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Wednesday, 15 March 2023

O Único Caminho para um Coração Limpo

Anthony Esolen
Recentemente, durante uma conversa, comentei que a introdução da pílula nas relações entre rapazes e raparigas jovens tinha elevado perigosamente o risco das relações sexuais. Todas os prazos saudáveis que medeiam entre um encontro amigável e uma noite na cama foram varridos. De repente, nenhum dos sexos sabia muito bem o que esperar do outro. O resultado, como tenho estado a dizer há muitos anos, foi a solidão de todos os que não alinham no jogo e uma variedade de destroços morais e pessoais para quem alinha. E talvez, no final de contas, uma solidão ainda mais profunda, incluindo uma alienação completa do sexo oposto.

Como é que não prevemos isto? Como é que os católicos, e em particular os teólogos e filósofos, não compreenderam aquilo que pagãos como Platão, Aristóteles, Zenão o Estóico, Cícero e Marco Aurélio viram, que mascarar o pecado não altera o seu efeito, tal como polvilhar com açúcar não diminui o efeito de um prato de veneno?

O meu interlocutor ficou admirado, respondendo que se a pílula tivesse sido disponibilizada 40 anos antes, as pessoas de então teriam agido exactamente da mesma forma que os seus descendentes. Estava a sugerir que a geração do meu avô era tão fraca, egoísta e podre como a que aceitou a pílula.

Respondi que não podemos julgar as pessoas por aquilo que achamos que teriam feito, mas apenas por aquilo que de facto fizeram. Ele admitiu que os mais antigos eram melhores na arte do cortejo, mas contrapôs que fumavam cigarros em elevadores com crianças, ao que eu poderia ter respondido que os nossos tempos também estão repletos de obscenidade públicas, entretenimento ordinário e pornografia, tudo na presença de crianças e, no que diz respeito aos primeiros dois, encorajando mesmo a sua participação.

Há que fazer distinções. A natureza humana não muda. Os alemães que se tornaram nazis talvez fossem pilares das suas comunidades se tivesse crescido noutro local ou tempo; e qualquer um de nós, sobretudo aqueles com tendência para movimentos intelectuais ou para encontrar bodes expiatórios, coisa não rara entre a humanidade, poderia ter-se tornado nazi.

Talvez seja mais seguro dizer que este exercício não faz muito sentido. É como pensar como seríamos se tivéssemos nascido de outro sexo. Isso implicaria ter todo um outro corpo, mas não existe um “eu” flutuando por aí, dissociável do meu corpo.

Posso imaginar, ou adivinhar, o que eu, enquanto pessoa já existente, teria feito caso não tivesse feito um curso em Princeton que mudou a minha vida, ou caso não tivesse conhecido a minha mulher Debra, mas mesmo aí estou em território minado. Se calhar, quando tentamos adivinhar o que teríamos feito perante um determinado conjunto de circunstâncias, estamos na verdade a basear essa suposição naquilo que de facto já fizemos em circunstâncias semelhantes.

Por exemplo, aqueles que actualmente se divertem em difamar outros, ou em interpretar as suas palavras ou acções à pior luz possível, talvez tivessem dado óptimos informadores. Ou, pegando na coisa de outra forma, talvez os que actualmente partem do princípio que o lugar da relação sexual é numa relação comprometida e exclusiva, com vista à permanência (por mais iludidas que as pessoas possam estar em relação a tudo isso), teria praticado a castidade e a continência antes do casamento naquela altura.

Ainda assim, fazemos o que fazemos e os nossos actos tornam-se aquilo que somos. John C. Calhoun tratava os seus escravos de forma bondosa, e isso fez mais do que deixar uma marca na sua alma. Esse pecado consumiu a sua alma e assimilou-se a ela de tal forma que na sua velhice Calhoun já não sentia qualquer vergonha por ser esclavagista, olhando-o mesmo como um bem.

Não pretendo julgar a disposição eterna da sua alma. Deus é o juiz. Mas aquilo que vemos, podemos declarar. O pecado deforma e o pecado praticado com uma consciência tranquila, como parece ter ocorrido com Calhoun, deforma ainda mais. Daí que a prostituta que chorou aos pés de Jesus estivesse em melhor estado que Simão o Leproso, que pecava com orgulho e com a consciência límpida como a luz do dia.

