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Wednesday, 12 May 2021

Especial pré-apocalíptico de liberdade religiosa

Há caos na Terra Santa, uma praga de dimensões pandémicas e o Sporting é campeão, por isso parece-me mais que evidente que o apocalipse está à porta. Uma boa razão para mais um apanhado de Actualidade Religiosa…

Hoje prestamos especial atenção a questões de liberdade religiosa. Temos o caso do capelão de uma escola inglesa que foi denunciado a uma unidade de antiterrorismo por dizer aos seus alunos que podiam questionar a ideologia do género.

Temos ainda o caso da deputada e ex-ministra finlandesa que vai ser julgada por ter questionado o facto da sua igreja ter patrocinado uma marcha gay.

E na Suíça um tribunal deu razão a um médico que se queixou da suspensão do culto público, decretando que viola a liberdade religiosa dos cidadãos.

Liberdade Religiosa é coisa que escasseia na Índia e as ONG e especialistas esperam que a União Europeia pressione o primeiro-ministro Modi sobre o assunto.

Por falar em União Europeia, foi finalmente nomeado o novo enviado especial para a liberdade religiosa fora da UE. É um cipriota (na foto) e os bispos europeus já saudaram a escolha.

No programa Aura Miguel Convida da semana passada ficámos a conhecer Luís de Sousa Coutinho, um aristocrata que se apaixonou por Cristo e se tornou eremita, inspirado pelo (em breve) santo Charles Foucauld.

Por fim, temos dois novos artigos do The Catholic Thing no blog. No primeiro podem ler o testemunho comovente de uma mulher que foi levar a comunhão a um lar de idosos a pessoas que não comungavam há mais de um ano e no segundo ficam a conhecer H. H. Weiler, um académico judeu que tem uma teoria interessantíssima sobre o julgamento de Jesus.

Thursday, 19 December 2019

Papa Francisco fortíssimo em várias frentes


O Papa Francisco fez esta quinta-feira um discurso fortíssimo de apoio aos migrantes e de crítica a quem defende que a Europa deve impedir os navios de atracar, ou devolvê-los à Líbia.




No dia em que um tribunal do trabalho deu razão a uma empresa que despediu uma mulher por se ter atrevido a questionar a ideologia dogénero, partilho convosco este artigo do The Catholic Thing em que Hadley Arkes mostra como estamos a viver num mundo orwelliano, em que factos são apresentados como ideologia e ideologia como factos.

Wednesday, 4 September 2019

Papa a caminho dos três M

O Papa chega esta quarta-feira a Moçambique, para uma viagem que inclui passagens pelo Madagáscar e Ilhas Maurícias.

Antes de partir, Francisco rezou especialmente pelas vítimas do furacão Dorian que afectou as Bahamas e caminha para os Estados Unidos.

A visita do Papa terá acompanhamento constante na Renascença, como é evidente!

A Igreja Portuguesa quer formar professores para lidar com questões da ideologia do género.

Hoje no artigo do The Catholic Thing em português trago-vos um texto de leitura difícil, mas necessária, onde Stephen P. White explica como a crise dos abusos sexuais tem afetado desproporcionalmente pessoas das tais periferias da sociedade que o Papa tem no coração. Leiam e partilhem.

Wednesday, 19 June 2019

Transgénero e Liberdade Perfeita

Não faltam razões para ler a Divina Comédia de Dante, nem que seja pelo prazer de um encontro com o génio da imaginação. Mas no final de contas a razão mais importante é aquela que o próprio identifica numa carta a um mecenas, Can Grande Della Scala: “o assunto é o homem na medida em que, com os seus méritos e deméritos, no exercício da sua livre vontade, é merecedor de ser premiado ou punido pela justiça”.

Esta escolha torna-se clara no destino de Lúcifer. Podemos discutir longamente como é que certos pecadores vieram a merecer castigos específicos no Inferno de Dante, mas Satanás representa uma escolha principal.

O Satanás de Dante não é o rebelde romântico do “Paraíso Perdido” de Milton, nem um tentador engenhoso como o Escritope de C. S. Lewis. Trata-se aqui do ser que – de forma radical, pura e eterna – rejeitou Deus e toda a ordem do universo que Ele criou. Satanás pensa que se lançou no caminho da liberdade total em relação a tudo isso, mas não podia, literalmente, estar mais errado. 

Dante mostra-nos isto numa imagem inesquecível. Satanás está envolto em gelo no fundo do universo, nos recantos mais longínquos do Inferno. Dá às suas asas de morcego, procurando libertar-se, mas o vento que as asas criam apenas serve para o congelar ainda mais. É como as algemas chinesas com que brincávamos quando éramos miúdos. Mete-se os dedos de cada lado de uma espécie de tubo, mas quanto mais força fazemos para os tirar, mais apertado fica.

