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Wednesday, 1 March 2023

Recomendações para a Quaresma

Stephen P. White

Estou cheio de vontade de viver esta Quaresma. Quando era miúdo costumava temer o início da Quaresma. O desconforto e a inconveniência de ter de aguentar o miserável sacrifício a que me propunha nesse ano – deixando de comer doces, de ver televisão, ou algo do género – eram uma seca. Quando fiz cinco ou seis anos a Quarta-feira de Cinzas calhou nos meus anos. Terrível.

À medida que me tornei mais velho fui percebendo como as disciplinas da Quaresma podem ser edificantes e construtivas. Como disse recentemente a um amigo, já cheguei ao ponto em que até anseio a chegada da Quaresma. Trata-se de uma oportunidade calendarizada para um reforço espiritual. Dá-nos aquela injecção extra de disciplina e de estrutura que só fazem bem ao corpo.

Os pequenos confortos podem tornar-se dependências. E a Igreja, na sua sabedoria, chama-nos a fazer penitência e jejum, não apenas como forma de fortalecer a nossa vontade interior, mas para nos ajudar a livrar-nos dessas dependências. O jejum, afinal de contas, não é simplesmente uma questão de “abdicar” ou mesmo de “redimir” os nossos pecados. Trata-se de nos libertar da dependência de amores concorrentes ou desordenados para podermos ser livres de amar como devemos. E essa liberdade transforma o nosso jejum e penitência de mera obrigação em oportunidade para partilhar do sofrimento de Cristo, que é a nossa esperança.

Desta perspectiva, o sofrimento não é apenas uma coisa a aguentar, mas está associado à esperança. O Papa Bento XVI escreveu sobre a ligação entre o sofrimento e a esperança na sua encíclica Spe Salvi, onde incluiu uma reflexão sobre a prática de “oferecer” pequenas dificuldades. Não estava a escrever especificamente sobre a Quaresma, mas aplica-se perfeitamente:

“Fazia parte de uma forma de devoção – talvez menos praticada hoje, mas não vai ainda há muito tempo que era bastante difundida – a ideia de poder ‘oferecer’ as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequência como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. (…) Deste modo, também as mesmas pequenas moléstias do dia-a-dia poderiam adquirir um sentido e contribuir para a economia do bem, do amor entre os homens. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto não poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós.”

A Quaresma é uma oportunidade – quer ansiemos por ela ou não – de reavivar esta prática para nós mesmos. Como é evidente, a penitência é apenas uma parte da nossa prática quaresmal. A esmola desapega-nos do dinheiro, que pode ser uma coisa particularmente pegajosa, no sentido espiritual, e abre-nos à caridade e ao cuidado pelos outros. A oração, tal como a esmola e a penitência, não é apenas uma prática para a Quaresma, mas encontrar tempo e formas adicionais para rezar durante a Quaresma ajuda a fortalecer a nossa devoção ao longo do resto do ano.

No que toca à oração, existem duas práticas quaresmais que tenho achado particularmente benéficas. Ambas têm a ver com a Escritura. E embora nem uma, nem outra, sejam particularmente novas, cada uma fornece formas de rezar e reflectir sobre a Palavra de Deus de formas que a nossa vida do dia-a-dia – pelo menos no meu caso – não permitem. Ambos nos obrigam a abrandar, o que na vida de passo acelerado que vivemos actualmente é só por si uma forma muito necessária de penitência.

A primeira das sugestões é mesmo muito simples: leiam os Evangelhos. Não estou a dizer para lerem uma passagem dos Evangelhos de tempos a tempos, ou sequer que reflictam sobre o Evangelho do dia (embora estas sejam coisas óptimas, como é evidente). A minha sugestão é que se sentem a ler cada um dos Evangelhos de fio a pavio. Se tiverem tempo para isso, tentem ler cada um dos Evangelhos de uma assentada. O Evangelho de Marcos é o mais curto, por isso talvez queiram começar por aí, mas também podem lê-los pela ordem, a começar por Mateus.

A maioria dos católicos confrontam-se com a Escritura na Missa. Mas raramente lemos o Evangelho como um todo. A leitura completa dos Evangelhos é uma forma maravilhosa de nos encontrarmos com elas de novo, e uma forma excelente de reparar em novos detalhes. Ajuda-nos a notar repetições subtis e alusões no texto. Permite-nos apreciar o contexto de várias passagens, o que ajuda a compreender o todo, e não apenas as partes.

Mãos à obra!
A relativa proximidade, no tempo e no espaço, de várias parábolas e eventos costuma perder-se numa leitura mais esporádica. E sentar-se durante uma ou duas horas com o Evangelho dá uma oportunidade para mergulhar na Palavra de Deus de uma forma que raramente nos permitimos. Para mim tem sido muitíssimo útil.

A segunda sugestão de prática quaresmal é esta: copiar as Escrituras. Estou a ser literal. Peguem num papel e numa caneta e copiem as palavras da Escritura à mão. Escrevam com boa caligrafia e com propósito. Usem uma caneta, e não papel, porque isso obriga-nos a ter mais cuidado e evitar erros indeléveis. Os salmos são um bom ponto de partida, na maior parte podem ser concluídos antes de ficar com cãibras na mão.

A prática de copiar as Escrituras à mão obriga-nos a concentrar-nos em cada uma das palavras. Obriga-nos a desacelerar, o que é especialmente importante em passagens familiares que podem facilmente passar despercebidas. Reparará que nalgumas partes as palavras não são exactamente como se lembrava, ou o que esperava. Reparará, ainda, em mudanças subtis de escolha de palavras, tom e sentido.

O melhor é que, como está a escrever as palavras e não apenas a lê-las em silêncio ou a ouvi-las a serem lidas alto, é mais fácil fixá-las. Não é por acaso que se costumava ensinar a memorização, em parte, pela escrita repetitiva. Escrever as palavras da Escritura é uma forma muito bonita de a aprender de maneira mais íntima.

Com o começo desta Quaresma, já tenho comigo a minha Bíblia e a minha caneta preferida, pronta a usar. Sei muito bem que o entusiasmo costuma ser forte ao início, mas que depois pode escassear. Ainda assim, estou determinado. Sim, estou com vontade de iniciar esta Quaresma. Tal como acontece todos os anos, é exactamente aquilo de que preciso.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 13 April 2022

De regresso do país dos cedros e preocupações sinodais

Nossa Senhora do Líbano,
em Harrissa
Estou de regresso a Portugal, depois de vários dias no Líbano, a conhecer projectos da fundação Ajuda à Igreja que Sofre naquele país. Foi uma experiência fantástica, mas pesada, que espero poder partilhar convosco em breve. Entretanto pode ficar aqui com uma boa ideia, através da entrevista que Catarina Bettencourt Martins, directora da AIS em Portugal e que também esteve presente, deu à Renascença.

Ontem a Comissão Independente que investiga os casos de abusos na Igreja em Portugal apresentou alguns números. São já 290 denúncias e 16 casos enviados para o Ministério Público. A cronologia que mantenho no blog foi devidamente actualizada.

