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Friday, 17 November 2023

Indi Gregory, padres em burnout e #RedWeek

Do Reino Unido chega uma notícia triste e outra chocante. A triste é que morreu a menina Indi Gregory, que sofria de uma doença incurável. A chocante é que a Indi morreu porque os médicos, com o apoio do tribunal, decidiram que as opinião, as escolhas e os valores dos pais da Indi não deveriam ser tidos em conta no que diz respeito ao seu tratamento clínico. Não é uma excepção, é a regra naquele país, como já se tornou evidente ao longo dos últimos anos. Neste artigo explico os detalhes, e digo porque é que isso é tão preocupante.

A semana passada falei muito brevemente do documento do Vaticano sobre o acesso dos transexuais ao sacramento do baptismo ou à função de padrinhos. Esta semana trago-vos um artigo do The Catholic Thing que resume muito bem aquelas que são as minhas preocupações com as orientações da Santa Sé, que a meu ver peca mais pelo que não diz do que pelo que diz. Leiam o artigo e digam-me se concordam.

A Renascença tem uma interessante notícia sobre um padre que se está a especializar em psicologia com o objectivo de ajudar outros sacerdotes em “burnout”. É um problema cada vez mais presente nas paróquias, e não apenas nos círculos católicos.

Dos meus amigos da Ajuda à Igreja que Sofre – Portugal, trago-vos três histórias muito importantes. Em primeiro lugar, entramos amanhã na #RedWeek, durante a qual vários edifícios públicos serão iluminados de encarnado para assinalar a perseguição aos cristãos. Saibam mais aqui.

Na Nigéria a praga de raptos de padres é de tal forma que já nem é notícia. Ao longo deste ano vamos já em 23 raptos e quatro assassinatos. Uma tragédia.

E ainda, a história da Irmã Terese, do Gana. Talvez até tenha partilhado isto na versão inglesa, mas o testemunho desta freira, que salva dezenas de vidas de crianças consideradas “amaldiçoadas” é tão bonita que volto a insistir nela. Isto é o Evangelho em carne e osso.

Felizmente, da Nigéria também nos chegam histórias encorajadoras. Conversei com um bispo e um padre que estão a implementar um programa de diálogo inter-religioso que tem dado muitos frutos pela paz. O bispo até recebeu o título de Sheikh do seu amigo o grande-imã do Estado de Osun.

E os líderes de igrejas da Terra Santa pedem que os cristãos celebrem o Natal de forma mais recatada este ano, por causa do sofrimento em Gaza. Esta declaração está publicada aqui, onde tenho estado a coligir declarações de líderes religiosos locais sobre esta guerra. Rezemos pela Paz na Terra Santa, e rezemos pelos cristãos que se encontram em Gaza, dos quais não temos tido notícias nos últimos dias.

Monday, 26 June 2023

Muçulmanos angariam dinheiro para libertar cristãos

Infelizmente, não é difícil encontrar notícias sobre violência e perseguição inter-religiosa e em muitos casos as comunidades cristãs sofrem às mãos de grupos fundamentalistas islâmicos. 
Mas é precisamente por isso que importa também dar eco de histórias como esta, que acabei de ler, passada na Nigéria. 
No dia 7 de Maio um grupo de dezenas de cristãos de uma igreja baptista foram raptados por bandidos. Os raptos na Nigéria são um fenómeno complexo, uma verdadeira indústria. Os culpados são frequentemente apenas bandidos à procura de resgates, mas noutros casos há um factor religioso em jogo, tratando-se de criminosos muçulmanos que raptam cristãos precisamente para hostilizar a comunidade e tentar levá-los a abandonar a área. Há também questões étnicas em jogo. 
Neste caso, contudo, o que há a assinalar é o facto de os muçulmanos da comunidade de onde foram raptados os cristãos baptistas terem ajudado a angariar dinheiro e até comprado uma motorizada para poder pagar o resgate necessário para libertar os seus vizinhos. 
Num país onde a tensão inter-religiosa há muito que atingiu níveis extremos, esta é uma notícia que nos deve encher de esperança e recordar-nos que pessoas de diferentes religiões têm sempre um património comum, nem que seja o pequeno-enorme aspecto da sua humanidade. 
Há muita tragédia no mundo, muito com que nos preocupar e muito para lamentar. Mas temos também a liberdade de escolher as histórias que decidimos contar e partilhar. Esta merece, sem dúvida!

Thursday, 22 June 2023

E Deus Criou o Mundo: Religiões e redes sociais, e padres na política

Tive o privilégio de participar em mais dois episódios do programa da Antena 1 "E Deus Criou o Mundo". 

No primeiro destes dois episódios, transmitido no dia 13 de Junho, conversámos sobre as redes sociais e as religiões, mas também sobre a recente carta escrita por católicos de Lisboa a explicar ao Papa que tipo de candidato ele devia escolher para ser o próximo Patriarca de Lisboa. Podem ouvir o programa completo aqui

Na semana seguinte, dia 20 de Junho, conversámos sobre a perseguição aos cristãos na Nicarágua, mas também dos muçulmanos na China, e trocámos opiniões sobre clérigos na política, depois de um padre católico ter sido eleito governador de um Estado na Nigéria. Podem ouvir esse episódio aqui

Friday, 16 June 2023

Arquivamentos e altas hospitalares

O processo de abuso de menores envolvendo o Pe. Mário Rui, do Patriarcado de Lisboa, foi arquivado. É o primeiro dos processos decorrentes das listas elaboradas pela Comissão Independente a ser concluído, pelo menos que se saiba publicamente. Toda a informação disponível aqui.

O Papa Francisco deve ter alta amanhã, o que é obviamente uma boa notícia no geral, mas sobretudo para quem espera que ele consiga estar na JMJ, em Lisboa.

Ainda sobre a JMJ, recordo este texto que escrevi a semana passada, com um apelo para se inscreverem como famílias de acolhimento. É mesmo importante, não deixem passar esta oportunidade de viver de forma ainda mais intensa este grande evento.

Na Nigéria a vida está cada vez mais difícil para os cristãos. Para terem ideia do que sofrem os que vivem em zonas maioritariamente muçulmanas, leiam este artigo que escrevi para a fundação Ajuda à Igreja que Sofre Internacional sobre um antigo governador de um estado muçulmano que admite abertamente que favorecia os seus correligionários em detrimento dos cristãos.

