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Wednesday, 29 May 2019

Ruanda: Memória, Arrependimento, Reconciliação

Filip Mazurczak
Este ano assinalam-se 25 anos sobre o genocídio do Ruanda, um dos eventos mais horríveis de um dos séculos mais sangrentos da história. Ao longo de uma mera centena de dias os hútus naquela nação mataram até um milhão de tutsis enquanto o mundo se limitava a observar. Tristemente, alguns dos responsáveis eram católicos. Para que a reconciliação continue a avançar no Ruanda, convém reconhecer este facto desconfortável. Não nos devemos esquecer que a fé não foi causa do genocídio, mas serviu de inspiração para muitos actos de humanidade naquele inferno do Ruanda.

Há aqui várias lições a reter.

Em primeiro lugar, proporcionalmente, a aniquilação dos tutsis é comparável com os genocídios mais conhecidos do Século XX: a Shoah e o genocídio arménio. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazis alemães assassinaram dois terços dos judeus na Europa; e entre 1915 e 1923 os nacionalistas Jovens Turcos exterminaram três em cada quatro Arménios no Império Otomano. Entre Abril e Julho de 1994 os hútus mataram 70% dos tutsis no Ruanda.

Apesar de terem usado sobretudo armas primitivas, como batões e catanas, os hútus foram mais eficientes que o Terceiro Reich ou o regime Otomano. Estes levaram vários anos a eliminar a maioria dos judeus europeus ou arménios otomanos, mas aos hútus bastaram três meses para matar uma proporção semelhante de tutsis.

Talvez a lição mais preocupante sobre a natureza humana a retirar do inferno do Ruanda seja o facto de não serem necessários meios sofisticados como Zyklon B ou fuzilamentos em massa em locais como Babi Yar para cometer homicídio em larga escala. Para isso bastam corações inflamados de ódio.

Para os católicos o genocídio do Ruanda é especialmente preocupante. De acordo com o censos de 2002, quase três em cada cinco ruandeses identificava-se como católico. E mais, para além de leigos também houve padres envolvidos no caos provocado pelos hútus.

Este facto já foi aproveitado por polémicas anticatólicas. No livro “Deus não é Grande”, do já falecido Christopher Hitchens, o genocídio do Ruanda é apresentado como mais um dos muitos exemplos dos males provocados pela Religião. Mas essa não é a verdade completa.

Tal como noutros casos de vergonhas praticadas por católicos, devemos reconhecer estes factos trágicos e não os minimizar. Em 2017 o Papa Francisco pediu perdão pelo papel dos padres neste genocídio. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que é um tutsi e católico, chamou a esta declaração um “novo capítulo” no processo de cura.

No Catolicismo o reconhecimento dos nossos próprios pecados, o pedido de perdão e a penitência não só conduzem o pecador de volta a Deus, mas também pode ter consequências públicas. Em 1965, por exemplo, os bispos católicos da Polónia enviaram uma carta aos seus homólogos alemães, perdoando a nação alemã pela brutal ocupação nazi do seu país e pedindo eles próprios perdão. Apenas duas décadas depois de os alemães terem morto seis milhões dos seus concidadãos, muitos polacos acharam absurdo, e até obsceno, que os seus bispos achassem que tinham de pedir perdão por o que quer que seja.

Contudo, os bispos argumentaram que bastava que um polaco tivesse feito mal a um alemão, que isso já mereceria um pedido de perdão. A carta dos bispos lançou as bases para a reconciliação entre polacos e alemães e pouco depois o chanceler da Alemanha ocidental Willy Brandt reconheceu formalmente a fronteira do pós-guerra.

O bispo Célestine
Entre os promotores da carta estava o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, que mais tarde, já na qualidade de Papa São João Paulo II, compreendeu o valor de arrependimento público – não humilhação, mas uma expressão genuína de arrependimento – por males passados.