O pecado está para a alma como a doença para corpo, mas com uma diferença fundamental que torna o pecado ainda mais perigoso. O corpo consegue combater a doença com os seus próprios recursos. A alma não consegue combater o pecado desta forma. Isto acontece, mais uma vez, porque o pecado é mais do que um invasor. “Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?”, clama São Paulo, descrevendo a luta daquele que sabe aquilo que é bom para a alma, que quer escolher esse bem, mas dá por si a escolher o mal. 

Pior ainda é a luta de quem já nem sequer reconhece o bem. Deve ser claro que nenhum esforço da alma lhe pode valer, uma vez que a escória está completamente misturada com o minério. O minério não tem qualquer forma de expulsar a escória, salvo uma. Só a operação da graça divina pode valer, com a palavra de Deus que penetra até à medula.

Daí decorre também a necessidade urgente de pregar a verdade. Ninguém nos diz que que Deus vai julgar uma ficção de nós mesmos, algo que poderíamos ter sido noutras circunstâncias, imaginárias. Ninguém nos diz que Ele deve salvar a mesma percentagem de nazis e de carpinteiros amish. Somos todos pecadores e todos ficamos aquém da glória de Deus.

Devemos voltar-nos para Deus e dizer: “Um novo coração me dá Senhor”. É algo grandioso que pedimos, porque a re-criação de uma só alma é uma maravilha maior do que a criação do mundo. Não devemos pedir a Deus que “julgue aquilo que eu poderia ter sido”, mas sim “perdoa aquilo que sou, e faz de mim uma pessoa nova”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Escreveu, entre outros, Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, and Nostalgia: Going Home in a Homeless World, e mais recentemente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts, em Warner, New Hampshire. Pode visitor o seu site em: Word and Song.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 11 de Março de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Friday, 21 May 2021

O Filipe resolve o problema do Médio Oriente... Quase.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia para falar sobre a crise no Médio Oriente, as raízes do conflito entre Israel e a Palestina, o papel da religião em tudo isto e possíveis soluções de paz.


Friday, 4 October 2019

Fim-de-semana em cheio e Cristianismo em ação

Temos aí um fim-de-semana em cheio à porta!

Para além das eleições, temos a elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal e, no domingo o arranque do sínodo da Amazónia. Acompanhem a Renascença para uma cobertura aprofundada quer de um quer do outro.

Hoje temos a sorte de ter uma grande entrevista a D. José Tolentino, em que ele fala do que a Igreja espera dele e explica que as diferentes sensibilidades na Igreja não são, nem nunca foram, um problema, são antes uma fonte de riqueza.

Temos também uma entrevista com o missionário Adelino Ascenso (na foto), que diz que a Igreja precisa de levar um “abanão”.

Como é que a detenção de um suspeito de ser incendiário pode ser uma questão de liberdade religiosa? Veja aqui, não se vai arrepender.

Peço-vos agora quatro minutos da vossa vida para verem o vídeo que está neste post. É um resumo da essência do Cristianismo. É santidade em ação. Não percam, mesmo.


Cristianismo em acção

Todas as noites tento rezar com os meus filhos, primeiro com os três mais novos, depois com os três mais velhos.

Ontem, em vez de rezar, sentei-me com eles para ver este vídeo.

Temos aqui o Jean Brandt a usar da sua prerrogativa de falar em tribunal na altura em que a homicida do seu irmão é sentenciada. Botham Brandt foi morto quando uma polícia chegava a casa e - segundo diz - entrou no apartamento dele por engano, pensando ser o dela. Ao ver um homem desconhecido no que pensava ser o seu apartamento, baleou-o duas vezes.

A resposta de Jean Brandt em tribunal vale mais que todas as catequeses, todas as homilias. É Cristianismo em acção. É heroísmo. É santidade. É tudo o que eu quero que os meus filhos sejam.


Monday, 6 May 2019

A alegria do Perdão e o Deus das surpresas

O Papa Francisco na Bulgária
O Papa Francisco está na Bulgária, onde hoje visitou um campo de refugiados, deu primeira comunhão a um grupo de perto de 250 crianças e participou numa vigília de oração pela paz.

Ontem foi recebido pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa local, pedindo que a “alegria do perdão” ajuda os cristãos a alcançar a unidade e celebrou missa, falando do “Deus das surpresas” como alternativa a um regresso ao passado.