Ao contrário do que se possa pensar, notícias como esta são razão ainda maior para apostar no diálogo inter-religioso. É o que está a fazer este padre em Moçambique, numa zona também muito difícil, onde nasceu o movimento que está a aterrorizar Cabo Delgado e redondezas.

E na senda da solenidade do Corpo de Deus, que foi a semana passada, oportunidade para recordar esta bela homilia do Papa Bento XVI sobre o assunto, que constitui o artigo do The Catholic Thing desta semana.

Wednesday, 15 March 2023

E Deus Criou o Mundo - Abuso de Menores e Casa Abraâmica

Fui novemente convidado para participar em dois episódios do programa "E Deus Criou o Mundo", da Antena 1. 

O tema do primeiro episódio foi o abuso de menores. 

No segundo falámos, entre outras coisas, da inauguração da Casa Abraâmica, em Abu Dhabi.

Podem ouvir os programas clicando abaixo.


Abusos de menores


Casa abraâmica

Thursday, 15 September 2022

Francisco a ser Papa no Cazaquistão

O Papa está no Cazaquistão. Engane-se quem pensa que esta é apenas mais uma viagem apostólica, é muito mais que isso. Neste texto pretendo falar brevemente da dificuldade de navegar entre o diálogo religioso e o sincretismo, da importância contextual dos apelos do Papa à paz, e à questão da relação com a Igreja Ortodoxa Russa.

Diálogo sem sincretismo

Francisco está na capital do Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas décadas.

Os cristãos são uma minoria de 25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.

A relação da Igreja Católica com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição, tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso, com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.

Estes encontros no Cazaquistão surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam e continuam a levantar o fantasma do relativismo.

Francisco está, por isso, em terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:

Queridos irmãos e irmãs, avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões. (…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso Criador.

Falar de paz numa região de guerra

É certo que Francisco fala muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.

Mas é preciso ter também em conta que não é apenas a na Ucrânia que soam as armas neste momento. Sem sair da zona da ex-União Soviética, temos tido também problemas nos últimos dias, com tiros e mortos, na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão e, com uma gravidade muito maior, temos assistido a uma tentativa de invasão da Arménia por parte do Azerbaijão. Este último caso era previsível, infelizmente, e escrevi sobre ele exatamente quando a guerra na Ucrânia começou. Preferia ter-me enganado. Os problemas entre o Azerbaijão e a Arménia são mais graves ainda na medida em que o primeiro é muçulmano e o segundo cristão. O conflito é territorial, não religioso, mas existe sempre o risco agravado de adquirir também uma dimensão religiosa e espalhar-se, por isso, a países vizinhos. Esperemos que não.

É aqui, nesta região unida por um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.

Diálogo com os russos

Uma dimensão muito importante desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em Moscovo.

O Patriarca Cirilo, de Moscovo, quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da invasão da Ucrânia.

O facto é que Cirilo está quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo. Aliás, no seu discurso à chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com todos.”

Mais uma vez, porém, Cirilo perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão, como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso, em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.

Se o Criador, a quem dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas e tradições, não se empenham ativamente pela paz?

Irmãos e irmãs, purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.

Mais uma vez, belas palavras. Haja quem as oiça e as ponha em prática!

Monday, 2 September 2019

Diálogo inter-religioso e migrações: Temas cardeais para o Papa Francisco

Foi com grande alegria que acolhemos a notícia da elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal. Já era esperado que assim fosse, mas a confirmação é sempre bem-vinda.

Curiosamente, D. José Tolentino será elevado no dia 5 de outubro, o que até lhe fica bem, uma vez que ele é (tragicamente) republicano.

Como é natural, a nomeação de D. Tolentino centrou as atenções dos portugueses, mas seria uma pena não perceber a relevância de muitas das restantes nomeações, que mostram claramente as prioridades deste Papa e deste pontificado.

Começo pelo diálogo inter-religioso. O Papa Francisco não só nomeou cardeal o espanhol Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, como também o seu antecessor Michael Louis Fitzgerald, que chefiou o Conselho entre 2002 e 2006.

A nomeação de Fitzgerald é particularmente interessante. Em 2006 Bento XVI retirou-o do Conselho para o Diálogo Inter-religioso e nomeou-o núncio apostólico para o Egipto. Ora, na altura a decisão causou alguma confusão e não foi possível compreender se se tratava de uma despromoção, ou de uma tentativa de aproveitar as grandes qualidades do arcebispo num país que é crucial para as relações entre o Islão e o Cristianismo.  Pouco tempo depois da sua retirada o Papa fez o seu discurso de Ratisbona, que acabaria por danificar gravemente essas relações.

A decisão de o nomear cardeal agora, que já tem 82 anos, pode ser entendida, assim, como uma espécie de reabilitação, ou um tributo tardio a um homem que dedicou a vida a tentar construir pontes com o Islão, coisa que o Papa valoriza.

Para além destes dois especialistas em diálogo inter-religioso, o Papa Francisco também nomeia cardeais os arcebispos de dois países muito importantes para o mundo islâmico, Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de Jacarta, Indonésia – o maior país muçulmano em termos demográficos. Trata-se apenas do terceiro cardeal da história da Indonésia, sendo que o primeiro já morreu e o segundo, seu antecessor em Jakarta, tem já 84 anos. O outro novo cardeal que vem do mundo islâmico é o arcebispo de Rabat, em Marrocos, Cristóbal López Romero.

Recorde-se que o mesmo Papa Francisco já nomeou cardeais do Burkina Faso (89% islâmica), da República Centro-Africana, onde os últimos anos têm sido marcados por conflitos entre muçulmanos e cristãos, da Malásia (61% muçulmanos, apenas 9% cristãos), Albânia, Mali (95% muçulmanos), Iraque e Paquistão.

É verdade que com estas nomeações o Papa está a respeitar a sua própria vontade expressa de dar importância às periferias, mas olhando para estas nomeações parece também evidente que está, por um lado, a encorajar e valorizar as comunidades cristãs nestes países, frequentemente vítimas de perseguição, mas também a criar uma rede de conselheiros e actores que podem, agora com maior autoridade, levar a cabo o diálogo com o Islão nestes países.

Pe. Michael Czerny
A outra questão é a valorização do problema dos refugiados. O Papa fez aqui uma nomeação curiosa, o padre canadiano Michael Czerny, que é subsecretário da secção para os refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O prefeito deste dicastério é Peter Turkson, que já é cardeal, mas o secretário, o padre francês Bruno-Marie Duffé, não é, o que cria uma situação peculiar, mas deixa muito, muito clara a intenção do Papa de sublinhar a importância do trabalho desenvolvido por Czerny.