Não há outra saída para quem se revolta contra Deus. Satanás foge de Deus e da sua ordem cósmica, mas não há para onde fugir. Apenas existe um Deus, um universo, uma realidade. Rejeite-se isso e rejeita-se tudo, incluindo a fonte do nosso próprio ser – e a liberdade. Pode-se esforçar freneticamente, e cada vez mais, para ser “livre” segundo os próprios termos, mas está a pedir aquilo que é literalmente impossível – uma liberdade perfeita desligada de realidade. E assim se encerra, cada vez mais, em si mesmo.

Na sua “Utopia”, Tomás Moro incluiu um epígrafo: “O demónio, espírito orgulhoso, não aguenta ser gozado”. Pois aqui está um caso de gozo, gozo de si mesmo, em enorme escala.

Tudo isto pode parecer muito distante das nossas vidas diárias. Mas para um Católico na América de hoje a liberdade coloca-nos uma questão crucial. A liberdade está no topo da lista daquilo que a maioria dos americanos diria que o país representa. Os Pais Fundadores preocupavam-se com a possibilidade de a liberdade degenerar em “licença”. Tal como os pensadores antigos e medievais, eles sabiam que a liberdade podia autodestruir-se se fosse isolada da virtude e da verdade. 

A Congregação para a Educação acaba de lançar um documento sobre os transgénero (“Homem e mulher Ele os Criou”), que reconhece a fora como este movimento ideológico se desligou radicalmente não só da biologia mas da ordem cósmica. “Segundo esta visão das coisas, a visão tanto da identidade sexual como da família tornam-se sujeitos à mesma ‘liquidez’ e ‘fluidez’ que caracteriza outros aspetos da cultura pós-moderna, baseadas frequentemente em nada mais do que um conceito confuso de liberdade no campo dos sentimentos e desejos, ou nos desejos momentâneos provocados por impulsos emocionais e a vontade do indivíduo, por oposição a qualquer coisa baseada nas verdades da existência.”

Quando me constou que também convidava ao “diálogo” – o que para alguns é um tipo de tapete mágico que nos permite fugir sem ter de dizer sim nem não – temi que o documento cedesse no que é essencial. Surpreendentemente ele afirma que o diálogo significa reconhecer que algumas pessoas estão a debater-se com emoções fortes e que devem ser respeitadas enquanto seres humanos, mas ao mesmo tempo devem-lhes ser apresentadas as verdades básicas da sexualidade.

Há muito mais a dizer – e talvez venha a sê-lo. A Congregação para a Doutrina da Fé está a preparar um comentário mais puramente teológico sobre os mesmos assuntos. Mas este documento é um guia para instituições educativas e por isso é deliberadamente mais prático que teórico.

O nosso amigo Robbie George já comentou sobre a reação previsível de pessoas como o padre James Martin, S.J., que afirma que a sociologia e a psicologia modernas rebentam com as compreensões tradicionais de género. Afirmações desse género reciclam uma antiga heresia gnóstica segundo a qual alguma realidade interior, desligada do corpo físico, define a sua própria identidade. Trata-se de uma contradição da fé católica, bem como a judaica a islâmica e mesmo o bom pensamento secular. É tudo menos científico obliterar o papel de estruturas observáveis como são os genes masculinos e femininos, que existem em cada célula do corpo humano, apenas com base no que alguém diz ser.

O Dr. Paul McHugh, antigo diretor de psiquiatria na Universidade Johns Hopkins, estudou pessoas que foram sujeitas a “mudança de sexo” e concluiu que na maior parte dos casos não são mais felizes do que eram antes. “No cerne da questão está a confusão sobre a natureza dos transgénero. A ‘mudança de sexo’ é uma impossibilidade biológica.”

Santo Agostinho resumiu da seguinte forma toda a tradição bíblica: “Deus eterno, que és a luz das mentes que te conhecem, a alegria dos corações que te amam e a força das vontades que te servem; concede-nos que te conheçamos para verdadeiramente te amar, e assim amar-te para servir inteiramente a ti, a quem servir é a perfeita liberdade, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.” (Oração para Conhecer a Deus)

A verdade reside onde o temporal e o eterno, a liberdade e a ordem e outras coisas aparentemente opostas se encontram e misturam. O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores é também o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O Altíssimo nasce como bebé humilde numa manjedoura. Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros. E viver em harmonia com a verdadeira ordem do mundo é a única liberdade possível.

