colaboração de poucos padres para esconder um caso de abusos ou para promover um bispo abusador, da mesma maneira que basta a colaboração de poucos leigos para esconder os abusos numa família, que é onde acontece a maior parte dos casos. Saiba que a maior parte do clero está firmemente do seu lado.

Um outro sacrifício envolve aceitar que esta crise está para durar. Há cinquenta estados nos Estados Unidos e a informação sobre cada um vai sair gota a gota, ao longo dos próximos anos. Mais, grande parte da crise que já passou não pode ser “resolvida”. Sejam quais forem as novas políticas ou as sanções administrativas ou criminais impostas, em última análise a única resposta plena para este tipo de pecado é o arrependimento e a reparação.

Agora é tempo de muita penitência, jejum e oração. Os leigos devem praticar estas coisas também, porque desempenham um papel tão importante como qualquer outra pessoa neste processo: “se algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos se, alegram” (Lumen Gentium).


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 21 de Outubro 2018 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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