quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Casa de Deus

Brad Miner
Se fosse um judeu a viver em Colmar, uma belíssima vila na Alsácia, no nordeste de França, saberia que estava sempre sujeito a ser atacado ou assaltado. Seria um alvo fácil, pois vivia entre os seus correligionários apenas numa zona da vila – principalmente numa única rua, La Rue des Juifs – e por ser devoto da sua fé e das suas práticas, vestia-se de acordo. Não tinha onde se esconder.

Mas podia, isso sim, esconder os seus bens mais valiosos. Foi isso mesmo que fez uma família judaica, criando uma espécie de cofre, um vaso de terracota com todos os seus tesouros, que colocaram num buraco na parede, cobrindo-o com estuque. Contudo, alguma calamidade levou-os a ter de abandonar os tesouros, que só foram descobertos em 1863, precisamente no mesmo sítio, quase 400 anos mais tarde. 

Como se pode ler no catálogo de “O Tesouro de Colmar: Um Legado Judaico Medieval”, a nova exposição no Cloisters, do New York’s Metropolitan Museum, a exposição “recupera a memória da outrora próspera comunidade judaica que foi perseguida como bode expiatória e morta quando a região foi atingida com uma força devastadora pela peste, em 1348-49”.

Quem descobriu o tesouro, que inclui “moedas e loiça de prata e joalharia de ouro e prata, incluindo fivelas elaboradas e quinze anéis de ouro”, deve ter vendido uma parte. O que restou para ser visto e amado pelas gerações futuras está, na maior parte, no Musée de Cluny, em Paris, conhecido também como o Museu Nacional da Idade Média, que posteriormente emprestou vários dos objectos ao MET, para exposição no Cloisters.

No centro da pequena mostra está um grande anel de casamento, adornado com uma réplica imaginada do Templo de Salomão. Era claramente um anel cerimonial, ou seja, nada que se usasse para as lides domésticas, mas criado especificamente para ser usado numa cerimónia de noivado e/ou no casamento propriamente dito. De facto, alguns especulam que o anel passava de geração em geração na mesma família, ou que era usado por várias – se não mesmo todas – as noivas judaicas da aldeia nos seus casamentos.

O anel está inscrito com a expressão perene de parabéns “Mazel tov!”. Na verdade, é uma expressão Ídiche, e não hebraica, embora aqui esteja escrita com caracteres hebraicos. O ídiche surgiu no Século IX na Europa, uma amálgama de hebraico e aramaico misturada com alemão e algumas línguas eslavas. A palavra em si vem de Yidish Taitsh, que significa “judaico alemão”. 

Embora não tenha sido o último, o Nobel da Literatura Isaac Bashevis Singer é certamente o mais famoso autor (e por ventura um dos últimos) a escrever exclusivamente em ídiche, e disse o seguinte:

As pessoas perguntam-me porque é que escrevo numa língua moribunda. Eu gosto de escrever contos de fantasmas e nada fica melhor a um fantasma do que uma língua moribunda. Quanto mais morta a língua, mais vivo o fantasma. Os fantasmas adoram o ídiche e, tanto quanto sei, todos a falam.

É um comentário que se aplica charmosa mas tristemente bem ao que se vê na exposição de Colmar. Claro que o museu – como todos os museus – está recheado de “fantasmas”. Mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque contém sobretudo artistas que já foram desta para melhor. (Depois de uma longa restauração, o MoMA está prestes a reabrir em Outubro).

No Cloisters, porém, os fantasmas parece-me mais dolorosamente presentes, uma vez que esta exposição me parece emblemática da história do antissemitismo: estamos perante obras de grandes artesãos, membros de uma grande cultura, que devido à sua coragem e sabedoria têm sido usados ao longo dos séculos como bodes expiatórios pelos cobardes e os tolos.

Juntamente com os tesouros de Colmar há outros dois itens da coleção permanente do Cloisters: uma Tanakh (ou Bíblia hebraica) e uma Haggadah com 700 anos, ambas originárias de Espanha. A Haggadah, para quem não sabe, é o texto lido na refeição pascal, recordando o início do Êxodo.

Como explica a curadora Barbara Drake:

A sobrevivência da Bíblia hebraica é quase milagrosa… Os nomes e datas inseridas nas suas páginas sugerem que saiu de Espanha até 1492, quando a população judaica foi expulsa. Juntamente com os seus sucessivos donos a Bíblia viajou para oriente pelo Mediterrâneo, aterrando depois na Grécia, mais tarde no Egipto e voltando novamente para a Europa continental. Actualmente é uma de apenas três Bíblias hebraicas iluminadas de Castilha do Século XIV.

É para nós uma especial honra que a Bíblia acabe a sua viagem no Cloisters, onde transformará a nossa apresentação – e a compreensão dos nossos visitantes – sobre a iluminação de manuscritos medievais. Todos os outros livros que temos no Cloisters foram criados para uso cristão (três deles foram feitos em Paris no espaço de 90 anos). Este manuscrito desperta-nos para a comunidade judaica, que foi uma parte vibrante da cultura medieval de Espanha.

Pode parecer forçado, mas a exposição Colmar deixa-me ainda mais entusiasmado com a viagem a Israel que estou a planear com a minha mulher, onde anseio ver o local que Deus escolheu para a sua Encarnação e a pátria de um povo sofredor que conseguiu ultrapassar o sofrimento causado pela perseguição a que foi sujeito.

Devo acrescentar que o Cloisters, um dos meus locais favoritos, é um museu que nos transporta para um mundo em que o catolicismo definia todos os aspetos da vida, para bem e – como esta pequena mostra de artefactos judaicos nos recorda – por vezes para pior.

OTesouro de Colmar” está em exposição até ao dia 12 de janeiro de 2020.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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