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Thursday, 7 September 2023

Józef e Wiktoria Ulma e filhos, orate pro nobis

Regressado de férias estava a pensar sobre o que é que deveria escrever neste dia em que recupero a actividade da Actualidade Religiosa. Não faltam possibilidades! O novo Patriarca de Lisboa e a viagem do Papa à Mongólia são duas das mais evidentes, mas um dos objectivos da Actualidade Religiosa é de fazer chegar aos meus leitores informação e perspectivas que não encontram facilmente noutro lado. É por isso que hoje decidi escrever sobre a família Ulma.

Józef e Wiktoria Ulma casaram em 1935 na Igreja de Santa Doroteia, na aldeia de Markowa, na Polónia.

Quatro anos mais tarde começou a Segunda Guerra Mundial, precisamente com a invasão da Polónia pela Alemanha Nazi.

Em 1942 os Ulma já tinham vários filhos quando oito judeus – os seis membros da família Szall e as irmãs Goldman – vieram pedir ajuda para se refugiar dos nazis, que estavam a proceder à captura e assassinato sistemáticos dos judeus naquele país.

Józef e Wiktoria tinham todas as razões do mundo para dizer que não. Já tinham assistido à matança dos judeus de Markowa no Verão de 1942, sabiam como os nazis eram implacáveis e sanguinários. Ainda por cima tinham filhos com que se preocupar, mais as suas próprias vidas para salvaguardar. Todos sabiam que albergar ou auxiliar judeus era um crime punível com a morte.

Todavia, eles abriram a sua casa àquelas famílias.

Ao longo destes últimos anos tenho lido bastantes livros sobre este período da história, incluindo um livro perturbador sobre os homens que compunham os pelotões de polícia alemã que eram responsáveis por prender e executar judeus em massa na Polónia, um livro quase enciclopédico sobre a perseguição nazi aos católicos na própria da Alemanha e outro sobre pessoas comuns que resistiram aos nazis na Alemanha também. É muito simples dizer que os Ulma arriscaram as suas vidas para salvar judeus porque eram católicos, e porque os católicos são chamados a esse tipo de sacrifício. Mas é demasiado simples. A Polónia estava repleta de católicos naquele período, como está agora, e embora haja muitas histórias de homens e mulheres que arriscaram ou deram mesmo a vida para salvar quem era injustamente perseguido – sendo que pelo menos 1000 polacos não-judeus foram executados pelos nazis por essa razão – também não há falta de actos terríveis de violência levados a cabo contra judeus por cidadãos normais, ou de pessoas que denunciaram aqueles que escondiam os judeus.

Porque é que os Ulma eram diferentes? A sua fé era mais profunda? Acho que não será só isso. A meu ver há aqui um factor importante de decisão racional, assente, certamente – sobretudo neste caso – numa fé profunda, que sabemos que os animava.

Eu acredito que a dada altura os Ulma tiveram de pesar aquilo que lhes poderia acontecer caso fossem apanhados e tomaram uma decisão firme de que estavam dispostos a abraçar essa cruz caso lhes fosse apresentada. E acredito que é, acima de tudo, essa a lição que a sua história contém para nós.

Nós que temos a nossa fé, que fazemos a nossa vidinha, mas que, na pior das hipóteses, levamos com umas bocas nas redes sociais por sermos beatinhos, alguma vez parámos para pensar o que faríamos se estivéssemos numa situação em que fossemos chamados a pôr a nossa vida em risco para salvar inocentes? E não só a nossa vida, mas a dos nossos filhos? Não é bonito de pensar, mas penso que esse é um exercício a que todos nos devemos submeter de vez em quando, e idealmente devemos fazer as pazes com essa ideia, meditar nela e contemplá-la, para que se algum dia nos encontrarmos nessa situação termos mais armas espirituais para resistir ao instinto natural de preservação da nossa vida e da dos nossos filhos.

Claro que aqui estamos a falar de um gesto absolutamente radical, mas a verdade é que podem surgir nas nossas vidas muitas outras situações em que o que está em causa não é a vida, mas o bem-estar, o conforto material ou financeiro. Se fizermos este exercício para o sacrifício máximo, creio que estaremos em melhor posição para o podermos pôr em prática nos sacrifícios mais banais.

Em 1944 um polícia denunciou os Ulma aos nazis. Parece que era um homem que já tinha ajudado os Szall a troco de dinheiro e que estava a tomar conta dos seus pertences, e que assim fez quando eles tentaram reclamar as suas coisas.

No dia 24 de Março de 1944 a polícia alemã apareceu na casa dos Ulma. Os judeus foram localizados e executados. Depois toda a família foi reunida. Aparentemente, nesse momento Wiktoria entrou em trabalho de parto e deu à luz o seu sétimo filho. Sem qualquer piedade, os nazis executaram toda a família, incluindo o recém-nascido.

A execução dos Ulma causou tanto pânico entre os polacos que ainda estavam a esconder judeus, que na manhã seguinte foram encontrados 24 cadáveres de judeus nos campos. Tinham sido assassinados pelas mesmas pessoas que lhes tinham dado guarida durante 20 meses.

Em 1995 os Ulma foram reconhecidos Justos entre as Nações pelo memorial Yad Vashem, em Israel.

Mais recentemente, as autoridades locais usaram o exemplo da família Ulma como justificação para acolher ucranianos refugiados e continuar a apoiar a nação ucraniana durante a guerra.

Agora, no dia 10 de Setembro, toda a família Ulma será beatificada, depois de terem sido considerados mártires. Trata-se da primeira vez que uma família é beatificada em conjunto.

No nosso tempo, pelo menos aqui na nossa realidade europeia e ocidental, temos os nossos desafios, mas felizmente sabemos que não corremos risco iminente de vida ou de liberdade por viver a nossa fé. Mas nunca se sabe quão rapidamente essa realidade pode mudar e podemos ser chamados a actos de heroísmo altruísta, a que a Igreja chama santidade. Se esses dias chegarem, que tenhamos todos a força e a coragem dos Ulma e de tantos outros que se sacrificaram pelo bem em todos os períodos da história.

Wednesday, 24 August 2022

Mártir "in Odium Fidei"

Elizabeth A. Mitchell

Agosto é um mês de mártires. São Lourenço, São Bartolomeu, São João Baptista, São Sisto II e companheiros, Santos Ponciano e Hipólito, São Maximiliano Kolbe, Santa Edith Stein. O poder do martírio é sublinhado no Catecismo da Igreja Católica: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte.”

O padre Steven Payne, O.C.D., que é presidente do Instituto Carmelita da América do Norte, escreveu, referindo-se a Edith Stein, que o testemunho do mártire é “o último capítulo que deve ser vivido, escrito, falado com o seu sangue”.

A questão do martírio de Edith Stein pela Fé Católica é essencial para compreender o testemunho dos que foram mortos por regimes autoritários, a quem São João Paulo II chamou “os novos mártires”. Apesar de a Causa de Canonização de Edith Stein ter começado por se basear apenas nas suas virtudes heroicas de fé, esperança e caridade, surgiram depois outras provas, nas primeiras fases do processo, que comprovam que Stein foi morta in odium fidei, por ódio à fé. A sua causa foi então reaberta como uma Causa de Martírio.

