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Wednesday, 6 December 2023

Esperança numa nova geração de padres

No passado mês de Outubro o The Catholic Project, que eu dirijo na Universidade Católica da América, publicou os primeiros resultados da maior sondagem sobre padres católicos americanos em mais de 50 anos, o Estudo Nacional de Padres Católicos (ENPC). O primeiro relatório olhava para várias questões, incluindo se os padres estão ou não a ser bem-sucedidos (estão) e como é que a crise dos abusos, e a resposta da Igreja a essa crise, têm afectado os níveis de confiança entre padres e bispos (tem, sim, de forma negativa).

Em Novembro a nossa equipa publicou um segundo relatório, demonstrando algumas perspectivas adicionais da ENPC, olhando mais de perto para a polarização intergeracional entre o presbiterado.

Os padres mais velhos tendem a descrever-se mais como teologicamente “progressistas” e politicamente “liberais” enquanto os mais novos tendem a descrever-se como sendo teologicamente “ortodoxos” e politicamente “conservadores”.

O resultado em si não é especialmente surpreendente. Temos visto sinais a apontar nesta direcção há décadas, e estudos recentes sobre padres americanos têm demonstrado uma tendência conservadora semelhante entre jovens padres. É de notar que recentemente tanto o Papa Francisco como o Cardeal Christophe Pierre indicaram que Roma está inquieta com aquilo que considera ser uma tendência conservadora entre o clero americano mais novo.

Resumindo, o nosso estudo demonstra com provas concretas aquilo que já todos sabiam: os padres jovens americanos tendem a ser mais conservadores que os seus pares mais velhos. Mas há mais. Parece que a narrativa de que o presbiterado americano está a ser tomado de assalto por jovens conservadores não é tão simples como possa parecer à primeira vista.

Em primeiro lugar, mais do que um dilúvio triunfante de vocações conservadoras, o que os nossos dados demonstram é um colapso quase total de vocações sacerdotais entre homens que se consideram teologicamente progressistas ou politicamente liberais. Mais, esse colapso não é repentino ou recente, mas parece ser constante e contínuo, radicando nas coortes que foram ordenadas logo a seguir ao Concílio Vaticano II. Se eu fosse bispo, ou director vocacional, quereria muito poder compreender melhor este colapso.

Uma possível explicação pode ser encontrada numa homilia feita pelo já falecido Cardeal Francis George. Um quarto de século mais tarde, as suas palavras mantêm uma relevância surpreendente:

O Catolicismo Liberal é um projecto cansado. Essencialmente uma crítica, uma crítica até necessária em dada altura da nossa história, tornou-se agora parasítica de uma substância que já não existe. Revelou-se incapaz de passar a fé na sua integridade, e por isso desadequada para fomentar a entrega alegre que é pedida no casamento cristão, na vida consagrada e no sacerdócio ordenado. Já não vivifica.

Note-se que o Cardeal George disse “cansado” e não “morto”. Justamente, pode-se dizer que os anos recentes demonstraram que as notícias da morte do catolicismo liberal têm sido muito exageradas. Não obstante, se o cansaço do catolicismo liberal explica, pelo menos em parte, a quebra de vocações de certas alas na Igreja, o aviso que o Cardeal George faz sobre certo tipo de “Catolicismo conservador” é igualmente pertinente. “A resposta, porém, não se encontra num tupo de catolicismo conservador obcecado com práticas particulares e tão sectária na sua mundivisão que não pode servir de sinal de unidade para todos os povos em Cristo”.

Jesuítas americanos ordenados em 2023

Aqui, o nosso estudo revela um desvio significativo (e, penso eu, encorajador) da narrativa comum do colapso liberal e avanço conservador entre o clero. Enquanto que os padres mais novos têm muito mais tendência para se verem como politicamente conservadores do que os seus pares mais velhos, a coorte mais nova de padres americanos é também a que tem mais probabilidade de se descrever como politicamente moderada. Se a política fosse uma força motriz significativa por detrás das vocações sacerdotais “conservadoras”, então esperar-se-ia que os dados fossem bastante diferentes.