Hoje é dia de novo artigo do The Catholic Thing. Devemos estar preocupados com o “Caminho Sinodal” na Alemanha? Dezenas de bispos no mundo pensam que sim, e assinaram uma carta aberta ao episcopado alemão, precisamente nesse sentido. O artigo da semana passada é de teor mais pessoal, com Stephen White a explicar porque é que a morte prematura do seu pai, em plena Quaresma, tornou esta época ainda mais especial para ele. A ler, sobretudo em vésperas do tríduo pascal!

Continuo a acrescentar, a um ritmo quase diário, excertos de discursos e homilias a esta lista de declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Recentemente coloquei excertos de uma longa carta de um padre da Igreja Ortodoxa da Ucrânia leal a Moscovo, que critica ferozmente a sua própria hierarquia. Vale mesmo a pena ir ver!

Também pode ver aqui a conferência “Para um Ecumenismo de Paz”, da Capela do Rato, em que participei no dia 30 de março, na companhia de figuras muito interessantes, incluindo um padre ucraniano, um moldavo e Paulo Portas.

Amanhã é dia de novo episódio do podcast “Hospital de Campanha”. Se ainda não ouviu o segundo, não perca a oportunidade. A próxima conversa é sobre a resposta dos portugueses à crise dos refugiados ucranianos, e é muito interessante!

Wednesday, 6 April 2022

Esperança e Morte

A semana passada marcou o quinto aniversário da morte do meu pai. Tinha apenas 60 anos quando morreu. Morreu durante a Quaresma, o que nunca deixará de me parecer adequado. A Quaresma é uma boa altura para nos recordarmos, por mais doloroso que seja, de como a vida é fugaz. Também é uma boa altura para contemplar a forma como a fragilidade humana é transformada pelos eventos gloriosos para os quais este tempo quaresmal nos prepara.

Para um filho que perdeu o pai é fácil desejar que as coisas não fossem como são. É tentador deter-nos nas inumeráveis possibilidades do que poderia ter sido – netos que ficaram por conhecer, músicas por cantar, alegrias por partilhar. Mas deixarmo-nos levar por essa tristeza – e admito que há uma certa doçura em fazê-lo – apenas disfarça a belíssima gratuidade da vida, por mais breve que seja. O facto de tudo não ser como eu gostaria é um pequeníssimo preço a pagar por ter existido de todo.

A Quaresma é um tempo de preparação, de olhar para o futuro. De certa forma a Quaresma é-me mais cara desde que o meu pai morreu. A esperança da Páscoa é a esperança do que há de vir, a esperança da restauração, da ressurreição. Mas a esperança não é só para o futuro. A esperança muda o espectro de como podemos sofrer, daquilo pelo qual estamos dispostos a sofrer. A esperança permite-nos, como São Paulo, contar tudo o que seja o aqui e agora como perda. A esperança liberta-nos. 

Há um episódio da grande série da HBO sobre a II Guerra Mundial, “Band of Brothers”, sobre o qual penso com frequência e que ilustra esta questão. O cabo Albert Blithe salta de paraquedas para a Normandia na véspera do Dia-D. No caos que se segue, separa-se do seu pelotão. Mas em vez de partir em busca dos seus camaradas, Blithe esconde-se numa valeta, por baixo de uma sebe, com medo. Tal é o pânico, que sofre de “cegueira histérica”. Ou seja, teve tanto medo que ficou literalmente sem ver.

Blithe acaba por recuperar a visão e reagrupa-se com os seus camaradas, mas está assombrado por o que considera ser a sua cobardia – um sentimento reforçado pelos actos de bravura que testemunha à sua volta. Certa noite, na linha da frente, Blithe encontra o Tenente Speirs, um homem com uma reputação de brutalidade sanguinária. Blithe decide confessar a sua cobardia a Speirs e a resposta que este lhe dá, sobre o medo face à morte, ficou na minha memória.

Speirs: Sabes porque é que te escondeste nessa valeta, Blithe?

Blithe: Estava com medo…

Speirs: Todos temos medo. Tu escondeste-te naquela valeta porque achas que ainda há esperança. Mas, Blithe, a única esperança que tens está em aceitar o facto de já estares morto. E quanto mais depressa o aceitares, mais depressa conseguirás agir como um soldado deve agir, sem misericórdia, sem compaixão, sem remorsos. Toda a guerra depende disso.

Esta visão de Speirs é obscura e pagã. Mas se a sua visão é pagã também possui um certo realismo. A falsa esperança da autopreservação, a falsa esperança de que podemos adiar indefinidamente a morte, leva apenas a paralisia e medo ofuscantes (literalmente, no caso de Blithe). Se a morte significa o aniquilamento e o esquecimento, então a única opção que temos perante a morte é a aceitação. Esta realização livra-nos da cegueira da falsa esperança e permite-nos ver com mais claridade a tarefa que temos pela frente.

E São Paulo, que sabe uma coisa ou duas sobre cegueira, concorda! “Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os desgraçados”. Speirs aconselha Blithe a abandonar a esperança para poder ver claramente a difícil tarefa que tem de desempenhar. Tal como Speirs, também Paulo sabe que a sua vida está perdida. Mas uma vez que ele vê pelos olhos da fé – “Fui crucificado com Cristo, porém já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” – a visão de Paulo estende-se não só para o que fica deste lado da morte, mas através dela e mais além.

Como o Papa Bento XVI escreveu na Spe Salvi, “o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.”

Acrescente-se a esperança Cristã, nascida da fé, à inevitabilidade da morte e toda a experiência humana se altera. A esperança cristã não previne a morte. A esperança cristã não atrasa sequer a morte. Mas uma vez que a esperança cristã é a esperança na vida eterna, altera completamente a forma como vivemos o aqui e o agora. A nossa esperança por aquilo que virá liberta-nos da necessidade de nos agarrarmos demais à vida. A esperança permite-nos viver a nossa vida generosamente e sem medo. A esperança liberta-nos para enfrentar a Cruz e abraçá-la.

Este é o coração da Boa Nova: A esperança, nascida da fé, liberta-nos para o amor. Aquele que tenta salvar a sua própria vida – para preservar aquilo que no final de contas não pode ser preservado – perdê-la-á. Quem perder a sua vida por amor – aquele que sabe que já morreu em Cristo, e para quem tudo o resto é perda – é quem receberá a vida eterna.

A nossa esperança não está em prevenir ou evitar a morte, mas em aceitar o facto de já termos morrido em Cristo. Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais depressa poderemos viver como um cristão deve viver: cheios de misericórdia, cheios de compaixão, e cheios de esperança.

A Quaresma é um tempo em que devemos praticar a morte: morrer para nós mesmos de formas pequenas e grandes. Para o mundo isto é mera cegueira. Mas as muitas mortes da Quaresma são uma lembrança da nossa esperança que nos liberta para viver a Páscoa… E tudo o que fica adiante.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 29 de Março de 2022)


© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 31 March 2021

Barrabás: Um Exame de Consciência da Semana Santa

Pe. Paul Scalia

Nas suas respetivas narrativas da Paixão do Senhor, todos os quatro Evangelhos referem o facto de a multidão ter preferido Barrabás a Jesus. A escolha surge no final da tentativa, meia irresoluta, de Pôncio Pilatos de libertar Jesus. É o momento em que a multidão rejeita definitivamente Cristo e abraça o mal. 