Repare-se que o jesuíta canadiano não é bispo. Ora isto não é inédito, mas normalmente os padres nomeados cardeais são mais velhos, não-eleitores ou muito perto de o serem, e muitos, sobretudo quando são jesuítas, pedem para não ser ordenados bispos. Não se sabe ainda se Czerny, que entretanto foi também nomeado secretário do sínodo dos bispos sobre a Amazónia, irá pedir esta dispensa, mas se o fizer, e se lhe for concedida, haverá o caso raro de um cardeal eleitor que não é bispo. Por exemplo, nos últimos conclaves não houve um único caso de participante que não fosse bispo.

Wednesday, 23 January 2019

Fé, Razão, Vida

A 46ª Caminhada Pela Vida que se realiza hoje [sexta-feira, 18 de Janeiro] em Washington não é um evento católico. Ao longo dos últimos anos tem sido muito gratificante ver um aumento no número de evangélicos, outros protestantes e judeus – como não adorar o som do Shofar a ser soprado do palco, antes de a multidão arrancar –, mórmones, muçulmanos e ainda outros a participar. Todos os que se têm vindo a aperceber que matar os mais pequenos e vulneráveis da espécie humana não tem nada de humano nem ajuda em nada as mulheres, que são mortas através do aborto às dezenas de milhões, em todo o mundo, simplesmente pelo facto de serem do sexo feminino.

Mas a caminhada – e a causa pró-vida – também não são, verdadeiramente, um tema religioso. É sempre bom ver na caminhada os Ateus pela Vida, mas também é uma recordação importante. Não somos contra o aborto por se opor a um qualquer dogma religioso. Se fosse esse o caso – como muitos defensores do aborto afirmam, erradamente – seria difícil evitar a acusação de estarmos a tentar “impor a nossa religião” aos outros. Pelo contrário, estamos a tentar evitar que as pessoas pratiquem uma forma irracional, falsa e sangrenta de idolatria.

É a razão, e não a revelação, que nos diz que, caso acreditemos que é errado matar, então matar crianças ainda na barriga das mães também é errado. E com cada ano que passa essa posição moral torna-se ainda mais clara. Quando a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto em todo o país, foi anunciada, em 1973, a medicina estava a anos-luz do que está agora. Hoje sabemos, por exemplo, que o coração de uma criança começa a bater cerca de quatro semanas depois da concepção e que já acontecem muitas outras coisas que tornam claro que aquilo que se está a desenvolver e a crescer é um ser humano vivo (com o seu próprio ADN), rapaz ou rapariga desde o começo. Segue-se, racionalmente, que quem decidir pôr fim a essa vida, mesmo no seu estado mais incipiente, está a cometer um erro moral grave.  

E fazemos bem tanto em argumentar racionalmente como em caminhar pelo fim do aborto. Aliás, é mesmo uma obrigação moral. Confrontar-nos uns aos outros, em busca da verdade, é uma forma de demonstrar a nossa convicção de que aqueles com quem discordamos são, como nós, seres racionais. Eu sei que é pedir muito que a razão prevaleça, quando há tantas paixões e interesses em jogo. Mas é por isso que as caminhadas, manifestações e o exemplo pessoal devem também ser usados, nem que seja para criar oportunidades de fazer-se ouvir o lado científico e os bons argumentos.

Cerca de dez anos depois da decisão judicial de Row, estava a conversar com um filósofo, que entretanto se tornou mundialmente conhecido, sobre o aborto. Ele previu que, apesar de se tornar cada vez mais claro, através da ciência e da razão, o que estamos a fazer quando abortamos os nossos filhos, nada disso importaria. “Chegará o dia em que serão forçados a admitir a verdade. E então dirão, ‘Sim, é um bebé que se está a matar, e depois?’”

Na altura tive as minhas dúvidas, hoje já não tenho. Há anos que se muda o assunto do estatuto moral da vida intrauterina para tudo, desde o respeito pela liberdade das mulheres, o preconceito religioso e o combate à pobreza e aos danos ambientais. E também já nos disseram que, sim, é uma escolha difícil. Mas difícil porquê? Talvez porque esteja um bebé em causa? Sim, mas insistem que a mulher continua a ter aquele direito. Num acesso de paixão moral o Papa Francisco acertou no ponto quando disse que fazer um aborto é como contratar um assassino para nos resolver um problema. E a verdade é que esse assassino está a receber muitas chamadas: 42 milhões em todo o mundo só no último ano, de acordo com uma estimativa, fazendo do aborto a principal causa de morte.  

Os católicos americanos têm tido um papel central e louvável, claro, em manter viva a causa pró-vida. E por isso não é surpresa nenhuma que outros, que acreditam que é a verdade que nos liberta, se tenham juntado a nós. E não apenas neste país. O nosso exemplo tem espoletado outros esforços parecidos em vários países e, recentemente, até em Roma, embora a Igreja italiana e o Vaticano se tenham mantido distantes, por razões políticas aparentemente más, da Marcia per la Vita.

Desde esta segunda vaga da crise de abusos, os bispos americanos – e por implicação a Igreja como um todo – têm levado com críticas severas, algumas injustas, mas na maior parte justas. Tudo isso tem danificado a força do nosso testemunho público em várias frentes. Nestes últimos dias o Cardeal Wuerl até teve de abandonar os seus planos para celebrar a missa pró-vida que antecede a Caminhada. Foi substituído pelo núncio apostólico, o arcebispo Christophe Pierre. Mas nós, os americanos, conseguimos lidar com mais do que um problema de cada vez. Eventualmente vamos conseguir lidar com a crise de abusos enquanto continuamos com o nosso testemunho pró-vida e pró-família.

Mas não será um caminho fácil. Foram precisos quase cem anos – e uma Guerra Civil – desde os primeiros textos de John Wesley contra a escravatura até à Proclamação da Emancipação. Talvez leve tanto tempo, ou ainda mais, para anular o Roe v. Wade e mudar atitudes culturais para com o aborto. Mas, por mais tempo que leve, quando chegarem dias melhores as pessoas vão olhar para trás, para este tempo de trevas, e perguntar como é possível que uma população a gozar a maior prosperidade que o mundo alguma vez conheceu pôde ser cega para este massacre dos inocentes.

Muitos têm criticado a Igreja e outras organizações cristãs pelas suas falhas no combate à escravatura durante os séculos XVIII e XIX e é verdade que isso permanece como uma nódoa no registo de muitos seguidores de Cristo que tinham obrigação de saber melhor.