Junte-se a isto o facto de a coorte mais nova de padres ser também a mais diversa, étnica e racialmente, de todas as que sondámos e aquilo que emerge é um retrato de jovens padres americanos que contradiz muitos estereótipos persistentes. Os jovens padres americanos são mais teologicamente ortodoxos, politicamente moderados e etnicamente diversos do que qualquer coorte de padres desde antes do Concílio Vaticano II.

Se estivéssemos à procura de padres que pudessem evitar o “cansaço do catolicismo liberal” e ao mesmo tempo evitar formas de conservadorismo “obsessivo” e “sectário” – se estivéssemos com esperança de encontrar padres que fossem “sinal de unidade de todos os povos em Cristo” – então provavelmente procuraríamos uma geração de padres que, pelo menos no papel, fosse muito semelhante à geração de padres mais novos que temos hoje nos Estados Unidos.

Mas o sacerdócio, como todas as vocações, não se desenrola no papel. Tem de ser vivido por entre todas as armadilhas do mundo. Contudo, o Cardeal George também tinha algo a dizer sobre isso na sua homilia:

A resposta é, simplesmente, o Catolicismo, em toda a sua plenitude e profundidade, uma fé capaz de se distinguir de qualquer cultura e de se envolver com todas, transformando-as, uma fé alegre em todos os dons que Cristo nos quer dar e aberta a todo o mundo que ele morreu para salvar. A fé católica molda uma Igreja com muito espaço para diferentes abordagens pastorais, para discussão e debate, para iniciativas tão variadas como os povos que Deus ama. Mas, mais profundamente, uma Igreja capaz de distinguir entre aquilo que encaixa na tradição que a une a Cristo e o que é uma falsa partida ou uma tese distorcida, uma Igreja unida aqui e agora, porque é sempre una com a Igreja pelos séculos e com os santos no Céu.

O Cardeal Francis George viu claramente o que significa ser fiel, mas também unido em tempos de conflito e divisão. Os nossos jovens padres – bem como o resto de nós todos – devem ter em conta a sabedoria das suas palavras.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Novembro de 2023)

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Thursday, 20 July 2023

Polarização na Igreja: Serei parte do problema?

A semana passada escrevi um texto em que referi o problema da polarização na Igreja. Era sobre a frase polémica de D. Américo Aguiar, e concluí com o seguinte parágrafo.

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

O problema é que no seguimento da publicação deste artigo recebi vários comentários a sugerir que eu próprio estava a contribuir para a polarização, atribuindo a culpa da polémica aos conservadores e tradicionalistas.

Estou habituado a receber críticas pelo meu trabalho e opiniões, e acho que lido bastante bem com isso. Às vezes respondo, outras vezes ignoro – sobretudo quando os autores são anónimos – e frequentemente aprendo com elas. Mas desta vez fui apanhado de surpresa porque as críticas vieram de vários campos diferentes, desde tradicionalistas revoltados, a pessoas moderadas e até de amigos próximos cuja opinião estimo e respeito muito.

Transcrevo alguns, para terem uma ideia:

De uma grande amiga: Olá Filipe! Não pondo em questão a intenção da tua tentativa, para dares a tua opinião não me parece que seja preciso dares sempre “encostos” “aos mais conservadores”! Na verdade, nem consigo perceber a quem metes este selo, nem o que este selo significa.

De um “amigo” do Facebook, que não conheço pessoalmente mas que se dirige a mim sempre com bom-senso e cordialidade: Tomo também a liberdade de fazer um comentário ao teu comentário. Concretamente, escreveste que “Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas.”

Tal como tu, sou Católico. E certamente, tal como tu, não olho para a Igreja como para um parlamento ou um partido político. Por isso, se me permites a franqueza, creio que não ajuda a ninguém (exceptuando aos inimigos de Cristo) que se fale em “alas” dentro da Igreja. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece, p. ex.º, que o VI e o IX mandamentos deveriam ser abolidos ou reformados. Serão progressistas? Não creio. Hereges? Talvez também não. Certamente, tal como eu, precisam sim é de conversão. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece que a Missa deveria ser sempre celebrada no Rito Tridentino. São conservadores? Liturgicamente, talvez. Mas talvez também precisem, como eu de conversão.