Porque é que Stein merece reconhecimento especial por uma morte que sofreram tantos milhões de judeus? O que é que faz da sua morte uma causa de santidade, comprovada num processo canónico da Igreja Católica? A resposta está nos motivos que levaram ao martírio de Stein.

O Positio super martyrio et super virtutibus canonizationis servae Dei Teresiae Benedictae a Cruce, que documenta o martírio de Stein, revela que embora a causa “informal” do martírio de Stein se “apresente como a união fundamental do ódio dos nacional-socialistas contra o Catolicismo e o Judaísmo”, a “causa formal e imediata da deportação e consequente homicídio dos judeus católicos na Holanda foi a vontade de castigar a Igreja Católica pelo seu protesto, e por isso tratou-se de odium fidei e não de ódio racial”.

A distinção entre a causa formal e informal de morte de Edith Stein é fundamental. Ela morreu por ódio à fé, uma qualificação necessária para ser considerada mártire católica.

No domingo, 26 de julho de 1942, foi lida de todos os púlpitos de igrejas católicas na Holanda uma carta pastoral a condenar a deportação dos judeus, num acto coordenado de resistência da Igreja Católica da Holanda. A carta é um protesto claro e directo contra as medidas antissemíticas em vigor na altura.

As comunidades eclesiais da Holanda, abaixo assinadas, estão profundamente abaladas pelas medidas levadas a cabo contra os judeus na Holanda, que os excluíram da participação na vida normal da sociedade, e foi com horror que soubemos das mais recentes ordens segundo as quais homens, mulheres, crianças e famílias inteiras devem ser deportadas para o território do Reich Alemão.

A retaliação nazi contra este desafio da Igreja Católica da Holanda foi rápida e letal. No dia 2 de Agosto foi foram arrebanhados judeus, com destaque para os que se tinham convertido ao catolicismo. Entre os que foram detidos estavam Stein e a sua irmã Rosa.

Todos os membros não-arianos de todas as comunidades religiosas holandesas foram detidos e levados. Em Echt ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Às cinco da tarde as irmãs tinham-se reunido no coro para meditação. A irmã Benedita estava a ler o ponto para a meditação quando se ouviu tocar duas vezes à porta. Estavam dois oficiais a perguntar pela irmã Stein.

A disponibilidade de Stein para o martírio, e a sua união interna com Cristo ao dar a vida por Ele são mais elementos críticos para o reconhecimento de Stein como mártir da fé católica.

Em 1933 ela tinha escrito uma carta tocante a Sua Santidade o Papa Pio XI, avisando que o silêncio perante a perseguição dos judeus pelo Nacional Socialismo abriria caminho para futura perseguição da fé cristã.

Depois da Noite de Cristal de 1938 Stein foi transferida de Colónia, na Alemanha, para o Carmelo em Echt, na Holanda. Quando foi chamada à sede da Gestapo em Maastricht, para ser interrogada, entrou na esquadra e saudou os oficiais presentes com a corajosa proclamação: “Louvado seja Jesus Cristo”.

A biógrafa irmã Teresia Renata Posselt O.C.D. recorda: “Admirados com esta saudação os oficiais olharam para cima, mas não responderam. Mais tarde Stein explicou à reverenda madre que se tinha sentido impelida a agir daquele modo – sabendo perfeitamente que era uma imprudência, do ponto de vista humano – porque entendia claramente que esta não era uma mera questão política, mas parte do combate eterno entre Jesus e Lúcifer.”

Detida no dia 2 de Agosto, de 1942, durante a retaliação nazi contra os fiéis católicos na Holanda, Stein foi transportada para uma série de campos de detenção, até chegar a Auschwitz. Quando a carruagem em que ela viajava chegou à estação de Schifferstadt, Stein enviou uma mensagem da plataforma para as freiras do Convento Dominicano de Santa Madalena, ali perto, em Sprayer. A sua mensagem revelou-se profética: “Grüβe von Sr. Teresia Benedicta a Cruce.  Unterwegs ad orientem”. “Saudações da Irmã Teresa Benedita da Cruz. Rumamos para Oriente”.

Estas corajosas palavras, “Rumamos para Oriente”, poderiam ter sido proferidas por cada um dos augustos mártires. São João Baptista prepara o caminho para a Ressurreição e a Vida. São Maximiliano Kolbe dá a vida por outro, no lugar de Cristo. O Sangue dos mártires papais é a semente da Igreja.

Por entre a escuridão do mal aparentemente omnipresente e omnipotente, estes santo testemunhos proclamam a Verdade, cada um no seu tempo. Com eles, também nós podemos dar a cara por Cristo no nosso tempo, oferecendo as nossas vidas in testimonium fidei.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 14 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Wednesday, 16 March 2022

Vendendo o Homicídio

Francis X. Maier

O que vou fazer aqui é publicidade pura, mas o produto merece. Se ainda não viu a curta-metragem “Perdoai as Nossas Ofensas”, na Netflix, que saiu no dia 17 de Fevereiro, arranje maneira de o fazer rapidamente. O filme tem pouco mais de 14 minutos e quase que parece um trailer para uma longa metragem. Nem se trata de uma obra de genialidade cinematográfica. O guião, a realização e a produção são muito simples, quase primitivos. E, contudo, como escreveu um crítico, está cheio de “notas de tensão, acção dramática e descompressão que normalmente esperaríamos num filme de visão mais alargada”. Enquanto “grande filmografia em pequena escala” é um sucesso. É por isso que é memorável.

Dezenas de filmes têm sido feitos sobre a tragédia do Holocausto ao longo dos últimos 70 anos. Mas poucos examinaram o programa que antecedeu a Solução Final e permitiu aperfeiçoar as suas técnicas. Entre 1939 e 2945, a campanha Aktion T4, do Terceiro Reich, assassinou 300 mil pessoas com deficiências físicas e mentais através da eutanásia involuntária. Através da propaganda oficial do Estado, as matanças eram vendidas como um acto de compaixão pelas vítimas, de necessidade económica para a nação e geneticamente benéfico para o povo alemão.

“Perdoai as Nossas Ofensas” conta uma história muito diferente: a história de uma mãe que sacrifica a sua vida para ajudar o seu filho deficiente a fugir a uma campanha de desumanidade clinicamente organizada.

Como é que a nação supostamente mais avançada da Europa, do ponto de vista cultural, embarcou numa tarefa destas? É tentador explicar o programa Aktion T4 como sendo o fruto da ideologia Nazi. Mas isso seria incompleto. Grande parte do corpo médico alemão tinha “seguido a ciência” e aceitado como benéfica a esterilização forçada e a eutanásia voluntária, e não só, antes de Adolf Hitler chegar ao poder. Foram médicos e cientistas, e não os capangas do Partido Nazi, que abraçaram a ideia em primeiro lugar. O Reich simplesmente tirou proveito do seu apoio implícito e, por vezes, entusiástico. Pessoal médico falsificou milhares de certidões de óbito para disfarçar os homicídios da Aktion T4. E muitos desses mesmos médicos escaparam à justiça depois da guerra.