O Sri Lanka vai recuperando lentamente dos terríveis ataques de Domingo de Páscoa. As igrejas continuam fechadas enquanto os cristãos rezam pela paz.

Os bispos portugueses decidiram de forma unânime criar estruturas de proteção de menores nas suas dioceses.

No mundo de hoje “censura” é quase um palavrão. Mas a verdade é que a sociedade censura uma variedade de ideias e conceitos que não considera admissíveis. Neste artigo do The Catholic Thing em português, David Warren defende o regresso a um tempo em que ideias como eutanásia e infanticídio não eram sequer discutidos, quanto mais praticados.

Wednesday, 24 April 2019

AIS condecorada na ONU

Clicar para aumentar
O Papa pediu esta quinta-feira o fim da cultura da vingança, recordando que quem não perdoa fecha a porta ao perdão de Deus.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai ser condecorada pela Missão Permanente da Santa Sé junto da ONU. Um prémio merecido pelo trabalho que fazem pelos cristãos perseguidos.

Temos ouvido dizer que morreu um português nos ataques no Sri Lanka. Digo eu que não foi um, foram dezenas.

Se é da zona do Porto, não perca esta formação interessantíssima que se realiza a partir do dia 12 de junho, sobre as diferenças entre a forma como a religião influencia a política na Europa e nos EUA. Ver a imagem para mais detalhes.

Alguma vez lhe tinha ocorrido que a Arca de Noé podia ser uma prefiguração de Cristo? Ou que Isaac a carregar a lenha pelo monte acima, para o seu próprio sacrifício, simbolizava Jesus a carregar a Cruz? Esta é a beleza do sentido figurativo das Escrituras, tema para o artigo desta semana do The Catholic Thing em português, a ler.

Friday, 1 March 2019

Américo, o auxiliar

Lisboa tem um novo bispo auxiliar. Por acaso é o meu chefe. O Papa nomeou esta sexta-feira o padre Américo Aguiar para ocupar essa função. O agora D. Américo deixou uma mensagem para Lisboa, dirigida especialmente aos jovens, e outra para o Porto, de onde é natural. Em entrevista à Renascença o novo bispo falou da importância de se monitorizar os media, a bem da democracia.

D. Manuel Clemente elogia as “grandes qualidades” do novo bispo e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa acha que ele será um bispo “muito completo”. Até o presidente da Câmara de Lisboa fez questão de saudar a “renovação geracional” que a escolha representa.

Uma das obras mais próximas do coração de D. Américo é a Irmandade da Torre dos Clérigos, cujo restauro ele supervisionou e que muitos dos que comentaram a sua escolha destacaram.

Mudando radicalmente de assunto, os padres portugueses sagraram-se novamente campeões europeus de futsal. A sério malta, já podiam começar a dar oportunidades aos outros…

E já começaram a sair as mensagens de Quaresma! Conheça aqui a do seu bispo, caso já tenha sido divulgada.

Deixo-vos ainda com esta entrevista ao Joaquim Galvão, que quer implementar o dia do Perdão e da Reconciliação, a 1 de Março. Uma excelente iniciativa.


Friday, 20 July 2018

Santidade em Fátima e lixo em São Tomé

Santificação em acção em Fátima
Ontem estive em Fátima no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. O ambiente é, de facto, muito especial!

Pude entrevistar o bispo iraquiano Georges Casmoussa, que falou da necessidade de perdão mesmo em casos de perseguição extrema e disse que a reconciliação no Iraque tem de ser liderada por leigos.

Hoje publicamos uma entrevista com o presidente da Conferência Episcopal do Brasil, que também está no encontro. D. Sérgio Rocha elogia o papel das Equipas para redescobrir a alegria do casamento e, noutro tema, diz que é cedo para se saber o sínodo da Amazónia, no próximo ano, irá aprovar a ordenação de homens casados.

Cabinda tem um novo bispo. Saiba porque é que isso é mais interessante do que possa parecer à primeira vista…


E saiba aqui como é que pode ajudar os Leigos pelo Desenvolvimento a comprar um carro de recolha de lixo para São Tomé!


Wednesday, 27 September 2017

Não há paz sem perdão, mas há perdão sem cristãos?

