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Thursday, 27 October 2022

Hospital de Campanha - Felix Lungu e "A Verdadeira Igreja"

Nos últimos três episódios do Hospital de Campanha falámos dos podres da Igreja, daquilo que mais nos envergonha. Precisamente por isso, e porque sabemos que a Igreja não é isso, hoje trazemos um episódio que é basicamente um paliativo. A Igreja dos anti-abusos, a Igreja Santa, que existe mas talvez não dê tanta notícia. 

Conversámos com o Felix Lungu, da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e juntos partilhámos histórias de padres e freiras que deram, ou dão, tudo de si para servir os outros, por vezes até ao sacrifício da própria vida. 


Uma nota final e um desabafo... Este podcast é gravado com equipamento de qualidade, mas sem o apoio de profissionais. A meio deste episódio, por alguma razão, a gravação parou. Sem problema, reparámos, guardámos o que já estava gravado - para não correr riscos - e gravámos a segunda parte do episódio noutra faixa. Não mudámos rigorosamente nada no equipamento, mas por alguma razão a segunda parte do episódio ficou com uma qualidade de som muito pior que a primeira. 

Não sabemos explicar porquê, apenas lamentar e pedir desculpa e paciência aos nossos ouvintes. A conversa percebe-se na mesma, mas sabemos bem como é irritante não ter som de qualidade. Vamos tentando sempre fazer melhor!

Veja aqui todos os episódios do Hospital de Campanha

Thursday, 30 June 2022

Uma mão cheia de mártires e a "maneira católica"

Anjo das crianças de rua
Esta foi uma semana triste para os padres católicos no mundo. Dois foram assassinados na Nigéria no mesmo fim-de-semana, e outros dois no México, situação lamentada publicamente pelo Papa. Estamos a falar de dois dos países onde é mais perigoso ser-se sacerdote.

Também no fim-de-semana uma freira italiana foi assassinada no Haiti. Era conhecida como o “anjo das crianças de rua”. Outra freira que foi raptada no Burkina Faso há mais de 70 dias continua desaparecida.

Entretanto o mundo continua a reagir, de diferentes formas e feitios, à notícia da revogação do Roe v. Wade, nos EUA. Algumas pessoas estão a reagir com fúria, prometendo vingança contra todos os que contribuíram para este resultado, incluindo Igrejas católicas e centros de apoio a grávidas em risco. Como se responde a este tipo de ameaça? Randall Smith explica que gostaria de responder “à maneira de Chicago”, prometendo retaliação em dobro por cada acto cometido. Mas claro que não pode ser assim. Há outra maneira, a “maneira católica”, e é muito diferente. Leiam que vale a pena.

Já a semana passada tinha enviado uma série de links para artigos que ajudam a compreender o alcance desta decisão. Um dos links, contudo, estava errado. Por tal peço desculpa. O meu artigo, escrito ainda antes da decisão formal, que explica o que muda, o que não muda e como tudo isto nos pode afectar a nós, na Europa, está aqui.

Se ainda não ouviram, não deixem de escutar o episódio da semana passada do podcast Hospital de Campanha, em que falámos sobre as nomeações de novos cardeais, os 20 anos de independência de Timor Leste e os desenvolvimentos eclesiais na Ucrânia. Para a semana há novo episódio!

Wednesday, 6 February 2019

Francisco preparado para mediar crise na Venezuela

O Papa regressou ontem dos Emirados Árabes Unidos. No último dia lá celebrou missa com os católicos, a quem pediu que trabalhassem pela paz.


Por falar em Venezuela, a missão católica portuguesa no país diz que urge travar, de todas as formas, uma intervenção militar dos EUA no país.

Conhece o “Gabinete de Escuta”? Se não conhece, leia isto. Pode ser o que falta para ajudar uma pessoa que conhece.

Porque hoje é quarta-feira trago-vos um artigo do The Catholic Thing em português, desta vez sobre um tema muito atual, a importância do estabelecimento de uma Igreja Ortodoxa da Ucrânia independente de Moscovo e como isso pode afectar o Cristianismo global. Não deixem de ler.

E deixo-vos novamente o convite para ler a minha grande reportagem sobre o dérbi mais improvável do mundo, que se joga na língua de Cristo. Muitos dos adeptos neste jogo peculiar são naturais da Síria, onde já só 2% da população é cristã.

Thursday, 26 November 2015

Discurso do Papa improvisado aos religiosos no Quénia

Esta é uma transcrição integral do discurso improvisado do Papa em Nairobi no dia 26 de Novembro de 2015, no encontro com religiosos e religiosas. Foi feita "em directo", pelo que terá algumas gralhas ou falhas, mas apanha o essencial do discurso.