A honestidade histórica, porém, requer que nos recordemos também de outras coisas. Por exemplo, o genocídio do Ruanda não foi motivado principalmente por paixão religiosa; não foi como os massacres da Guerra dos Trinta Anos. Foi, antes, motivado pelo terrível tribalismo que habita a nossa natureza humana decaída e que desperta em tempos de conflito.

Durante a Segunda Grande Guerra, o regime Ustashe da Croácia assassinou 400 mil pessoas, na maioria sérvios, mas também judeus e ciganos. Os ustashe apelavam ao catolicismo popular para incitar ao ódio aos sérvios ortodoxos; porém, as suas tácticas genocidas contradiziam claramente a mensagem universalista do Evangelho. Tal como a Ustashe, os hútus também apelaram por vezes a sentimentos religiosos por razões de conveniência política. Contudo, os padres que foram cúmplices destes crimes agiram contra a fé católica.

À medida que o Ruanda entrou numa espiral de guerra civil, muitos tutsis católicos também morreram; aos hútus não interessava a denominação, mas a animosidade étnica. E embora alguns padres tenham sido cúmplices do genocídio, outros foram fiéis ao Evangelho, tal como o padre hútu Célestin Hakizimana, agora bispo, que escondeu cerca de 2.000 tutsis em Kigali e subornou as autoridades para não assassinarem os que estavam à sua guarda.

O genocídio do Ruanda também foi oficialmente condenado pela Igreja Católica, ao mais alto nível. O Papa São João Paulo II, que sempre se interessou muito por África, foi o primeiro líder mundial a descrever as matanças como genocídio e condenou-as repetidamente, começando apenas dois dias depois de terem começado. Isto contrasta fortemente com as Nações Unidas e com os estados ocidentais, que tinham a capacidade militar para salvar centenas de milhares de pessoas, mas nada fizeram.

Já Shakespeare dizia que o diabo pode citar as escrituras em seu favor. Alguns dos assassinos em massa hútus de 1994 não citaram propriamente as escrituras, mas apelaram ao tribalismo feroz, mascarado de catolicismo cultural. Mas o facto de que houve pessoas da Igreja entre os autores do genocídio permanece um grande escândalo. O testemunho dos Papas recentes, bem como do bispo Célestin Hakizimana mostram, contudo, que mesmo depois destes escândalos históricos, a substância não adulterada da fé também pode desempenhar um papel fundamental em curar as feridas de sociedades problemáticas e em restaurar a solidariedade humana.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 31 October 2018

Quando o Clero faz Coisas Más

Filip Mazurczak
Claramente o ano de 2018 não tem sido bom para a Igreja Católica. Com o caso do cardeal McCarrick, o relatório na Pensilvânia e escândalos em curso na Austrália, Chile, Alemanha e noutros lugares, controvérsias sobre homossexualidade e o Sínodo da Juventude, a cobertura na imprensa sobre a Igreja Católica tem focado sobretudo o abuso sexual por padres e o seu encobrimento por bispos.

Em vez de nos desencorajar na nossa fé, porém, estas revelações de maus condutos de homens e de mulheres na Igreja devem ser uma oportunidade para a nossa conversão pessoal, e um apelo ao testemunho cristão.

Quando lemos sobre os crimes cometidos contra jovens pelos padres, devemos manter as coisas em perspectiva. No seu estudo “Padres e Pedófilos”, o historiador e especialista em justiça criminal Philip Jenkins (um anglicano que abandonou a Igreja Católica há décadas e que, por isso, não pode ser acusado de preconceito a favor do Catolicismo), estimou que entre 1,5 e 3,5% de todos os padres nos Estados Unidos possam ter abusado sexualmente de menores.

Não faço ideia quais os dados correspondentes para clero de outras denominações, padres, treinadores, médicos ou outros que trabalham com jovens. Mas calculo que esses e outros grupos não se importariam de ter um número assim tão baixo.