Pe. Firas Mutfi
O perdão é crucial para se alcançar a paz no Médio Oriente, e os cristãos são cruciais para haver cultura de perdão. Quem o diz é o padre Firas Mutfi, que esteve em Portugal a convite da Ajuda à Igreja que Sofre.

Morreu o padre mais velho de Portugal, que conheceu o Papa em Maio. O padre Joaquim Pereira da Cunha tinha 105 anos.

Portugal despediu-se ontem de D. Manuel Martins, o bispo que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça”.

O artigo do The Catholic Thing desta semana vem mesmo a propósito. O médico e eticista Matthew Hanley fala de ideologia de género e equipara os procedimentos de “transição de género” ao abuso.

Tuesday, 27 September 2016

Trump quer católicos e papa condena "estrábicos"

Esta segunda-feira ficou marcada pelo histórico acordo de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC. O secretário de Estado do Vaticano, que dentro de alguns dias estará em Portugal, esteve presente no momento da assinatura.

Dentro de menos de uma hora começa o debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Os dois estão empatados nas sondagens, mas Trump quer mais votos católicos e contratou dezenas de católicos conservadores, incluindo alguns que assinaram uma carta aberta contra ele em Março, para o aconselhar.

Durante o fim-de-semana o Papa recordou a morte de dois padres mexicanos, raptados e assassinados, e encorajou a Igreja daquele país que está a travar um braço-de-ferro com o Governo sobre o casamento homossexual.


Na véspera, Francisco esteve com familiares de vítimas do atentado de Nice e disse que a única forma de combater o ódio demoníaco é através do amor e do perdão.

Se é daquelas pessoas que pensa que os jornalistas são todos contra a Igreja, então saiba que o porta-voz da Conferência Episcopal de Espanha não concorda consigo…

A semana passada publiquei um artigo brilhante de Anthony Esolen no The Catholic Thing em Português. O autor lamenta o triunfo da ideologia sobre a busca da verdade e termina parafraseando São Paulo. Vale mesmo a pena ler.

E termino com um desafio para todos os educadores de infância. Vai haver uma peregrinação a Fátima, dirigido a todos os que trabalham com crianças até aos 6 anos. A data limite de inscrição é 30 de Setembro, portanto apressem-se! Todas as informações nas imagens por baixo.



Wednesday, 6 July 2016

“Aqueles a quem os retiverdes…”

James V. Schall S.J.
Ultimamente tem-se falado muito de perdão e de misericórdia. A misericórdia de Deus pode, como bem sabemos, perdoar qualquer pecado, excepto aquele contra o Espírito Santo (Mt. 12,32). Este tem mais a ver com o pecador do que com a capacidade de Deus de perdoar. Se alguém verdadeiramente “desejar” não ser perdoado, então não pode ser perdoado. Ou melhor, não pode beneficiar das consequências do perdão de Deus. Se pudesse ser perdoado mas ao mesmo tempo desejar o pecado, então seria ele mesmo um Deus, todavia um deus voluntarista, que transforma o bem no mal. Tal deus não é Deus. Só porque Deus tem o poder de perdoar todos os pecados, não segue que todos os pecados serão perdoados. Tudo depende do pecador.

A misericórdia é uma questão secundária. Não é necessária a não ser que algo corra mal no mundo. Cristo veio para os pecadores, não para os justos (Lc. 5,32). Num mundo impecável, ninguém precisa de misericórdia. Mas o nosso mundo não é impecável, por mais que neguemos, em privado ou em público, que certos pecados são pecados.

Antes de haver quem precisasse de ser perdoado, São Tomás de Aquino já tinha defendido que o Universo foi criado num acto de misericórdia, não de justiça. Deus não precisava de criar nada. A criação não aconteceu porque Deus “devia” algo a alguém por uma questão de justiça. Ao criar criaturas livres, Deus compreendia bem que estas poderiam precisar de misericórdia para além de justiça. Sabendo-o, prosseguiu com o seu plano.

A misericórdia não se “opõe” à justiça, como se diluísse a justiça de Deus e do homem. Não é preciso escolher entre misericórdia e justiça, podemos ter as duas coisas. A misericórdia só entra em acção quando a justiça é vingada.

No Evangelho de São João (20,23), os discípulos recebem o Espírito Santo. Depois é-lhes dito: “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos.” Ouvimos falar muito da primeira parte dessa frase, mas pouco da segunda. “A quem os retiverdes”.