De início as matanças envolveram injecções letais individuais. Mas isso demonstrou ser uma solução morosa e muito desproporcional à dimensão do “problema” da deficiência. O programa evoluiu até chegar a um veículo selado que podia matar dezenas de deficientes e indesejados ao mesmo tempo, através do bombeamento de monóxido de carbono. Em locais como o asilo psiquiátrico de Hadamar, as vítimas – frequentemente descritas como “cascas humanas” – eram gaseadas em massa numa cava disfarçada de balneário.

Na sua história brilhante, emocionante e profundamente perturbadora da Aktion T4, “Death and Deliverance”, o historiador britânico Michael Burleigh escreve que os deficientes eram despidos, pesados e examinados por um médico que escolhia uma “causa de morte” fictícia de uma lista de 61 factores. Depois

os doentes desciam uma dezena de degraus, em grupos de 60 de cada vez, e eram fechados na câmara de gás. Um médico posicionado na parte de fora ligava a válvula e o gás entrava por um cano. Longe de ser uma “morte tranquila” as vítimas experimentavam terror extremo, bem como todos os sintomas de envenenamento por dióxido de carbono. Depois de uma hora, restava o silêncio.  

Entrava então uma equipa de “desinfectadores” para desembaraçar os cadáveres. “Aqueles que tinham sido marcados de antemão como sendo de especial interesse científico”, nota Burleigh, “eram separados e levados para uma sala de autópsia ali perto. Os seus cérebros eram depois enviados para clínicas universitárias em Frankfurt e Würzburg”. Depois de se retirarem os dentes de ouro dos mortos, os seus corpos eram incinerados num crematório. As cinzas eram espalhadas e os ossos esmagados numa prensa.

O Holocausto veio apenas aplicar este procedimento numa escala muito maior, com três inovações: balneários maiores, fornos maiores e gás Zyklon B.

Sondagens secretas feitas na altura pelo Reich revelaram que o povo alemão estava muito dividido e inquieto sobre o assunto. Quanto mais religiosa fosse a pessoa, o mais provável que se opusesse ao Aktion T4. Mas muitos cidadãos comuns apoiavam a campanha de eutanásia, desde que fosse apresentada como “voluntária” por parte das vítimas adultas, ou pelos pais, no caso de crianças.


A propaganda do Reich teve muito cuidado em suavizar a percepção pública da campanha, apresentando o programa de eutanásia da melhor forma possível. Isto incluía a produção de melodramas de qualidade como o “Eu Acuso”, um filme de resto desprovido dos toques nazis normais.

A história de “Eu Acuso” envolve um casal atraente e fiel. A mulher, que sofre de uma doença terminal, suplica ao seu marido para pôr fim ao seu sofrimento. Movido por amor e pelos seus apelos insistentes, ele mata-a e é imediatamente levado a tribunal como homicida. Mas sem qualquer arrependimento, o marido deslumbra o tribunal com palavras que vos poderão soar familiares.

Aqui estou eu, o acusado, e agora sou eu que acuso. Acuso os defensores de crenças passadas e leis antiquadas. Isto não diz respeito só a mim, mas a centenas de milhares de outros que sofrem sem esperança, cujas vidas prolongamos de forma antinatural, e cujo sofrimento aumentamos na mesma medida… E é sobre os milhões de pessoas saudáveis, que não podem ser protegidas contra doença, porque todos os recursos necessários estão a ser usados para manter vivos seres cuja morte seria para eles um alívio e para o resto da humanidade a libertação de um jugo… E agora, senhores juízes e jurados, façam favor de ler a vossa sentença!

Muitos clérigos católicos e luteranos resistiram ao programa de eutanásia como puderam. O mais vocal de entre eles foi o Beato Clemens August Graf von Galen, bispo de Münster. Mas muitos outros mantiveram-se em silêncio. Tipicamente as instituições de deficientes, que frequentemente eram de natureza religiosa, cediam à pressão do regime e entregavam os seus residentes para “tratamento”.

E de que serve recordar tudo isto? Aqui e hoje tal coisa não seria possível. Suicídio medicamente assistido? Milhões de abortos? Venda de restos mortais de fetos? Experiências com tecido fetal? Funcionários públicos católicos que ignoram ou permitem tais coisas? Aqui não seria possível!

Ou então, talvez tenhamos as nossas próprias ofensas que precisam de ser perdoadas.

Para mais informação sobre este assunto aconselho a ver o premiado (e angustiante) documentário Selling Muder: The Killing Films of the Third Reich, também escrito por Michael Burleigh e disponível no YouTube.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 5 de Março de 2022)

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Wednesday, 2 February 2022

O Jesus de Marc Chagall

Brad Miner

Em “Crucificação Branca” de Marc Chagall, que está actualmente exposta no Instituto de Arte de Chicago, Jesus é representado com um talit, o tradicional xaile de oração usado por judeus religiosos, sobretudo os hassidim. Tem também um pano na cabeça, ao estilo de um pastor. (Tradicionalmente, os homens judeus cobrem sempre a cabeça quando rezam.) Por cima da sua cabeça, praticamente ilegível, está a inscrição INRI em latim e em aramaico. Por baixo dos seus pés vê-se uma menorá. Chagall estava claramente a enfatizar o carácter judaico de Jesus.

O académico Ziva Amishai-Maisels, da Universidade Hebraica de Jerusalém, explica que a forma como Chagall escreve “Nazareno” (HaNotzri), em “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, é um trocadilho do artista, uma vez que Nazareno se tornou um sinónimo de “Cristão”. Assim, escreve Amishai-Maisels, Chagall “sublinha a importância de Jesus tanto para cristãos como para judeus, pois o Jesus judeu com a cabeça coberta e o xaile com franjas é também um cristão”. (Art Institute of Chicago Museum Studies, Vol. 15, No.2, 1991).

(É interessante referir que letra árabe “nun” foi usada pelo Estado Islâmico para identificar as casas de cristãos no Iraque e na Síria. Esta é a primeira letra de Nazareno e indica aqueles que devem ser exilados ou martirizados. A letra nun, ou nün, escreve-se de forma semelhante em Hebraico, Aramaico e árabe.)

Em 1938, quando Chagall pintou “Crucificação Branca”, os judeus da Europa estavam a começar a sofrer a pior perseguição da história. Os nazis tinham-se tornado o principal partido da Alemanha quatro anos antes e, pouco depois, Adolf Hitler foi feito Chanceler. Os judeus estavam a ser sistematicamente privados dos seus direitos civis desde 1934. Foi inaugurado o Gabinete de Política Racial – sede da “raça superior” – e nasceu a Lebensborn, que tinha o objetivo de promover a pureza racial, em parte pela procriação de mulheres arianas solteiras com homens arianos.

Hitler passou de Chanceler a Presidente, e depois a Führer. O campo de concentração de Dachau abriu em 1933. Destinava-se principalmente a prisioneiros políticos, mas em breve abriram outros campos, com o objectivo de levar a cabo o extermínio dos judeus e de outros povos “depravados” na Europa.

E ao longo dos anos trinta e grande parte dos quarenta, o mundo dormia.