Ao longo do ano passado aprendemos uma coisa que para muitos já era evidente, que Hollywood está repleta de predadores. As altas figuras de “Tinseltown” gostam de pensar que são muito superiores a nós, mas responderam aos crimes sexuais de Harvey Weinstein – olhando para o outro lado diante dos encobrimentos – de forma pouco diferente de alguns dos piores bispos em relação aos abusos sexuais praticados por padres.

Quando falamos destes escândalos com os nossos amigos não católicos, devemos informá-los destes factos, recordando-nos que uma das bem-aventuranças de Jesus é instruir os ignorantes. Ao mesmo tempo, porém, é compreensível que o mundo espere mais da Igreja Católica, que afirma ter sido fundada por Jesus Cristo. Ainda que todas as conferências episcopais do mundo adoptem procedimentos que evitem que cada homem com tendências malévolas tenha acesso ao seminário, e ainda que as autoridades civis e eclesiásticas respondam de forma imediata e severa às acusações de abuso – e espero que assim seja – continuará a haver maldade entre o clero.

A razão simples para isto está na nossa própria natureza. Por causa do pecado original, todos somos capazes de fazer mal ao nosso próximo. Os padres são homens e ao longo da história não há falta de casos escandalosos entre eles. Depois das Cruzadas, os Cavaleiros Teutónicos, uma ordem militar, utilizaram a espada para converter ao Cristianismo as últimas tribos pagãs dos Bálticos.

Durante a II Guerra Mundial um padre eslovaco, o demoníaco Monsenhor Jozef Tiso, chefiou um dos piores estados fantoche dos nazis. Apesar de frequentemente utilizarmos os termos “santo” e “pecador” como opostos, os santos também pecam. O que faz deles santos é o facto de terem consciência da sua natureza decaída e se confessarem muito mais frequentemente que a maioria de nós (São João Paulo II, por exemplo, confessava-se todas as semanas), e se esforçam por ser melhores.

Monsenhor Jozef Tiso
Devemos rezar pela conversão dos padres que espalham o escândalo, recordando-nos que mesmo os casos aparentemente mais graves são capazes de dar a volta às suas vidas e dar testemunho. Há um exemplo muito bonito no romance “O Poder e a Glória” de Graham Greene, sobre um padre que não tem levado a sério os seus votos de celibato e que tem um problema de álcool, mas que acaba por escolher o martírio no México da década de 1920.

Acima de tudo, quando ouvimos histórias de padres que dão mau nome à Igreja, devemos ser nós próprios a dar testemunho cristão a nível local, nas nossas famílias e no nosso trabalho, nas nossas universidades, entre amigos e onde quer que seja possível.

Quando a maior parte das pessoas ouve falar na Igreja pensam vem-lhes à cabeça imagens de bispos com mitras, a Basílica de São Pedro, ou possivelmente o pároco local. Mas os leigos também são Igreja. Para além dos generais em Roma e dos Coronéis que lideram as nossas dioceses, a Igreja é composta por mais de mil milhões de soldados rasos de Deus. Por isso, quando ouvimos dizer que há pessoas que estão a abandonar a fé por causa dos pecados dos membros da Igreja, em vez de nos limitarmos a criticar “os padres” ou “os bispos”, devemos perguntar se as nossas acções não feriram também os nossos vizinhos. Seremos nós bons mensageiros do ensinamento de Cristo nas nossas vidas diárias?

Se o mal feito por pessoas que afirmam ser católicas pode afastar as pessoas, então segue-se logicamente que o testemunho de católicos santos os pode atrair. O jornalista britânico Malcolm Muggeridge foi criado numa família ateia. Em 1969 viajou a Calcutá para fazer um documentário e escrever um livro sobre Madre Teresa e o seu trabalho entre os mais pobres. Muggeridge ficou de tal forma impressionado pelo seu testemunho que quando regressou a Inglaterra se converteu ao Cristianismo e, eventualmente, ao Catolicismo.

