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Wednesday, 17 May 2023

A que devemos comparar esta geração?

Robert Royal

Um dos aspectos mais impressionantes dos Evangelhos é a facilidade com que Jesus profere frases inesquecíveis, do género que grandes pensadores e poetas só muito raramente conseguem produzir. O escritor americano Randall Jarrell disse que: “Um bom poeta é alguém que, numa vida inteira de se colocar no meio de tempestades, consegue ser atingido cinco ou seis vezes por relâmpagos. Se for uma ou duas dezenas de vezes, então é verdadeiramente grande”. Jesus era – claramente – muito mais que um poeta. Mas não deixa de ser incrível que ele possa ter dito mais coisas memoráveis em poucos minutos de um dia normal do que qualquer outra figura na história. Coitados dos biblistas míopes – ou os muitos por eles influenciados – que crêem que uma boa parte daquilo foi inventada por um bando de pescadores, cobradores de impostos e pregadores itinerantes.

Os ditos, frequentemente simples, de Cristo, são tão grandiosos que mesmo uma multidão de teólogos, filósofos, santos, místicos, mártires, padres, bispos e até papas, ao longo de milénios, só conseguiram começar a compreender o que Ele disse. E, porém, ao mesmo tempo, as suas palavras têm atingido os corações de pessoas comuns, não só nos tempos dele, mas ao longo dos tempos, nas mais diversas culturas, apesar de obstáculos aparentemente inultrapassáveis. São Tomás de Aquino acreditava que um dos maiores milagres do Cristianismo era o facto de um grupo de homens humildes, de uma província longínqua, terem conseguido converter o maior império daqueles tempos, Roma. Trata-se de um mero facto histórico, e foi dito muito antes de a fé ter chegado à América, à maior parte de África, Ásia e ao mundo inteiro.

Esse facto é particularmente reconfortante agora que tudo parece estar ameaçado, pois sugere que por mais que as coisas pareçam ensombradas agora, tanto na Igreja como no mundo, o Evangelho tem mostrado ter um poder escondido e imprevisível. Sempre excedeu o que poderíamos “razoavelmente” esperar. E pode voltar a fazê-lo, a qualquer momento, ainda hoje.

Por outro lado, parece justo preocupar-nos com esta geração que parece não só estar submerso no lodo habitual de pecado e ignorância. A nossa incultura ocidental parece apostada em não só opor-se, como apagar mesmo a memória dos melhores dos nossos antepassados, que fizeram de nós quem somos.

Chega a pintar o passado como um conto irrepetível de opressão – escravatura, patriarcado, colonialismo, “privilégio branco”, etc. Mas todas essas acusações, embora parcialmente verdadeiras, estão a ser usadas não apenas para criticar elementos do passado, mas para obliterar o conhecimento da nossa tradição, que é uma combinação valiosíssima de elementos greco-romanos, bíblicos, medievais, renascentistas, iluministas e modernos. As nossas escolas e universidades dão a impressão de que não vale a pena ensiná-la, quanto mais recordá-la. Todas as culturas são agora “afirmadas” – excepto uma. Nunca aconteceu nada deste género.

Quando as coisas parecem estar mesmo mal, existe uma tentação humana de considerar que é uma situação sem precedentes. Mas esse parece ser mesmo o caso actual. Vale a pena, contudo, recordar um dos ditos de Jesus que parece referir-se ao passado, mas como em tudo o que ele diz, também se aplica a nós. “A que podemos comparar esta geração?” (Mt. 11, 16) No seu tempo, diz ele, as pessoas nem regozijam como deve ser perante as boas notícias, nem lamentam as más. As suas visões das coisas, e por isso as reações às mesmas, estavam distorcidas.

Também o nosso tempo revela reacções estranhas, de um tipo de que vale a pena tomar nota. Chesterton já tinha reparado em parte nisto há um século:

Chesterton
Quando se estilhaça um esquema religioso (como o Cristianismo foi estilhaçado com a Reforma) não são apenas os vícios que ficam à solta. Os vícios ficam, de facto, à solta, e deambulam, e prejudicam. Mas as virtudes também são libertadas; e as virtudes deambulam ainda mais, e as virtudes causam prejuízo ainda maior. O mundo moderno está cheio das antigas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque se isolaram umas das outras e estão a deambular sozinhas. Assim, alguns cientistas preocupam-se com a verdade; e a sua verdade não tem misericórdia. Assim, alguns humanitários preocupam-se apenas com a misericórdia, e a sua misericórdia (lamento dizê-lo) frequentemente não é verdadeira.

Isso explica muita da actual cultura “woke” e de “sinalização de virtudes”. Há muito que compreendemos que nas questões morais, como diz Santo Agostinho, o mal é a ausência de algum bem, qualquer coisa que devia estar presente mas não está, ou que está, mas num grau demasiado grande ou demasiado pequeno. Por outras palavras, é um afastamento da ordem plena do nosso universo. A Igreja é “Católica” precisamente porque é universal, “kata-holos”, em grego, “de acordo com o todo”.

Um excelente contraexemplo é a actual loucura do movimento “trans”. Trata-se de mais do que grupos e indivíduos radicais a promover a mutilação infantil sob o disfarce de “cuidados de afirmação de género”. Uma virtude – a compaixão por jovens com ideias confusas sobre género – cresceu e atingiu proporções tão monstruosas que eclipsou tudo, desde os simples factos da bilogia até milhares de anos de experiência humana. Basta pensar no que significa quando pessoal com formação médica fala em “género atribuído à nascença”, como se a observação normal de que um recém-nascido é rapaz ou rapariga fosse uma mera convenção, notada por um burocrata desconhecido e porventura tendencioso.

Seria fácil gozar com tudo isto, não fosse o facto de haver crianças a serem cirurgicamente desfiguradas ou a levar doses cavalares de químicos para evitar que os seus corpos se desenvolvam de acordo com as suas naturezas.

E é por isso que me parece que há outro factor em jogo, para além do enlouquecimento das virtudes, de que fala Chesterton. É cada vez mais evidente que há um elemento demoníaco em tudo isto.

O Demónio não tem nada de seu para nos propor, por assim dizer. Apenas pode recorrer aos bens criados pelo Criador para tentar criar desordem na criatura. Um dos grandes desafios para os cristãos na presente geração é conseguir identificar e resistir às virtudes desordenadas, e poder resistir às ofensas sobre preconceitos e ódio, reafirmando antes a plenitude da verdade – e do amor. Não é tarefa pequena, nem fácil. Mas foi a ela que a Divina Providência nos chamou.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 15 de Maio de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 22 January 2021

Biden bem, Biden mal, nacional-vacinismo nunca mais!

