quarta-feira, 11 de maio de 2016

Presentes de Despedida

Pe. Paul Scalia
“Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.”

Hoje acompanhamos Nosso Senhor até ao monte para a sua Ascensão. Talvez não saibamos o que dizer. Ele tentou preparar-nos para este momento. Disse-nos que devemos ficar felizes por Ele, porque regressa para o Pai (Jo. 14,28). E na verdade esta festa é caracterizada pela alegria simples do regresso do Filho para junto do Pai. Mais uma vez Ele nos instrui que regozijemos porque, ao regressar para o Pai, enviará sobre nós o Espírito Santo. Se Ele não for, o Espírito não virá. Por isso é melhor para nós que Ele vá. (Jo. 16,7)

Todavia, tal como os discípulos, não conseguimos compreender tudo o que Ele nos diz. Mateus diz-nos que os discípulos foram com ele até ao monte da Ascensão: “Quando o viram adoraram, mas alguns duvidaram” (Mt. 28,17). Lucas diz-nos que as suas mentes continuavam centradas em coisas terrenas, preocupados com a restauração do reino de Israel. (Actos 1,6)

Então como é que abordamos este mistério? Qual deve ser a nossa disposição e quais as nossas palavras? Há duas histórias do Antigo Testamento que podem ilustrar e guiar-nos neste mistério da Ascensão.
 
Em primeiro lugar temos o episódio de Jacob e do anjo (Gen, 32, 25-32). O livro do Genesis diz simplesmente que, nesse evento, “e lutou com ele um homem, até que a alva subiu”. Quem, ou o que, é que tenha sido essa figura, Jacob compreendia que vinha do Céu e que lhe podia dar uma bênção. Por isso não o largou e exigiu: “Não te deixarei ir, se não me abençoares”. Dessa forma Jacob recebeu uma bênção divina e tornou-se Israel, o Patriarca de uma nova nação.

Tal como Jacob depois desse encontro, qualquer analogia é coxa. Não nos podemos agarrar a Nosso Senhor como Jacob agarrou o anjo. Jesus não criticou Maria Madalena precisamente por isso? (Jo. 20,17). Mas se não nos podemos agarrar literalmente ao Senhor para o deter, não devemos deixar de imitar a insistência de Jacob. Ele tinha uma tenacidade e uma confiança que se adequam bem à festa da Ascensão. Revela a confiança de que aquele que vai para o Céu pode dar dons aos que estão cá em baixo. “Subindo ao alto… Deus dons aos homens” (Ef. 4,8)

Jacob luta com o anjo
Devido à sua insistência, Jacob recebeu um novo nome, uma nova vida e um novo propósito. De igual modo, as nossas últimas palavras para Jesus não deviam ser perguntas sobre um qualquer reino terreno nem nada que seja deste mundo. Antes, devemos pedir-lhe uma bênção – que aquele que Ascende nos dê uma nova vida e propósito através do dom do Espírito Santo.

Numa segunda história do Antigo Testamento temos os profetas Elias e Eliseu (2 Reis 2: 1-14). Quando o seu mentor e mestre é elevado ao Céu, Eliseu segue Elias desde Betel ao Jordão, em Jericó. Ambos parecem saber que Elias está prestes a partir. A multidão pergunta a Eliseu: “Sabes que o Senhor hoje tomará o teu senhor por sobre a tua cabeça?”. Ele responde, de forma abrupta, “Também eu bem o sei. Calai-vos”. Depois, quando chega a hora de Elias ser arrebatado aos Céus, Eliseu suplica: “Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim”.

Porquê uma porção dobrada? Uma porção não seria mais que suficiente? É um pedido curioso e muito se tem escrito sobre ele. Mas para o que hoje nos interessa bastará focarmo-nos no atrevimento do pedido. Eliseu não se limita a pedir, não pede sequer o mesmo, não pede apenas um pouco! Ele pede uma porção dobrada daquele mesmo Espírito que fez de Elias tão grande testemunha da aliança.

Este atrevimento deve ser também o nosso quando acompanhamos o Senhor até à sua Ascensão: Dai-me uma porção dobrada do vosso espírito. Para quê fazer cerimónia a pedir aquilo que Ele já deseja oferecer – e oferecer em abundância – e que ascende precisamente para poder conceder? Este é o atrevimento que devia caracterizar os próximos nove dias, enquanto rezamos pelo dom do Espírito prometido. Esse atrevimento alarga o nosso coração para receber aquilo que Ele já tenciona conceder.

Agora ele ascendeu para poder dar-nos dons. Ordenou que esperemos pelo poder que vem do Céu. Agora, enquanto nos preparamos para o Pentecostes e para receber o dom do Espírito Santo, rezemos com a insistência de Jacob e com o atrevimento de Elias. Vinde, Espírito Santo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

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