A narrativa capta o pecado humano em poucos versos. Primeiro Pilatos coloca diante da multidão “Jesus Barrabás” (Mt. 27,17) – isto é, Jesus, filho do pai” – e depois Jesus o Filho eterno do Pai. A multidão é chamada a escolher o verdadeiro filho do Pai ou a sua contrafação, a verdadeira filiação ou a falsa. A escolha da contrafação e do falso resume o nosso estado pecaminoso.

Nas liturgias de Domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa a congregação pede a libertação de Barrabás. Ao desempenhar esse papel no drama, o povo de Deus está também, de certa forma, a fazer uma confissão. Porque na verdade escolhemos Barrabás. Preferimos o falso filho do pai ao filho de Deus. Tal como os israelitas um dia “trocaram a sua glória pela imagem do Touro que come relva” (Salmos 106,20), também nós preferimos uma pseudofiliação em vez da “Glória que em nós será revelada” (Rom. 8,18). Escolhemos ser filhos no espírito de Barrabás e não de Cristo.

Quem é este que escolhemos? Barrabás é descrito alternadamente como um rebelde, um assaltante e um assassino. Estas acusações não são mutuamente exclusivas. Cada uma delas ilumina uma dimensão diferente da nossa pecaminosidade. E seguem-se muito bem uma à outra. Primeiro, como disse C.S. Lewis, “Não somos meramente criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas; somos rebeldes que devem depor as armas”. A nossa insistência por autonomia total, de sermos uma lei para nós mesmos – para ser como Deus (Gen. 3,5) – não pode existir na ordem de Deus. É rebelião aberta.

E somos também assaltantes. Tomámos os dons e a glória de Deus para nós mesmos. Tudo o que somos e temos é um dom de Deus a ser oferecido. Mas mantivemos estas coisas como nossas possessões, para nosso propósito e glória. E gabamo-nos delas como se fossem as nossas conquistas.

E tudo isto faz de nós homicidas também. Deus é a condenação e repreensão final e o travão para a nossa rebelião e o nosso roubo. Não podemos continuá-los se ele estiver em cena. Para preservar a nossa autonomia e a nossa glória temos de nos desfazer dele. O mundo moderno não é mais que esta verdade escrita em letras garrafais. Mas cada um de nós vive-a pessoalmente.  

No fundo a escolha entre Jesus Barrabás e Jesus Cristo é uma escolha entre a nossa autopreservação e o dom de nós mesmos. É a escolha fundamental que o Senhor articula repetidamente e à qual regressa pouco antes da sua Paixão. “Quem amar a sua vida perdê-la-á, e quem odiar a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”. (Jo. 12,25; conferir Mt. 16,25; Lc 17,33).

Barrabás é a imagem do homem que ama a sua vida e procura preservá-la a todo o custo. Rebeldia, furto e homicídio são apenas formas diferentes que arranjou para poder manter o seu pequeno reino seguro. Por outro lado, Nosso Senhor – espancado, flagelado e coroado de espinhos – é o homem que odeia a sua vida neste mundo. Perdeu tudo: poder, possessões, saúde, dignidade, amigos, etc., mas sabe que esta perda não é o final mas o começo, o plantar de uma semente.


Seguimos Barrabás quando abraçámos esta autopreservação desordenada. Podíamos dizer que é orgulho, mas na nossa cultura essa palavra implica tradicionalmente autoafirmação e exige reconhecimento. Embora possa ser ambas essas coisas, na maioria das vezes o nosso orgulho – essa preservação das nossas vidas, do nosso conforto, da nossa reputação acima de tudo – não é altivo e forte, mas incómodo e fraco. É no interesse da autopreservação que os apóstolos fogem e abandonam Nosso Senhor. É para preservar a sua vida que Pedro hesita diante da pergunta da criada e renega Cristo. É para preservar o seu reinado inconsequente que Pilatos entrega Cristo para ser crucificado. 

Este medo desordenado de perder a nossa autonomia, esta ânsia de preservar as nossas vidas, é a fonte de todo o pecado. Reagimos enfurecidos quando sentimos uma ameaça à nossa reputação e ao nosso ego. A nossa gula leva-nos a açambarcar mais e mais coisas, para nos protegermos e assegurar as nossas fronteiras. Deixamo-nos cair na preguiça para evitar Deus e preservar o nosso tempo como nosso. E por aí fora. Cada pecado tem esta característica de autopreservação.

Jesus Cristo é o verdadeiro Filho do Pai. O seu despojamento é o meio da nossa redenção e o padrão para vivermos a nossa filiação. “Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil. 2, 7-8). A conversão contínua do cristão requer esta repetida rejeição de Barrabás e o abraço a Nosso Senhor. A Semana Santa é o tempo certo para aprofundar essa conversão, para nos dedicarmos de novo ao verdadeiro Filho.

“A quem querem que eu liberte, [Jesus] Barrabás, ou Jesus, a quem chamam o Messias?” (Mt. 27,17). No passado temos clamado por Barrabás, para que também nós pudéssemos viver essa falsa filiação. Agora arrependemo-nos e clamamos por Cristo, para que sejamos libertados para seguir o verdadeiro Filho do Pai e o seu caminho de autodoação.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de março de 2021 em The Catholic Thing

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Wednesday, 17 March 2021

Sepulcros Caiados

Às vezes penso se, caso estivesse vivo na altura em que Jesus pregava, teria estado entre a pequena minoria de pessoas que o aceitaram a Ele e à sua mensagem. Ou se, pelo contrário, teria sido um dos muitos que não, reagindo antes com medo, revolta e indignação moralista.

Teria sido um daqueles que, embora sem o rejeitar explicitamente, dizia a si mesmo “este homem é especial e importante, e enquanto eu puder continuar a agir como antes, sentindo-me especial e importante, então óptimo. Se as coisas se tornarem difíceis e esse sentimento desaparecer, então que se lixe (ou, neste caso, que se crucifique)”?

É difícil imaginar que teria sido suficientemente bom para fazer parte do pequeníssimo grupo, composto essencialmente por uma mão cheia de mulheres no início, que disse “Este é o meu Senhor muito amado, o Senhor da minha vida, e onde Ele for eu irei, mesmo até à Cruz”. É mais provável que eu fosse daqueles que aceitou alguns dos seus ensinamentos mais simpáticos, rejeitando as coisas difíceis – um daqueles que disse aos seus amigos: “até gosto de algumas das coisas que Jesus diz, mas Ele vai longe de mais. A maneira como ele diz as coisas, às vezes, não é… suficientemente intelectual. Não tem cuidado, não é prudente. Vai-nos meter em sarilhos”.

Como académico, penso se teria sido um daqueles escribas de segunda ou terceira categoria, que liam obedientemente os livros prescritos (em grego ou em hebraico), participando nos rituais prescritos (tanto romanos como judaicos) e debatendo os assuntos culturais e políticos da forma do costume (partido dos fariseus, partido dos saduceus, partido dos zelotas, oficial romano). Teria permitido que Cristo me mudasse? Ou teria sido um dos que achou Cristo e a sua mensagem um bocadinho perturbadores?

Suspeito que teria sido um daqueles que ia cumprir devidamente as obrigações litúrgicas, mas que estava vazio por dentro; que preferia crucificar o Salvador ungido do que deixar-se transformar por Ele. Temo que seria um daqueles “sepulcros caiados” de que Cristo fala, que são belos por fora, mas por dentro estão cheios dos ossos dos mortos.