A maior parte de nós não somos capazes da caridade heroica de Madre Teresa, mas podemo-nos esforçar mais para viver melhor os Evangelhos no nosso dia-a-dia. Devemos examinar os nossos próprios pecados, confessar-nos e pensar no que fazer para sermos melhores católicos.

Quando ouvirmos falar de bispos ou cardeais que fazem coisas terríveis, esse pode ser o sinal para nos oferecermos para trabalhar num banco alimentar, ou num centro para deficientes. Se temos família ou amigos que lutam contra diversos problemas, mas com quem não falamos há algum tempo, então este é o momento para ligar. Se estamos de relações cortadas com alguém que nos é próximo, devemo-nos reconciliar. Mesmo as coisas mais pequenas, feitas com o espírito certo, são caridade católica em ação.

Para além de rezar, a maioria dos católicos leigos pouco pode fazer no sentido de influenciar a conduta da hierarquia e do clero (à excepção, porventura, daqueles que conhecemos pessoalmente). Mas nós somos parte da Igreja tal como eles e podemos, sem dúvida, afectar a percepção que algumas pessoas têm do catolicismo e talvez até, pelos desígnios insondáveis de Deus, contribuir para algumas conversões.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Outubro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 June 2018

De Tronco para o Trono?

(Clique para aumentar)
É já amanhã que Portugal “ganha” mais um cardeal. D. António Marto junta-se a D. Manuel Clemente, D. Manuel Monteiro de Castro e D. José Saraiva Martins. Destes apenas os primeiros dois são – ou serão – eleitores. Toda a cobertura, já sabe, na Renascença.

Em Tronco, aldeia natal D. António Marto, já se sonha com voos mais altos

Entretanto vão chegando reacções sobre outra nomeação importante, a do padre Tolentino a arcebispo e bibliotecário do Vaticano. D. Manuel Clemente revela-se “muito feliz” com o facto.

O Rei da Jordânia é o vencedor do Prémio Templeton deste ano.

A linha aérea nacional de Israel vai deixar de pedir a mulheres que mudem de lugar nos seus aviões para acomodar judeus ultraortodoxos que não queiram estar sentados ao lado de passageiras.

O movimento pró-vida precisa de se colocar acima das divisões confessionais e políticas se quer ter alguma esperança de obter vitórias duradoras. É a conclusão do artigo desta semana do The Catholic Thing, que todos devem ler.
                          
Termino com um convite a todos os que vivem na zona do Porto, para participarem na procissão do Triunfo, no próximo dia 14 de Julho. O convite está na imagem.

Tempo de Pregar aos Não Convertidos sobre o Aborto

Filip Mazurczak
Aqueles que acreditam no direito fundamental à vida tiveram duas grandes derrotas, em dois continentes diferentes, no espaço de menos de um mês. No dia 25 de Maio dois terços da população votou para revogar uma emenda constitucional que protege o direito à vida, abrindo caminho para aquilo que o Governo irlandês promete que vai ser uma das leis pró-aborto mais agressivas da Europa. Uma semana mais tarde o Congresso argentino votou por 129-125 a legalização do aborto até às 14 semanas de gravidez (para o diploma ganhar força de lei precisa de ser aprovado pela Câmara dos Deputados e ser promulgada pelo Presidente).

Claramente os pró-vida estão a perder a batalha de defesa da vida dos nascituros. Para ganharmos no longo prazo precisamos de criar um consenso social de que os nascituros merecem o direito à vida, um consenso que transcende as divisões políticas e religiosas.

O desastre irlandês tem sido apresentado como prova do recuo da Irlanda das suas raízes católicas, desde os anos 90. Na Argentina ainda há esperança de que a Câmara dos Deputados, que é mais conservadora que o Congresso, possa impedir a legalização do aborto. Mas mesmo que isso aconteça, há uma forte probabilidade de que seja uma vitória efémera: as sondagens mostram que 60% dos argentinos apoiam a lei do aborto, quase duas vezes os que se opõem (34%).