Nesta altura Chagall vivia em Paris e as notícias que lhe chegaram do pogrom de Kristallnacht, e outros ataques aos judeus, foram o ímpeto para a criação de “Crucificação Branca”.

Na Noite de Cristal, de 9 para 10 de novembro de 1938, milhares de lojas, casas, hospitais e sinagogas judaicas foram atacadas pelo grupo paramilitar nazi Sturmabteilung (SA). Trinta mil homens judeus foram detidos e enviados para os campos. Tudo isto, e mais ainda, foi concentrado por Chagall em “Crucificação Branca”, embora as cenas do pogrom tenham sido transladadas para a sua terra natal de Vitebsk, actualmente na Bielorrússia.

Chagall estava bem ciente do perigo em que se colocava a si mesmo e à sua família com esta pintura, caso os alemães ocupassem Paris. Quando isso aconteceu, em 1940, os Chagall já tinham partido para Marselhas, onde foram detidos pelos nazis. Tal como no filme Casablanca, de 1942, os Chagall estavam a tentar chegar a Lisboa, onde esperavam assegurar uma passagem para Nova Iorque. Graças a Deus acabaram por conseguir, mas não sem que antes as suas pinturas, já encaixotadas, incluindo a “Crucificação Branca”, tivessem sido brevemente apreendidas, primeiro pelos alemães, no sul de França, depois por fascistas espanhóis, a caminho de Portugal.

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Chagall poderá ter sido ingénuo ao pensar que a União Soviética, outro bastião de antissemitismo, viria em socorro dos judeus da Europa, mas aparentemente é isso que podemos observar no canto superior esquerdo do quadro, na forma de uma turba com bandeiras encarnadas.

Os restantes tableaux que rodeiam Jesus são reconhecíveis, ainda que não nos seja possível entender todas as referências específicas. E não podemos culpar o artista por ter uma visão um pouco romântica da Rússia, o país onde cresceu. Afinal de contas, o “New York Times” também tinha. E Chagall tinha sido o Comissário das Artes em Vitebsk.

Quando deixou a União Soviética, em 1992, foi em parte porque tinha dado por si do lado errado daquilo que significava ser um revolucionário soviético. Nas palavras de Talya Zax, a esperança de Chagall era “um modelo da esperança do seu país, mais frágil do que qualquer dos revolucionários estava pronto a admitir. Tanto para ele como para eles, o equilíbrio não se poderia manter”.

O antissemitismo na Rússia era evidente para todos. Como escreveu Sarah Boxer – numa recensão a uma biografia de Chagall no “New York Times”, “a cegueira de Chagall em relação aos horrores soviéticos é quase patológica”.

Chagall criou pelo menos 100 cenas de crucificações ao longo dos anos, e fez vitrais para igrejas. Porém, nada sugere que fosse um cristão disfarçado. David Lyle Jeffreys nota, contudo, que Chagallera amigo próximo de Raïssa Maritain, mulher do filósofo Jacques Maritain (ambos católicos convertidos, ela do judaísmo ortodoxo, ele do agnosticismo protestante) e ela terá dito que Chagall sempre pintou “Christ étendu a travers le monde perdu” (Cristo estendido no mundo perdido).

Seja porque via Cristo simplesmente como um judeu extraordinário e ético do primeiro século, ou, menos provável, como o Messias, para Chagall Jesus sempre representou a esperança, o que significa que existe verdade na obra do pintor.

É certo que Chagall pintava Cristo sobretudo por razões políticas. Como diz o professor Amishai-Maisels, Chagall nunca tentou “representar o Messias cristão… mas o mártir judeu que não tem qualquer esperança de salvação”. Pelo menos não no mundo como Chagall então o via, um mundo em que os próprios cristãos tinham esquecido a mensagem de Cristo de paz e fraternidade.

Em todo o caso, trata-se de uma paixão que durou toda a vida. Chagall pintou a sua primeira crucificação, “Golgota”, em 1912 (actualmente no MoMA, em Nova Iorque). E continuou a pintá-las até ao início dos anos 70.

Hoje, judeus e cristãos, unidos na tradição bíblica, são cada vez mais sujeitos a perseguição, e não apenas no lugar onde ambas as religiões nasceram – as terras hostis em torno da Terra Santa – mas também nos nossos actuais impérios romanos, onde novos e seculares deuses surgem para desafiar o Senhor.

Resta apenas dizer que “Crucificação Branca” é uma das duas pinturas favoritas do Papa Francisco, a par de “O Chamamento de São Mateus”, de Caravaggio. O Papa tem bom gosto em arte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 1 de Fevereiro de 2022 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.


Wednesday, 1 December 2021

Gratidão, Expectativa e Advento

Francis X. Maier

Este ano o Natal – aliás, peço desculpa, a época festiva – começou no início de Outubro. Foi nessa altura que vi o meu primeiro anúncio pré-Black Friday. Sim, parece um bocado prematuro, mas nunca é cedo para começar a comprar coisas. E numa economia em crise a satisfação dos nossos apetites, comprando mais do que quer que seja, é uma espécie de juramento da bandeira patriótico, real e muito prático. Falando por mim, gosto sempre de preparar estes festejos de Outono lendo dois dos meus textos festivos favoritos.

O primeiro é um clássico ensaio de Natal de Neio Postman, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, sobre uma dona de casa despassarada que compra o detergente errado para as camisas brancas do marido. Podem ler aqui. Postman nota que “os anúncios de televisão são uma espécie de literatura religiosa. Comentá-los de forma séria é um exercício de hermenêutica, um ramo da teologia que se ocupa da interpretação e explicação das Escrituras”.

Os anúncios de televisão mais importantes, diz ele – e recordemos que o comércio de Natal tem um papel salvífico para muitas empresas – “assumem a forma de parábolas organizadas em torno de uma teologia coerente. Como todas as parábolas religiosas, propõem um conceito de pecado, apontam o caminho de redenção e uma visão do Céu. Também sugerem quais são as raízes do mal e quais as obrigações dos santos”.

Postman escreve:

Nas parábolas dos anúncios de televisão, a causa do mal é a Inocência Tecnológica, o desconhecimento dos detalhes dos sucessos benévolos do progresso industrial. Esse desconhecimento é a principal fonte da infelicidade, humilhação e discórdia na vida. E como se vê de forma poderosa na parábola da mancha, as consequências dessa inocência podem surgir a qualquer momento, sem aviso, e com toda a força da sua acção fulminante.

Acrescenta:

Não é fácil saber precisamente quando, como povo religioso, trocámos a nossa fé nas ideias tradicionais de Deus pela crença na força enobrecedora da Tecnologia, mas os anúncios de televisão constituem a maior fonte de literatura que possuímos sobre este nosso novo compromisso espiritual.

Tal como outros textos religiosos, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, agora já com cerca de 40 anos, perdeu algum do seu contexto social. As críticas feministas e os especialistas em estudos do género podem ser particularmente hostis quanto a esta parábola. Contudo, ela contém um ensinamento-chave da ortodoxia americana moderna: desejar bugigangas é bom; comprar coisas é ainda melhor; e quanto mais quantidade e mais novas forem as coisas, melhor. Menos que isso é suspeito.