Estaria Cristo a falar de pessoas como eu quando disse: “Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens, por isso alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados ‘mestres’ pelos homens”. Preocupa-me, porque Cristo ainda vive, ainda está a tentar transformar as nossas vidas. E por isso pergunto-me se sou assim tão diferente dos “maus” da Bíblia.

Questiono-me sobre tudo isto porque quando se é convertido, como eu, repara-se em certas coisas. Repara-se que outros católicos – mesmo os “conservadores” piedosos – que se vestem bem e vão à missa, ouvem, semana após semana, as leituras de Amós, Oseias e Isaías sobre como viver vidas retas e da importância de cuidar das viúvas e dos órfãos e escutam os avisos de Cristo no Novo Testamento sobre o homem rico e Lázaro e depois, quando chega Segunda-feira, mentem e enganam nos seus trabalhos, tal como todos os outros.

Encontramos instituições católicas que se orgulham dos seus santuários a Nossa Senhora ou à Madre Teresa, ou dos seus bancos alimentares ou centros de justiça social mas que tratam os seus próprios empregados como lixo descartável.

Os católicos são muitas vezes como aquela criança a quem dizemos, duas ou três vezes, para não comer antes do jantar. A criança acena que sim e depois mete a mão no boião das bolachas. Vezes e vezes sem conta ouvimos São Paulo a exortar os cristãos: “Façam tudo sem queixas nem discussões para que vocês não tenham nenhuma falha ou mancha. Sejam filhos de Deus, vivendo sem nenhuma culpa no meio de pessoas más, que não querem saber de Deus. No meio delas vocês devem brilhar como as estrelas no céu”.

Ouvimo-lo a avisar todos aqueles que “não estão ocupados com o trabalho”, mas que se tornaram “coscuvilheiros”. Vezes sem conta ouvimos Cristo a dizer “todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo.”

E apesar disso encontramos milhares de comentários enfurecidos nas redes sociais, sem caridade, de pessoas que se justificam dizendo que estão a praticar a “Verdadeira caridade católica”, como se os escribas e os fariseus estivessem a ser caridosos com Jesus e com o povo judeus quando pregaram Cristo na cruz.

Quando vamos à missa estamos apenas em modo automático, para depois viver vidas contrárias ao Evangelho? E se sim, como é que saberíamos? Estamos, como tantos nos dias de Jesus, a cegar-nos e a bloquear os nossos ouvidos para a verdade? Talvez precisemos de uma lista de controlo quaresmal.

Fiz comentários zangados e presunçosos nas redes sociais? Convenci-me de que eram totalmente justificados?

Confundi o “individualismo atomista” (ninguém manda em mim) com a verdadeira liberdade?

Alimentei a política hiperpartidária zelota, ou fiz os possíveis para lidar com ela com calma medida e caridosa?

Fui à missa, fiz gestos piedosos para com Maria e os santos e depois lidei com os meus assuntos seculares como se nada fosse?

Apelido-me de “católico” e depois parto do princípio de que isso não me deve levar a fazer qualquer sacrifício em termos de dinheiro, status e conforto para defender a Igreja e ajudá-la a concretizar as suas obras corporais de misericórdia?

Por fim, questiono-me sobre se a maioria de nós reconheceria Cristo se Ele voltasse? Ou veríamos uma grande multidão revoltada a tentar pregá-lo a uma Cruz em nome da “piedade religiosa”, ou simplesmente porque demasiadas pessoas o achavam uma ameaça à nação?

Como dizia, às vezes questiono-me. E não é reconfortante.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Março de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 10 March 2021

O Animal Jardineiro

Stephen P. White
A Quaresma é um tempo de preparação. As nossas observâncias quaresmais de oração, penitência e esmola ajudam-nos a limpar o afeiçoamento que desenvolvemos por vícios, que de outra forma inibiriam o nosso crescimento espiritual. O trabalho da Quaresma prepara-nos, corpo e alma, para as alegrias da Páscoa e a celebração de nova vida na Ressurreição.

No final do inverno e início da primavera, o trabalho de cuidar de um jardim é semelhante aos esforços da Quaresma. As coisas velhas, mortas ou doentes, precisam de ser cortadas e retiradas dos canteiros para abrir espaço para novo crescimento – crescimento que ainda não vejo mas que sei (espero?) se manifestará em breve. E depois há as ervas daninhas, que por manha demoníaca continuam a propagar-se e a crescer enquanto o resto do jardim faz o seu descanso invernal. Estas devem ser arrancadas pela raiz.

Na Virgínia do Norte, onde eu vivo, começam-se a ver já os primeiros indícios da primavera. Alguns narcisos e túlipas começam a emergir da terra encharcada. As primeiras flores de açafrão e amarilidáceas começam a florescer. A relva está molhada e enlameada, especialmente nos locais onde as crianças estiveram a brincar. As rosas precisam de ser podadas e a terra pesada da horta tem de ser revirada. Na maior parte o jardim parece morto e até um bocado descuidado. Quando chegar a primavera já vai estar tudo diferente, um festival de vida e de cor.

Os paralelos entre o trabalho de um jardineiro e um penitente na Quaresma, ou entre as flores da primavera e a alegria da Páscoa, não são difíceis de ver. Mas a analogia entre a jardinagem e a vida espiritual vale a pena ser contemplada de forma mais profunda também. Ao longo de toda a história da salvação, frequentemente nos momentos mais críticos, encontramos um jardim.

A primeira habitação natural do homem é um jardim, O Jardim: “O Senhor Deus plantou um jardim no Eden, a oriente, e colocou lá o homem que tinha formado”. Vale a pena reparar que um jardim não é um espaço silvestre, incorrupto pela mão do homem, mas um espaço que está ordenado e cuidado. É o próprio Deus que planta. O Paraíso – a etimologia sugere um jardim murado – é um local de ordem e de harmonia entre Deus e o homem, homem e Criação, sobre a qual nos foi dado o domínio.

O nosso castigo pelo pecado é a perda do Paraíso, e da relação ordenada que existia no Jardim. Pelo pecado tornámo-nos distantes do nosso Criador e a nossa relação com a criação passou a ser marcada pelo esforço e o desejo de poder. Caim tornou-se um trabalhador da terra mas a sua oferta não agradou a Deus. O homem colabora com a natureza para conseguir sustento – qualquer agricultor sabe que a sua colheita depende da terra, das sementes e do tempo. Depois da Queda, essa colaboração mantém-se, mas está marcada pela aflição e pela necessidade. Uma quinta, tal como a selva, pode ser bela e boa, mas não é um jardim.

Os jardins reaparecem ao longo das Escrituras. No Cântico dos Cânticos, por exemplo, o jardim é um lugar de intimidade entre o amante e a amada, e, deforma alegórica, entre Deus e o seu povo esponsal, Israel. Mais uma vez, o jardim é um local onde a relação correcta entre Deus e o homem se reflecte na ordem e na beleza das redondezas.


Nos Evangelhos, o pecado e a desobediência de Adão, que nos custaram o Jardim de Eden, foi desfeito pela obediência de Cristo à vontade do Pai no Jardim do Getsémani. Cristo não foi expulso do Gétsemani, foi levado à força. E quando o seu trabalho de redenção se cumpre, São João diz-nos onde depositaram o seu corpo crucificado: “No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado.”