Mas naquele grande dia em que o aborto for visto novamente como o terrível mal moral que é, as pessoas também poderão ver que foi em primeiro lugar a Igreja, apesar de tantas críticas e muitas vezes sozinha, que defendeu a sacralidade de toda a vida humana. Numa altura em que pairam dúvidas sobre tanta coisa, isso é algo que merece ser festejado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 9 January 2019

Dialogar com os Mórmons

Casey Chalk
“Gozar com os mórmons é”, nas palavras do já falecido teólogo católico Stephen Webb, “uma das últimas fronteiras da desordem verbal que ainda não foi beliscada pelos poderes do politicamente correcto”. O missionário mórmon é frequentemente alvo de ridicularização. “O Livro de Mórmon”, um musical de sucesso escrito pelos criadores do “South Park” brincava com o tradicional missionário da Igreja dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), com as suas calças pretas e camisa branca.

Muito do material apologético católico e evangélico ridiculariza as crenças mais excêntricas da ISUD – a corporalidade de Deus, o casamento eterno e os tons de politeísmo, entre outros. Quando eu era um jovem evangélico ensinaram-me que o mormonismo é uma seita. Sejam quais forem as heresias presentes na teologia mórmon, a nossa abordagem aos mórmons, enquanto católicos que somos, precisa de ser repensada. 

A apologética cristã respeitante aos mórmons costuma assumir uma de duas formas. Uma abordagem recomenda atacar as crenças dos Santos dos Últimos Dias através do “texto-prova”. Para os protestantes, isto resulta naturalmente da presunção da claridade da Escritura. Claro que o que parece claro para um provavelmente parecerá muito menos claro para outro, sobretudo se tiver sido catequizado para ler a Bíblia de uma certa forma. Mas existe ainda outra dificuldade quando se debate com os mórmons, é que a ISUD ensina que a Bíblia é subserviente ao Livro de Mórmon, logo eles têm sempre esse trunfo em qualquer debate sobre texto-prova.

A outra abordagem recomenda confrontarmos os missionários mórmons com alguns dos aspectos mais bizarros da sua fé. Um autor católico conhecido descreve uma vez em que conseguiu forçar uns missionários a reconhecer algumas das idiossincrasias das suas crenças. Depois assegurou-lhes que “isso é simplesmente uma loucura”. Não faço ideia porque é que essa estratégia haveria de resultar. Raras são as pessoas que são persuadidas a abandonar a sua religião simplesmente porque um estranho lhes diz que as suas crenças são ridículas.

Aliás, eu diria que isto teria precisamente o efeito contrário. Mais, há muitos não cristãos que consideram as histórias da Bíblia “simplesmente loucas”, e os cristãos não católicos gozam frequentemente com as aparições marianas, como Guadalupe, Lourdes ou Fátima.

Ambas estas estratégias assumem um ponto de partida inerentemente contencioso para o diálogo com os mórmons. Talvez seja natural, tendo em conta as muitas heresias da ISUD. Mas por outro lado isso ignora o facto de os missionários mórmons serem, de provavelmente todos os grupos religiosos nos Estados Unidos, aqueles que mais tentam falar de Jesus na Praça Pública. Nunca um evangélico ou um católico me bateu à porta para pedir para falar sobre Jesus. Mas ao longo dos anos muitos mórmons o fizeram. Duvido que seja caso único. A Igreja Mórmon pode ter ideias erradas sobre Cristo, mas pelo menos têm vontade e são persistentes no seu desejo de falar dele.

Para além disso, os mórmons têm sido aliados constantes de evangélicos, católicos e ortodoxos nas batalhas contra as forças seculares agressivas na América. Têm trabalhado incansavelmente para preservar as suas comunidades, resistir às tentações e influências da cultura pós-cristã e lidar com os ataques contra eles e contra a sua devoção a Cristo. Este zelo viu-se de forma especial há dez anos quando membros da ISUD colaboraram com conservadores de outras religiões para fazer aprovar a Proposição 8, que durante algum tempo proibiu o casamento homossexual no Estado da Califórnia.

Modelo do templo mórmon em construção em Lisboa
E a vida dos missionários mórmons não é nada fácil, poucas são as vocações religiosas que se comparam em termos de intensidade ou sacrifício. Para os homens, as missões duram dois anos; as missões das mulheres são de ano e meio. Durante esse tempo os missionários nunca deixam o seu território de missão. Têm poucas oportunidades de falar com família e amigos. Vivem com um orçamento apertado – muitos comem apenas cereais e noodles, praticamente todos os dias, durante meses. Passam cerca de doze horas por dia em missão, enfrentando muitas vezes hostilidade ou indiferença. Um amigo meu mórmon que foi enviado para o Japão conseguiu converter apenas uma pessoa durante o tempo inteiro que lá esteve.

Para as mulheres o sofrimento e o risco são ainda piores. Uma missionária contou-me uma vez que um homem que parecia sinceramente interessado na sua religião, mas afinal apenas queria casar! Outros homens tentaram abordá-la fisicamente. Certa vez um homem bêbado e quase nu saiu de casa a correr e a praguejar contra ela. Os mórmons, talvez mais até do que outras tradições religiosas, conhecem o falhanço. Recentemente disse a uns convidados que a sua experiência parecia um pouco uma passagem pelo inferno – o mais experiente acenou com a cabeça.

Por tudo isto eu argumentaria que o modo certo para começar um diálogo com missionários mórmons não é polémica e hostilidade, mas hospitalidade. Recentemente a minha mulher e eu convidámos duas missionárias para jantar, e foi muito divertido.

Durante a sobremesa elas sentiram-se na obrigação de partilhar a sua fé. Nós ouvimos cuidadosamente e fizemos algumas perguntas. Disse-lhes que discordava deles por razões teológicas e filosóficas, que expliquei de forma breve. A minha mulher – de forma muito perspicaz – partilhou a sua experiência de ter sido traída pelo padre Marciel Maciel, o fundador dos Legionários de Cristo, que vivia uma vida dupla. Explicou que tinha sido difícil, mas essencial, manter a sua fé em Cristo, mesmo quando aprendeu que o homem que tanto admirava, afinal era um patife. O paralelo com a vida de Joseph Smith, fundador da Igreja Mórmon, foi perfeito e espero que as missionárias o tenham entendido.