Claro que há outra forma de pensar sobre a temporada que começa este domingo, se bem que menos comercial, em tempos conhecido como “Advento”. Incrivelmente ainda há alguns seguidores de Jesus que usam esse termo.

O que me leva a Alfred Delp e o Advento do Coração, o segundo texto que leio sempre nesta altura do ano, e que é muito mais emocionante.

Os americanos nunca viveram uma ditadura política. A última guerra travada no nosso solo acabou há mais de 150 anos. Logo, para muitos de nós é difícil imaginar a vida nos regimes totalitários do século passado. Mas esses regimes, e toda a selvajaria catastrófica que soltaram, foram muito reais, tal como documentado por testemunhas desde Elie Wiesel a Alexander Solzhenitsyn. O Terceiro Reich assassinou milhões de vítimas inocentes, incluindo milhares de mártires cristãos. Alguns, como Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano e teólogo, são bem conhecidos. Alfred Delp, o padre jesuíta alemão, estão entre os mais significativos.

Alfred Delp S.J.

O Advento do Coração é uma coleção dos textos de Delp sobre o Advento escritos entre 1933, o ano em que os Nazis tomaram o poder na Alemanha, e Dezembro de 1944, semanas antes de morrer. Os textos fazem parte de um diário da fé de Delp e revelam uma alma que, mesmo debaixo de opressão brutal, está recheado de uma claridade, caridade, coragem e beleza penetrantes. No seu ensaio “O Advento Eterno”, escrito em 1933 e dirigido aos jovens, Delp escreve:

Como devemos celebrar a festa

Para a qual nos apressamos?

Que aprendamos a celebrá-la

Livres da avalanche de ninharias

Com as quais, tão facilmente, se submerge

O grande sentido deste dia santo

Que possamos encarar de frente

A grande, santa realidade do Natal.

No Advento do Coração encontram-se ainda as notas de Delp sobre o Advento de 1935, bem como as homilias e meditações sobre o Advento dos anos entre 1941 e 1944 e ainda as meditações da prisão de Tegel, das últimas semanas da sua vida. Quando a guerra começou a virar-se contra a Alemanha, aumentaram os bombardeamentos aliados e a repressão Nazi contra a dissidência subiu de tom. Delp continuou a enfatizar três temas do Advento: gratidão pelo dom da vida; esperança e alegria na expectativa do Natal; e confiança inabalável na Segunda Vinda de Cristo, o seu triunfo e a sua justiça.

Em 1942-1943, com o apoio do seu superior jesuíta, Delp juntou-se ao Círculo Kreisau, um grupo de resistência cristã preocupado com a reconstrução de uma Alemanha desnazificada depois da guerra. Juntamente com muitos outros, foi detido em Julho de 1944 depois de uma tentativa falhada para matar Hitler, apesar de não ter tido qualquer envolvimento. Foi interrogado e torturado durante seis meses. Algumas das suas meditações de Advento foram escritas em algemas e contrabandeadas para fora da prisão no meio da roupa suja. Em Janeiro de 1945 foi condenado por traição e sentenciado à morte pelo juiz homicida Roland Freisler, que presidia ao Tribunal Popular do Terceiro Reich. No dia 2 de Fevereiro de 1945 foi enforcado. Menos de 24 horas mais tarde, num pormenor de justiça divina, Roland Freisler morreu, atingido diretamente por uma bomba americana.

Entre as palavras de Delp que nos chegaram encontram-se estas:

Jamais experimentaremos o nosso desejo primordial e saudoso por Deus de forma mais activa e desperta que nesta época… O Advento é o tempo do que busca Deus. O desejo original contido em cada coração humano é um grande impulso em direcção ao Deus distante e escondido, um anseio para caminhar naquela longínqua e esquecida pátria da alma. Esse anseio é o que a Igreja exprime, tanto na sua atitude interior como na liturgia desta época.

Alfred Delp morreu a acreditar nessas palavras. Podemos pelo menos tentar vivê-las neste advento e, ao fazê-lo, entrar no verdadeiro coração do Natal.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 26 de Novembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 28 July 2021

Comer os Deficientes? Sigam a Ciência!

Nota: Já tivemos algumas experiências desagradáveis com textos desta natureza, por isso deixamos um aviso. O leitor poderá encontrar neste artigo algumas notas de sátira, explicadas pelo conteúdo do último parágrafo. – Os Editores

A mente funciona de forma curiosa: as memórias e as ideias cruzam-se, conduzindo umas às outras. Como neste caso: eu adoro ficção científica, e por isso dei por mim, recentemente, a rever o filme Soylent Green, de 1973, com Charlton Heston e Edward G. Robinson. A história desenrola-se numa distopia marcada por sobrepopulação e desastre ecológico. Com a vida animal e vegetal destruída, as pessoas subsistem à base de bolachas orgânicas, Soylent Encarnado e Soylent Amarelo – manufacturadas pelo gigante transnacional, Soylent Industries.

A vida é dura e difícil. As pessoas são encorajadas a optar pelo suicídio assistido no centro de eutanásia local, em vez de morrerem nas ruas. Caso o façam, antes de serem terminados são recompensados com uma breve imagem da beleza assoladora do planeta antes de ter sido estragado. Mas surgem boas notícias. Um produto novo e melhor, Soylent Green, acaba de ser lançado, mais saboroso e nutritivo que os anteriores. O segredo, conforme descobre o nosso herói, desempenhado por Heston, está na fonte do novo produto: cadáveres humanos.

Naturalmente, o herói fica horrorizado. Mas pensando bem, será que isso faz sentido?

Pensemos por uns momentos. No estado de Washington já estamos a fazer compostagem com cadáveres. Outros estados estão a pensar no mesmo. A revolta contra o consumo daquilo que outrora foram pessoas é claramente uma norma cultural herdada de um passado pré-racional. Para que é que servem as ciências sociais, se não para nos conduzir da escuridão das patologias sentimentais, para a luz de um futuro mais racional? Não é essa a essência das nossas profissões de assistência?

Jonathan Swift compreendia isto. Ele era um homem à frente do seu tempo. No seu ensaio “Uma proposta modesta” (1729), que alguns idiotas insistem em chamar “sátira”, Swift avança, com muito bom-senso, uma solução para o problema da pobreza e sobrepopulação da Irlanda naqueles tempos. Os pais irlandeses deviam vender os seus bebés aos ricos para comer. Parece uma crueldade, mas o que é pior? A garantia de uma vida horrível de pobreza para recém-nascidos – que, de acordo com alguns bem-pensantes modernos nem serão bem “pessoas” ainda – ou melhorar os padrões de vida de toda a gente com um caminho lucrativo e satisfatório para a independência económica? Note-se ainda que este género de pensamento futurista faz sentido do ponto de vista ambiental e implica menos prejuízo para as preciosas espécies animais.

No século passado assistimos a alguns passos no sentido de uma sociedade orientada pela lógica, livre de emoções debilitantes. O Terceiro Reich é justamente odiado pelo seu lamentável registo de agressão e brutalidade, mas se deixarmos de lado por alguns momentos a invasão da Polónia e da Dinamarca, e já agora da Holanda, França, Noruega e Rússia – e o Holocausto, evidentemente – podemos ver um interesse genuíno, embora lamentavelmente estreito, pela ciência, sobretudo a ciências aplicada, por parte do regime.