Seguir Jesus no sacerdócio ou na vida consagrada implica passar pela porta, que é Cristo. Ele começa e faz o trabalho. Há alguns que querem entrar pela janela, mas isso não serve. Por favor, se alguém tem um companheiro ou companheira que entrou pela janela, abraça-o mas diz-lhe que é melhor que vá servir o Senhor noutro lado, porque nunca vai concluir uma obra que não começou pela porta que é Jesus.

Isto tem de nos levar a ter consciência de sermos chamados. Eu fui olhado, fui eleito. Impressiona-me o início de Ezequiel XVI. Estrangeiros, deixados de lado, passei e carreguei-te comigo. Este é o caminho, esta é a obra que o senhor começou quando nos olhou. Há pessoas que não sabem porque é que o Senhor os chamou, mas sentem no coração que o Senhor os chamou. Devem estar em paz, porque o Senhor os ajudará a compreender para que foram chamados.

Há outros qe querem seguir o senhor mas por interesse. Lembremo-nos da mãe de Tiago e de João, que pediu para os filhos a maior fatia do bolo. Existe a tentação de seguir o Senhor por ambição, de dinheiro, de poder. Todos podemos dizer que quando comecei a seguir a Jesus isso pode-nos ter ocorrido, mas a outros ocorreu mesmo e pouco a pouco cresceu nos seus corações, como uma erva daninha.

Para quem segue Jesus não há lugar à ambição nem riquezas nem aspirar a ser uma pessoa importante no mundo. Seguimos Jesus nos últimos passos da sua vida neste mundo, até à cruz. Preocupem-se apenas em segui-lo até à Cruz, deixem-no preocupar-se com a ressurreição.

A Igreja não é uma empresa, não é uma ONG, é um mistério, o mistério do olhar de Deus sobre cada um. Ele diz: Segue-me. Que seja claro que se entra pela porta quando Jesus chama e não pela janela e segue-se o caminho de Jesus.

É claro que quando Jesus nos chama não nos canoniza. Continuamos a ser os mesmos pecadores. Continuamos a ser os mesmos pecadores. Peço, se há algum aqui, algum padre ou religiosa, ou leigo, que não se sente pecador, que levante a mão.

O facto de Jesus nos amar leva-nos em frente. Lembram-se de quando Tiago chorou? E quando chorou João? Não. E quando chorou algum dos outros? Não. Apenas um chorou, segundo o Evangelho, aquele que percebeu que era pecador, tão pecador que traiu o Senhor. Quando o percebeu chorou. Depois Jesus fê-lo Papa. Quem entende Jesus? É um mistério. Nunca deixem de chorar.

Quando um padre, religioso ou religiosa tem lágrimas secam, algo se passa. Chorar a própria infidelidade, pelo mundo, pelos descartados, os abandonados, os bebés assassinados, pelas coisas que não entendemos, chorar quando nos perguntam porquê? Nenhum de nós tem todas as respostas às perguntas.

Há um autor russo que perguntava porque é que as crianças sofrem, porque é que sofrem com doenças, cancros, tumores. Eu próprio pergunto porquê, não tenho as respostas, limito-me a olhar para Jesus. Há situações na vida em que não podemos fazer mais do que chorar e olhar para Jesus na Cruz. É a única resposta para certas situações na vida.

São Paulo dizia recordem-se de Jesus Cristo crucificado, quando um consagrado ou consagrada                                    É porque ele ou ela caiu num pecado muito grave, que Deus detesta, que o leva a vomitar, o pecado da tibieza, (da indiferença).

Irmãos e irmãs cuidem de não cair no pecado da tibieza.

Que mais vos posso dizer? Que levanto o meu coração a vós. Nunca se afastem de Jesus. Isto quer dizer que nunca deixem de rezar. Às vezes é difícil, ficamos cansados, com sono. Então durmam diante do Senhor. É uma forma de rezar. Mas fiquem diante do Senhor, não abandonem o lugar da oração. Se um consagrado abandona a oração a sua alma seca-se e mirra, como os figos que secam, são feios, não são atraentes. A alma de uma religiosa ou de um religioso, ou de um sacerdote que não reza é uma alma feia. Perdoem-me, mas é assim.

Deixo-vos com esta pergunta. Tiro tempo ao sono? Tiro tempo à rádio ou à televisão? Às revistas, para rezar? Ou prefiro-os? Ponham-se diante daquele que começou a obra e que a está a terminar em cada um. A oração.