Creio que esta abordagem é superior à da confrontação. Sim, os erros teológicos do mormonismo são terríveis. Mas ao mesmo tempo eles estão nas ruas a falar de Jesus numa altura em que cada vez menos pessoas O conhecem. Isso tem de valer alguma coisa. E se quiserem passar cá por casa para partilhar uma refeição, construir uma amizade e trocar opiniões sobre Deus, a nossa porta está sempre aberta.

Se Deus quiser, algo dessa vida partilhada, bem como os nossos testemunhos sobre Cristo e a sua fidelidade à sua Igreja, terão um impacto maior e mais duradouro do que a polémica e hostilidade contenciosa.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019)

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Wednesday, 3 October 2018

Choques naturais e ultrapassáveis

Declarações "chocantes" de Osswald
Começou o sínodo dos jovens. O Papa Francisco emocionou-se ao ver lá dois bispos chineses, fruto do acordo alcançado com Pequim, e no seu discurso disse a todos os bispos reunidos que devem deixar para trás preconceitos e estereótipos.

Temos no site da Renascença uma interessante entrevista com o bispo D. António Augusto Azevedo, que está presente nos trabalhos.

Também hoje decorreu em Lisboa o II Congresso do Diálogo Inter-religioso. Numa das conferências, Walter Osswald disse que o choque cultural até é natural, mas é preciso ultrapassar a rejeição. Noutro painel o padre Fernando Sampaio confessou que a proibição de perguntar aos doentes a sua religião é, em alguns casos, uma violação dos seus direitos.

Ainda na sequência da crise de abusos que sacode a Igreja, Randall Smith, um dos meus autores favoritos do The Catholic Thing, escreve esta quarta-feira directamente para aqueles que invocam os problemas para abandonar a Igreja. É um artigo arrasador, cheio de bom-senso. Leiam e partilhem!

Friday, 20 July 2018

Santidade em Fátima e lixo em São Tomé

Santificação em acção em Fátima
Ontem estive em Fátima no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. O ambiente é, de facto, muito especial!

Pude entrevistar o bispo iraquiano Georges Casmoussa, que falou da necessidade de perdão mesmo em casos de perseguição extrema e disse que a reconciliação no Iraque tem de ser liderada por leigos.

Hoje publicamos uma entrevista com o presidente da Conferência Episcopal do Brasil, que também está no encontro. D. Sérgio Rocha elogia o papel das Equipas para redescobrir a alegria do casamento e, noutro tema, diz que é cedo para se saber o sínodo da Amazónia, no próximo ano, irá aprovar a ordenação de homens casados.

Cabinda tem um novo bispo. Saiba porque é que isso é mais interessante do que possa parecer à primeira vista…


E saiba aqui como é que pode ajudar os Leigos pelo Desenvolvimento a comprar um carro de recolha de lixo para São Tomé!


Thursday, 1 February 2018

"Não vim para Portugal para que a realidade judaica esteja na mesma em cinco anos"

Publico aqui a transcrição integral, no português original, da entrevista feita ao novo rabino de Lisboa, Natan Peres.

Nesta entrevista o rabino fala do seu percurso, do que espera fazer na comunidade de Lisboa, e de alguns assuntos de importância geopolítica, como a crise de refugiados e o estatuto de Jerusalém.

A versão da entrevista publicada na Renasença pode ser lida aqui.

Pode-se apresentar e indicar um pouco do seu percurso?
O meu nome é Natan Peres, tenho 44 anos.

Nasci no Brasil, no Rio de Janeiro, mas saí do Brasil ainda jovem e estive muitos anos em Nova Iorque, onde estudei em academias rabínicas. Depois continuei com os meus estudos em Jerusalém, voltando depois aos Estados Unidos. Estive agora algum tempo no Reino Unido, uns cinco anos, depois dois anos em Amesterdão, onde tive o privilégio de oficiar na Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, e agora estou cá em Lisboa. O percurso trouxe-me de volta às origens do Judaísmo português.

A sua ascendência é sefardita, originalmente de Portugal?
Exactamente.

Faz ideia há quanto tempo é que a sua família foi para o Brasil?
Não fomos directos ao Brasil, foi recente, nos anos 30. E temos raízes até muito fortes aqui em Portugal, pela parte da minha família de ascendência portuguesa. 

Eram de onde?
Eramos de Seia, de Vila Verde.

Conheci há uns anos um judeu de origem sefardita, que me dizia que a família mantinha a chave da casa de onde tinha sido expulsa. Manteve-se muito essa herança, essa ligação a Portugal, nas tradições das famílias que saíram de cá...
Sem dúvida. Não só as famílias que saíram mais recentemente, mas as comunidades que saíram de Portugal há 400 anos ou mais, também continuaram com estas tradições e com este legado, esta tradição à volta de Portugal. Na Sinagoga de Amesterdão, até hoje, certos anúncios em relação aos serviços são feitos em português.

Português mesmo, ou ladino?
Não! Português mesmo.

É interessante que a herança sefardita dos que foram expulsos de Espanha e de Portugal naquele tempo, tem a conexão mais forte com o ladino, mas as comunidades da diáspora portuguesa, como em Amesterdão, Londres, Nova Iorque e no Caribe, eram mais conectadas com Portugal e com o português. Então em Amesterdão, até hoje, fazem-se esses anúncios em português. Obviamente é um português que foi transmitido ao longo dos anos e hoje em dia tem uma pronuncia não tão portuguesa assim, uma influência holandesa, mas acho isto muito interessante.

É interessante haver essa ligação. Obviamente os contextos são diferentes, mas é uma coisa que também vemos entre judeus asquenaze da Europa de Leste que fugiram mais no contexto da Shoah para os EUA? Também mantêm a ligação às suas terras europeias? Ou isto é uma coisa particular dos judeus que estiveram em Portugal?
Acho que acontece com eles também, mas os judeus sefarditas portugueses têm uma conexão mais forte com o legado português. Acho que o judaísmo ao longo dos anos, foi sempre influenciado pelo meio social onde se criou. O judaísmo português contribuiu tanto para o judaísmo global ao longo dos anos, em relação aos rabinos, em relação à filosofia, e tudo o mais, que acho que isto cria uma conexão ainda mais forte do que noutros países, como por exemplo a Polónia.

Quando é que decidiu que queria ser rabino? Foi ainda nos EUA?
Foi ainda no Brasil. Eu estudei numa yeshiva...

Então saiu do Brasil com que idade?
Adolescente.