Como Michael Burleigh demonstrou em “The Racial State” e “Death and Deliverance”, a causa da eutanásia obrigatória para os deficientes, doentes terminais e socialmente incapazes foi promovida não por políticos zelotes e ignorantes, mas pela comunidade médica e científica, numa campanha que data pelo menos desde 1900. Vários cientistas, médicos e intelectuais de outras disciplinas encontraram muito trabalho prático no regime Nacional-Socialista.

Charlton Heston em Soylent Green

Niall Ferguson escreve em “The War of the World” que 15 das 25 personalidades na equipa alemã que foi enviada para a Polónia depois da invasão de 1939 para limpar (a palavra “assassinar” tem uma conotação tão negativa) elementos negativos como judeus, padres e líderes culturais hostis eram homens com doutoramentos de universidades de topo na Alemanha. E é natural que assim seja. Grandes experiências como estas exigiam acções desagradáveis, mas determinadas por parte de pessoas com inteligência, visão e coragem para levar as coisas até à sua conclusão lógica. Tal como disse Lenine, numa circunstância semelhante (embora o comentário deva ser apócrifo): não se pode fazer uma omelete sem partir alguns ovos.

E sejamos sinceros: O Reich era muito bom a aprender com certas experiências. A remoção da sociedade alemã de mais de 300 mil pessoas consideradas, nos anos 30, como deficientes mentais, doentes sem esperança ou socialmente inúteis começou com uma operação desajeitada e cansativa de injeções individuais. Mas rapidamente se progrediu para campanhas de marketing articuladas e o uso de carrinhas móveis, e por isso mais baratas, para ajudar grupos inteiros a chegar à sua recompensa eterna com a ajuda de monóxido de carbono. Claramente foram aprendidas lições valiosas de organização, método e tecnologia que foram depois aplicadas noutros locais, de forma mais eficiente ainda e em muito maior escala.

Mas estou a divagar. Aqui na América, com excepção dos 60 milhões de abortos e mais algumas bizarrias, temos instintos mais decentes. E temos de falar sobre isso. A decência é, em si mesma, uma questão de consenso cultural, um artefacto ético flexível e – admitimo-lo – há muito que precisamos de actualizar o conceito. A verdade é que a “decência” é muitas vezes usada como mais uma desculpa humanitária para a cobardia, uma falta de vontade, herdada e pré-racional, para fazer o que é audaz, urgente e necessário.

Porque é que haveríamos de seguir o caminho egoísta da compostagem de cadáveres, quando temos milhões de pessoas a passar fome no mundo? Por falar nisso, a nossa indústria de aborto poderia, sozinha, alimentar a maior parte de África com os restos orgânicos. Desde que devidamente embalados, claro. E já agora, porque é que estamos a desperdiçar tanto tempo e recursos nos deficientes mentais e físicos, e nos doentes crónicos? O que é que eles contribuem para o mundo? Estamos diante de uma enorme fonte de alimentos e um grande passo em frente rumo à recuperação económica.

Temos de ver o Soylent Green através de olhos novos e limpos. Temos de seguir a ciência. Cantei comigo, irmãos! Sigamos a ciência.

Devo, contudo, terminar com um reparo. Eu e a minha mulher temos um filho com trissomia 21 e três netos com deficiências que vão do moderado ao grave. Estamos ainda, lamentavelmente, possuídos pelo obscurantismo religioso (Josué 24,15). Por isso, eu e os meus vamos servir os nossos amados – e não como patê. Devo admitir, porém, que não me importava de dar umas dentadas em alguns dos nossos gurus científicos e médicos.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 24 de Julho de 2021)

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Wednesday, 7 July 2021

Desde o seio materno sois meu protector

Randall Smith

A recente solenidade de São João Baptista apresentou-nos com várias leituras especialmente interessantes. Uma das opções começava com este texto de Jeremias 1,5:

“Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia;

antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado,

e te havia designado profeta das nações.”

O salmo responsorial era uma seleção de versos do Salmo 70, que contém as seguintes linhas:

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sede para mim um refúgio seguro,

a fortaleza da minha salvação.

Vós sois a minha defesa e o meu refúgio

meu Deus, salvai-me do pecador.

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,

a minha confiança desde a juventude.

Desde o nascimento Vós me sustentais,

desde o seio materno sois o meu protector.

A outra opção para o dia continha uma leitura de Isaías 49, que inclui estas duas passagens:

"O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome." (Isaías 49,1)

“Meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. 5.E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu servo” (Is 49, 4-5)

O salmo responsorial que acompanha essa leitura vem do salmo 138 e contém estas palavras populares: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso”. O sermão que ouvi naquele dia partiu dessas mesmas palavras. Estou sempre grato por qualquer homilia em que as leituras do dia são referidas, mas ainda estou por ouvir alguém comentar as seguintes palavras nesse mesmo salmo:

R.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,

vós me tecestes no seio de minha mãe.

Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Ambas estas escolhas de leituras fazem sentido enquanto percursoras do Evangelho do dia, que recorda a história da atribuição do nome a João. Quando Isabel anunciou que a criança no seu seio se chamaria João os membros da família reclamaram, dizendo que mais ninguém na família tinha esse nome. Quando recorreram a Zacarias, que tinha ficado mudo durante o seu serviço no Templo, ele escreveu: “O seu nome é João” e soltou-se-lhe a língua.

Que dizer de tudo isto? Bom, uma das conclusões mais óbvias a retirar é que os seres humanos são “conhecidos por Deus” desde o seio materno. Ou, para usar termos mais modernos, que os fetos são pessoas desejadas por Deus.

Estou ciente de que um argumento bíblico deste género não seria credível para os não-cristãos da nossa sociedade. Tudo bem. Mas e o resto de nós? E os católicos? E os nossos irmãos protestantes? O propósito da Reforma Protestante não era de defender as Escrituras como Palavra inspirada e autoritária de Deus?

O feto humano, Leonardo da Vinci
Vários estudiosos ao longo da história, tanto protestantes como católicos, analisaram as Escrituras com atenção, exaustivamente, procurando descobrir os seus segredos mais profundos na convicção de que as Escrituras contém palavras de verdade e de vida. Haverá algo escondido ou obscuro nas palavras que acabo de citar? Não será antes que a verdade é aqui proclamada como o soar de uma trompeta? Cristo é inteiramente homem e inteiramente Deus desde o momento da sua concepção, ou não é? Se é, então decorre que toda a humanidade também é inteiramente humana desde o momento da sua concepção. E se assim é, então essas vidas não podem ser “interrompidas” sem violar o mandamento “Não matarás”.

Espero que fique claro que não estou a fazer um apelo político. Coloco diante de qualquer leitor cristão esta opção existencial: As Escrituras contém a palavra inspirada de Deus e a verdade, ou não? E se a resposta for sim, estamos verdadeiramente a escutar a palavra de Deus para compreender os seus ensinamentos e cumprir as suas diretivas? Ou estamos a escolher as passagens que encaixam nos nossos preconceitos, evitando aquelas que nos chamam a algo que possamos não gostar? Estaremos nós, como tantos fizeram nos tempos de Cristo, a fechar os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações a uma mensagem que precisamos de escutar?