Duas notícias hoje sobre a nova administração Biden, uma positiva (a meu ver) outra negativa (idem). A suspensão das ordens radicais de deportação de imigrantes ilegais – independentemente do seu percurso no país ou do facto de terem mulher e filhos – está a permitir a dezenas de pessoas saírem de igrejas onde procuraram asilo há mais de três anos.

Por outro lado, a redefinição de todas as leis de discriminação sexual abre as portas a uma enxurrada de abusos e de violações da liberdade religiosa, entre outros. O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre algumas das dificuldades de relação entre Biden e os bispos católicos.

O Papa quer que o mundo evite o “nacional vacinismo”.

Com a suspensão das missas públicas, a Renascença voltará a transmitir missa diariamente na Rádio. Também o Santuário de Fátima transmite cinco celebrações por dia.

O médico que descobriu a forma de diagnosticar a Síndrome de Down durante a gravidez e que compreendeu o perigo disso mesmo, está a caminho dos altares. Dizem que faltam milagres, mas eu digo que cada bebé com trissomia que consegue nascer, sobrevivendo ao genocídio em curso, é um milagre! Aqui podem ler sobre outro homem admirável que também está a caminho dos altares!

Eu queria evitar escrever este texto, mesmo, mas em consciência não posso. Tenho assistido com desalento a várias pessoas que partilham da minha visão do mundo e dos meus valores a ir no que considero ser o canto da sereia. Estou a falar do “fenómeno” André Ventura… Leiam aqui para compreender melhor.

Wednesday, 26 August 2020

A Voz do Autor

Pe. Paul Scalia
Uma leitura superficial dos motins deste verão dir-nos-ia que se trata de uma rejeição da autoridade. Claro que se trata, sim, de uma rejeição de algum tipo de autoridade. Mas isso não significa que rejeitem a autoridade per se. Pelo contrário, os manifestantes são uma autoridade para consigo mesmos. Ninguém se atreve a divergir dos seus dogmas. A cultura “woke”, que despreza de tal forma as figuras tradicionais de autoridade, exerce uma autoridade muito mais severa e censória do que as instituições que rejeita. Amordaça a dissidência e excomunga os hereges muito mais rápida e absolutamente do que qualquer inquisição alguma vez fez.

Nada disto nos deve surpreender e, de certa forma, não os podemos culpar. A atitude autoritária anti-autoridade a que estamos a assistir é simplesmente uma distorção de algo que é um bem para os homens. A questão é que teremos de reconhecer alguma autoridade. Fomos criados para isso. Somos criados por e para o Autor da vida. Enquanto criaturas estamos programados para escutar e obedecer à voz do Criador, procurá-lo e à sua autoridade.

Infelizmente, devido à ferida profunda na nossa natureza humana, esta busca pelo Autor porta-se, por vezes, como um míssil errante, que se desvia louca e desastrosamente do seu alvo. Podemos remover Deus das nossas vidas, mas não podemos remover das nossas almas a tendência para a autoridade. Por isso, na nossa revolta contra o Autor da vida, em vez de nos libertarmos (como pensamos) submetemo-nos a falsas autoridades e contentamo-nos com falsidades: o estado, seitas, raça, ideologias, cientismo, etc. São ídolos que nós fazemos e que nos escravizam ao erro.

Na sua misericórdia, nosso Senhor entregou-nos da escravidão. Estabeleceu a sua Igreja para ser a voz do Autor no mundo.

Eu te digo, tu és Pedro,

e sobre esta rocha edificarei a minha igreja,

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Eu te darei as chaves do reino do Céu.

O que ligares na terra será ligado no Céu;

e o que desligares na terra será desligado no Céu.

Estas são palavras solenes e autoritárias: E eu te digo. E são sobre autoridade: Eu te darei as chaves do reino do Céu. Aqui o Autor de todas as coisas estabelece a Igreja e confere-lhe a autoridade para ensinar a sua verdade de forma autêntica e sem erro. A Igreja torna-se, assim, a sua voz no mundo, o “Oráculo de Deus”, como lhe chamou o cardeal Newman. Esta autoridade da Igreja corresponde ao nosso desejo de uma voz clara. Pela nossa natureza procuramos o Autor, mas muito facilmente nos desviamos. Assim, Ele estabeleceu a Igreja para ser para nós a sua voz infalível, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.

Longe de ser uma imposição divina, então, a autoridade da Igreja dá-nos liberdade. Liberta-nos dessas autoridades falsas que escravizam. A sua voz diz agora, de facto, Não sigam essas falsas vozes que só conduzem à morte. Aqui está o Autor da vida que vos fala em verdade e autenticidade, para vos conduzir à vida.

É uma autoridade bem séria. Mas está ordenada para a nossa felicidade. E não é contradição nenhuma ver que tal autoridade – de ligar e de desligar – está intrinsecamente ligada à nossa felicidade. Como qualquer pessoa sabe, o jogo só começa com o apito inicial do árbitro e essa autoridade – de validar e de anular em campo – garante que o jogo seja divertido. Sem ela, as coisas começam rapidamente a desenvencilhar-se. Um jogador faz batota para ganhar, o outro pega na bola e leva-a para casa. A alegria dos filhos de Deus não é diferente: dependemos da voz do autor para defender o jogo.

 ideia de que podemos viver sem autoridade é uma coisa singularmente moderna. As grandes disputas na Igreja antiga não eram sobre a existência de autoridade, mas sobre quem a devia exercer. Hoje o mundo descarta a autoridade da Igreja, como faz com todas as outras. Isso não significa que as pessoas estão libertadas da autoridade, apenas que se passaram a sujeitar às versões contrafeitas.

No mundo antigo a autoridade da Igreja defendia a verdade de Nosso Senhor contra as grandes heresias cristológicas. No Século XVI defendeu a verdade da Igreja contra a revolta protestante.

Hoje a voz do Autor deve defender a prerrogativa mais básica de Deus: a Criação. O Papa emérito Bento XVI descreveu o nosso tempo como o “do pecado contra Deus o Criador”. No centro disto encontra-se a ideologia transgénero, a rejeição da natureza humana, que ao mesmo tempo que descarta a autoridade da Criação condena todos os que questionam a sua própria autoridade.