Do ponto de vista da lógica, há coisas que são evidentes. As coisas que não são pecado não precisam de ser perdoadas. A maior parte das coisas que fazemos não são “pecados”. Mesmo para quem nega que o pecado existe (e ao que parece existem tais pessoas), a lógica parece evidente. Algumas das coisas que fazemos, ou pensamos, são pecados; outras não. É-nos possível identificar tanto o que é pecado como se decidimos agir sobre ele. Se alguém pensa que escovar os dentes de manhã é pecado então não precisa de perdão, mas sim de informação, embora mesmo uma consciência desinformada seja vinculativa.

Como vemos, o poder de perdoar pecados está ligado à retenção dos pecados. Quais devem ser perdoados? Quais retidos? Um confessor não tem a liberdade de perdoar aquilo que deve ser retido. Por outras palavras, quais são os princípios que guiam a retenção dos pecados?

Parece-me que os Evangelhos não deixam espaço para dúvida de que alguns pecados devem ser “retidos”. Com o devido respeito para com as teorias que defendem que o inferno está vazio e que todos são salvos, parece-me que, caso sejam verdade, então ninguém precisa de se preocupar com os pecados, pois serão perdoados em todo o caso. Mas isto não é possível. Se não houver qualquer acto da nossa parte que indique que sabemos o que é um pecado e que o cometemos, então não podemos estar no ramo do perdão.

O perdão exige algo que se possa perdoar e alguma indicação de que queremos ser perdoados. Reconhecemos que com o nosso pecado destruímos a ordem da bondade. No que me diz respeito, não quero nada com um Deus que se limita a “perdoar” sem fazer perguntas, sem qualquer exigência.

Que pecados são “retidos”? Só aqueles que não apresentamos, juntamente com a nossa participação na sua realização, para serem julgados. O acto de “retenção” cabe ao mesmo a quem é dado o poder de perdoar. Os fundamentos podem ser vários – negar que os pecados são pecados, negar que sabíamos o que estávamos a fazer, negar que existe o poder de perdoar ou reter os pecados.

A “retenção” é um acto tão solene quanto o perdão, talvez até mais. Se aqueles que são responsáveis pelo perdão e pela retenção esconderem ou obliterarem a diferença entre os dois, para que tudo seja perdoado, independentemente das circunstâncias, então a própria delegação de Jesus esvazia-se de sentido. A retenção dos pecados significa que não são perdoados.

Paradoxalmente, essa retenção é um acto de misericórdia. É a misericórdia da verdade que vai ao encontro do pecador. Fica a saber que não está de bem com Deus e consigo mesmo. Só sabendo a verdade sobre si mesmo é que se apercebe que precisa de reconhecer e arrepender-se.

Chamar o pecado pelo nome é simultaneamente um acto de coragem, justiça e misericórdia.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 27 June 2016

Perdões polémicos e derrota suprema


(Clicar para aumentar)
No avião de regresso a Roma, Francisco disse que os Católicos devem pedir perdão aos homossexuais por ofensas cometidas contra eles. Esta frase motivou alguma perplexidade entre alguns cristãos, mas na verdade parece-me que o Papa apenas repetiu uma verdade evidente. Quando ofendemos alguém devemos pedir perdão, seja homossexual ou não, e todos sabemos que há muitas pessoas que não se limitam a opor-se à chamada “agenda LGBT” mas insistem em ir mais longe e atacar pessoalmente os seus adversários.


Uma aldeia cristã foi atacada no Líbano. Morreram cinco habitantes locais, o que tendo em conta a magnitude do ataque é um número mais baixo do que se poderia esperar.

Dos EUA vem a notícia de uma importante vitória para os movimentos pró-aborto. O supremo tribunal declarou inconstitucional uma lei do Texas que visava melhorar as condições de saúde e segurança nas clínicas locais e já tinha levado ao encerramento de dezenas de clínicas de aborto.


Termino com um aviso. Haverá uma interessantíssima sessão de esclarecimento sobre a Eutanásia no Hotel Palácio, no Estoril, na quinta-feira, com especialistas da Bélgica e França. O convite é a imagem que ilustra este post, não percam que vai certamente valer a pena!