Porque se o ensinamento constante da Igreja, que há séculos que condena inequivocamente o aborto, pode ser ignorado e se mesmo as palavras das Escrituras se tornaram letra morta para nós, então já não sei mesmo o que é que estamos a fazer em todas estas igrejas “cristãs”. Estamos simplesmente a consolar-nos uns aos outros? A tentar ganhar pontos para merecer o céu? – Ou talvez apenas o clube de golfe local?

Se não nos deixamos mover pela palavra de Deus, e endurecemos os corações contra estes pequenos, podemos realmente apelidar-nos de “Cristãos” em qualquer sentido da palavra? Não somos culpados da “graça barata” de que nos avisou o grande Dietrich Bonhoeffer? Poderia algum dos nossos bem-aventurados antepassados que deu a vida em defesa da fé não ficar enojado pela hipocrisia desta geração, tal como nós sentimos vergonha da hipocrisia dos cristãos alemães que não levantaram a voz contra o assassinato de milhões de judeus?

O massacre de 66 milhões de crianças no ventre desde 1973, cada uma das quais (a fiar-nos nas Escrituras) é “conhecido por Deus” e “feito de modo maravilhoso” é tanto “apenas mais um assunto” como foi o massacre de 6 milhões de judeus. Ninguém quer saber das políticas laborais do Governo alemão em 1937. Tudo o que nos interessa é que os cristãos não fizeram o suficiente para proteger 6 milhões de judeus do genocídio.

Se fechamos os olhos a este massacre que se passa no meio de nós, se não vemos em cada uma destas crianças por nascer uma obra do Criador, podemos realmente enfrentar o Deus que nos fez a nós e a eles? Há mais em causa aqui do que uma guerra política entre republicanos e democratas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 4 de Julho de 2021)

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Wednesday, 9 December 2020

Um Gentio Justo

Brad Miner
Em 1943 houve uma revolta contra os nazis no gueto judaico de Czestochowa, na Polónia, que foi rapidamente esmagado pelas SS, matando muitos judeus. Muitos outros foram enviados para campos de morte. Os que permaneceram em Czestochowa foram postos a trabalhar como escravos até que o Exército Vermelho libertou a cidade. Nessa altura, como os nazis teriam dito com orgulho, a cidade estava quase Judenfrei.

A história mostrou que a “libertação” da Polónia foi, devido à sua subjugação pelos comunistas, um pau de dois bicos. A Polónia foi verdadeiramente, como disse o arcebispo Fulton Sheen, uma nação “crucificada entre dois ladrões.”

No dia 28 de janeiro de 1945 uma menina judia exausta e subnutrida, Edith Zierer, conseguiu chegar a uma estação do caminho de ferro que atravessava Czestochowa. Acreditando que a família estava viva em Cracóvia, entrou numa carruagem de transporte de carvão, de um comboio que, pensava, a levaria até lá. Mas o vento gélido que entrava pela porta aberta da carruagem era demasiado forte e por isso duas horas mais tarde, e com medo de congelar até à morte, aproveitou uma paragem e saiu. Coxeou até à plataforma da estação em Jedrzejow – uma decisão providencial, até porque Cracóvia ficava a sul o comboio estava a ir para leste.

Sentou-se sozinha na estação. Se alguém a viu, ignoraram-na, embora fosse evidente que era uma refugiada. Envergava a farda numerada, agora em trapos, que os sempre eficientes nazis obrigavam os trabalhadores escravos a vestir. Quem tivesse olhos na cara poderia ver que ela estava fraca e esfomeada. Mas ninguém a veio ajudar.

A Edite estava a começar a pensar que mais valia morrer, até que a Providência interveio. Como o seu sobrinho-neto, Roger Cohen, explica, “A morte aproximava-se, mas um jovem antecipou-se. ‘Era muito bem parecido’, recorda a Edith, e vigoroso”. De acordo com ela, o jovem rapaz perguntou-lhe o que é que ela estava ali a fazer. Ela disse-lhe. Outro relato diz que ele também perguntou o seu nome, mas quando ela lho disse desatou a chorar, porque durante tantos anos tinha sido apenas um número.

O homem afastou-se, mas voltou com uma chávena de chá. Enquanto ela bebia ele disse que também ia para Cracóvia e prometeu ajudar a levá-la até lá. Ela estava desconfiada. Ele voltou ao sítio onde tinha ido buscar o chá e voltou com pão e queijo. Isso ajudou, muito. O estranho, que conhecia as linhas e os horários, sabia que o próximo comboio para Cracóvia partia longe dali e tinha a sensação de que a Edith não tinha muito tempo.

“Tenta levantar-te”, disse ele. Mas ela não conseguia. Por isso ele pegou nela e carregou-a mais de três quilómetros até à estação certa. Mais uma vez encontrava-se numa carruagem de carvão. Estava lá outra família judia escondida. O jovem entrou também. Colocou a sua capa à volta de Edith e fez uma pequena fogueira dentro da carruagem, para proteger do inverno gelado. Finalmente apresentou-se.

“O meu nome é Karol Wojtyla”.

Agora sem a capa, Edith e a família judaica conseguiam ver que ele era um padre católico. Ou pelo menos assim lhes pareceu, por causa da batina. Na verdade, era ainda seminarista.

Quando chegaram a Cracóvia o Karol saiu do comboio, talvez para arranjar informação que pudesse ajudar a Edith a encontrar a família. Quando regressou ela tinha partido. Um dos outros passageiros tinha-lhe dito que fugisse, não fosse este padre querer metê-la num convento. “Fugi”, disse ela, “porque as pessoas começaram a perguntar porque é que um padre estava a viajar com uma menina judia”.

Ela recorda-se de se ter escondido atrás de um monte de vasos de leite metálicos quando o homem que a tinha ajudado começou a chamar por ela em polaco: “Edyta, Edyta!”

Como escreve o senhor Cohen:


Aqui estavam duas pessoas numa terra devastada, um católico de 24 anos e uma judia de 13. O futuro Papa já tinha perdido a sua mãe, o seu pai e o seu irmão. A Edith, embora ainda não o soubesse, já tinha perdido a mãe em Belzec, o pai em Maidaneck e a irmãzinha em Auschwitz. Não podiam estar mais sozinhos.

Naquele momento Edith Zierer fez aquilo que achou necessário para preservar a vida e a sua fé. Mas nunca se esqueceu de Karol Wojtyla.

Quando leu num jornal, em 1978, que este homem extraordinário tinha sido eleito Papa, chorou. Escreveu-lhe várias vezes, mas não recebeu qualquer resposta… Durante 20 anos. Mas em 1998 voltaram e encontrar-se no Vaticano. Naquele encontro, de acordo com Cohen, o Papa pôs-lhe a mão na cabeça e disse: “Volta, minha filha”, uma coisa estranha de se dizer meio-século depois.