“O que muitas vezes se expressa e se compreende com o termo ‘género’ acaba por ser a tentativa do homem de se emancipar da criação e do Criador. O Homem quer ser o seu próprio mestre, e determinar sozinho – sempre e exclusivamente – tudo o que lhe diz respeito. Porém, desta forma vive em oposição à verdade, em oposição ao Espírito Criador.”

(Bento XVI, 2008)

No início é uma liberdade intoxicante, a de sermos os nossos próprios criadores, nossos próprios deuses. Mas rapidamente cansa. Sermos autoridade para nós mesmos é demais para nós. As coisas, tais como são, acabarão por se desenvencilhar.

O Concílio Vaticano II fez uma observação maravilhosa: “Sem o Criador, a criatura desaparece”. (GS 36; cf. CCC 49). Vemos agora que isso também funciona no sentido contrário: ao negar a nossa natureza de criaturas, o Criador desaparece de vista.

Mais razão ainda para rezar para que a voz infalível do Autor se torne mais clara e mais forte, para defender a verdade do Criador e da criação. Pois “quando Deus é negado, a dignidade humana também desaparece. Quem defende Deus defende o homem” (Bento XVI, 2012).

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Agosto de 2020 em The Catholic Thing

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Wednesday, 25 September 2019

Como Viver na Era do Transgénero?

Hadley Arkes
Estamos a chegar a Outubro, um mês que nos reserva muitos sustos para além do Dia das Bruxas, com o começo dos trabalhos do Supremo Tribunal. Nenhuma outra instituição se aproxima enquanto motor de engenharia cultural.

Em assuntos raciais essa engenharia tem sido em larga medida positiva, mas no que diz respeito à vida humana e à sexualidade – à forma como nos entendemos enquanto pessoas e portadores de direitos – o Supremo tem sido uma máquina de profunda inversão moral.

Um dos casos que vai servir de teste será apresentado ao Tribunal em breve. No segundo dia do novo semestre do Supremo, os juízes vão analisar o caso de Harris Funeral Homes v. Equal Employment Opportunity Commission. A agência funerária no Michigan está nas mãos da mesma família há cinco gerações, mas um tal Anthony Stephens, que foi contratado como director funerário em 2007, acabou por causar alguns distúrbios.

Trata-se de uma posição com responsabilidade importante no acompanhamento de famílias durante os seus momentos de luto. Mas essa situação complicou-se quando Stephens anunciou, em 2013, que estava a experienciar “disforia de género”. Apesar de ser casado (com uma mulher, entenda-se bem), estava convencido de que agora a sua verdadeira identidade era a de uma mulher e que se queria apresentar, ao nível de aparência e vestuário, como tal.

Stephens insistiu que estava a respeitar o código de vestuário da empresa ao usar roupa feminina, mas a questão nem era essa. Foi despedido e, como é evidente, processou a agência por “discriminação” sexual, ao abrigo do artigo VII da Lei de Direitos Civis de 1964. A sua posição foi apoiada por um tribunal distrital federal, que se deixou levar de tal forma pelas suas premissas que insistiu em referir-se a ele no feminino.

O recurso chegou ao Supremo Tribunal e claro que a primeira coisa que os advogados e os juízes vão fazer é considerar a lei ao abrigo da qual foi feita a queixa de discriminação. Será sequer remotamente plausível que, em 1964, quando o Congresso proibiu a discriminação por causa de sexo, alguém presumia que isso iria abranger homens que querem usar as casas de banho ou balneários femininos, independentemente do quanto se sentem mulheres?

É muito mais sensato presumir, como argumentam os advogados que representam Harris, que “a discriminação sexual significa um tratamento diferenciado [e adverso] com base no sexo biológico de alguém, algo fixo e objectivamente determinado pelos cromossomas e a anatomia reprodutiva.”

Tudo bem. Mas quando se começa a questionar o significado das palavras na lei, isso é bem diferente de perguntar: o que significa verdadeiramente a palavra “sexo”, independentemente de como era compreendido pelo legislador em 1964?

O casal Stephens
Não devemos ficar admirados ao ouvir os advogados do lado de Stephens a argumentar que uma compreensão informada pelas mais recentes contribuições da “teoria de género” nos daria uma visão mais abrangente do que significa ser maltratado com base no “sexo”.

É então que se torna necessário ir mais ao fundo da questão. E acontece que, neste caso, isso foi feito, de forma decisiva e muito bonita. Foi dito num “Parecer Académico”, escrito por Michael Hanby, David Crawford e Maggie McCarthy; um parecer que merece ser lido por inteiro, pela forma graciosa como está escrito e pela argumentação convincente.

Segundo os autores, o que está verdadeiramente em causa neste caso é “inerentemente filosófico, ou mesmo metafísico”, pois “diz respeito a verdades sobre a própria natureza das coisas”. Existe uma verdade objetiva sobre o nosso corpo, ou devemos entender o corpo “de acordo com os sentimentos ou escolhas de cada um, e não de forma orgânica ou natural?” Aceitar essa perspectiva seria pôr em causa “a realidade dos homens e das mulheres, sugerindo que aquilo que os torna homens e mulheres são apenas os seus sentimentos sobre si mesmos, ou a construção social desses sentimentos.”

Uma criança tem um sentido natural de quem é e das pessoas que preenchem a sua vida, dos seus pais e avós. Contudo, agora estamos a codificar uma “antropologia filosófica” que põe em causa todo esse esquema como sendo “artificial e arbitrário, em vez de natural”.

O que Stephens afirma, segundo estes autores, “não é que tem o direito de se vestir como lhe apetece, mas antes que é, na verdade, uma mulher, e que por isso tem o direito a ser tratado como tal”.

Quem olha de fora poderá ser levado ao engano pelo argumento de que tudo o que Stephens quer é viver de acordo com o seu entendimento de si mesmo. Mas isso é uma profunda falsidade, porque o seu processo implica “a afirmação, legalmente imposta, da sua alegada identidade por todos os que trabalham com ele”. Ou seja, toda a gente que trabalha no mesmo espaço que ele terá a obrigação de admitir que aceita o seu direito a alterar a sua personalidade sexual, caso contrário podem ser processados por contribuir para “um ambiente laboral hostil” e assim criar ameaças legais para os seus empregadores.