Uma última coisa que vos quero dizer… antes de dizer outra… [risos] é que todo o que se deixou chamar por Jesus é para servir. Para servir ao povo de Deus. Para servir aos mais pobres, os mais descartados, os mais humildes, para servir os bebés e os idosos. Para servir também às pessoas que não estão conscientes da soberba e do pecado. Para servir Jesus. Deixar-se chamar por Jesus é deixar-se eleger para servir, não para ser servido.

Há cerca de um ano, num encontro de sacerdotes. Irmãs, estão safas… E durante os exercícios espirituais, cada dia havia um turno de sacerdotes que tinham de servir à mesa. Alguns queixaram-se. Não, nós temos de ser servidos. Pagámos e pagamos para sermos servidos. Por favor, nunca deixem isso acontecer na Igreja. Sirvam, não deixem ser servidos.

Senti tudo isto de repente, no meu coração, quando li esta frase de São Paulo. Aquele que iniciou a boa obra em vós completá-la-á no tempo de Jesus Cristo.

Um Cardeal idoso, com mais um ano do que eu, disse-me uma vez que quando vai ao cemitério, vê missionários, religiosos, que deram a sua vida ele questiona-se porque é que eles não são canonizados já amanhã? Porque passaram toda a vida a servir. Emociona-me quando falo às pessoas no fim da missa e há padres e freiras que trabalham há 40 anos num hospital num local difícil, toca-me no fundo da minha alma. Este homem ou mulher de Deus serve Deus, serve os outros e não se deixa servir.

Muito obrigado. Que Papa mal-educado? Deu-nos conselhos, deu-nos raspanetes e não diz obrigado.

É essa a última coisa que vos quero dizer. É a cereja em cima do bolo. Quero-vos agradecer. Obrigado por seguirem Jesus. Obrigado por cada vez que se sentem pecadores. Obrigado por cada carícia de ternura que dão a cada pessoa que precisa. Obrigado por cada vez que ajudaram uma pessoa morrer em paz. Obrigado por darem esperança à vida. Obrigado por deixarem ajudar e corrigir e perdoar todos os dias. Peço-vos que não deixem de rezar por mim, porque preciso.


Muito obrigado.

Thursday, 21 May 2015

"Que fazes aí fechada" no Você na TV

Hoje foi dia de ir ao Você na TV falar sobre o meu livro "Que fazes aí fechada".

O Manuel Luís Goucha, em particular, mostrou ter lido o livro e estava interessado. Penso que a entrevista correu bem, mas isso podem ver por vocês, clicando aqui.

Para já, o próximo evento marcado é uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 10 de Junho.


Friday, 10 August 2012

Sírios, Sikhs e óculos ortodoxos

Mulher bonita vista por judeu ultra-ortodoxo
Uma das grandes notícias desta semana foi o massacre de seis sikhs num templo nos Estados Unidos. O mundo mostrou-se solidário com as vítimas e os bispos americanos publicaram uma nota a dar conta da sua proximidade.

Na Nigéria também houve violência religiosa. Em dias seguidos, ataques numa Igreja e numa mesquita causaram 22 mortos ao todo. Ambos poderão ter sido efectuados pelo Boko Haram.

Dentro de cinco dias em todas as igrejas francesas vai ser lida a oração pela França que, este ano, é bastante contra o Hollande.


17 mil escuteiros tiveram reunidos em Idanha a Nova e deram o maior abraço do mundo.


E quem disse que a religião cega os fiéis? No máximo, torna-lhes a visão desfocada….


Por fim, lembram-se do caso de D. Manuel Monteiro de Castro e o “lugar” das mulheres? A ERC condenou o Correio da Manhã pelo título difamatório

E agora, sigam as férias!

Wednesday, 8 August 2012

Contra o “Agora Evolucionário”

Enquanto procuram conduzir os jovens rumo à idade adulta os pais dizem muitas vezes, sobretudo aos adolescentes: “pensa por ti”. Claro que não é isso que querem dizer. Sob a capa dessa aparente liberdade, o que querem dizer para não pensar, muito menos agir, como os idiotas dos amigos com quem te dás. Mas pensar como os amigos – ao invés de pensar como os pais, professores ou pastores – é precisamente o que as crianças imaturas entendem por “pensar por si”.

Talvez a comparação seja injusta, mas lembrei-me deste triste facto da natureza humana quando li a entrevista recente da irmã Pat Farrell, presidente da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) à cadeia NPR, durante a qual ela disse que o actual conflito entre as freiras americanas e o Vaticano resume-se à questão: “Pode ser-se católico e ter uma mente interrogativa?”. Que fique claro que a irmã Farrell enfrentou anos de perigo na América Latina, de onde regressou, como muitos outros, com o que me parece ser um entendimento errado da teologia da libertação. Mas arriscou a vida por aquilo em que acredita, e isso revela uma atitude adulta.