Por isso, quando Cristo, o Novo Adão, ressuscita na Páscoa, fá-lo da terra de um jardim. Naquela manhã gloriosa, Maria Madalena veio ao sepulcro onde encontrou o Cristo ressuscitado. Mas de início ela não reconhece Jesus, confunde-o com o jardineiro. Todos formos feitos para um jardim; fomos redimidos num Jardim pelo Divino Jardineiro.

No meio disto tudo, o jardim é mais do que uma alegoria para a harmonia com o nosso Criador e a sua criação. Jardinar é, ou pode ser, um empreendimento moral. Um jardineiro precisa de conhecer diferentes plantas, os solos, o sol e o vento, a chuva e o tempo. Se ele quiser ordenar o seu jardim para que seja mais belo tem de usar esse conhecimento para trabalhar com a natureza e não contra ela.

Cada jardim é uma escola de teleologia: a semente brota, não porque o jardineiro o fez brotar, mas porque é isso que as sementes fazem! A flor floresce para produzir fruto e o fruto para a semente! Esta é uma lição elementar, mas uma que, nos nossos dias, é positivamente subversiva: A natureza tem propósitos! Todos os jardineiros sabem-no, não como um princípio abstracto, mas como um simples facto.

Não consigo pensar num antídoto mais poderoso para a nossa era tecnocrata e utilitária do que aprender a trabalhar com a natureza e não contra ela. Não somos, como pretendia Descartes, “senhores e donos da natureza”. Recordemos a definição de Cícero da virtude: “A virtude é um hábito da mente, consistente com a natureza, a moderação e a razão”. Por todas estas razões, a jardinagem é uma excelente escola para adquirir estes hábitos.

Podemos dizer muita coisa sobre o animal humano – que é racional, político, social, e por aí fora. Talvez lhe devemos acrescentar mais uma: O homem é o “animal jardineiro”. Veremos se pega. Eu estarei a ponderar estas coisas muito depois de a Quaresma dar lugar à Páscoa.

Entretanto, no meu jardim está sol (por enquanto) ar fresco e ervas para arrancar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 4 de Março de 2021)

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Wednesday, 3 March 2021

Quaresma no Deserto

Randall Smith
Enquanto suportava o frio gélido e a escuridão em Houston, na semana passada, sem eletricidade e sem água, ocorreram-me duas coisas. A primeira foi como na nossa era de abstração da realidade as pessoas sentem-se perfeitamente qualificadas para falar de “energia verde” apesar de não terem qualquer ideia de como funciona uma rede eléctrica complexa. Mas a segunda foi esta: “Bom, esta é uma forma interessante de começar a Quaresma”.

Estava a ler um maravilhoso pequeno livro do meu amigo Chris Dorn, chamado “Following Jesus on the Way:Biblical Meditations on Lenten Themes”, à luz da vela, apesar da escuridão e do frio, e lembrei-me de que a Quaresma é frequentemente comparada ao deserto, tanto o deserto que o povo judeu atravessou durante quarenta anos antes de poderem entrar na Terra Prometida e o deserto para onde Jesus foi durante quarenta dias e quarenta noites de oração e jejum.

Como diz, e bem, o padre Dorn, o deserto é ao mesmo tempo um lugar de purificação e de tentação. Na verdade é pouco provável alguém conseguir atingir a purificação sem a tentação, ainda que seja apenas a tentação de não se purificar.

O deserto também tem os seus demónios. Nunca me apetece comer carne mais do que nas sextas-feiras da Quaresma, tal como nunca tenho mais fome do que entre aquelas refeições ligeiras de Quarta-feira de Cinzas. Cristo venceu as suas tentações no deserto, escolhendo o caminho da Cruz acima das tentações do dinheiro, poder e prazer e também nós o devemos fazer.

“Os sinais dos tempos” sugerem que os Cristãos possam ter de passar um bom bocado “no deserto”. Só Deus sabe. Sabemos que nunca é fácil deixar para trás as “panelas de carne do Egipto”. Mas na verdade só isso nos dá liberdade.

A questão que a Quaresma nos obriga a enfrentar é esta: Estamos prontos? Estamos prontos para quarenta anos no deserto? Sessenta anos de exílio na Babilónia? Estamos prontos a abraçar o caminho da Cruz?

Muitos católicos partem do princípio que podem continuar a ser católicos devotos e manter o estatuto cultural e a riqueza de que gozam outros americanos. Mas será que é assim? Será? A Quaresma convida-nos a perguntar-nos a nós mesmos o que é que estamos dispostos a sacrificar para viver o chamamento do Evangelho. Um bom emprego? Uma casa num bom bairro? O carro e a roupa que condizem com a classe social com a qual gosto de me identificar? O meu estatuto social entre os meus vizinhos?

Pede-se aos católicos que “abdiquem” de coisas durante a Quaresma – alguma carne, talvez doces ou aquela colher de natas no café. São boas observâncias pessoais. Mas temos ainda outras obrigações públicas. “Dar esmola” é uma expressão dessa obrigação, mas há outras.

Ouçamos o que diz o profeta Isaías:

Como se fossem uma nação

que faz o que é direito

e que não abandonou

os mandamentos do seu Deus.

Pedem-me decisões justas

e parecem desejosos

de que Deus se aproxime deles.

“Por que jejuamos”, dizem,

“e não o viste?

Por que nos humilhamos,

e não reparaste?”

Esta é a queixa de Israel. Será a nossa? Eis a resposta do Senhor.

No dia do vosso jejum

fazem o que é do vosso agrado

e exploram os seus empregados.

O vosso jejum termina em discussão e rixa

e em brigas de socos brutais.

Vocês não podem jejuar como fazem hoje

e esperar que a vossa voz seja ouvida no alto.

Será esse o jejum que escolhi,

que apenas um dia o homem se humilhe,

incline a cabeça como o junco

e se deite sobre pano de saco e cinzas?

É isso que vocês chamam jejum,

um dia aceitável ao Senhor?

O jejum que desejo não é este:

soltar as correntes da injustiça,

desatar as cordas do jugo,

pôr em liberdade os oprimidos

e romper todo jugo?

Não é partilhar sua comida

com o faminto,

abrigar o pobre desamparado,

vestir o nu que encontram,

e não recusar ajuda ao próximo?

Aí sim, a vossa luz irromperá

como a alvorada,

e prontamente surgirá a vossa cura.

Então do que estamos dispostos a abdicar nesta Quaresma? Que esmola estamos preparados para dar?

Estamos dispostos a abdicar do nosso individualismo atomizado que nos impede de pensar que devemos algo mais aos outros do que a civilidade mais básica?

Estamos dispostos a abdicar da “liberdade de todos os constrangimentos” que nos permite fazer tudo aquilo que queremos, independentemente das necessidades dos outros, livres de obrigações para com eles?

Estamos dispostos a abdicar do nosso partidarismo hipercrítico? Da nossa revolta e da nossa amargura para com toda a gente que não vê as coisas como nós vemos e não pensa da mesma forma que nós?

Estamos dispostos a abdicar dos prazeres de indignação presunçosa sobre as falhas dos outros e preocupar-nos mais com a trave no nosso olho em vez do cisco no olho do outro?