Estas são as implicações que continuam a surpreender advogados e cidadãos, que ainda não estão habituados ao facto de a lógica do “certo ou errado” ganhar tanta força ao levar com o carimbo da verdade à luz da lei.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 23 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 26 June 2019

“Transjacking” no Desporto

Brad Miner
Estamos a cerca de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio (24 de Julho a 9 de Agosto, 2020), mas já existe polémica. Por outro lado, há sempre polémica nos Jogos Olímpicos, normalmente por causa de drogas que melhoram o desempenho desportivo (PED, de Performance-enhancing Drugs).

Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, os atletas russos e os seus “cientistas” fizeram batota em tão grande escala (sobretudo nas análises à urina) que a Agência Mundial Antidoping recomendou que a Rússia fosse banida de participar nos Jogos de Verão no Rio, em 2016. Isso não aconteceu, embora a Rússia tenha sido subsequentemente banida dos Jogos de Inverno de 2018 em PyeongChang. Ainda assim, alguns atletas russos competiram como “Atletas Olímpicos da Rússia”, mas sem a bandeira da Rússia ou hino nacional. (E mesmo muitos desses viriam a acusar em testes antidoping.)

No geral o Comité Olímpico Internacional (COI) tem tido manifestado repetidamente um grande interesse – partilhado por todas as organizações que supervisionam desportos – em manter os Jogos Olímpicos livres de PEDs. Não só por causa das vantagens competitivas que estas substâncias fornecem aos atletas, mas também por causa do perigo que estas drogas apresentam para a saúde dos mesmos atletas, no longo prazo.

O ideal do atleta amador talvez já não exista nos Jogos Olímpicos, mas pelo menos persiste a crença na importância de atletas naturalmente saudáveis.

Ou será?

O COI e muitas – se não a maioria (e em Julho do ano que vem talvez todas) – as federações atléticas defendem agora o uso de drogas mais extremas que se possa imaginar: drogas supressoras de testosterona para homens que querem competir como mulheres, isto é, atletas “transgénero” macho-para-fémea (MpF).

O debate que ainda existe – se é que ainda existe – apenas diz respeito a quão suprimido deve ser o nível de testosterona no atleta MpF, medida tanto nos níveis de soro de sangue reduzido da hormona e na duração desses mesmos níveis.

Na prática, o COI e outros estão a dizer que aquilo que define uma atleta feminina, por exemplo, nos 100 metros é simplesmente o nível dessa hormona. Atualmente, a fórmula do COI é: não mais que 10 nmols/L (nanomoles por litro) de soro de testosterona durante pelo menos os 12 meses que antecedem a competição. Segundo o COI: “As alterações anatómicas cirúrgicas como precondição de participação não são necessárias para preservar a concorrência leal e podem até ser inconsistentes com a legislação em desenvolvimento e com noções de direitos humanos”.

Temos, por isso, que um homem poderá qualificar-se para competir nos Jogos Olímpicos de 2020 contra atletas nascidas mulheres desde que declare o seu “género” como feminino e comece um regime de supressão de testosterona que coloque os seus níveis em 10 nmols/L, mantendo-os assim até ao começo dos jogos, no dia 24 de Julho de 2020.

A questão aqui é que enquanto o nível normal de soro de testosterona nos homens é entre 10.41 e 34.70 nmols/L, os níveis normais nas mulheres são entre 0.52 e 2.43. O que significa que um velocista MpF que se qualifique para os Jogos Olímpicos com um nível de 10 nmols/L, isto é, o limite inferior do espectro de testosterona masculino, continuará a ter quatro vezes mais do que o máximo para mulheres.

Claro que sabemos que isto é absurdo. Como se lê no recente documento do Vaticano “Homem e Mulher Ele os Criou: Um caminho de diálogo sobre o assunto de género na educação”:

O processo de identificação da identidade sexual é dificultado pela construção fictícia conhecida como “género neutro” ou “terceiro género”… As tentativas de ir para além da diferença sexual constitutiva macho-fémea, tal como as ideias de “intersexo” ou “transgénero” conduzem a uma masculinidade ou feminilidade ambíguas pese embora (de forma contraditória) esses mesmos conceitos pressuponham na verdade essa mesma diferença que se propõem a negar ou ultrapassar.

Tiffany (ex-Rodrigo) Abreu, estrela de vólei feminino no Brasil
Mas o que falta saber é quantos homens vão decidir comportar-se de forma absurda nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Para dizer a verdade, eu, que sou um homem velho e não uma velocista de nível mundial, não estou muito preocupado. Mas as atletas de elite estão, ou pelo menos deviam estar. E pela seguinte razão.

O recorde mundial dos 100 metros femininos de Florence Griffith Joyner em 1988, de 10,49 segundos, foi um grande feito (talvez até sem a ajuda de PEDs). Mas este ano, no campeonato dos 100 metros masculinos das escolas secundárias no Estado do Texas, Matthew Boling fulminou o recorde americano com uns incríveis 9,98 segundos. Joyner tinha 29 anos quando bateu o seu recorde mundial; Boling tem 18. E ao longo de 2019 todos os primeiros 75 velocistas masculinos dos campeonatos do ensino secundários bateram o recorde mundial de Joyner.

Estou a focar-me nestes alunos de liceu porque se trata de rapazes que já atingiram o auge do seu desenvolvimento biológico natural, sem a ajuda de drogas, e mesmo depois de passar a puberdade continuarão a beneficiar deste estímulo hormonal da adolescência em termos de altura, peso, velocidade e força. A supressão de testosterona poderá diminuir este benefício, mas só um pouco.

Volto a insistir que para competir em Tóquio um atleta MpF não precisa de parecer uma mulher. Com base no que se tem visto em competições recentes em que têm participado atletas MpF, alguns terão penteados “femininos” e outros poderão ter sinais de aumentos mamários. Outros vão simplesmente parecer gajos. Mas, como o COI já disse (graças a Deus!), não são precisas intervenções agressivas, como aquelas a que se sujeitam alguns transgéneros MpF: implantes mamários; rapagem da maçã-de-Adão; orquiectomia (remoção dos testículos); penectomia (a amputação do pénis); nem as subsequentes vaginoplastias, labiaplastias ou clitoroplastias – que requerem uma vida inteira de terapia hormonal (estrogénios, antiandrógenicos, progestogéneos e moduladores de libertação de gonadotropina – qualquer uma destas, se não todas), não vá o corpo começar a reafirmar-se, o que, inevitavelmente fará caso as intervenções químicas falhem, uma vez que é essa a sua natureza.   