Ainda assim, há algo mais do que um pouco adolescente – e paternalista – sobre a pergunta. Amanhã [ontem] em St. Louis começa a conferência anual da LCWR, cujo tema é: “Mystery Unfolding: Leading in the Evolutionary Now” [Um mistério que se revela: Liderança no Agora Evolucionário]. Só pessoas com uma perspectiva que ultrapassou o prazo de validade por volta de 1978 é que poderiam propor em 2012 um tema que mais parece pertencer a um “então reaccionário”. Farrell e as suas irmãs são grandes fãs da evolução e de mudar as ideias para responder aos sinais do tempo – sobretudo quando essas novas ideias nada têm a ver com o Catolicismo tradicional. Tudo isto estará em cima da mesa quando discutirem as críticas do Vaticano à LCWR na conferência.

Tudo isto tem tido grande ressonância nos media, que não se têm dado ao trabalho de entrevistar religiosas que pertencem a ordens que talvez ainda existam dentro de 20 anos. Mas ao celebrar a irmã Farrell e a LCWR os media praticam uma forma subtil de ventriloquismo, passando a ideia de que os verdadeiros católicos pensam por si, precisamente porque pensam como, por exemplo, a NPR.

O meu entendimento disto é que um certo segmento de uma geração mais velha de católicos comprou gato por lebre num período caótico – aqueles anos depois do Vaticano II quando parecia que a Igreja não sabia em que é que acreditava. Pensar por si é óptimo, mas nem sempre é fácil e nunca somos os únicos a fazê-lo.

O caso mais famoso de uma pessoa a tentar pensar unicamente por si foi Descartes com o seu cogito ergo sum “penso, logo existo”. Uma antiga história francesa, provavelmente apócrifa, conta como um tolo parisiense interrogou Descartes: “Mas monsieur Descartes, e eu? Não penso, porém existo”.

Mas agora a sério, como é que Descartes poderia ter escrito o cogito se não tivesse aprendido latim com os jesuítas do College Royale em La Flèche? E porque é que criaria a sua proposição se a sociedade europeia do seu tempo não estivesse a viver uma crise epistemológica? Se podemos pensar é precisamente porque existem comunidades humanas e pessoas que nos ensinam a falar.

Pode parecer recôndito, mas é importante para a questão que temos diante de nós: “É possível ser-se católico e ter uma mente interrogativa?” Ignorem o insulto escondido na formulação da pergunta. A forma séria de colocar a questão seria: “Como é que podemos ser católicos nas nossas interrogações, tão necessárias, e nas nossas demandas intelectuais?”

Religiosas da LCWR

Ser um pensador ou um interrogador católico não é, ao contrário do que indica a LCWR, acreditar que aquilo que nos passa pela cabeça merece, só por si, algum relevo especial. Há questões de juízo e de experiência e de pertença a uma comunidade que entram em jogo também.

Um dos fundadores de The Catholic Thing, Michael Novak, disse que quando leu em Aristóteles que ninguém pode ser filósofo antes dos quarenta anos, pensou para si mesmo: “Muito bem, então o que posso fazer entretanto?”. Aí está a atitude de um jovem promissor.

A Igreja, que absorveu a sabedoria dos antigos pagãos, tem sido a encarnação deste tipo de realismo. A expressão latina sentire cum ecclesia “pensar com a Igreja”, pode parecer uma limitação à liberdade intelectual. Mas tudo se resume a saber se somos católicos, isto é, uma pessoa a fazer perguntas no contexto de uma tradição viva.

O Catolicismo não tem resposta para tudo, é certo. As freiras americanas podem pensar que sabem acabar com a pobreza ou com a crise financeira, mas a Igreja, como um todo, não sabe. Mas se em 2000 anos ela não acumulou alguma sabedoria verdadeira, então mais vale desistir.

Atribuo grande parte destes juízos apressados, mesmo dentro da Igreja, a uma atitude que persiste desde o tempo de Kant (1724 – 1804), um grande pensador e um moralista sério. Mas o seu lema pessoal Aude sapere, “atrever-se a saber”, muitas vezes associado à ideia de que a humanidade “atingiu a maioridade”, tem tido algumas consequências infelizes.

Pela minha parte, sou demasiado novo para ter seguido de perto o Concílio Vaticano II, mas lembro-me, um pouco mais tarde, de ouvir católicos a falar com grande segurança sobre um mundo que tinha “atingido a maioridade”, (um termo que aparece mesmo nos documentos do concílio) e a fazerem-se corajosamente à estrada naquilo que pensavam ser um caminho de renovação.