Thursday, 5 November 2015

Tratar os empregados como família e conselhos para CPM

Remember, remember... Martyr
Já são conhecidos alguns dos detalhes dos dois livros que revelam escândalos sobre o Vaticano. Há uma coisa importante a recordar… É que neste caso, os escândalos só vieram à luz do dia por causa da reforma interna que está a ser feita, o que não deixa de ser um bom sinal.

O Papa Francisco avisou as famílias que não se pode viver (bem) sem se perdoar.

Já hoje D. Manuel Clemente disse aos gestores cristãos que devem tratar os seus trabalhadores como se fossem a sua própria família. Um desafio, certamente.


Atenção a todas as pessoas envolvidas em cursos de noivos ou CPM, não percam o artigo desta semana do The Catholic Thing, com conselhos e recomendações muito práticas para quem prepara jovens para o casamento.

Hoje publiquei a transcrição integral da entrevista que fiz ao bispo nigeriano de Zaria, que sobreviveu a um atentado do Boko Haram. Vale bem a pena ler, para perceber como vivem os cristãos naquela região.

Deixo-vos por fim com uma recomendação e um aviso. Chegou-me à atenção uma livraria online dedicada só a livros católicos. Visitem a Livraria Filoteia, também no Facebook, para ver os melhores livros da milenar tradição da Igreja Católica - Stª Teresinha, S. Josemaría, S. Francisco de Sales, S. Luís de Montfort, Tomás de Kempis e outros.

E na segunda-feira, dia 9 de Novembro, estarei às 18h30 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa para falar dos desafios à Liberdade Religiosa. Apareçam, se puderem. 

Monday, 22 June 2015

Francisco visita o Santo Sudário

A cara que se vê no Santo Sudário de Turim
O Papa Francisco pediu perdão pela forma como a Igreja Católica perseguiu os fiéis da Igreja Valdense, em Itália.

Isto passou-se durante uma visita de Francisco a Turim, durante a qual teve oportunidade de rezar diante do Santo Sudário, sobre o qual podem saber mais, aqui, nesta conversa com o jornalista e especialista João Paulo Sacadura.

Está em Portugal o presidente da Conferência Episcopal do Paquistão. O arcebispo Joseph Coutts esteve em Guimarães, onde falou da situação dos cristãos no seu país. Amanhã apresentamos uma entrevista mais aprofundada com este arcebispo.

Wednesday, 20 May 2015

"Que Fazes Aí Fechada" no "Porta Aberta"

No domingo passado estive no programa Porta Aberta do Óscar Daniel, na Renascença. 
Foi uma conversa longa sobre o meu percurso, o meu trabalho enquanto jornalista, os meus estudos académicos sobre o perdão, a minha vida familiar e, claro, o meu livro "Que fazes aí fechada".
Para ouvirem a entrevista na íntegra basta clicarem aqui e escolherem o áudio, debaixo da imagem principal.

Monday, 7 July 2014

Abusos sexuais são profanação da imagem de Deus

Unidas na dor. Mães dos rapazes judeus assassinados
O Papa recebeu esta segunda-feira seis vítimas de abusos sexuais, no primeiro gesto do género do seu pontificado. Aqui podem ler a notícia da fantástica homilia em que Francisco pede perdão, condena o encobrimento dos casos e louva o facto de as vítimas terem denunciado publicamente os abusos. Mas se puderem, não deixem de ler a homilia completa, aqui a versão em inglês.

Por falar em abusos, o Ministério Público anunciou no fim da semana passada que deduziu acusação contra um padre da Ordem Hospitaleira de São João e um funcionário de uma instituição da mesma ordem, por prática de abuso sexual de pessoa internada e de pessoa incapaz de resistência. Este dado já foi acrescentado à cronologia de casos de abusos em Portugal.

Foi um fim-de-semana em cheio para o Papa que, no sábado, visitou uma zona pobre de Itália e lamentou a “indignidade” de não conseguir colocar pão na mesa.


Ao longo das últimas semanas a situação na Terra Santa agravou-se bastante, com a morte de três adolescentes judeus e o assassinato, em retaliação, de um árabe de 16 anos. Mas no meio da loucura há sinais de sanidade. A sanidade radical do perdão e da reconciliação. Não perca.

Friday, 10 January 2014

Cabelos, mártires e bispos centrais

Um mártir a sério...
Comecemos por uma das notícias mais fascinantes do dia. Uma mulher nos EUA ficou com o cabelo preso no motor de um kart… os funcionários cortaram o cabelo para a soltar e agora ela vai processar a empresa. O que tem isto a ver com a religião? Tudo! Saiba porquê. E já agora aproveito para recuperar este meu post sobre a importância do cabelo nas diferentes religiões.