Para além disso, não há qualquer intervenção que possa transformar uma pessoa XY numa pessoa XX. Essa diferença cromossómica e biológica, que define um homem e uma mulher, é que é natural. É por isso que o Vaticano considera que qualquer tentativa de mudar o género é “fictícia”.

As regras do COI para atletas femininas que se apresentam como homens apenas reforçam essa ficção. Na verdade, não existem regras, pois nenhuma mulher seria capaz de competir contra um homem, seja qual for o sexo que afirma ser.

Escrevi sobre este assunto e o seu impacto no mundo do desporto em 2016, e desde então as coisas só pioraram. Contudo, agora vemos algumas mulheres jovens a defender-se daquilo a que algumas apelidam de transjacking, e isso é uma boa notícia.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 24 de Junho de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 June 2019

Transgénero e Liberdade Perfeita

Não faltam razões para ler a Divina Comédia de Dante, nem que seja pelo prazer de um encontro com o génio da imaginação. Mas no final de contas a razão mais importante é aquela que o próprio identifica numa carta a um mecenas, Can Grande Della Scala: “o assunto é o homem na medida em que, com os seus méritos e deméritos, no exercício da sua livre vontade, é merecedor de ser premiado ou punido pela justiça”.

Esta escolha torna-se clara no destino de Lúcifer. Podemos discutir longamente como é que certos pecadores vieram a merecer castigos específicos no Inferno de Dante, mas Satanás representa uma escolha principal.

O Satanás de Dante não é o rebelde romântico do “Paraíso Perdido” de Milton, nem um tentador engenhoso como o Escritope de C. S. Lewis. Trata-se aqui do ser que – de forma radical, pura e eterna – rejeitou Deus e toda a ordem do universo que Ele criou. Satanás pensa que se lançou no caminho da liberdade total em relação a tudo isso, mas não podia, literalmente, estar mais errado. 

Dante mostra-nos isto numa imagem inesquecível. Satanás está envolto em gelo no fundo do universo, nos recantos mais longínquos do Inferno. Dá às suas asas de morcego, procurando libertar-se, mas o vento que as asas criam apenas serve para o congelar ainda mais. É como as algemas chinesas com que brincávamos quando éramos miúdos. Mete-se os dedos de cada lado de uma espécie de tubo, mas quanto mais força fazemos para os tirar, mais apertado fica.

Não há outra saída para quem se revolta contra Deus. Satanás foge de Deus e da sua ordem cósmica, mas não há para onde fugir. Apenas existe um Deus, um universo, uma realidade. Rejeite-se isso e rejeita-se tudo, incluindo a fonte do nosso próprio ser – e a liberdade. Pode-se esforçar freneticamente, e cada vez mais, para ser “livre” segundo os próprios termos, mas está a pedir aquilo que é literalmente impossível – uma liberdade perfeita desligada de realidade. E assim se encerra, cada vez mais, em si mesmo.

Na sua “Utopia”, Tomás Moro incluiu um epígrafo: “O demónio, espírito orgulhoso, não aguenta ser gozado”. Pois aqui está um caso de gozo, gozo de si mesmo, em enorme escala.

Tudo isto pode parecer muito distante das nossas vidas diárias. Mas para um Católico na América de hoje a liberdade coloca-nos uma questão crucial. A liberdade está no topo da lista daquilo que a maioria dos americanos diria que o país representa. Os Pais Fundadores preocupavam-se com a possibilidade de a liberdade degenerar em “licença”. Tal como os pensadores antigos e medievais, eles sabiam que a liberdade podia autodestruir-se se fosse isolada da virtude e da verdade. 

A Congregação para a Educação acaba de lançar um documento sobre os transgénero (“Homem e mulher Ele os Criou”), que reconhece a fora como este movimento ideológico se desligou radicalmente não só da biologia mas da ordem cósmica. “Segundo esta visão das coisas, a visão tanto da identidade sexual como da família tornam-se sujeitos à mesma ‘liquidez’ e ‘fluidez’ que caracteriza outros aspetos da cultura pós-moderna, baseadas frequentemente em nada mais do que um conceito confuso de liberdade no campo dos sentimentos e desejos, ou nos desejos momentâneos provocados por impulsos emocionais e a vontade do indivíduo, por oposição a qualquer coisa baseada nas verdades da existência.”

Quando me constou que também convidava ao “diálogo” – o que para alguns é um tipo de tapete mágico que nos permite fugir sem ter de dizer sim nem não – temi que o documento cedesse no que é essencial. Surpreendentemente ele afirma que o diálogo significa reconhecer que algumas pessoas estão a debater-se com emoções fortes e que devem ser respeitadas enquanto seres humanos, mas ao mesmo tempo devem-lhes ser apresentadas as verdades básicas da sexualidade.

Há muito mais a dizer – e talvez venha a sê-lo. A Congregação para a Doutrina da Fé está a preparar um comentário mais puramente teológico sobre os mesmos assuntos. Mas este documento é um guia para instituições educativas e por isso é deliberadamente mais prático que teórico.

O nosso amigo Robbie George já comentou sobre a reação previsível de pessoas como o padre James Martin, S.J., que afirma que a sociologia e a psicologia modernas rebentam com as compreensões tradicionais de género. Afirmações desse género reciclam uma antiga heresia gnóstica segundo a qual alguma realidade interior, desligada do corpo físico, define a sua própria identidade. Trata-se de uma contradição da fé católica, bem como a judaica a islâmica e mesmo o bom pensamento secular. É tudo menos científico obliterar o papel de estruturas observáveis como são os genes masculinos e femininos, que existem em cada célula do corpo humano, apenas com base no que alguém diz ser.

O Dr. Paul McHugh, antigo diretor de psiquiatria na Universidade Johns Hopkins, estudou pessoas que foram sujeitas a “mudança de sexo” e concluiu que na maior parte dos casos não são mais felizes do que eram antes. “No cerne da questão está a confusão sobre a natureza dos transgénero. A ‘mudança de sexo’ é uma impossibilidade biológica.”

Santo Agostinho resumiu da seguinte forma toda a tradição bíblica: “Deus eterno, que és a luz das mentes que te conhecem, a alegria dos corações que te amam e a força das vontades que te servem; concede-nos que te conheçamos para verdadeiramente te amar, e assim amar-te para servir inteiramente a ti, a quem servir é a perfeita liberdade, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.” (Oração para Conhecer a Deus)

A verdade reside onde o temporal e o eterno, a liberdade e a ordem e outras coisas aparentemente opostas se encontram e misturam. O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores é também o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O Altíssimo nasce como bebé humilde numa manjedoura. Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros. E viver em harmonia com a verdadeira ordem do mundo é a única liberdade possível.