Passaram-se dois séculos desde Kant e meio século desde o Concílio. Temos tido melhorias materiais: contrariamente ao que dizem os liberacionistas, o capitalismo, o industrialismo e a tecnologia têm aumentado o nível de vida das pessoas comuns e retirado milhares de milhões a uma vida de pobreza. Tem sido um percurso acidentado? Claro! Mas não tem paralelo na história da humanidade.

No que diz respeito à maioridade, porém, estamos quase sempre na mesma. Se, enquanto católico – ou Ser Humano – quiser pensar um bocadinho por si, é melhor esquecer o Agora Evolucionário e reconciliar-se com esta antiga mas indispensável evidência.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 6 de Agosto 2012 em www.thecatholicthing.org)

Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Tuesday, 7 August 2012

Freiras americanas em regenopausa a liderar o Agora Evolucionário

Não, não é mesmo uma das freiras... acho eu
Este ano o Vaticano publicou uma nota em que criticava uma organização de líderes de ordens religiosas femininas na América, que representa cerca de 80% das religiosas daquele país.

Entre as críticas está uma forte tendência feminista e exagerado empenho em causas sociais por oposição a causas que o Vaticano considera importantes, como a promoção do Cristianismo, a causa da vida, etc.

A Leadership Conference of Women Religious (LCWR) está sujeita à Santa Sé e o Vaticano nomeou um bispo para supervisionar as suas actividades de agora em diante.

Hoje começa a conferência anual da LCWR. Entre os assuntos a discutir estará a resposta a dar ao Vaticano. As freiras já indicaram que não estão nada satisfeitas e até disseram ao arcebispo Peter Sartain, o tal nomeado para supervisionar a organização, que a sua presença na conferência não seria bem-vinda.

As freiras consideram injusto que o Vaticano as critique e por isso vão concertar uma resposta num encontro subordinado ao seguinte tema: “Mystery Unfolding: Leading in the Evolutionary Now”.

Sinceramente, nem sei bem como traduzir isto: “Um mistério que se revela: Liderança no Agora Evolucionário”? Faz tanto sentido para mim assim como no inglês original.

E quem é a conferencista principal deste encontro de freiras católicas? A senhora Barbara Marx Hubbard. Certamente uma figura destacada do mundo católico americano… ou não. Marx Hubbard não é católica nem pertence a qualquer outra religião.

Então como é que ela se descreve? Segundo a sua página de Facebook, assim:
I am an 82 year old Visionary enjoying “Regenopause 2.” Regenopause 1 is from 50 to 80. # 2 is 80 and beyond. I feel I am here to be a voice for the Collective Emergence of humanity as a Co-creative Universal Species!

Mais uma vez, vou tentar traduzir: “Sou uma Visionária de 82 anos, a gozar a ‘Regenopausa 2.’ Regenopausa 1 é dos 50 aos 80. O 2 é dos 80 em diante. Sinto que estou aqui para ser uma voz da Emergência Colectiva da humanidade enquanto Espécie Co-Criadora Universal!”.

Desculpe?

Há tempos publiquei aqui no blogue uma reportagem sobre a Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane. Disse na altura que: “Depois de uns quantos anos a trabalhar nesta área e mais uns quantos apenas a segui-la com interesse, continuo a surpreender-me com algumas das coisas que descubro.”

Obrigado Barbara Marx Hubbard e as simpáticas freiras da LCWR por tornarem o meu trabalho tão interessante!

Monday, 2 July 2012

Depois dos tradicionalistas, um gesto para os liberais?


Arcebispo Gerhard Ludwig Müller
Bento XVI nomeou hoje um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. O agora arcebispo Gerhard Ludwig Müller era bispo de Ratisbona e sucede ao cardeal William Levada num dos mais importantes postos da Igreja, ocupado pelo próprio Papa até à sua eleição em 2005.

Confesso que fiquei surpreendido com a esta troca. Levada já tinha idade para resignar, mas o Papa também o podia ter mantido no lugar. A mudança vem numa altura em que o americano tinha acabado de ver frustrada, pelo menos temporariamente, a reconciliação com os tradicionalistas da SSPX. Surge também depois da “condenação” às freiras americanas, um acto que no meu entender era perfeitamente justo, mas que poderá não ter sido tratado da forma mais delicada. Pode mesmo ter sido esse episódio que levou a que finalmente o Vaticano contratasse um especialistas para regular as relações com a imprensa.

A saída de Levada será um castigo? Foi o que pensei inicialmente, mas vozes mais entendidas que eu garantem que não, foi mesmo só por limite de idade… talvez. Talvez eu esteja a cair na tentação de procurar conspirações em todo o lado.