A Igreja, independentemente da “polaridade” de opiniões dos seus membros sobre temas opináveis (já que, de um modo geral, o que é dogma não é, ou não deveria ser, matéria de discussão), é uma família. E aos filhos de um mesmo Pai penso que não se justifica dividi-los entre conservadores e progressistas. Se alguém o fizer, que seja quem não é Católico ou não entende a Igreja.

E incontáveis comentários irónicos no Facebook ao estilo de: Claro que a culpa aqui também tinha de ser dos tradicionalistas

Eu poderia aqui adoptar uma postura defensiva e dizer que o meu comentário sobre conservadores e tradicionalistas não era uma atribuição de culpa, mas apenas a constatação de um facto, que foi nesses meios e ambientes que a frase – e a pior interpretação possível da mesma – se tornou viral. Agora, a culpa da polémica, a existir, é de quem profere uma frase que depois tem de ser explicada, sobretudo quando a pessoa em causa é conhecida por ser boa comunicadora.

Mas o facto de terem sido estas as reacções ao que eu escrevi leva-me a pensar que desta vez não me posso safar à defensiva. Tenho de pensar se de facto não ando a contribuir para esta polarização que tanto lamento, e tenho de perceber que este último “incidente” não aconteceu apenas por causa de um texto meu, mas provavelmente porque já fiz o mesmo noutras alturas.

Por mais que eu compreenda a posição do meu amigo do Facebook, a verdade é que existem tendências e alas na Igreja e não me parece ser necessário fingir o contrário. Onde concordo com ele é no facto de sermos todos filhos do mesmo Pai, todos membros da mesma Igreja, e por isso não podemos nem devemos apontar o dedo aos que se encontram noutro grupo e dizer que nós somos filhos e eles enteados.

Nem é necessário que a existência de alas seja uma coisa má, na medida em que cada uma pode contribuir com os seus dons e capacidades, e na medida em que a sua coexistência seja marcada pela caridade e pela compreensão. Haverá sempre extremos que não se suportam facilmente, mas também na família isso acontece.

A questão central para mim está na relação com o sucessor de Pedro, que deve ser o centro e garante da nossa catolicidade. E é nesse sentido que eu reajo contra os ataques ao Papa e aos bispos vistos como próximos dele neste pontificado, da mesma forma como reagia contra os ataques a Bento XVI ou a João Paulo II. A questão é que nessa altura eu não tinha o “palco” que tenho hoje, e por isso poucos davam por isso.

Não se põe aqui a questão de defender sempre tudo o que o Papa diz e faz, mas sim de dar sempre o benefício da dúvida e agir com ele sempre dentro do respeito, da caridade cristã e da filial obediência. E a verdade é que fico chocado com alguns dos ataques que vejo ao Papa e à Igreja actualmente, vindos de pessoas que noutros pontificados defendiam acerrimamente o Sumo Pontífice.

Dito tudo isto, se me pedissem para me definir a mim mesmo, diria que sou um conservador em vários sentidos da palavra, embora tente manter uma mente e um coração aberto, esperando poder discernir entre o trigo e o joio, mas confiando acima de tudo que o Espírito Santo ajuda quem de direito a fazer essa discriminação para bem da Igreja e do Reino de Deus.

O que nos traz de volta à questão inicial. Com os meus sucessivos “encostos” aos conservadores e tradicionalistas, sobretudo quando sinto que eles estão a atacar o Papa directa ou indirectamente, estou a contribuir para o bem da Igreja e para o Reino de Deus? A julgar pelas reacções ao meu post sobre o D. Américo, estou a falhar. Peço por isso desculpa, a todos, mas especialmente aos que se sentiram visados.

Como disse nesse post, o combate contra a polarização começa em casa, com cada um de nós. Também eu vou tentar melhorar nesse aspecto.

Wednesday, 15 December 2021

Desconstruindo os Desconstrutores

Randall Smith
Um dos conceitos que se tornou importante nas teorias críticas da raça, feminismo de terceira vaga, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, pós-modernismo e provavelmente uma série de outros “ismos” (que eu não sou suficientemente sofisticado para conhecer) é a noção de que devemos “desconstruir” oposições “binárias” que têm sido usados para perpetuar e legitimar estruturas de poder social que favorecem um grupo acima de outro. Binários desiguais que são frequentemente sujeitos a esta “desconstrução” incluem masculino/feminino; homem/mulher; pessoas brancas/pessoas de cor; razão/emoção e heterossexual/homossexual.