Estamos dispostos a desistir de trabalhar em primeiro lugar por nós mesmos e pelos nossos objetivos, e de trabalhar ao invés com e pelos outros, atendendo às suas necessidades, esperanças e desejos, tanto quanto os nossos?

Estamos dispostos a deixar-nos das desculpas engenhosas que fazemos para nós mesmos para nos permitirmos violar sejam quais forem as normas que decidimos que não queremos, enquanto mantemos em vigor aquelas que obrigam aos outros?

Que artifícios próprios estamos dispostos a deixar para trás para abraçar as virtudes da caridade e da dádiva altruísta de nós mesmos aos outros?

Faço estas perguntas porque tudo indica que estamos prestes a entrar num longo período no deserto. Quanto tempo, não sei. Mas já ouço muito queixume. Demasiado dele vem de mim. Por isso talvez valha a pena lembrarmo-nos, agora que começamos esta caminhada para o deserto, que não existe outro caminho do que aquele da Cruz. E que a liberdade da Terra Prometida não é para aqueles que sonham com as panelas de carne no Egipto, nem os dons do Reino Deus são para aqueles que gostam do sentimento de poder que acompanha a indignação presunçosa.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021)

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Thursday, 18 February 2021

FNO voltou e mensagens de Quaresma

Começo com excelentes notícias! O Faith’s Night Out está de volta, apesar da pandemia. Este ano vai ser integralmente online, mas vai valer tanto a pena como sempre. Entre os oradores têm o bispo D. Rui Valério, o médico e deputado Ricardo Baptista Leite e a maestrina Joana Carneiro. Está tudo explicado aqui. Inscrições aqui.

Começou a Quaresma. Os bispos, como sempre, publicaram as suas respetivas mensagens e divulgaram os – destinos das renúncias quaresmais. Tudo aqui, com links para notícias sobre cada diocese portuguesa.

Aqui podem ler sobre a mensagem do Papa para esta época que antecede a Páscoa.

Realiza-se no sábado um interessante webinar sobre “A Contemplação na Justiça Social”. É no sábado, tem duração de duas horas e podem encontrar toda a informação aqui.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Russell Shaw fala sobre sinodalidade, as suas vantagens e os seus perigos e como tudo isto interessa para o futuro próximo da Igreja Católica.

Wednesday, 25 March 2020

Não Fazer Nada é Fazer Tudo

Helen Freeh
Confrontados com um ataque, um desastre natural ou um acto de guerra o Ser Humano sente uma vontade incontrolável de fazer algo. No Nebraska sofremos inundações históricas o ano passado e os nossos cidadãos uniram-se para construir barreiras com sacos de areia, limpar, doar comida e água. Havia algo para fazermos em resposta à catástrofe. Recentemente Nashville, no Tennessee foi atingido por tornados que mataram 25 pessoas e devastaram uma grande parte da baixa. Milhares de pessoas vieram ajudar nas operações de busca e na limpeza da cidade. Tantas, aliás, que as autoridades tiveram de mandar pessoas embora.

Está no nosso sistema fazer algo em reação ao sofrimento, perda, ataques e ameaças à comunidade.

Mas agora que enfrentamos a maior disrupção da vida global desde a Segunda Guerra Mundial, tudo o que somos chamados a fazer é – nada. Não nos podemos mobilizar para confrontar o assalto global do novo coronavírus. Não nos podemos alistar. Não podemos doar aço e borracha para o esforço de guerra. Nem sequer podemos marchar em protesto ou em solidariedade com as políticas do Governo.

A mobilização a que somos chamados é a mobilização do isolamento.

Fazer algo, agora, é ficar em casa, não ir trabalhar, nem à escola, a festas, eventos desportivos, concertos ou – infelizmente, para muitos de nós – à missa. O nosso dever cívico e até moral é de nada fazer. Agora, em plena Quaresma, a três semanas do grande Tríduo e das celebrações pascais da Igreja, fomos chamados pelo nosso Governo a entrar numa vida enclausurada e monástica nas nossas próprias casas. Não devemos menosprezar o significado disto.

No seu livro “Deus ou Nada” o cardeal Sarah alerta para a “heresia do activismo”, um indício de que nos esquecemos de que o coração da nossa vida encontra-se apenas em Deus. O ritmo da vida contemporânea cria uma cegueira e surdez para a realidade da nossa dependência de Deus. Somos peregrinos neste mundo e a maior parte da nossa vida foge ao nosso controlo.

Esta situação do coronavírus revela a realidade como ela sempre foi. O vírus, tal como outros desastres naturais, foge ao nosso controlo. O que podemos controlar são as nossas reações à situação. O nosso falso sentido de poder foi-nos retirado e estamos desnudos. Este despir do poder revela a beleza da vida escondida debaixo destas exterioridades. Como lemos em Colossenses 3,14 e em 1 Pedro 4,8, a caridade liga todas as outras virtudes domina sobre elas como rainha.

A nossa situação está repleta de paradoxos com um profundo significado simbólico espiritual. Para fazer algo contra este contágio, devemos fazer nada. Para fortalecer a nossa aliança global, cada nação deve fechar as suas fronteiras aos outros. Nunca estivemos tão ligados uns aos outros em espírito por nos desligarmos uns dos outros fisicamente. Por amor aos nossos vizinhos, não os devemos visitar. Para manter as nossas comunidades fortes, devemos quebrá-las. A própria sociedade é composta agora por lares isolados. E espiritualmente aproximamo-nos de Deus e do seu corpo mantendo-nos afastados da sua presença sacramental.

A vida de clausura tem desafios e benefícios. Um dos benefícios é que agora podemos todos andar descalços, mas fomos colocados nesta situação contra a nossa vontade e sem uma preperação adequada. Mesmo dentro das nossas celas, porém, ainda podemos “fazer” algo. A forma de nos mobilizarmos, de “fazermos” alguma coisa, é ajudar os nossos amigos e familiares a serem santos monges. Isto inclui o encorajamento de outros, conhecidos e desconhecidos, através das redes sociais. Agora é tempo de edificar o Corpo de Cristo, não de o despedaçar. Os nossos primeiros pensamentos para com os outros devem partir da caridade e ser vistos pela óptica da caridade.

Uma das verdades enfatizadas por este vírus é o isolamento da nossa população mais velha. Há soluções práticas que podemos implementar em reposta a isto. Estou a sugerir à minha paróquia que emparelhe jovens saudáveis com pessoas mais velhas e vulneráveis. Os saudáveis contactariam os idosos todos os dias para saber se precisam de alguma coisa, mesmo que apenas precisem de falar. [Veja aqui um exemplo bem sucedido disto em Portugal].

O isolamento já é difícil para uma família, imaginem agora o quão difícil é para aqueles que já viviam sozinhos. As nossas paróquias podem ajudar, iniciando programas para “adoptar um paroquiano”, chegando assim aos que neste momento estão em maior risco e com mais medo. É um acto de caridade que poderia salvar vidas.

A todos é pedido que experimentemos um jejum severo. Recordem-se que não jejuamos de coisas pecaminosas, mas das coisas boas, para nos unirmos mais a Deus, a fonte de toda a nossa vida. Agora devemos jejuar do bem que é a vida comunitária. Mas os jejuns não são para sempre. Pensem no quanto vamos festejar, enquanto comunidade global, quando terminar este jejum!