Estudei lá alguns anos, mas ao mesmo tempo que estudava no sistema secular. Continuei a carreira focada em estudos religiosos nos Estados Unidos, depois estive em Jerusalém numa yeshiva muito famosa, chamada Shevat Mir, que segue as tradições de estudo da Lituânia, e era uma academia importante antes da Shoah, estudei lá uns três anos, três anos e meio, e depois continuei. Mas ao lado da minha carreira religiosa também segui uma carreira profissional, o que também é um legado do judaísmo sefardita, os rabinos e os líderes comunitários sefarditas sempre acumularam os dois.

Disse que estudou numa academia de tradição lituana, e por isso imagino que asquenaze, e não sefardita. Tem então formação nos dois ramos...
Sim, sem dúvida. Falo fluentemente o iídiche e tenho formação dos dois lados.

Até porque em Nova Iorque a comunidade com mais peso não é sefardita...
Exacto.

Foi fácil manter a ligação às tradições sefarditas crescendo nesse ambiente?
É interessante a pergunta. Eu sempre tive aquele pragmatismo, a realidade à nossa volta é o que é e sempre fui uma pessoa que se integrou naquele meio, mas no fundo sempre tive este sentido de voltar a contribuir para o judaísmo português e foi isso que ao longo dos anos me guiou e continuei ligado ao rabinato com a ideia de um dia voltar a contribuir para o judaísmo português. 

É interessante porque em relação a Nova Iorque, hoje em dia associamos a uma sociedade de maioria asquenaze, mas a primeira sinagoga de Nova Iorque foi fundada por judeus portugueses, vindos do Brasil para o que na altura era Nova Amesterdão. 

Então e porquê Portugal? Surgiu um convite, imagino, mas porque é que vem cá parar?
Como disse eu tive uma carreira profissional paralela com o judaísmo...

Qual é, já agora?
Tem a ver com TI, “big data”, analítica, etc.

Mas aquele chamamento que referi antes, de contribuir para o judaísmo português começou uns 10 anos atrás, quando eu contactei um pouco mais com as comunidades portuguesas, quando morava em Nova Iorque e depois em Londres e aí envolvi-me mais com o rabinato, indo a Amesterdão, para contribuir de uma forma mais forte com o rabinato de Amesterdão, e aí surgiu a ideia de fazer um projecto maior em relação ao judaísmo português e acho muito interessante o que está a acontecer em Portugal em geral, não só em relação ao judaísmo, mas em relação ao que acontece no turismo e em tudo o mais, o que cria oportunidades para o judaísmo português criar projectos mais ambiciosos, e então foi isso que me entusiasmou para essa oportunidade, temos uma ligação através de um judeu português nova-iorquino e fizemos esta ligação e as coisas acabaram acontecendo.

Teve algum contacto com o anterior rabino Eliezer di Martinno?
Sim, estive cá em Portugal para visitar há alguns anos atrás e conheci-o.

Ele deu-lhe alguns conselhos?
Sim, deu. Muitos dão conselhos. Nas comunidades judaicas todos têm conselhos para dar, mas os conselhos do rabino Eliezer são especiais, obviamente.

Quais são as prioridades, perspectivas e a realidade actual da comunidade em Lisboa?
Acho que a comunidade em Lisboa tem um legado muito importante, tem uma história muito rica, tem tradições, mas o que aconteceu ao longo dos últimos 20 anos, não só em relação a Portugal, mas em geral, com a globalização e a internet, a ligação às outras comunidades, ao Estado de Israel e tudo o mais… Acho que o judaísmo hoje – como as outras religiões – está a tentar usar as redes sociais e outras coisas para conectar com a realidade global do judaísmo hoje em dia. 

Então acho que temos muito para criar em relação a infraestrutura judaica, em relação à disponibilidade de alimentos kasher, para a dieta judaica, o ensino e a educação judaica, temos de criar algumas estruturas. A ideia é criar uma estrutura judaica mais forte em Lisboa, recolocar o judaísmo português no mapa do judaísmo mundial.

Não é fácil ser judeu em Portugal... Se quiser ir jantar ou almoçar fora, tem escolhas muito limitadas, imagino...
Exacto. Claro que o nível de conexão dos judeus ao judaísmo varia muito entre as pessoas, e a nossa comunidade não é diferente. Mas as pessoas que vivem de acordo com os princípios judaicos e aqueles que vêm visitar e se interessam por poder vir viver para Portugal, eles sim querem saber desse tipo de coisas. Temos muito trabalho a fazer em relação a isso. 

Existem muitas oportunidades que nos vão ajudar a criar esta infraestrutura de que tanto precisamos.

Sabemos que há muitos estrangeiros a vir viver para Portugal. Isso tem tido reflexos já na comunidade em Lisboa?
Sim, muito grande! Em relação ao turismo, obviamente, segundo os últimos números que vi, recebemos cerca de cinco mil turistas o ano passado na comunidade de Lisboa. 

São turistas judeus que vão aos serviços, ou apenas pessoas interessadas em visitar a sinagoga?
Inclui também pessoas que vêm só visitar a sinagoga, mas é um turismo judaico, muitos desses vêm e participam nos serviços na sinagoga. Inclui pessoas que vêm do Brasil, de França e outros países, então quase todos os dias recebemos emails de pessoas à procura de hotel, ou de comida kasher. Isso acordou a nossa comunidade em relação à oportunidade para podermos usar isso como maneira para criar infraestrutura, também, e que sirva a nós e para esta oportunidade que está a acontecer agora.

Há três principais polos da comunidade judaica em Portugal, Lisboa, Porto e Belmonte. Como estão as relações entre as três?
A nível de comunidades, não é bem o meu departamento, seria de perguntar ao Presidente da comunidade. Mas a nível de rabinato, eu estive em contacto directo agora com o rabino do Porto, estou em contacto com ele quase diariamente. É uma coisa que queremos realmente fortalecer. A comunidade do Porto aprendeu até mais cedo em relação às oportunidaes que esta dinâmica pode gerar e criaram uma infraestrutura que até é um bom início para Portugal, e estamos a colaborar. 

Como as comunidades não são assim tão grandes, temos de nos unir para criar esta realidade nova que tanto queremos.

Tem-se falado muito nos últimos anos de uma lei nova que permite atribuir cidadania portuguesa a judeus sefarditas que possam comprovar a sua ascendência portuguesa. Essa lei tem tido já reflexos na prática? Há números? Aplica-se a si, por exemplo?
No meu caso eu já tenho na família, sem ter tido que aproveitar esta lei. 

