quarta-feira, 13 de abril de 2016

Santidade de Madre Teresa: Sabedoria para além do Secular

Mary Poplin
Agora que a beata Madre Teresa vai ser canonizada é com naturalidade que vemos ressurgirem algumas das velhas críticas que lhe foram feitas. Não existem novas. O ateu-mor Christopher Hitchens “popularizou-as” para uma pequena elite em meados dos anos 90 e um “investigador” canadiano limitou-se a repetir estas “revelações” na secção de opinião do New York Times a semana passada. As acusações são de condições pouco sanitárias, recusa de medicamentos, gostar de pobreza e o carácter pouco recomendável de algumas das pessoas que lhe davam dinheiro, bem como a forma como ela o usava. William Doino Jr. respondeu claramente a estas acusações há três anos e, claro, a Congregação para as Causas dos Santos tê-las-á investigado também.

Contudo, eu quero ir para além destas defesas e sugerir que o nosso desafio, enquanto cristãos, passa por compreendermos as coisas de uma perspectiva diferente. O pensamento cristão assume uma racionalidade superior, que não contradiz a verdadeira racionalidade do mundo secular, mas que a ultrapassa. O mundo é racional, mas também é espiritual. Há leis espirituais que transcendem as meras leis da lógica. Estas são normalmente reveladas nas vidas de pessoas como a Madre Teresa. São pessoas que conhecem e vivem a vida de forma diferente.

Quando trabalhei como voluntária num dos lares para crianças de Madre Teresa, em 1996, não vi nenhuma das condições apontadas pelos seus críticos. Não duvido que alguém, num centro qualquer, possa ter-se esquecido de passar uma seringa por água. Mas não há falhas terríveis em hospitais modernos? Ainda assim, é importante lembrar que os centros não são hospitais. A madre Teresa insistia que os centros eram religiosos.

Havia lá irmãs com cursos de medicina e de enfermagem, e médicos voluntários. Quando uma criança ficava gravemente doente, as irmãs levavam-na às urgências. Contudo, a madre Teresa sempre insistiu que elas eram chamadas a fazer trabalho religioso e não social.

A Madre Teresa e as Missionárias acreditavam que cada pessoa de quem cuidavam era Jesus disfarçado de pobre. Esta é uma realidade espiritual, que não está ao alcance da lógica do humanismo secularista, embora os secularistas e os cristãos estejam de acordo quanto à necessidade de haver cuidados de saúde para os pobres.

Outra coisa que distinguia as Missionárias da Caridade era que nunca pediam dinheiro, nem aceitavam fundos do Governo (ou sequer do Vaticano). Era proibido pela sua constituição. Achavam que se estavam a fazer o trabalho de Deus, então seria do agrado de Deus sustentar todas as suas necessidades. Para grande raiva dos seus críticos, Ele fê-lo abundantemente.

Devido à fé determinada de que Deus providenciaria, elas não confirmavam as fontes de contribuições privadas. E porque haviam de o fazer? Duvalier ou Keating eram como qualquer outro doador. Sim, queriam tirar fotografias ao seu lado, mas como eles havia milhares de outros.

Há dois princípios bíblicos que explicam como estes fundos acabaram por ir parar aos centros religiosos de Madre Teresa. Em Provérbios 13,11 diz que “a riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará.” Foi precisamente o que aconteceu no caso de Charles Keating, que oferecia aos seus clientes insuspeitos taxas de juro muito altas. Em Provérbios 13,22 diz que a riqueza do pecador é depositada para o justo e em 28,8 que “o que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre.”

Os cristãos são chamados a estes carismas particulares ou a trabalhar com a ajuda e a inspiração do Espírito Santo. O chamamento específico de Madre Teresa era de servir os mais pobres dos pobres – aqueles para quem mesmo os serviços típicos aos pobres não costumam estar disponíveis. Pela sua própria natureza ela era muito frugal, tendo sido criada em pobreza depois da morte prematura do seu pai.

Queria abrir centros em todo o mundo e actualmente existem mais de 700 em 131 países.

Eu estava com a Madre Teresa em Calcutá quando saiu o livro de Hitchens, pouco depois do seu documentário crítico na BBC. Tive a oportunidade de lhe perguntar sobre o assunto e, depois de se ter esforçado por se recordar do incidente, respondeu: “Ah, o livro. Não interessa. Ele está perdoado”. Ela e as irmãs simplesmente obedeciam ao mandamento de Cristo para perdoar incondicionalmente.

Há quem diga que não perdoar é como beber veneno na esperança de que a outra pessoa morra. As irmãs leram o livro, rezaram, jejuaram, examinaram-se para encontrar qualquer erro e seguiram com a sua vida. Libertaram-se do seu ódio, mas ele permaneceu cativo.

Por fim, o enfoque da Madre Teresa era em ajudar uma pessoa de cada vez. As Missionárias são como um homem na praia, desesperadamente a lançar estrelas-do-mar para dentro do oceano enquanto os seus amigos lhe dizem que não vale a pena, dado o grande número espalhados pela areia. Ele limita-se a pegar no próximo e atirá-lo ao mar, dizendo que para aquele valeu a pena sim.

A Madre não se interessava por grandes programas, apenas por cuidar de cada pessoa abandonada e ferida, fossem crianças atiradas para caixotes do lixo, fossem idosos deixados nos becos para morrer. O sorte deles era o sofrimento. É impossível estar muito tempo no meio da pobreza de Calcutá sem conhecer o seu desespero. Ela valorizava a persistência dos pobres, a sua simplicidade e honestidade. Não amava o seu sofrimento, se assim fosse não teria trabalhado tanto para o aliviar.

Qualquer cristão, seja quão profunda for a sua fé, sabe que o sofrimento pode bem produzir frutos e que as pessoa que sofrem podem ser das mais generosas que há. A Madre Teresa era disso um exemplo perfeito. Ela sofreu muito através das noites escuras de sofrimento e padecimentos físicos. Quanto mais sofria, mais alcançava e mais pessoas vinham ao seu encontro apenas para a poder ver, falar com ela ou tocar-lhe. Isto é sofrer de modo cristão – para a glória de Deus e redenção dos outros.

É uma insensatez – embora os seus críticos não o percebam – julga-la pelos padrões do secularismo humanista. O seu chamamento e a sua vida existiam noutro plano, mais alto.


Mary Poplin é uma nova contribuidora para o The Catholic Thing. É professora na Claremont Graduate University e autor de Finding Calcutta: What Mother Teresa Taught Me e Is Reality Secular?

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

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