Os bombistas suicidas gostam de se definir como mártires. Mas querem saber o que é um verdadeiro mártir? É isto.


E um alerta pra os católicos… quando reza o credo sabe bem o que está a dizer? É que o Papa não quer “papagaios” nas igrejas.

Chamo ainda atenção para uma notável nota pastoral dos bispos da República Centro-Africana, apelando ao perdão, condenando o linchamento de muçulmanos e rejeitando a ideia de que decorre um conflito inter-religioso.

Não deixe ainda de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Randall Smith defende que a nossa personalidade não deve ser vista apenas como um pilar da nossa individualidade, mas ser posta ao serviço dos outros.

Tuesday, 10 December 2013

Direitos humanos - aniversários, ameaças e vitórias

Pai dos direitos humanos?
Hoje é o aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. A Renascença publicou dois trabalhos (um terceiro sairá em breve), sobre os direitos humanos por uma perspectiva católica.




Ainda no campo dos direitos humanos, o Papa chamou atenção para o “escândalo” da fome.


Sabia que o que os protestos na Ucrânia têm também contornos religiosos? Saiba mais aqui.

Por fim, mais dois textos de análise à exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”. O que diz o Papa sobre a Família, e o que diz sobre o Perdão.

A Alegria do Evangelho - O Perdão

Para quantos estão feridos por antigas divisões, resulta difícil aceitar que os exortemos ao perdão e à reconciliação, porque pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos fazer-lhes perder a memória e os ideais. Mas, se virem o testemunho de comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso é sempre uma luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar como nalgumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos? (#100)
Este é um tema que me é particularmente caro e à volta do qual elaborei a minha tese de mestrado, por isso interessa-me particularmente. Quanto mais experiência tenho, mais acredito que o conceito cristão de perdão (que é diferente do judaico e do muçulmano), é uma das coisas mais “revolucionárias” que Cristo trouxe ao mundo. Hoje em dia partimos do princípio que devemos perdoar, mesmo que não o façamos, mas isso nem sempre foi assim e não é assim noutras culturas.

O Papa faz bem em ir directamente à ferida. Falar de perdão é fácil e bonito, mas custa quando somos a parte ofendida e todos esperam de nós essa atitude, quando nós nos sentimos merecedores de uma boa dose de vingança, ou pelo menos ressentimento.

O que Francisco nos está a dizer é que esse ressentimento não só nos mata por dentro, como é antievangélico. Uma comunidade de pessoas que se perdoam uns aos outros é muito mais “sedutora” que uma comunidade em que todos guardam ódiozinhos de estimação uns pelos outros.

A receita, diz o Papa, está em ser humilde até nas nossas orações. Não esperemos logo um coração capaz de amar como Cristo amou... sejamos mais modestos, basta rezar assim:

Pelo menos digamos ao Senhor: «Senhor, estou chateado com este, com aquela. Peço-Vos por ele e por ela». Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo passo rumo ao amor, e é um acto de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo. (#101)


Outros temas:

Thursday, 30 May 2013

Patriarca-eleito critica co-adopção e críticas literárias

D. Manuel Clemente encontra-se por estes dias em Bruxelas onde, hoje, criticou duramente a lei da co-adopção por casais homossexuais. O Patriarca-eleito de Lisboa falou também de austeridade, à margem de um encontro com líderes religiosos em que participou.

A co-autora do livro-entrevista com o Papa, quando ainda era “apenas” Arcebispo de Buenos Aires, está em Portugal e conversou hoje com a Aura Miguel, falando da experiência.

Se fosse o ano passado, hoje seria feriado… Não foi para rimar, mas hoje é o dia de Corpo de Deus, um dos feriados suprimidos por causa da crise. D. Nuno Brás explica como se deve assinalar o dia, apesar de tudo.

Recentemente foi-me oferecido um livro sobre o “perdão”, escrito por um pastor pentecostal americano. Uma vez que este é um tema que me é particularmente caro, fiz aqui a crítica a “Incondicional?”. Em breve espero acrescentar algumas outras sugestões de livros sobre o tema, para quem quiser aprofundar.

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