Em relação a números, não os tenho, mas vejo que existe e está-se a gerar este interesse. Acho interessante e é isso que quero fazer, temos de usar esta lei como oportunidade para criar esta comunidade em Portugal. Mas tudo isto gera um interesse ainda maior e atrai turistas com o interesse de eventualmente virem a viver em Portugal, o que tem ajudado também.

Saindo agora da realidade exclusivamente portuguesa, olhando mais para o mundo e para a Europa, há casos no norte e no centro da Europa que parecem ser preocupantes ao nível da liberdade religiosa. Estou a falar de tentativas de proibir ou limitar o abate ritual de animais e a circuncisão, o que afecta tanto comunidades judaicas como muçulmanas. Tem acompanhado estes debates? Qual a sua opinião sobre esta tendência?
Temos acompanhado isso, mas antes de falar sobre o que está a acontecer lá, acho importante começar por colocar ênfase no que está a acontecer de positivo em Portugal, e nós congratulamo-nos muito pelo facto de não ter que lidar com este tipo de realidade em Portugal, o antissemitismo cá não é uma coisa que se sinta e isso é uma coisa muito importante que tem de ser dita.

Em relação ao que acontece lá, acho que sim, assistimos a isso, mas ao mesmo tempo não existe só o ângulo judaico e religioso, o que está a acontecer no mundo todo e na Europa também, em relação a mudanças, desde extrema-direita ou radicalismo de todos os lados, isso tem uma influência indirecta no que está a acontecer lá. Isto é uma coisa que nós, não só judeus, mas todos, portugueses e cidadãos da Europa, temos de acompanhar e perceber o que está a criar isso, para ver se não evolui de uma maneira negativa. 

Sendo, na sua opinião, um desenvolvimento negativo, tem apresentado também oportunidades que - dado o contexto internacional actual - podem ser positivas, de união entre as comunidades judaicas e muçulmanas, sabendo também que a Igreja Católica nesses países tem apoiado os judeus e muçulmanos nas suas reivindicações…
Exacto. Isso é muito interessante. As circunstâncias e os desafios em relação à religião em geral podem nos unir e perceber o que temos em comum e não as diferenças.

Vemos de facto isso a acontecer na Holanda, na Bélgica e noutros países, onde estamos a colaborar e esse diálogo é também muito importante, porque começa em relação a assuntos de interesse mútuo, mas que começam a criar uma realidade de maior comunicação entre as religiões, o que me parece muito positivo.

Em Portugal as relações entre diferentes confissões religiosas sempre foram, segundo sei, exemplares. Isso mantém-se?
Sim! A Comunidade Israelita de Lisboa tem relações muito positivas com a comunidade Islâmica. Eu cheguei recentemente e então ainda não tive oportunidade de participar, mas o nosso interesse é de manter este legado de relações positivas.

Embora não sejam a mesma realidade, é impossível separar o que se passa em Israel das comunidades em cada país. Recentemente houve novamente um foco de conflito sobre Jerusalém ser a capital de Israel... Isso acaba por afectar os judeus em todo o mundo. Qual é a sua opinião sobre esse debate?
A questão de Jerusalém, fora do ponto de vista político e do que isso significa para o conflito ou a realidade do Médio Oriente... Para nós, povo judeu, Jerusalém é a nossa capital religiosa, a cidade que significa tudo para o judaísmo e para a nossa história.

Existe essa realidade, mas depois existe a realidade geopolítica e o que acontece no Médio Oriente não me cabe a mim, enquanto rabino na diáspora, comentar. No fim de contas o mais importante é pôr de parte o ângulo político e reconhecer a conexão do povo judeu com a cidade de Jerusalém. Estas questões políticas de vez em quando influenciam-nos a questionar coisas que não são questionáveis, em relação à nossa conexão com Jerusalém, é uma coisa que não se deve questionar. Agora, ser ou não ser a capital de um Estado judeu, é um departamento diferente. Sem misturar as coisas, o importante é reconhecer a nossa relação com a cidade de Jerusalém. Mas cabe aos órgãos políticos resolver a questão do estatuto de Jerusalém.

Em quase todos os países onde estiveram os judeus acabaram por se ver na condição de refugiados. Nessa perspectiva, o que têm a dizer sobre a actual crise de refugiados na Europa?
O povo judeu encontrou-se várias vezes, ao longo da história, numa posição de refugiados. Se há algum povo que pode compreender a situação dos refugiados e o quão difícil isso é, somos nós. 

Acho que também, em ligação com o que falámos antes, o que está a acontecer na Europa em geral, e as mudanças geopolíticas, estas coisas têm de ser lidadas de forma a não influenciar negativamente a situação geopolítica em geral. Mas em relação a ajudar o próximo, ajudar os refugiados, é nosso dever fazê-lo, obviamente de uma maneira que não crie outros problemas. A Europa ainda está a aprender a lidar com este influxo, uma realidade nova, em relação ao número de pessoas, mas como em tudo, acho que estamos na direcção certa e temos de aprender como foram as coisas nos últimos anos e contribuir de uma forma mais positiva.

As relações entre o judaísmo e a Igreja Católica têm mudado muito nas últimas décadas, desde o concílio Vaticano II, no seu entender como caracteriza essas relações hoje em dia no geral e em Portugal.
Pessoalmente não tive muito convívio com estas relações em Portugal, ainda, mas obviamente acho que está acontecer que a Igreja Católica, até com o Papa Francisco, é uma pessoa que está a utilizar e a perceber a nova realidade do mundo e a usar isso de uma maneira a ajudar e a facilitar a reconexão com a religião. 

Acho que isso é uma coisa muito positiva e que é o que todas as religiões, e nós também, no judaísmo, estamos a tentar perceber, como garantir a continuidade judaica para as nossas próximas gerações e como envolver as pessoas. E acho que temos muito para contribuir uns para os outros.

Em relação a relações específicas, no nosso contexto de comunidade, sempre foi positivo e gostaríamos de continuar a trabalhar junto com a Igreja Católica em Portugal. Temos muito mais que nos une do que diferenças e temos de nos focar nisso e nos aspectos positivos do futuro.

É casado?
Sim.

E tem filhos?
Sim.

Quando o rabino di Martino saiu fiz-lhe uma entrevista de "fim de carreira" em Portugal e o que ele disse foi que ele queria ir para um sítio onde fosse mais fácil as suas filhas terem uma vida social mais judaica. Isso é algo que o preocupa?
Sim... De certa maneira sim...