Mais, na Argentina, como na Europa e na América do Norte, as forças pró-vida estão muito proximamente ligadas ao catolicismo. E a Argentina é um dos países menos religiosos da América Latina, pelo que uma revolta popular anti-vida, e anti-católica, à irlandesa, parece ser provável num futuro próximo.

Internacionalmente, a maior fraqueza da causa pró-vida é a sua proximidade com o Cristianismo e a direita política. Claro que não é mau que as Igrejas – Católica, Ortodoxa e algumas protestantes (tal como judeus ortodoxos e alguns muçulmanos) – estejam na linha da frente na batalha pela vida. Pelo contrário, o Cristianismo volta a mostrar provas de que rejeita o Zeitgeist em nome de valores intemporais, tal como fez em 1537 quando a escravatura era uma prática comum, durante a colonização europeia das Américas e o Papa Paulo III emitiu uma bula a prescrever excomunhão para os responsáveis por essa prática odiosa.

O problema está no facto de que numa democracia pluralista nenhum líder ou partido irá governar para sempre. Helmut Kohl foi chanceler da Alemanha Ocidental durante 16 anos, mas mesmo esse seu domínio acabou eventualmente. Eu fiquei contente quando o Presidente Trump rescindiu a política da Cidade do México e promulgou outras políticas pró-vida. Mas o Trump também não vai durar para sempre.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países a posição das pessoas sobre o aborto está fortemente ligada à sua filiação política e religiosa. Nas últimas décadas isto acentuou-se ainda mais. O número de democratas pró-vida no Congresso actualmente, por exemplo, conta-se pelos dedos de uma mão, em comparação com mais de 100 nos anos 70. Para que a legislação pró-vida seja irreversível é necessário criar um certo consenso.

Para o fazer é preciso estendermos a mão às pessoas de boa vontade. Temos de começar pela base e explicar aos nossos amigos e familiares não conservadores e não cristãos porque é que somos pró-vida. O movimento pró-vida pode não ter a influência política e o financiamento generoso de que gozam a Planned Parenthood ou a Open Society Foundation de George Soros. Mas temos uma arma muito mais poderosa: A verdade.

Com os avanços na ciência, tecnologia e medicina, agora sabemos que o nascituro não é um aglomerado de células. As ondas cerebrais de um embrião são detetáveis às seis semanas após a concepção, bem dentro dos prazos legais para o aborto em quase todos os países ocidentais.

Pessoas intelectualmente honestas, que aderem aos conselhos de Sócrates de seguir as provas, seja para onde for que elas conduzem, serão levados pela lógica irresistível de que um nascituro é humano e, por isso, merecedor de protecção legal, independentemente do lado da barricada política em que se encontram ou do Deus, ou deuses, em que acreditam ou não acreditam.

O Hinduísmo pode não se opor ao aborto em termos absolutos (como comprova a legislação extremamente permissiva, que permite a prática até às 24 semanas nalgumas circunstâncias), mas Mahatma Gandhi, um hindu revoltado com a hipocrisia dos cristãos que colonizaram o seu país, disse que para ele era “claro como a luz do dia que o aborto é um crime”.

O falecido Nat Hentoff, crítico de música para o Village Voice – tudo menos um polo de conservadorismo social – era um judeu ateu libertário. Mas, sendo intelectualmente honesto, ele via que o aborto era um mal e opunha-se-lhe activamente. Há muitas mentes que, tal como Gandhi ou Hentoff, encontram-se em campos diferentes dos cristãos em termos políticos ou religiosos, mas têm a capacidade de ver o aborto como aquilo que é – se os informarmos.

Quanto mais pessoas dessas houver, mais pressão haverá sobre os políticos e a sociedade para condenar o aborto como uma violação dos direitos humanos mais básicos.