O que dizer de Müller? Ao que parece, ele é um daqueles casos peculiares, considerado liberal pelos tradicionalistas e conservador pelos liberais. Os sites e blogues de pendor mais tradicionalista (católicos ou não), estão a alertar para o facto de Müller ser defensor da teologia da libertação, a corrente que fez tanto furor na América Latina nas últimas décadas e que ainda tem muitos proponentes, mas que até agora o Vaticano tinha condenado de forma bastante clara. Não deixa de ser estranho ter na CDF um pessoa que vê o movimento com bons olhos e que o tem defendido publicamente diversas vezes.

Bento XVI tem sido criticado por só ter gestos de aproximação para uma certa ala da Igreja. Desde as conversações com os herdeiros de Lefebvre, passando pela criação de ordinariatos pessoais para ex-anglicanos, na vasta maioria conservadores, até à “censura” às freiras americanas. Esta nomeação pode então ser entendida como um gesto de boa vontade para com a ala liberal, dando um pequeno encorajamento a uma das suas causas preferidas, a teologia da libertação.

Aparentemente, contudo, seria um gesto destinado a rebentar completamente com qualquer possibilidade de reunificação com a SSPX. Ainda por cima, Müller e a SSPX já tiveram trocas de palavras bastante azedas no passado.

Arcebispo Di Noia
Será aí que entra outra nomeação feita a semana passada, a do Arcebispo Di Noia para vice-presidente da Ecclesia Dei, uma comissão criada precisamente para lidar com grupos tradicionalistas. Di Noia veio preencher um lugar que estava vago há anos, sendo que o presidente da Ecclesia Dei é sempre o prefeito da CDF.

Penso, portanto, que o esquema será este:
Müller na CDF para se dedicar às milhentas coisas que a CDF faz e tentar equilibrar a imagem de uma agência que muitos pensam que existe para perseguir apenas liberais, mas essencialmente fora das conversações com a SSPX, e Di Noia na Ecclesia Dei, como vice-presidente mas a agir com autonomia, para procurar selar o regresso da SSPX.

O tempo dirá se é esta a realidade ou não.

Monday, 30 April 2012

Maio, mês de reconciliação? E será que interessa?



Um leitor deste blogue sugeriu o dia 13. Seria uma data interessante, sobretudo se tivermos em conta que o bispo Bernard Fellay, o actual líder desta sociedade fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre que se encontra em ruptura com Roma desde 1988, convocou há poucos anos uma “cruzada de terços” pela reunificação.

A data certa é um mistério. Se o Vaticano trabalhar ao seu ritmo, que não é o ritmo do mundo (como já sabemos pelas negociações a propósito dos feriados religiosos), então bem podemos esperar. Mas penso que o Papa não quererá perder muito mais tempo a este respeito. Esta unificação, a confirmar-se, configurará a concretização de um sonho e uma reconciliação pessoal. Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé na altura em que se deu a ruptura e, então, foi incapaz de a evitar.

E se os tradicionalistas forem recebidos de volta à Igreja, como se espera, o que se passará?

Em termos de organização, o Papa certamente lhes oferecerá uma estrutura que lhes dá bastante autonomia. Alguma coisa do género da prelatura pessoal do Opus Dei ou do ordinariato pessoal dos ex-anglicanos. Assim os membros da SSPX ficarão em larga medida a salvo das interferências dos bispos liberais que, em muitos locais da Europa Ocidental, são muito contrários a esta reunificação. Exactamente qual será essa estrutura não se sabe, mas o Papa tem total liberdade para inventar a estrutura que bem quiser, portanto não adianta muito tentar adivinhar.

Ou não...
Qual será a reacção da SSPX? Em primeiro lugar quero esclarecer que embora conheça uns quantos católicos de pendor tradicionalista, não conheço pessoalmente ninguém da SSPX. Em Portugal não são propriamente numerosos. Por isso tudo o que escrevo a seguir diz respeito ao que vou lendo, no meu esforço de acompanhar esta situação.

Com base nessas leituras, que incluem artigos, blogues e comentários aos mesmos feitos por simpatizantes e/ou membros da SSPX, penso que se engana quem pensa que os tradicionalistas regressam a Roma quais filhos pródigos, humildemente agradecidos pela magnanimidade do pai.

Há excepções, e já li alguns comentários de tradicionalistas a elogiar a benevolência de Bento XVI, mas a tendência geral é de um enorme triunfalismo, eventualmente de missão, de quem vem salvar Roma dos seus desvios. Os tradicionalistas não são conhecidos pela sua flexibilidade e, enquanto grupo, penso que o convívio debaixo do mesmo tecto nem sempre será fácil. A verdade, também, é que raramente estarão mesmo debaixo do mesmo tecto, uma vez que terão a sua estrutura autónoma.