O problema, dizem, é que o primeiro elemento do par é considerado o “bom”, o “forte”, o “superior”, enquanto o segundo é o “mau”, o “fraco” ou o “inferior”. Por isso o que temos de fazer, dizem, é acabar com as oposições binárias para que o segundo grupo deixe de ser menosprezado ou oprimido neste “jogo” linguístico.

Para ser franco, não estou inteiramente convencido de que estes binários supracitados são assim tão nefastos como se diz. Pessoalmente, sempre pensei no binário homem/mulher como complementar, não como “melhor” ou “pior”. E como temos visto recentemente, a desconstrução desse binário em particular nem sempre foi para o benefício das mulheres, sobretudo no campo do desporto.

Seja como for, neste mesmo espírito de desconstrução, gostaria de propor uma série de outras oposições binárias que são regularmente usadas na sociedade contemporânea, frequentemente para menosprezar ou oprimir uma classe de pessoas. Tomemos como exemplo:

Ciência/Teologia

Razão/Fé

Progresso/Tradição

Progressista/Conservador

Modernidade/Antiguidade

Espiritual/Doutrinal

Moderno/Tradicional

Em cada caso, a oposição binária serve para menosprezar e oprimir. As pessoas dizem “Segue a ciência”. Ninguém diz “Segue a teologia”. Porquê? Porque se parte do princípio de que a categoria alargada e indefinida de “ciência” é factual, certa e indubitavelmente boa, apesar de, de tempos a tempos, repudiar todas as suas teorias mais populares. A “ciência” é associada à razão, ao progresso, às bênçãos da modernidade, enquanto a “teologia”, seja de que género for, seja por quem for, é tida como sendo mais do que um pouco duvidosa, associada a superstições antigas e dogmas fora de moda, do género que manteve os nossos antepassados na escuridão durante a “Idade das Trevas”, esse maldito tempo antes da luz pura da razão que surgiu durante o Renascimento e o Iluminismo.

Ouvimos as pessoas a dizer “temos a razão do nosso lado”. Se têm, ou não, não é bem claro. Muitas pessoas falam sobre “razão” ou “razão pura” mas não têm a menor idade do que a razão, em toda a sua complexidade e múltiplas formas de abordar a realidade, é verdadeiramente.


Por isso aquilo que as pessoas normalmente querem dizer com essa expressão é “eu tenho razão e tu não, porque não pensas como eu”.

A questão que estas pessoas estão a evitar é na verdade a mais importante de todas: “O que significa pensar? Como é que pensamos claramente sobre diversos assuntos? Faria sentido – seria razoável? – pensar sobre a pessoa com quem devo casar da mesma forma como penso sobre a razão pela qual o cobre conduz a eletricidade, ou se devo investir numa empresa e não noutra?

Ou será que existem diferentes formas de pensar, apropriadas a diferentes áreas da vida e diferentes questões? Se um treinador, ou um professor, disser a um colega céptico “eu acredito neste miúdo”, será que a resposta certa é “tens a tua fé, mas eu estou a usar a razão. Expulsa-o.”?

Quem quer ser “conservador” em oposição a “progressista”? Quem não quer “progresso”? Mas o que é o verdadeiro progresso, se não mera mudança? Se o binário fosse alterado para “conservador versus radical” ou “conservador versus anarquista”, quantas pessoas não escolheriam “conservador”?

Os católicos sabem bem como este jogo se desenrola na Igreja, quando as pessoas opõem “doutrinal” e “espiritual” como se fosse possível ser “espiritual” sem ter os pés bem assentes na doutrina. As tradições espirituais e os ensinamentos sobre justiça social da Igreja Católica baseiam-se em doutrinas muito específicas sobre justiça social e o desenvolvimento da pessoa. Leiam as obras de grandes autores “espirituais” como os santos Boaventura ou Hildegard de Bingen e encontrarão textos muito sofisticados de doutrina cristã.