Damos por adquirida a nossa comunhão com outras pessoas e damos por adquirida a comunhão sacramental na missa. Mas o significado desta comunhão quotidiana revelou-se agora através do mal da separação. O livro do Genesis tem uma frase belíssima em que José diz aos seus irmãos: “A vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem”. O coronavírus e os seus efeitos são um mal e a nossa resposta pode prolongar ou piorar os seus efeitos, ou então podemos colaborar com Deus e transformar este mal em bem.

O isolamento social é a cruz que todos somos chamados a tomar agora. Mas se abraçarmos a nossa cruz ela conduzirá a uma plenitude de vida que de outra forma não poderíamos conhecer.

Esta experiência histórica de sofrimento comunitário é um grande dom que nos foi dado – o dom do tempo para rezar, para refletir e – se conseguirmos encará-lo dessa forma – de lazer. Abracemos aquilo que não podemos escapar e aceitemos que neste momento o nosso “nada fazer” é precisamente o que todos devemos fazer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 23 de Março de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

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Friday, 13 March 2020

Notas de quarentena quaresmal

Ainda custa a compreender o que se está a passar. Duvido que haja memória viva de uma situação em que boa parte da Europa suspendeu as missas públicas e há tanta gente de quarentena. Não é o fim do mundo, obviamente, mas deixa-nos com uma sensação estranha e aliviados por não ser tão sério quanto poderia ser.

Em relação às missas, já ouvi críticas à decisão dos bispos, como se a suspensão das missas fosse uma demonstração de falta de fé. A todos os que andam a dizer isso, talvez convenha recordar que na Coreia do Sul, por exemplo, uma das maiores correntes de transmissão foi entre membros de uma igreja cristã. Em França aconteceu a mesma coisa com uma igreja evangélica.

É bom sinal que os sacramentos nos façam falta, mas Deus não nos pede uma fé que o ponha constantemente à prova e, graças a Deus e à tecnologia que Ele nos inspira a ir descobrindo, é possível seguir missas e outras devoções através da televisão, rádio e internet. Há aqui uma listagem bastante extensa e a Renascença, por exemplo, passará a transmitir diariamente a missa, às 12h.

Longe de mim estar a dizer-vos como devem passar o vosso período de isolamento, mas muitos quererão certamente ler. Há muita coisa online, aproveitem, e têm também os artigos do The Catholic Thing no blog.

E alegrem-se que ainda podemos rezar! É mais do que podem dizer os que gostariam de o fazer diante de duas clínicas de aborto em Londres, onde continua a ser proibido rezar, mesmo que em silêncio.

Estes são tempos difíceis que nos exigem solidariedade e disciplina. Fugindo à dimensão religiosa, peço-vos encarecidamente que não se deixem tornar veículos de notícias falsas e alarmantes. Estou farto de ler e ouvir “testemunhos” de médicos que há dois dias já garantiam que havia mortos. Melhor ou pior, as autoridades que temos estão a tentar lidar com o assunto. Ouçamos, respeitemos e ajudemos na medida do possível.

Deus nos guarde e nos fortaleça nesta que é uma Quaresma que ninguém vai esquecer tão cedo! E que o pior já tenha passado quando chegar a altura de celebrar a Ressurreição do Senhor.

Wednesday, 26 February 2020

Elogio do (verdadeiro) jejum

Helen Freeh
Recentemente chamou-me a atenção um panfleto na minha paróquia. Continha sugestões inovadoras para sacrifícios quaresmais. Partes eram atribuídas ao Papa Francisco, mas outras partes eram escritas por alguém certamente bem-intencionado, mas claramente tonto. Perguntava em letras garrafais: “Está a pensar deixar de comer chocolate para a Quaresma? Para uma Quaresma mais profunda, pense antes em…” E depois vinha a lista: Jejue de dizer palavras ofensivas e diga coisas simpáticas; jejue de rancor e encha-se se paciência; jejue de egoísmo e seja compassivo para com os outros. E por aí fora.

Depois veio a linha que, sinceramente, me fez rir alto: “Jejue de pornografia”. A ausência de uma compreensão correcta de jejum católico seria cómica se não fosse tão tragicamente enganadora para católicos com falta de catequese.

Devemos sempre evitar pecados como palavras cruéis, rancor injusto, egoísmo e, claro, pornografia! Estas não são coisas boas das quais nos abstemos temporariamente, para oferecer como sacrifício a Deus como parte do nosso jejum. São só coisas más que ofendem sempre a Nosso Senhor e que devíamos sempre evitar fazer.

A ideia de abdicar de pecados como parte da nossa Quaresma confunde a própria natureza e propósito do jejum, que é privarmo-nos de um bem em nome de um bem maior – a proximidade e, por fim, a união com Deus. Não se pode “jejuar” de pecado. Se jejuamos de palavras ofensivas e de pornografia durante a Quaresma, devemos depois voltar a elas na Segunda-feira de Páscoa e anunciar orgulhosamente que no ano seguinte vamos deixá-las novamente? A própria noção é absurda.

Há já algum tempo que muitos de entre nós têm abandonado a compreensão tradicional de jejuar de bens físicos, considerando-o um acto superficial, antiquado ou impensado. Isso leva as pessoas a fazer as “sugestões inovadoras” referidas acima e muitas outras que os leitores facilmente podem imaginar.

O que é que nos leva a descartar a ideia do jejum corporal? Será um medo visceral de privar o corpo de luxos ou de nos sentirmos fisicamente desconfortáveis? Será uma forma de escravatura das nossas dependências físicas, disfarçada de enfoque nas coisas aparentemente superiores e “espirituais”?

Este salto de mortificações corporais para espirituais arrisca-se a tornar-se uma espécie de espiritualismo, em que alguém crê que o espírito é inteiramente à parte da matéria ou do corpo. Ou talvez um tipo subtil de gnosticismo em que se descarta a importância do corpo e, por isso, as mortificações do corpo são vistas como sendo desnecessárias para o crescimento espiritual.

Um católico não deve deixar-se enganar por estas mudanças das práticas tradicionais. Não devemos denegrir a mortificação da carne ou simplesmente considerá-la uma coisa do passado. A natureza do corpo não muda com o tempo e nunca deixa de pedir a sua própria satisfação. Mesmo que diga palavras bonitas e reduza a sua pegada ecológica, colocando os plásticos no ecoponto certo, as dependências corporais mantêm-se presentes, escondidas, até serem postas à prova.

Cristo tentado no deserto
Esse é o problema com estas tentativas erradas de “aprofundar” o tempo quaresmal. A Quaresma não é um período ou de crescimento espiritual ou de melhorar a disciplina corporal. Porque a oração e o jejum andam de mãos dadas. Os três pilares da época penitencial da Quaresma são a oração, o jejum e a esmola. Jejuar sem ser de comida e de bebida real é como dar esmola sem ser com dinheiro verdadeiro. O jejum é de bens físicos e as esmolas para os pobres são de dinheiro verdadeiro ou de bens materiais.

As oferendas espirituais são, como é evidente, muito boas e justas e uma necessidade para quem deseja avançar no caminho da perfeição. Mas para a maioria de nós o progresso costuma fazer-se da ordem natural para a ordem sobrenatural das coisas.