Poderei estar a ser injusto com esta análise, se for o caso peço desculpa.

Who cares?
Finalmente, alguns poderão perguntar mas, afinal de contas, o que é que isto interessa?

Interessa muito, e basta olhar à nossa volta para ver o que se está a passar na Igreja actualmente para perceber porquê.

Sem querer fazer juízos de valor, o que é que vemos? O mesmo Papa que abriu as portas aos anglicanos conservadores (esvaziando, na prática, o diálogo ecuménico com uma igreja que insiste em cavalgar rumo ao liberalismo extremo) abre agora as portas aos católicos tradicionalistas que estavam afastados. No mesmo mês sabemos que a Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente as religiosas americanas pelos seus desvios à doutrina católica e a insistência em promover causas contrárias ao magistério.

Na Europa, onde a SSPX é mais forte, os tradicionalistas regressam a uma Igreja em que está a ocorrer, debaixo dos nossos olhos, uma rebelião liberal nos países germânicos. Centenas de padres assinam “manifestos pela desobediência”.

Aos 85 anos, e depois de sete na Cadeira de Pedro, o Papa está a tomar medidas concretas para reforçar a sua posição, que é conservadora e tradicionalista, sem ser extremista. Os resultados levarão tempo a fazer-se notar, mas penso que a atitude dos bispos americanos no seu “conflito” comObama já é um reflexo desta nova realidade.

Portugal não é um bom espelho desta realidade, mas a clivagem entre uma Igreja conservadora e uma Igreja liberal é demais evidente em várias partes do mundo.

Quando foi eleito muitos vaticinaram um duro pontificado do “Pastor Alemão”. Bento XVI tem surpreendido os mais críticos e, até certo ponto, desiludido os seus defensores mais ferozmente conservadores.

Afinal, ao que parece, o “Pastor Alemão” ainda sabe ladrar.

Filipe d’Avillez

Friday, 20 April 2012

Freiras mal comportadas e "aquele país não é para Islão"

A Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente uma organização que representa as religiosas americanas. São acusadas de erros doutrinais, silêncio em relação a questões fundamentais e até “feminismo radical”.

Na Alemanha, logo no arranque de um congresso sobre o Islão, um deputado conservador decidiu dizer que essa religião “não tem lugar”, no país.

Já subiu para 35 o número de tibetanos que se imolaram pelo fogo em protesto contra a China. Para além das últimas duas vítimas, de ontem, circulam imagens de um homem que é espancado pela polícia enquanto ainda está a arder. São imagens chocantes, que pode ver aqui.

O mundo tem-se revoltado ultimamente contra o Paquistão e a sua lei da blasfémia. O mundo, como que diz… no Kuwait acham boa ideia e querem copiá-la.

E pelos vistos há pessoas que têm uma imagem do Festival da Eurovisão ainda pior que a minha. São os islamistas do Azerbaijão, que ameaçam os participantes com ataques.

Ontem não pude enviar mail, mas a principal notícia é sem dúvida a aprovação de normas para lidar com casos de abusos sexuais na Igreja portuguesa.

Para este fim-de-semana fica uma recomendação cultural. Uma visita por Lisboa passando pelos locais mais importantes ligados ao Judaísmo, guiada por Susana Bastos Mateus. Começa às 15h nas Portas do Sol e custa 15 Euros.

Deve ser muito interessante, eu não posso ir porque trabalho no fim-de-semana. Por essa razão folgo na segunda e terça. Como quarta é feriado, voltarei no dia 25. Não se esqueça que pode ir acompanhando as principais novidades no nosso grupo do Facebook.

Monday, 5 March 2012

Sobre as irmãs oblatas e o “bordel” na Mouraria

Na Quinta-feira, salvo erro, o Jornal de Negócios publicou um artigo com um título que dizia que a Câmara Municipal de Lisboa vai abrir um bordel na Mouraria, que será gerido pelas freiras Oblatas do Santíssimo Redentor (não confundir com as outras Oblatas, que trabalham na área do ensino).

Claro que deu brado. Nessa noite as televisões pegaram no assunto e no dia seguinte vinha em todos os jornais.

Na Renascença temos uma responsabilidade acrescida no que diz respeito a notícias que metem religião e a Igreja Católica ao barulho. Por isso, e porque a notícia não parecia estar bem explicada, decidiu-se enviar alguém para falar mesmo com as freiras e suas colaboradoras. Calhou-me a mim.

O resultado foi esta reportagem. Mas no que diz respeito à polémica, explica-se rapidamente do seguinte modo.