Não estou a dizer que não se possam fazer distinções entre e razão, ou entre ciências naturais e teologia ou, para ser franco, entre Estado e Igreja. Os maiores teólogos da Igreja, como Tomás de Aquino, usavam estes termos com um correcto entendimento de ambos. A questão está em saber se devemos começar a desafiar as pessoas a deixar de usar estes binários quando recorrem a eles para preservar o seu próprio domínio cultural sobre os católicos e outras pessoas de fé, isto é, os pacóvios que não tiveram o benefício de uma educação secular numa universidade prestigiada e sofisticada, mantendo-se colados ao passado, com as suas superstições tradicionais que os impedem de participar no verdadeiro progresso.

Dado este tipo de preconceito irreflectido, talvez seja altura de aplicar uma dose séria de “desconstrução” aos binários opressivos da própria modernidade.

Quando alguém profere a frase ignorante: “Tu tens a tua fé, eu tenho a razão”, talvez os católicos devam adoptar a linguagem dos desconstrucionistas: “Isso não passa de um binário opressivo, e eu rejeito-o”.

Quando alguém diz “eu sigo a ciência e não uma qualquer teologia supersticiosa”, devemos responder: “Em primeiro lugar não sabes do que falas, porque não sabes o que é que a ‘ciência’ (do latim scientia, ou ‘conhecimento’) é; em segundo lugar, não pareces ter qualquer noção das discussões clássicas sobre a relação entre a ‘ciência’ e a ‘sabedoria’ (sophia), que remontam à antiguidade. Por isso, acabaste de dizer algo que é o equivalente linguístico a ‘as tuas emoções são muito femininas’ e não só me ofendeste como te revelaste profundamente preconceituoso”.

Se funciona para os desconstrucionistas, devia resultar para os católicos. Algumas pessoas de um “grupo tradicionalmente marginalizado”, nomeadamente os católicos, precisam de acordar, aprender a defender-se e não se deixarem ser oprimidos na linguagem e na sociedade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Dezembro de 2021)

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Wednesday, 16 September 2020

O Estilo de Vida Liberal é Caro, muito Caro

Randall Smith

Muitas pessoas partem do princípio de que uma sociedade “progressista” na sua visão dos valores morais seria naturalmente “progressista” em termos económicos, que quem acredita na distribuição mais equitativa dos bens acreditaria também em padrões mais permissivos de comportamento.

Não nego que exista essa percepção, mas a realidade acaba muitas vezes por ser o contrário daquilo que os jovens progressistas pensam. Aqueles que gostariam de assegurar uma distribuição mais equitativa da riqueza na economia e um maior respeito pelo ambiente estão de facto a exigir uma autodisciplina considerável, do género que normalmente não exigimos a quem vive um estilo de vida de libertinagem.

Pensam que é descabido pedir a um homem para disciplinar os seus apetites sexuais, mas ao mesmo tempo esperam que ele abdique do seu apetite por dinheiro, estatuto social e poder?

É estranho dizer por um lado que “não é necessário ter a disciplina para ser fiel à sua mulher e filhos”, mas por outro insistir que alguém deva sentir-se responsável perante toda a humanidade no que diz respeito à reciclagem das embalagens de plástico. Se um homem não consegue disciplinar os seus apetites ao ponto de ser fiel aos seus próprios filhos e à mulher a quem jurou fidelidade até à morte, diante de Deus, então porque haveríamos de pensar que seria suficientemente disciplinado para ser fiel às gerações que virão depois da sua morte? Não nos deve surpreender, portanto, que à medida que as sociedades se tornam moralmente mais “progressistas” vão acumulando mais dívidas para serem pagas pelas gerações futuras.

A laxidão que os “progressistas” apoiam no campo da moral pessoal é apenas mais uma variante do individualismo autónomo que pretendem combater no campo económico. E cada vez que se enfraquecem os elos sociais da sociedade, sobretudo aqueles que são desenvolvidos dentro da realidade altruísta que é o casamento e a família, resulta numa diminuição do capital social necessário para assegurar que as pessoas continuem dispostas a partilhar abundantemente com os outros sem medo de ficarem indigentes.