Os nossos corpos estão intimamente ligadas às nossas almas. Os críticos podem pensar que o jejum de gelado, chocolate, doces e por aí fora são actos “menores” ou “impensados” só porque muitos homens e mulheres de fé têm feito as coisas assim ao longo dos anos. Mas permitam-me sugerir, humildemente, que na nossa cultura indulgente a primeira coisa que uma pessoa deve tentar fazer é abdicar dos bens materiais de comida e de bebida.

É precisamente porque é difícil abdicar de bens destes que a pessoa que deixou de consumir café, por exemplo, precisa de recorrer ao auxílio da oração. Quando começarmos a ganhar maior autocontrolo sobre o corpo, então podemos passar para o próximo nível espiritual em que para além de abdicar destes bens espirituais, aprofundamos também a ligação espiritual a Nosso Senhor. Pedimos a graça de ter fé, esperança e amor mais profundos; para ser mais castos, temperados, diligentes, pacientes, bondosos e humildes.

Por isso, durante esta Quaresma, mortifique o seu corpo abdicando daquele café matinal, ou da doçura das sobremesas, e não deixe que ninguém o convença que essa disciplina corporal é simplista ou ultrapassada. E, já agora, arrependa-se dos seus pecados também.


(Publicado pela primeira vez no sábado, 22 de Fevereiro de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 3 April 2019

Que Tipo de Filho?

Pe. Paul Scalia
A Quaresma é sobre o tipo de filho que escolhemos ser. Tem a ver, em primeiro lugar, com a filiação de Cristo, e depois com o facto de nós sermos filhos de Deus através dele, com Ele e nele. A Quaresma alcança o seu propósito e significado final na Vigília Pascal, quando os catecúmenos são baptizados e os fiéis renovam as suas promessas baptismais, isto é, quando nos tornamos, ou renovamos a nossa relação de, filhos de Deus.

As leituras reflectem esta realidade. O primeiro Domingo de Quaresma coloca-nos diante das tentações que queriam afastar o Filho do Pai. Ele tinha acabado de escutar a voz do Pai no Rio Jordão: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus toda a minha complacência”. Agora é o demónio que põe à prova as palavras do Pai, propondo outro tipo de relação filial – não proposto e desejado pelo Pai, mas baseado antes nas suas próprias sugestões: Se és de facto o filho de Deus…

É confiando no Pai, recebendo o que Ele dá e rejeitando qualquer relação filial contrafeita, que Nosso Senhor triunfa. E como que a confirmar esta vitória, o segundo Domingo da Quaresma dá-nos a voz do Pai no Monte Tabor: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; escutai-o”. A Quaresma toda tem a ver, portanto, com a rejeição da falsa filiação, afastando o que não é de Cristo e preparando-nos para renascer, ou vermos renovada a nossa relação filial com Deus.

É neste contexto de filiação – tanto real como falsa – que devemos escutar a parábola do Filho Pródigo, de domingo passado. Na verdade, claro, é sobre dois filhos. Embora sejam muito diferentes, têm algo em comum: cada um escolhe o seu próprio tipo de filiação, independentemente do pai. Ou melhor, cada um nos revela formas diferentes de sermos apanhados nas ciladas do demónio e na filiação criada à nossa medida.

A rebelião do filho mais novo é mais infame. Ele “consumiu os bens [do pai] com mulheres de má vida”, nas palavras do irmão. Esta vida dissoluta poderá parecer-nos o pecado mais grave. Mas na verdade é apenas o fruto terrível, e não a raiz, da sua rebelião.

Na raiz do pecado do filho pródigo está a vontade de querer uma relação filial à sua medida. “Pai, dá-me a parte da herança que me toca”. Esta exigência dura revela o seu desejo de querer ter todos os benefícios da filiação – a sua herança – mas sem o pai. Note-se que não lhe basta estar longe do pai, quer que o pai deixe de existir. Quando diz: “Pai, dá-me a parte da herança que me toca” o que está a dizer de facto é: “Eu quero aquilo a que tenho direito quando morreres”… “Eu só posso viver a filiação que desejo quando tu partires”… “Gostaria que morresses”. 

O filho mais novo é Adão, tentando alcançar o fruto, procurando obter à sua maneira aquilo que o Pai lhe quer dar livremente – e acabando em grande desapontamento. Esta é a doença do homem caído. Queremos as coisas de Deus, mas sem Deus. Queremos a bondade da criação, sem o Criador, a dignidade que Ele nos deu, sem qualquer responsabilidade para com Ele, e a vida eterna que Ele promete, sem o seu caminho.

O Ocidente pós-cristão quer o património intelectual, moral e espiritual da Cristandade – mas sem Cristo. No final nós, tal como o filho pródigo, percebemos que não podemos ter um sem o outro. Sem o Pai, os seus dons rapidamente nos traem. E nós, tal como o filho pródigo, encontramo-nos no meio dos porcos.

E depois temos o filho mais velho. Também ele vive uma relação filial à sua maneira. Só não é tão evidente. O filho mais novo estabelece a sua própria rota, em claro contraste com o pai. O mais velho estabelece os termos para a sua relação (ou falta dela) com o pai, mas de forma menos clara. Também ele quer as coisas do pai sem o pai. Em vez de ser dissoluto e irresponsável, porém, os seus termos são mercantilistas e (espera ele) lucrativos.

“Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua”. Esta não é a voz de um filho, mas de um empregado ou de um escravo. Trai a visão distorcida do filho mais velho da relação filial e uma fraca compreensão do seu pai. Ele encara o seu trabalho, não em união com o pai ou para bem da família, mas apenas como obrigação. O filho mais velho está sozinho em casa: todo este tempo na casa do pai, mas não da casa do pai.

Se o filho pródigo representa aqueles que se afastam, ou que se revoltam mesmo contra a Igreja (a casa do Pai) o mais velho representa aqueles que, enquanto na Igreja e talvez até a trabalhar para a Igreja, são animados apenas por um sentido de dever.

Ao contrário da vida dissoluta do filho pródigo, este vício ameaça aqueles que levam a sua fé a sério e, também ao contrário do pródigo, não querem abandonar a casa do Pai. Arriscam estar na casa do Pai, mas sem o sentido de serem seus filhos. O perigo, para eles, está em substituir o Pai pelas coisas do Pai – colocando a piedade acima da santidade e satisfazerem-se com a observação externa acima da obediência filial.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Embora partam da boca do mais novo, ambos os filhos o poderiam ter dito. A ambos falta uma relação genuína com o pai. Cada um deles, à sua maneira, distorceu-a, criando uma relação filial à sua medida.

É normal tentarmos reconhecer em nós mesmos um ou outro dos dois filhos. Mas a realidade é que nos assemelhamos a ambos, até certo ponto. Por isso, agora que nos encontramos a meio da Quaresma, fazemos bem em perguntar não se, mas como é que agimos como cada um. Quando e como é que prefiro as bênçãos de Deus ao próprio Deus? E, igualmente, quando e como é que reduzo a minha relação com o pai a um mero quid pro quo?

Temos de renunciar a estas falsas relações filiais para sermos renovados como filhos de Deus, na filiação autêntica de Cristo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

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