Imaginem que alguém vos dizia: “Pessoalmente, oponho-me ao tráfico de seres humanos, mas mais vale regulamentar a prática do que deixá-la acontecer de forma ilegal e insegura. E o Governo não tem nada que se meter nos assuntos privados dos traficantes. Devem deixá-los tomar as suas próprias decisões”.

O mais provável é que nunca tenha ouvido ninguém proferir sofismos deste calibre. Mas a maior parte das pessoas diz coisas muito semelhantes sobre a matança de humanos nascituros – humanos com cérebros, coluna vertebral e impressões digitais, que são capazes de sentir dor e, nalguns casos, de sobreviver fora dos úteros das suas mães.

A recente catástrofe na Irlanda e a tragédia em curso na Argentina mostram que devemos trabalhar para criar uma sociedade em que o aborto é visto como sendo tão inaceitável como o tráfico humano, e devemos pregar não aos convertidos, mas àqueles que, por causa das suas ideias sobre política ou religião, são nossos companheiros inesperados.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 February 2015

João Paulo II e Oscar Romero

Filip Mazurczak
Acaba de ser anunciado que o Papa Francisco irá beatificar o arcebispo Oscar Romero. E faz bem, uma vez que Romero era um santo pastor que foi morto, enquanto celebrava missa, por defender as vítimas da repressão no El Salvador, em 1980. Muitos meios de comunicação social, porém, vão utilizar a decisão do Papa Francisco como uma arma para atacar os seus antecessores. Os comentadores irão certamente ressuscitar um mito antigo: Que João Paulo II, cegado por um anticomunismo polaco e obscurantista, maltratou Romero. Deixem-me já desmontar esta fantasia antes que ganhe terreno.

No obituário publicado após a morte de João Paulo II, em 2005, John Allen Jr., uma das maiores vozes do catolicismo progressista americano, escreveu que o Papa “disciplinou pessoas que tinham arriscado as suas vidas para conquistar na América Latina as liberdades que ele queria para a Polónia. A forma como maltratou o arcebispo-mártir de El Salvador, Oscar Romero, é apenas um dos exemplos mais bem conhecidos.”

No seu livro “History of the Popes”, o jesuíta John W, O’Malley afirma que João Paulo II ficou “descontente” com Romero e só postumamente lhe prestou o devido respeito, abrindo a sua causa de beatificação.

Entretanto, no filme “Have no Fear: The Life of Pope John Paul II”, da ABC, o pontífice, representado pelo actor alemão Thomas Kretschmann, desanca Romero fanaticamente e diz-lhe para ser obediente a Roma. Só após o assassinato do bispo é que sente remorsos e vai rezar junto ao seu túmulo, em São Salvador.

Estes são apenas alguns exemplos de um mito duradouro de que João Paulo II maltratou Romero. Mas o que é que aconteceu de facto?

No diário de Romero há referência a duas audiências que João Paulo II lhe concedeu, em 1979 e 1980. Na primeira destas reuniões, Romero fala das dificuldades do seu ministério num país dilacerado pela violência política. João Paulo II ouve atentamente e compara estas experiências com as suas, da Polónia, mas aconselha “prudência”. Romero fica com a impressão de que o Papa o ouviu, mas mostra-se preocupado com a ideia de que os seus assessores lhe tenham dito coisas críticas sobre ele: “Embora a minha primeira impressão não tenha sido muito satisfatória, creio que a visita e a conversa foram muito úteis, uma vez que ele foi muito franco.”

Contudo, antes da segunda reunião, o Cardeal Eduardo Pironio, um colaborador argentino do Papa, fez um relatório muito elogioso sobre Romero. O Santo Padre encorajou o arcebispo a lutar com coragem, abraçou-o e disse-lhe que rezava por El Salvador todos os dias.

O futuro mártir ficou muito contente. No seu diário escreveu que sentia total aprovação do Papa e “confirmação e a força de Deus para o [seu] pobre ministério”. Disse ainda que esse dia tinha sido cheio de “grande satisfação e muitos sucessos pastorais”. Pouco tempo depois, Romero citou João Paulo II nas suas homilias quaresmais.