  1. Esta ordem trabalha exclusivamente com prostitutas, em vários países do mundo.
  2. A Câmara está a fazer a requalificação da Mouraria e, nesse âmbito, as freiras pediram que fosse cedido um espaço para apoio às prostitutas daquela zona.
  3. No sentido de responsabilizar o grupo de prostitutas com quem trabalham, as freiras e a equipa técnica (que inclui leigas), decidiu deixar a elas a decisão do uso a dar à casa. Cito: “Pensou-se então em criar um espaço no Intendente onde elas se reunissem e se organizassem elas próprias, porque, até este momento, somos sempre nós a possibilitar-lhes estes serviços. Aqui era para lhes dar voz e serem elas as protagonistas, a dizerem o que precisavam, se de formação, de apoio na saúde ou de outra coisa. Se elas decidissem que era um espaço onde queriam que se praticasse o trabalho sexual para terem melhores condições de segurança, garantindo a saúde e a higiene, que pudessem fazer também essa escolha”.
  4. A casa é da Câmara, a gestão seria das prostitutas, as Oblatas, em todo o processo fariam apenas de intermediárias.
  5. Não foi ainda tomada qualquer decisão. Não se deve partir do princípio que a decisão passe por ter “um espaço para praticar o trabalho sexual” e, o que não é de somenos, não é nada claro que a Câmara o aceitasse de qualquer maneira, sobretudo depois da polémica dos últimos dias.
Mouraria
Feito este resumo, não queria deixar de dar a minha opinião sobre tudo isto.

Em primeiro lugar penso que não é demais elogiar, muito, o trabalho que estas pessoas fazem junto das mulheres mais marginalizadas da nossa sociedade. Eu sei que há prostitutas de luxo, e algumas que se calhar fazem aquele trabalho por escolha e não por obrigação etc. etc. Pela explicação que me foi dada, não são essas com quem as Oblatas trabalham. Elas estão junto de quem mais precisa e, crucialmente, transmitem-lhes a ideia de que são pessoas, com dignidade, com valor. Humanizam quem, pelo trabalho que exerce, é diariamente desumanizada por clientes, chulos e sociedade.

Segundo, acredito que seja de facto possível que para muitas prostitutas o simples exercício de se organizarem, tomarem decisões e sentirem que alguém lhes confia essa responsabilidade, possa ser o empurrão que faltava para procurar outras soluções.

Terceiro, não obstante tudo isso e sem perder o imenso respeito que ganhei ao tomar conhecimento do trabalho que fazem junto das prostitutas, não concordo com a possibilidade sequer de aquela casa poder ser usada para o exercício da prostituição.

Não posso deixar de pensar nisto pela perspectiva de pai. Tenho duas filhas que, salvo alguma tragédia, jamais conhecerão algo que se pareça sequer com a vida de uma prostituta. Mas se por acaso isso acontecesse?

Como pai faria tudo, mas tudo, o que estivesse ao meu alcance para as “resgatar”, mostrar-lhes que têm valor. Jamais lhes viraria as costas nem as colocaria fora da minha vida. Agora daí a abrir as portas da minha casa para que pudessem exercer... não. Não sou capaz de achar bem que se abram as portas de outras casas para aquelas que não sendo minhas filhas, são filhas de alguém.

Há aqui, por mais que se tente olhar de perspectivas diferentes, um selo de aprovação inerente, que parece legitimar o “trabalho sexual”. Não me refiro às intenções de quem neste caso está a “mediar” o processo, falo sobretudo da impressão que pode causar na sociedade e nas próprias prostitutas. Não me convenço de que seja benéfico.

Eu sei que isto não é um assunto fácil, e claro que não sou eu que lá estou noite após noite a tentar ajudar estas mulheres, a ver o que sofrem. Por outro lado, às vezes é preciso estar de fora para ter uma visão menos influenciada das coisas.

A existência da casa parece-me bem, evidentemente. A formação, apoio sanitário, psicológico e tudo o resto, não posso deixar de louvar, mesmo muito. Mas penso que é importante passar uma mensagem clara. A prostituição não é mais digna por ser “higiénica e segura”, é uma instrumentalização que atenta sempre, sempre, contra a dignidade inerente das mulheres e se não pode ser ignorada, não deve de forma alguma ser encorajada, mesmo que seja visto apenas como um mal menor para se conseguir o objectivo final de possibilitar o abandono daquela vida.

Concluindo, contudo, deixo aqui o contacto da instituição, porque eu vi com os meus olhos muitos dos serviços práticos que prestam, de enormíssimo valor, e sei que obras destas precisam sempre da ajuda que lhes possamos dispensar, seja material, financeiro ou humano. Quem estiver interessado em contactá-las pode fazê-lo para aqui: irmasoblatas@gmail.com.

Filipe d’Avillez

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