Talvez se estivesse a recordar dos seus gritos ansiosos naquela estação em Cracóvia: “Edyta, Edyta! Volta, minha filha.” Ou talvez estivesse a convidá-la a voltar a Roma para outra visita. Isso nunca aconteceu, mas os dois voltaram a encontrar-se em 2000 no Yad Vashem, quando João Paulo fez uma peregrinação a Jerusalém. “Ele era um espírito irmão no sentido mais puro da palavra. Um homem capaz de salvar uma menina naquele estado, congelada, esfomeada e cheia de piolhos, e levá-la até segurança”, disse ela, depois de São João Paulo II morrer, em 2005. “Eu não teria sobrevivido se não fosse ele”.

Naquela visita a Yad Vashem o santo octogenário foi cumprimentar seis sobreviventes do Holocausto, uma das quais era a senhora Zierer. O Papa falou a cada um, até chegar a Edith. Então colocou uma mão sobre o seu ombro, enquanto conversavam. Ela diria depois que “não chorei no Vaticano, mas em Yad Vashem, desfiz-me em lágrimas”. 

Edith morreu em 2014. 


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Dezembro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 29 May 2019

Ruanda: Memória, Arrependimento, Reconciliação

Filip Mazurczak
Este ano assinalam-se 25 anos sobre o genocídio do Ruanda, um dos eventos mais horríveis de um dos séculos mais sangrentos da história. Ao longo de uma mera centena de dias os hútus naquela nação mataram até um milhão de tutsis enquanto o mundo se limitava a observar. Tristemente, alguns dos responsáveis eram católicos. Para que a reconciliação continue a avançar no Ruanda, convém reconhecer este facto desconfortável. Não nos devemos esquecer que a fé não foi causa do genocídio, mas serviu de inspiração para muitos actos de humanidade naquele inferno do Ruanda.

Há aqui várias lições a reter.

Em primeiro lugar, proporcionalmente, a aniquilação dos tutsis é comparável com os genocídios mais conhecidos do Século XX: a Shoah e o genocídio arménio. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazis alemães assassinaram dois terços dos judeus na Europa; e entre 1915 e 1923 os nacionalistas Jovens Turcos exterminaram três em cada quatro Arménios no Império Otomano. Entre Abril e Julho de 1994 os hútus mataram 70% dos tutsis no Ruanda.

Apesar de terem usado sobretudo armas primitivas, como batões e catanas, os hútus foram mais eficientes que o Terceiro Reich ou o regime Otomano. Estes levaram vários anos a eliminar a maioria dos judeus europeus ou arménios otomanos, mas aos hútus bastaram três meses para matar uma proporção semelhante de tutsis.

Talvez a lição mais preocupante sobre a natureza humana a retirar do inferno do Ruanda seja o facto de não serem necessários meios sofisticados como Zyklon B ou fuzilamentos em massa em locais como Babi Yar para cometer homicídio em larga escala. Para isso bastam corações inflamados de ódio.

Para os católicos o genocídio do Ruanda é especialmente preocupante. De acordo com o censos de 2002, quase três em cada cinco ruandeses identificava-se como católico. E mais, para além de leigos também houve padres envolvidos no caos provocado pelos hútus.

Este facto já foi aproveitado por polémicas anticatólicas. No livro “Deus não é Grande”, do já falecido Christopher Hitchens, o genocídio do Ruanda é apresentado como mais um dos muitos exemplos dos males provocados pela Religião. Mas essa não é a verdade completa.

Tal como noutros casos de vergonhas praticadas por católicos, devemos reconhecer estes factos trágicos e não os minimizar. Em 2017 o Papa Francisco pediu perdão pelo papel dos padres neste genocídio. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que é um tutsi e católico, chamou a esta declaração um “novo capítulo” no processo de cura.

No Catolicismo o reconhecimento dos nossos próprios pecados, o pedido de perdão e a penitência não só conduzem o pecador de volta a Deus, mas também pode ter consequências públicas. Em 1965, por exemplo, os bispos católicos da Polónia enviaram uma carta aos seus homólogos alemães, perdoando a nação alemã pela brutal ocupação nazi do seu país e pedindo eles próprios perdão. Apenas duas décadas depois de os alemães terem morto seis milhões dos seus concidadãos, muitos polacos acharam absurdo, e até obsceno, que os seus bispos achassem que tinham de pedir perdão por o que quer que seja.

Contudo, os bispos argumentaram que bastava que um polaco tivesse feito mal a um alemão, que isso já mereceria um pedido de perdão. A carta dos bispos lançou as bases para a reconciliação entre polacos e alemães e pouco depois o chanceler da Alemanha ocidental Willy Brandt reconheceu formalmente a fronteira do pós-guerra.

O bispo Célestine
Entre os promotores da carta estava o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, que mais tarde, já na qualidade de Papa São João Paulo II, compreendeu o valor de arrependimento público – não humilhação, mas uma expressão genuína de arrependimento – por males passados.

A honestidade histórica, porém, requer que nos recordemos também de outras coisas. Por exemplo, o genocídio do Ruanda não foi motivado principalmente por paixão religiosa; não foi como os massacres da Guerra dos Trinta Anos. Foi, antes, motivado pelo terrível tribalismo que habita a nossa natureza humana decaída e que desperta em tempos de conflito.

Durante a Segunda Grande Guerra, o regime Ustashe da Croácia assassinou 400 mil pessoas, na maioria sérvios, mas também judeus e ciganos. Os ustashe apelavam ao catolicismo popular para incitar ao ódio aos sérvios ortodoxos; porém, as suas tácticas genocidas contradiziam claramente a mensagem universalista do Evangelho. Tal como a Ustashe, os hútus também apelaram por vezes a sentimentos religiosos por razões de conveniência política. Contudo, os padres que foram cúmplices destes crimes agiram contra a fé católica.

À medida que o Ruanda entrou numa espiral de guerra civil, muitos tutsis católicos também morreram; aos hútus não interessava a denominação, mas a animosidade étnica. E embora alguns padres tenham sido cúmplices do genocídio, outros foram fiéis ao Evangelho, tal como o padre hútu Célestin Hakizimana, agora bispo, que escondeu cerca de 2.000 tutsis em Kigali e subornou as autoridades para não assassinarem os que estavam à sua guarda.

O genocídio do Ruanda também foi oficialmente condenado pela Igreja Católica, ao mais alto nível. O Papa São João Paulo II, que sempre se interessou muito por África, foi o primeiro líder mundial a descrever as matanças como genocídio e condenou-as repetidamente, começando apenas dois dias depois de terem começado. Isto contrasta fortemente com as Nações Unidas e com os estados ocidentais, que tinham a capacidade militar para salvar centenas de milhares de pessoas, mas nada fizeram.

Já Shakespeare dizia que o diabo pode citar as escrituras em seu favor. Alguns dos assassinos em massa hútus de 1994 não citaram propriamente as escrituras, mas apelaram ao tribalismo feroz, mascarado de catolicismo cultural. Mas o facto de que houve pessoas da Igreja entre os autores do genocídio permanece um grande escândalo. O testemunho dos Papas recentes, bem como do bispo Célestin Hakizimana mostram, contudo, que mesmo depois destes escândalos históricos, a substância não adulterada da fé também pode desempenhar um papel fundamental em curar as feridas de sociedades problemáticas e em restaurar a solidariedade humana.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



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