Poucos de nós compreendemos isso hoje. As nossas noções de liberdade chegam-nos por via de ‘entertainers’ autoindulgentes, políticos interesseiros, académicos excêntricos e egocêntricos e meios de comunicação autorreferenciais. Mas apesar de toda a celebração de identidade, individualismo, diversidade e singularidade, o resultado não é um tecido social rico, harmonioso e livre, mas o caos privado e público que está à vista de todos os que têm olhos para ver.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 17 de Junho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 8 May 2019

Transgénero: Quando a verdade se torna punível por lei

Matthew Hanley
E se eu lhe dissesse que não existem bases científicas para definir o género com base em genética, anatomia ou órgãos genitais? Ficaria convencido, ou achava-me louco?

Porém, essa é a opinião expressa na revista “Nature”, encarada há muito tempo como uma publicação científica fiável. Agora, baniram a classificação de macho e fêmea, descrevendo-a como “uma ideia terrível que deve ser eliminada” uma vez que ameaça “desfazer décadas de progresso” da ideia de que o sexo e o género são apenas “construções sociais”. Poder-se-ia pensar que a “Nature” estaria preocupada em criar problemas de credibilidade, mas não têm de se preocupar, pois as mentiras colossais estão na ordem do dia. 

No que diz respeito à “discrepância entre o género e o sexo que consta da certidão de nascimento”, a “Nature” elogia a Academia Americana de Pediatria por aconselhar os médicos a “tratar as pessoas de acordo com o seu género escolhido, independentemente da aparência ou da genética”. Temos aqui os pediatras apostados na apologia do transgénero: sem dúvida uma marca de uma cultura que fez as suas pazes com o desprezo pelas crianças, pela ciência e pela natureza humana.

Entretanto a Associação Americana de Psicologia (APA) emitiu orientações avisando para o perigo de abraçar o conceito de “masculinidade tradicional”. Mas se nos fiarmos na APA, então porque é que as autoridades médicas haviam de encorajar uma mulher a tornar-se homem? Ao que parece a abordagem reinante é de levar as mulheres com perturbações a sujeitar-se a cirurgia de mudança de sexo – um acto de mutilação – para adquirir uma aparência externa pouco convincente, mas também de as encorajar, daí em diante, a desdenhar todos os traços prejudiciais associados com a masculinidade.

Há outra contradição que é frequentemente ignorada: se a transição de um sexo para outro é algo que devemos abraçar com tanto entusiasmo, como um bem a facilitar devido à nossa apreciação iluminada da “fluidez” de género, porque é que existem obstáculos a abordagens legítimas para ajudar pessoas a deixar a homossexualidade?

Embora o fenómeno seja ainda raro, tem havido um crescimento no número de casos de identificação transgénero em anos recentes – às vezes em grupo e aparentemente do nada. Tornar-se transgénero já não convida ao gozo mas até, nalguns casos, é uma forma de aumentar a popularidade entre os pares. Dizê-lo em nada menoriza o verdadeiro sofrimento que alguns adolescentes sentem, de forma aguda, mas que tendem a ultrapassar com o passar do tempo.

O senso comum sugere que o pico de casos de transgénero se deve ao Zeitgeist, contra a qual a classe médica, de forma particular, deve estar atenta. Em vez disso tornou-se cúmplice da sua emergência.

Dizemos a nós mesmos que vivemos num país livre. Ninguém está a “forçar” ninguém a promover a falsidade de que um homem se pode tornar uma mulher, ou vice-versa. Mas só porque não vivemos na China Maoísta, não significa que uma forma da sua Revolução Cultural não tenha vindo aqui parar.

Que o diga Anastasia Lin, que saiu da China aos 13 anos e agora vive no Canadá. Escrevendo recentemente no Wall Street Journal, ela aponta o dedo ao objetivo final das turbas politicamente corretas: “O objectivo não é persuadir ou debater; é humilhar o alvo e intimidar todos os outros. O objectivo final é destruir todo o pensamento independente.”

Esperemos apenas que todo o extremismo que vai explodindo ao nosso redor possa ajudar mais pessoas a compreender que o alvo neste caso, tal como com a revolução sexual em termos mais gerais, é o próprio Cristianismo, bem como a sua ordem social e moral. Isto significa, por definição, que é o homem em si que se encontra na mira, algo que muitos dos que adoptaram a pseudorreligião pós-cristã do “humanitarismo” parecem ignorar.

Lin explica que a geração dos seus pais na China “aprendeu a não dar nas vistas e a ter cuidado com o que diziam, mesmo aos amigos mais próximos, com medo de serem acusados de crime de pensamento”, lamentando assim aquilo que começa a acontecer por aqui também. Demasiados de nós, num sem número de profissões, sabem como essas palavras são verdadeiras.

A coação, em qualquer das suas formas, torna-se obrigatória sempre que se tenta impor uma mentira às massas. Os exemplos multiplicam-se diante de nós. Um professor na Arizona State University argumenta, no “American Journal of Bioethics”, que os pais não devem poder impeder os seus filhos de adquirir tratamentos para bloquear a puberdade.

Segundo o pensamento invertido tão típico do nosso tempo, é a negação destes “tratamentos” que constitui abuso infantil, e não o encorajamento das ilusões e a promoção de medidas agressivas que na maior parte das vezes são prejudiciais e, em sentido real, experimentais, uma vez que simplesmente não existe qualquer prova que justifique o seu uso.

Por agora, essa proposta não passa disso mesmo na América. Mas o Supremo Tribunal de British Columbia, no Canadá, decretou no mês passado que o pai de uma menina de 14 anos não pode impedir a sua tentativa quixotesca de se transformar num rapaz. Ela tem um direito antinatural a bloqueadores de puberdade. Mais, o pai foi avisado para ter cuidado com a língua: chamar menina à sua filha, ou usar pronomes femininos em referência a ela seria considerado “violência familiar”, pois a verdade é agora uma ofensa punível por lei.

E, como consequência lógica disso mesmo, desde então ele já foi declarado “culpado” desse “crime”.

À luz desta mostra de poder ameaçadora, não adianta nada apelar à razão. No final de contas estamos perante uma guerra de vontades. Mas uma tomada de posição contra a irracionalidade dos tiranos do género pode funcionar. Veja-se o que aconteceu com os muçulmanos no Reino Unido, que conseguiram retirar um currículo pró-LGBT das escolas dos seus filhos.

