segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

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