Mas nós temos filhos mais velhos, que vivem nos Estados Unidos, porque ainda temos uma casa lá. Mas o mais novo, que vive connosco, tem uma distância muito grande dos outros. Então o problema é apenas com um, e não são tantos. 

Mas eu acho que há um aspecto positivo, para mim é um desafio. Vir cá a Portugal para que daqui a cinco anos a realidade judaica seja a mesma que de hoje em dia, não é o que vim cá fazer. Eu tenho também interesse em criar um projecto que mude esta realidade, porque eu tenho também um filho cá. 

Trazendo o meu filho para cá dá-me ainda mais um sentido da responsabilidade de criar um projecto que vai dar frutos e, eventualmente, criar uma educação judaica em Portugal, uma comunidade maior. Se Deus quiser vamos criar isto.

Wednesday, 8 November 2017

A Alegria (e o Custo) do Evangelho

Pe. Robert P. Imbelli
Até recentemente nunca tinha ouvido falar em Nabeel Qureshi. Mas por mero acaso (providência), vi há dias uma referência a ele. Infelizmente, tratava-se de uma notícia sobre a sua morte, com apenas 34 anos.

Na notícia soube que ele foi autor de vários livros. O título de um deles marcou-me de forma particular: Procurando Allah, Encontrando Jesus: Um muçulmano devoto encontra-se com o Cristianismo.

Intrigado pelo título e pelo breve resumo da sua vida na notícia, adquiri o livro. Li-o ao longo de algumas noites, completamente apanhado. É um relato assinalável: contado com honestidade, clareza e um desejo apaixonante pela verdade.

Conta a história de um jovem, educado desde novo como um muçulmano devoto, que através de um encontro com um colega universitário (cristão devoto) começa a questionar os fundamentos da sua identidade pessoal e religiosa.

O que torna o relato tão cativante é a determinação da caminhada espiritual e intelectual de Nabeel Qureshi. Examina cuidadosamente e sem medos as provas da veracidade do Novo Testamento e depois do Alcorão. O estudo adensa-se ao longo dos anos da sua formação, incluindo a faculdade de medicina, enquanto vai debatendo com paixão e vigor com o seu amigo, cedendo apenas quando conclui que as provas são convincentes.

Mas esse estudo está longe de ser apenas um exercício académico, pois o resultado marcá-lo-á de forma mais que pessoal. Qualquer pessoa criada na tradição e na cultura islâmica sabe que a conversão ao Cristo acarreta profundas consequências ao nível da família e da comunidade. O próprio lamentou que “reconhecer Cristo significava destruir a minha família. Poderia ele estar verdadeiramente a pedir-me tal coisa?”

A relação de Nabeel com os seus pais, o seu Abba e a sua Ammi, era extraordinariamente próxima e carinhosa. A forma como descreve o custo que a sua decisão teve para eles é de partir o coração. Desde o dia em que souberam da sua conversão a Cristo o seu pai, um oficial da marinha, “nunca mais caminhou altivo. Eu extingui o seu orgulho”. A sua mãe, ao ouvir a notícia, desmaiou e foi hospitalizada. “Sobreviveu, mas os seus olhos nunca recuperaram o seu fulgor. Extingui a sua luz”.

O que levou este filho amado e muçulmano devoto a pôr em causa os afectos parentais e a desbaratar uma identidade segura e respeitada? A mera pergunta remete para a resposta apaixonada de Paulo aos Filipenses: “Considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo”. (Fil 3,8)

A conversão é um assunto tão íntimo e complexo que cada percurso manifesta cores e contornos distintos. Eis como Nabeel descreve a realização a que chegou: Ser cristão significa sofrer realmente por Deus. Não como um muçulmano sofreria por Deus, porque Allah assim o comanda, por decreto, mas com a expressão sincera de uma criança agradecida cujo Deus sofreu por ela em primeiro lugar.

Numa altura em que se procura reduzir Jesus a um mero profeta de Israel, o testemunho deste convertido ao Cristianismo ressoa:

Nabeel Qureshi
A boa notícia é que Deus nos ama o suficiente para entrar no mundo e sofrer por nós; que apesar da incapacidade da humanidade de salvar-se a si mesma, Deus salvou-nos. Essa é a beleza do Evangelho: Tem tudo a ver com Deus e com o que Ele fez por causa do seu amor por nós. Um Evangelho sem a divindade de Cristo é um evangelho eviscerado.

Mas o testemunho desafiador de Nabeel não se fica até por esta confissão firme. Pois embora convencido na mente e no coração da verdade do Evangelho, continuava a tremer perante o custo e o sofrimento que previa. Foi tomado pela agonia da autocomiseração e autorrecriminação, diz-nos. Mas subitamente, como que por uma revelação luminosa, todo o seu ser foi inundado por uma nova segurança. Resume-a desta forma: “Isto não é sobre mim. É sobre Ele e o seu amor pelos seus filhos”.

Esta convicção levou-o a comprometer-se com a missão, para poder partilhar livremente o Evangelho libertador que livremente recebeu. Se as conhecesse, certamente teria ecoado as palavras do Papa Francisco em “A Alegria do Evangelho”. “A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria?”

Nabeel levou a cabo o seu trabalho evangélico durante 12 anos intensos. Estudando, falando, escrevendo e aconselhando. Há muitos vídeos dele na internet onde se pode apreciar o seu fervor, a sua visão e o seu humor. Depois, subitamente, o ministério deste jovem, vigoroso e atraente discípulo foi tomado de assalto por um cancro.

Mesmo internado continuou a partilhar a sua fé – até da cama do hospital. Um curto vídeo gravado a pouco tempo da sua morte avisa contra qualquer abuso dos seus ensinamentos. Apesar de sublinhar a importância de aprofundar a verdade, insiste que isso deve ser sempre feito “tendo por base o amor e a paz”. Pois o propósito não devia ser “ferirem-se uns aos outros, mas ajudarem-se uns aos outros”. Reza fervorosamente que o seu ministério deixe “um legado de amor, de paz, de verdade. De cuidarmos uns dos outros”.

É de lamentar que um discípulo com tamanho espírito nos tenha sido subtraído com apenas trinta e quatro anos. Mas as sementes que plantou hão de dar fruto. O seu testemunho corajoso inspirará outros. Deixou-nos jovem, mas já maduro em Cristo.


Robert Imbelli, é sacerdote na Arquidiocese de Nova Iorque e professor associado emérito de Teologia na Boston College. É autor de Rekindling the Christic Imagination:Theological Meditations for the New Evangelization.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

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