O facto de a turba LGBT ter conseguido derrubar todos os outros, mas ter recuado neste contexto, revela que a sua principal motivação é o desmantelar da sensibilidade cristã mais do que qualquer crença inflexível na ideologia do género. Veja-se bem quem venceu esta guerra de vontades.


Se ao menos a fé e a arte da persuasão estivessem mais na moda, talvez mais pessoas vissem que o abandono do Cristianismo e da natureza inata não beneficiam o homem. Pelo contrário, tendem para a ruína, como muitos descobrem depois de se deixarem levar pela maré do transgénero. 

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 2 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 2 January 2019

Alguns homens nascem eunucos . . .

Anthony Esolen
Alguns homens nascem eunucos, alguns tornam-se eunucos pelo Reino do Céu e alguns, para grande lucro de cirurgiões e da indústria farmacêutica, são feitos eunucos por pais que os abandonam e por mães que não.

O último “castrato” a cantar profissionalmente, Alessandro Moreschi, morreu em 1922. Não se sabe se ele foi castrado ainda menino para preservar a voz, ou por causa de uma hérnia inguinal. Ainda existe uma gravação, em mau estado, da sua voz. O que se ouve é um soprano algo fibroso, não é o género de coisa para a qual um defensor da prática recomendaria a mutilação. Talvez outrora tenha sido mais forte e seguro. Não sabemos.

À medida que um rapaz se aproxima da puberdade, a sua voz ganha uma qualidade peculiar devido à configuração singular e temporária da sua laringe e cavidade oral. Produz um som que os mestres de coro valorizam muito e que inspirou os talentos de compositores como Palestrina, Allegri e Bach.

Para preservar esse timbre, por vezes um soprano rapaz aceitava ser castrado. Quando os “castrati” eram o último grito da moda nas cortes e nos coliseus da Europa iluminista, um rapaz talentoso de uma família humilde poderia ser tentado a aguentar a mutilação para poder ganhar dinheiro para si e para os seus pais.

Naturalmente isso também o levava a ser bem acolhido nos quartos de mulheres aristocratas, que brincavam com ele como fariam com um cachorro, sem envergonhar os seus maridos. Essa é a lógica por detrás do estratagema de Horner na peça lasciva de Wycherley “A Mulher do Campo”, embora neste caso a castração tenha sido supostamente necessária por causa de sífilis. Os eunucos também eram um alvo preferido por homossexuais.

Contranatura e bárbaro. O Papa Leão XIII condenou a prática quando assumiu o papado em 1878. Graças a Deus não a voltaremos a ver.

Mas estamos a assistir a coisas bem piores. Pensemos um bocado nisto.

Longe de mim desculpar de qualquer maneira os padres nojentos cujos vícios deturparam as vidas de tantos rapazes e jovens e reduziram várias paróquias e dioceses à penúria. Mas quando esses homens acabavam de apalpar as joias da família, estas pelo menos continuavam ligadas ao rapaz, que ainda poderia vir a tornar-se marido e pai de família.

Mas isso já não é o caso quando o rapaz “transita”, isto é, quando se submete a cirurgia para poder fingir ser a rapariga que não é, nem nunca poderá ser.

O rapaz que optava pela mutilação fazia-o para garantir algo que era, em si, um bem. É bom, e não mau, ter uma voz bonita. É bom ser um solista no “Miserere” de Allegri. Não é bom mutilar o corpo para isso. É bom, e não mau, poder ser o ganha-pão da família. Mas não é bom mutilar o corpo para o conseguir. É bom louvar a Deus. Não é bom expressar esse louvor através de algo que é contranatura, como a mutilação.

Esse rapaz, muito provavelmente, sabia bem o que era o sexo. Sabia-o melhor do que as nossas crianças agora. Teria visto os animais da quinta, teria dormido próximo de outras crianças e teria desenvolvido uma atitude prática para com as exigências mais embaraçosas da vida física. Teria estado próximo de homens a fazer trabalho fisicamente árduo, todos os dias da sua vida, trabalho que só os homens podiam fazer.
Alessandro Moreschi

Ele não estava a rejeitar o seu sexo. Não estava acometido da loucura de acreditar que na verdade era uma menina. Ninguém lhe tinha dito na escola que o seu sexo era responsável por todo o mal que existe no mundo. Não teria crescido num lar dividido pelo divórcio, com uma mãe infetada por fantasias feministas de um mundo purificado do masculino. Não teria tido que se sujeitar à hora do conto narrado por travestis. Não teria pornografia à distância de um clique. Não vivia no reino da ilusão. A mutilação assegurava, de facto, o bem em questão.

Não seria sujeito a uma cirurgia após outra. O seu corpo não seria bombeado com drogas perigosas, incluindo bloqueadores de puberdade e hormonas para fazer crescer os seios, que provavelmente virão a ser carcinogénicas. Não seria condenado a uma vida de dependência farmacêutica. Os seus ossos largos continuariam a crescer. O seu corpo seria um pouco mole, mas de resto pareceria um homem normal e não uma aberração. Não seria sujeito a uma operação para fazer uma vagina falsa.

Não faria parte de uma campanha para preservar e prolongar uma ética profundamente anticristã, como é a nossa revolução sexual. Como já disse, talvez fosse tentado pela homossexualidade, mas esse não seria o objectivo declarado da operação. Não estava envolvido na destruição da linguagem. Seria tratado por “ele” e provavelmente atirava-se a quem o tratasse de outra forma.

Não estava a estabelecer um precedente para outros violadores do sentido do humano: falo naqueles que acreditam que devemos fabricar-nos a nós mesmos, através da manipulação genética, úteros artificiais e outras pontes que o homem lança ao robot ou à besta. Não estava a lançar um precedente para pessoas doentes que acreditam que não serão inteiros enquanto não forem parciais: falo naqueles que não conseguem viver com a integridade dos seus corpos e que por isso encontram, nalgum lado, um médico malévolo que lhes remova um braço ou uma perna saudável.

Não estava na linha da frente da sujeição dos pensamentos, da linguagem e dos actos de pessoas normais e ordinárias à supervisão de um estado vasto e totalitário, com a sua simbiose de entretenimento e escolaridade massificados.