Quando se fomenta maiores níveis de confiança social as pessoas ficam mais dispostas a partilhar. Quando temem que mesmo as suas relações mais próximas são baseadas em nada mais do que o prazer ou a realização do outro, esta vontade esvai-se e formam-se muros de proteção. Quando isto acontece, a única maneira de garantir mesmo as formas mínimas de colaboração passa a ser através da coação governamental. É mesmo isso que queremos?

Se não quer o Governo a intrometer-se na sua vida privada, surpreendo-o verdadeiramente que o vizinho do lado não queira o Governo a intrometer-se nas suas decisões empresariais privadas? Se quer usar o poder coercivo do Governo para obrigar os médicos a praticar abortos, então fica mesmo espantado ao saber que o seu senhorio quer usar os poderes coercivos do Governo para o despejar quando não paga a renda?

E da mesma forma, se insiste que o Governo não tem nada que lhe dizer quanto é que deve pagar aos seus trabalhadores mas ao mesmo tempo quer usar os poderes coercivos do Governo para favorecer o seu negócio, então porque é que se surpreende ao ver que os “progressistas” resistem à intrusão do Governo para umas coisas e encorajam-na para outras?

Numa cultura em que a liberdade significa sobretudo liberdade de constrangimentos, liberdade para fazer o que quero e não a liberdade para me dedicar ao bem dos outros, rapidamente se torna claro para os jovens que a liberdade que lhes está a ser “vendida” todos os dias pelas elites culturais – a liberdade de autocriação, a liberdade de criar uma identidade através dos bens de consumo, a liberdade de ir em busca do que é excitante e de viver como as celebridades nos anúncios – é cara, muito cara.

A vida “de artista” em Nova Iorque é cara. A mansão é cara e os colégios da moda são caros. Há estudos que revelam que mais de um quarto das pessoas que ganham mais de 100,000 dólares por ano dizem que “mal conseguem aguentar” e que não têm dinheiro suficiente para as suas necessidades mais básicas. A liberdade da autocriação autónoma é cara; o estilo de vida das celebridades também.


Los Angeles e Nova Iorque são viveiros de eleitores de causas socialistas, mas estão longe de ser exemplos morais de igualdade de rendimentos. As pessoas que vivem em casas e apartamentos caros e que gastam dinheiro em bares e discotecas, mas que depois exigem que o Governo faça “mais pelos pobres” têm muito pouca credibilidade.

Saia desse apartamento caro, vá viver para uma cidade modesta e um bairro simples, envie os seus filhos para as escolas públicas locais ou para uma modesta escola católica que serve de facto os pobres, e aí talvez tenha alguma credibilidade. Caso contrário é uma fraude. Não pode exigir aos outros que abdiquem das coisas reles de que gostam enquanto fica com as coisas sofisticadas que lhe dão prazer a si.

Os adeptos do estilo de vida liberal nunca conseguirão alcançar a justiça social se usarem a sua preocupação pela justiça social como os fariseus usavam os seus símbolos religiosos, como sinal da sua própria presunção. “Alargam os seus filactérios e aumentam as franjas dos seus mantos”; “tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens”; quando vão dar dinheiro aos pobres mandam tocar as trombetas para serem respeitados pelos outros.

Demasiados americanos, sejam autoproclamados “liberais” ou “conservadores”, acreditam que aquilo que torna a América grande é o facto de os indivíduos poderem escolher o seu próprio conceito de bem, desligado das exigências e das necessidades dos outros e alcançá-lo como um direito divorciado de qualquer obrigação aos outros ou ao bem comum.

Tanto os “conservadores laissez-faire” como os “progressistas” são chamados a compreender que a América apenas será “grande” quando fizermos nossas as orações os versos, demasiadas vezes ignorados, do “America the Beautiful”:

 

América! América!

Deus corrija cada uma das tuas falhas,

Confirme a tua alma na autodisciplina,

A tua liberdade na lei!

 

América! América!

Que Deus refine o teu ouro

Até que todo o sucesso seja nobreza

E todo o lucro divino!

 

América! América!

Que Deus te dê a sua graça

Até que o lucro egoísta deixe de manchar

O estandarte dos livres!

 

 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Setembro de 2020)

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