quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Grande Sede

James V. Schall S.J.
Na colecção de ensaios “Raison et raisons”, Jacques Maritain escreve: “O mundo está sujeito a uma grande sede, um grande anseio místico que não se conhece sequer a si mesmo e que, uma vez que permanece sem objecto, se transforma em desespero ou neurose”. A maioria das pessoas compreende facilmente a noção de uma grande “sede”. A sede chama a nossa atenção. Se a sede é grande, não perguntamos: “O que é que nos sacia a sede?” Já sabemos. O “objecto” da nossa necessidade física é água.

Outras bebidas, como a limonada, também podem apascentar as nossas gargantas ressequidas. Chesterton dizia que depois de uma longa caminhada, numa estrada poeirenta e ao calor, as pessoas não bebem cerveja por causa do álcool. A cerveja é uma bebida. Estamos com sede. Para uma sede normal aquilo que desejamos é simplesmente água. É precisamente porque a cerveja é na maior parte constituída por água que também cumpre esse propósito. Nas mesmas circunstâncias, um Martini ou uma aguardente não resultam. Aliás, provavelmente deixam-nos com ainda mais sede de água. Podemos mesmo pensar: “Porque é que existe água e também sede no universo”?

O interessante nas afirmações de Maritain é a analogia com outro tipo de “sede”, uma sede de algo para além de água. Não é um argumento de desejo para existência, mas de existência para desejo. Este “anseio místico” não se conhece a si mesmo. Ao contrário da sede normal, esta sede mais profunda não conhece imediatamente o seu objecto. O que é que nos pode saciar?

Se estiver a morrer de sede, ninguém tem dúvidas sobre o que quero e do que necessito. O Evangelho diz que seremos julgados por ter dado, ou não, um copo de água a alguém que precisa. Mas a necessidade e aquilo que a satisfaz são tão evidentes que dispensam mais explicações. Se alguém está verdadeiramente com sede, não lhe perguntamos porque é que continua a falar de água. Sabemos do que precisa. Mesmo que optemos por não lho dar, o problema não está em não saber do que precisa.

Há dois pontos no comentário de Maritain: 1) ansiamos por algo que não conseguimos ainda identificar inteiramente, e 2) este “objecto” que buscamos está para nós como a água está para a sede. Ou seja, é algo bem real, algo que responde à “sede” que as nossas almas experimentam. São reflexões muito agostinianas.

Mas reparem como Maritain utiliza o termo “sujeito a”. Uma vez que não conhecemos o objecto exacto da nossa busca “face a face”, por assim dizer, partimos nas mais estranhas direcções em busca dos locais onde possa ser encontrado. Agostinho já tinha dito que tendemos a confundir as coisas bonitas com a própria beleza.

Jacques Maritain
Mas quando não encontramos aquilo pelo qual estamos sedentos, o resultado pode ser “desespero e neurose”. Muitos pensadores suspeitam que as almas desordenadas que vemos à nossa volta resultam de não saber – ou não querer saber – o objecto que verdadeiramente pode transformar a nossa busca, da mesma maneira que a água transforma um homem cheio de sede. Será que não temos, então, qualquer luz, qualquer conhecimento do objecto desta nossa sede que todos sentimos dentro de nós, quer queiramos admitir, quer não?

A raiz do problema é, julgo, aquilo para o qual somos criados. Somos criados unicamente com o propósito de viver, sim, para sempre, em comunhão com o Deus trino. Não há ninguém que tenha sido criado com outro objectivo. Tudo o que encontramos durante a nossa existência, incluindo nós próprios, tem como propósito imediato ser aquilo que é. E nós somos pessoas, e não tartarugas. A montanha é uma montanha, e não uma árvore, mesmo que as árvores cresçam na montanha.

A “sede” que todos carregamos no nosso ser não nos deixa em paz. Investigaremos, testaremos e provaremos tudo o que encontrarmos pelo caminho. Descobrimos que as coisas finitas são boas, cada uma à sua maneira. Mas não nos apaziguarão. “Porquê?”. Se somos criados para encontrar aquele “objecto” que nos satisfaz, porque não somos informados com mais detalhe sobre ele?

Mas a verdade é que fomos e somos, e o detalhe não falta. O drama do nosso “desespero e neurose” não é que somos negligenciados pela fonte do nosso ser. Não somos. O problema é que temos de alcançar o “objecto” que nos sacia pelas formas que nos chegaram. Inventamos alternativas, na maior parte projecções bizarras da nossa mente, mas por alguma razão estas não funcionam.

Sem a “sede” não poderíamos ser aquilo que somos. Com ela, apenas podemos ficar satisfeitos com a vida divina segundo o modo como nos foi dado a receber.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 24 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

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