Após a morte de Romero, João Paulo II contrariou os prelados que o queriam representar como um comunista disfarçado. Aquando do seu assassinato, em 1980, enviou um telegrama a condenar o acto e mandou um seu representante pessoal, o cardeal mexicano Ernesto Carripio para presidir à missa do funeral.

Em 1983 visitou El Salvador. Os bispos latino-americanos suplicaram-lhe para não visitar o túmulo de Romero, mas durante o cortejo ele mandou desviar o papamóvel em direcção à catedral. Estava fechada, mas esperou teimosamente que alguém fosse buscar a chave. Depois, rezou junto ao túmulo de Romero, elogiando-o como um “pastor zeloso que tentou impedir a violência”.

João Paulo II com Oscar Romero
Repetiu o gesto em 1996. Durante uma cerimónia no Coliseu de Roma, em 2000, alguns cardeais da América Latina sugeriram que o Papa não invocasse Romero como um mártir das américas, mas Wojtila fê-lo à mesma.

Então porque é que temos esta imagem popular do fariseu João Paulo II a criticar Romero?

Quem promove esta narrativa quer usar Romero como um instrumento para criticar João Paulo II, a quem pintam como um anticomunista reaccionário, insensível ao sofrimento das pessoas que viviam debaixo de ditaduras de direita. Querem ainda criticá-lo por condenar as heresias, incluindo as interpretações marxistas da teologia da libertação.

Naturalmente, esta não passa de uma caricatura. Sim, João Paulo II era anticomunista. Até os historiadores que não gostam da Igreja admitem que a sua visita à Polónia em 1979 inspirou a ascensão da Solidariedade, que desempenhou um papel central no colapso do império soviético.

Mas João Paulo II não era um Henry Kissinger vestido de branco. Ele visitou muitos países governados por ditaduras onde o anticomunismo servia de desculpa para a tirania, como o Brasil, Chile, Haiti e Paraguai, onde condenou a opressão. Estas visitas foram muitas vezes cruciais para a restauração da democracia.

De igual forma, a ideia de Romero como um Camilo Torres salvadorenho é ridícula. Como escrevi noutro local, para além de condenar a desigualdade de rendimentos e os abusos da junta militar do El Salvador, Romero também rejeito uma solução cubana para os problemas do seu país e criticou o imperialismo soviético e o terrorismo de esquerda. 

Não existem quaisquer provas de que Romero tenha lido teologia da libertação (quanto muito terá sido indirectamente influenciado através da sua amizade com muitos jesuítas que tinham estas tendências). As suas homilias citam as Escrituras, encíclicas papais, documentos do Vaticano II e textos da Conferência Episcopal da América Latina, mas nunca teologia marxista ou da libertação, que ele evitava cuidadosamente.

Algumas pessoas próximas de João Paulo II tentaram impedir a beatificação de Romero. O já falecido cardeal colombiano Alfonso López Trujillo – ex-presidente do Conselho Pontifício para a Família e grande defensor do Direito Natural – opunha-se à beatificação porque acreditava que ele tinha sido morto em resultado de violência política e não por ódio à fé. Pela mesma razão encarava com cepticismo a beatificação de Pino Puglisi, um padre italiano que foi assassinado pela Mafia em 1993.

Mas o próprio João Paulo II nunca interveio para abrandar o processo de Romero e, pelo contrário, disse ao jornalista Kenneth Woodward que o mero facto de Romero ter sido assassinado enquanto celebrava missa por um amigo falecido era o suficiente para ser reconhecido como mártir.

O Papa João Paulo II e o arcebispo Oscar Romero estão entre os maiores defensores católicos da paz da história moderna. Precisamos de os compreender como eram verdadeiramente, e não permitir que os seus legados sejam caricaturados através da distorção da sua verdadeira relação, que era sobretudo de respeito e apreciação mútua.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Agosto de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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