Por mais doentio que fosse fazer aquilo que eles faziam, o que fazemos agora é muito pior.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 27 September 2017

Ideologia de Género como Abuso

A chegada do frio outonal traz consigo o começo da época de futebol americano, que é bem-vinda, ainda que ser adepto de alguns clubes (tal como os meus San Francisco 49ers) requeira novamente um acto de fé sobrenatural este ano. Mas para Bennet Omalu, o “médico das contusões” – nome ganho pelo seu papel na revelação do fenómeno neste desporto – esta é uma época melancólica. O médico examinador-chefe do condado de San Joaquin, especulou recentemente que deixar os jovens jogar futebol americano levará eventualmente a um processo, porque o futebol é, nas suas palavras, a “definição de abuso infantil”.

Com tantos abusos reais para nos preocupar, uma afirmação destas pode parecer exagerada, ainda que possamos desconfiar da sabedoria de deixar crianças muito pequenas andar a bater com as cabeças umas nas outras. Mas esta cruzada contra o futebol americano está a ser levada bastante a sério. Quase tão a sério como a cruzada a favor da normalização da “fluidez de género”.

Recentemente veio-me parar às mãos a edição da Stanford Medicine News do Verão de 2017. A manchete era: “Jovens e Transgénero: Cuidando de Crianças na Transição” e elogiava uma endocrinologista pediátrica pelos seus esforços para “ajudar” estas crianças, utilizando medicamentos para bloquear a puberdade e outros “tratamentos” semelhantes. “Ao tratar os adolescentes transgénero com hormonas”, afirma a médica “estamos a afirmar quem eles são”. Ou seja, a cirurgia é apenas outra forma de afirmar que os seus corpos estão errados ao desenvolver-se correctamente.

Não pretendo implicar unicamente com a Stanford. A submissão à agenda transgénero tornou-se uma epidemia. A mais recente edição da “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” substituiu o antigo diagnóstico de “desordem de identidade de género” por “disforia” de género. E assim – voilá – deixa de haver uma “desordem” para tratar psiquiatricamente e o caminho certo torna-se necessariamente a mutilação através de hormonas ou de cirurgia.

A Associação Psiquiátrica Americana, deixando de lado o seu juízo, afirma simplesmente que a transição de género não envolve qualquer ilusão ou incapacidade psicológica – sendo que ilusão, neste caso, é definida como “uma crença falsa, ou juízo errado, mantido com convicção apesar de provas incontestáveis de sentido contrário”.

Para chegar a uma conclusão dessas é necessário negar a realidade objectiva ou, então, declarar que ela é subordinada à forma como os pacientes querem definir a “sua” realidade. Elas são quem afirmam ser, se o dizem. Mas se formos por esse caminho então ninguém pode ser classificado como sofrendo de ilusões e invalida-se por inteiro o próprio conceito de uma desordem psiquiátrica. Estarão os psiquiatras americanos a tentar acabar com a sua própria profissão?

A adesão de tantos profissionais altamente treinados e inteligentes a uma mentira tão óbvia é uma visão verdadeiramente triste. Algumas podem acreditar nos dogmas “oficiais” de género, por mais irracionais que sejam, mas acho que a maioria não acredita. Pelo menos não verdadeiramente. Mas há que salvar a face e preservar o emprego, por isso alinham.

A forma como se conseguiu este conformismo ao melhor estilo soviético sem um politburo é um fenómeno verdadeiramente impressionante. É o último elogio ao pós-modernismo. Não que o Congresso estadual da Califórnia (para citar apenas um exemplo) não esteja a tentar alcançar o estatuto de politburo; eles querem multar ou enviar para a cadeia pessoas em situações de prestação de cuidados de saúde que não se referem aos pacientes utilizando o pronome escolhido, ou seja, o errado.

O triunfo da desonestidade intelectual já é mau por si, mas forçar os outros a concordar com algo que sabem ser uma mentira é um dos maiores sinais de totalitarismo. Pior, “ajudar as crianças a transitar”, ao contrário de encorajá-las a jogar futebol americano ou qualquer outro desporto, é verdadeiramente uma forma de abuso infantil.

É isso que diz a Drª Michelle Cretella, presidente da Ordem Americana de Pediatras, que tem coragem de falar sem papas na língua. Mas muitos dos seus colegas não têm essa coragem. Aliás, o número de “profissionais” dispostos a dar ares de legitimidade médica à ideia de “transitar” de género supera até os que se querem submeter a essa absoluta impossibilidade. Com tantos autoproclamados defensores da “ciência” neste mundo, não deveria ser necessário dizer que os “sentimentos” não podem negar o veredicto contido nos cromossomas masculinos ou femininos presentes em cada célula do corpo.

Alguns dirão que afirmar a realidade é uma atitude “julgadora”. Mas a tentativa de obrigar à aceitação das teorias de transgenerismo viola o próprio credo do não-julgar. Por isso, já que se estão a fazer julgamentos, a maioria das pessoas concordaria que os profissionais que contribuem, de forma abusiva, para estas “transições” são muito mais culpados do que os adolescentes desorientados que precisam de compaixão e orientação firme. Os resultados para os que se submetem a operações de mudança de sexo não são bons. Os dados revelam-no. Profissionais de saúde que fingem – juntamente com escolas, media, corporações e outros – que a anormalidade é normal são, por definição, abusadores.

E nem falemos do preocupante paralelo entre a mutilação de anatomia saudável envolvida numa “transição” e a prática, justamente condenada, de mutilação genital feminina.

A “transição” é apresentada como um triunfo da ciência e do progresso, mas com a compreensão de que alguns tipos de transição não deviam ser permitidos de todo. Refiro-me, claro está, à perspectiva de alguém que queira mudar a sua orientação sexual de homo para hétero.

Que isto seja prescrito e literalmente criminalizado nalguns contextos denuncia a farsa. Quando a escolha pessoal é tão claramente rejeitada, não obstante toda a retórica tradicional em sentido contrário, isso é um sinal claro de que tudo isto tem a ver com o avançar de uma conclusão já determinada e nada a ver com a vitória da liberdade de escolha em si.

O fim para o qual caminhamos não é outra coisa que a obliteração da ordem e da ética que derivam da tradição judaico-cristã. Tem tudo a ver com o poder para se mudar as regras, trocar o que é bom por aquilo que é mau. É o jogo da desintegração total.

O abuso não é um subproduto ocasional e acidental de uma revolução maior, na qual a fluidez de género é apenas a mais recente rajada. É mesmo o cerne da questão.

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 20 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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