Poucos de nós compreendemos isso hoje. As nossas noções de liberdade chegam-nos por via de ‘entertainers’ autoindulgentes, políticos interesseiros, académicos excêntricos e egocêntricos e meios de comunicação autorreferenciais. Mas apesar de toda a celebração de identidade, individualismo, diversidade e singularidade, o resultado não é um tecido social rico, harmonioso e livre, mas o caos privado e público que está à vista de todos os que têm olhos para ver.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 17 de Junho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 10 May 2018

Marcelo, o médico

Marcelo Rebelo de Sousa vetou a lei de mudança de género. Isso é bom.

No texto da sua justificação para o veto, lê-se o seguinte:

"Solicito, apesar disso, à Assembleia da República que se debruce, de novo, sobre a presente matéria, num ponto específico - o da previsão de avaliação médica prévia para cidadãos menores de 18 anos.

A razão de ser dessa solicitação não se prende com qualquer qualificação da situação em causa como patologia ou situação mental anómala, que não é, mas com duas considerações muito simples (...)"

A "situação em causa" é alguém ser biologicamente de um sexo e identificar-se como sendo de outro, de dois, ou de nenhum. Essa "situação" tem um nome científico: Disforia de Género.

E a Disforia de Género é, precisamente, uma situação mental anómala. Não sou eu que o digo, são os médicos. É definida como uma desordem mental no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, entre outros. 

Seria tão fácil ter deixado esse "que não é" de fora do texto justificativo do veto... O que é que lá está a fazer?

Tuesday, 17 April 2018

Pedido de oração, pode ser já ao Formigão!

O Papa consolou no domingo uma criança cujo pai – um não crente – morreu. Vale a pena ver as imagens.

Esta segunda-feira houve festa no Vaticano. Mas sendo a festa de 91 anos de Bento XVI, foi contida e calma

D. Manuel Linda celebrou no domingo a sua primeira missa enquanto bispo do Porto.

E o Papa pediu soluções de justiça e paz para a Síria, numa altura em que os líderes cristãos mais importantes naquele país assinaram um documento conjunto a defender o regime de Damasco e a criticar o ataque levado a cabo por americanos, britânicos e franceses.

Os médicos católicos pedem que Marcelo Rebelo de Sousa vete a lei que permite a “mudança de género”, que foi aprovada na passada sexta-feira.

Mais um português a caminho dos altares? O Papa abriu caminho ao processo de beatificação do Cónego Formigão, o “apóstolo de Fátima” (na imagem).

Por fim, um pedido. Uma amiga minha vai amanhã à "clínica" dos Arcos em Lisboa, numa última tentativa de dissuadir uma senhora de abortar. Rezem pelas duas. Muito.

Cónego Formigão, que tal um milagrezinho para arrancar?

Wednesday, 27 September 2017

Não há paz sem perdão, mas há perdão sem cristãos?

Pe. Firas Mutfi
O perdão é crucial para se alcançar a paz no Médio Oriente, e os cristãos são cruciais para haver cultura de perdão. Quem o diz é o padre Firas Mutfi, que esteve em Portugal a convite da Ajuda à Igreja que Sofre.

Morreu o padre mais velho de Portugal, que conheceu o Papa em Maio. O padre Joaquim Pereira da Cunha tinha 105 anos.

Portugal despediu-se ontem de D. Manuel Martins, o bispo que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça”.

O artigo do The Catholic Thing desta semana vem mesmo a propósito. O médico e eticista Matthew Hanley fala de ideologia de género e equipara os procedimentos de “transição de género” ao abuso.

Ideologia de Género como Abuso

A chegada do frio outonal traz consigo o começo da época de futebol americano, que é bem-vinda, ainda que ser adepto de alguns clubes (tal como os meus San Francisco 49ers) requeira novamente um acto de fé sobrenatural este ano. Mas para Bennet Omalu, o “médico das contusões” – nome ganho pelo seu papel na revelação do fenómeno neste desporto – esta é uma época melancólica. O médico examinador-chefe do condado de San Joaquin, especulou recentemente que deixar os jovens jogar futebol americano levará eventualmente a um processo, porque o futebol é, nas suas palavras, a “definição de abuso infantil”.

Com tantos abusos reais para nos preocupar, uma afirmação destas pode parecer exagerada, ainda que possamos desconfiar da sabedoria de deixar crianças muito pequenas andar a bater com as cabeças umas nas outras. Mas esta cruzada contra o futebol americano está a ser levada bastante a sério. Quase tão a sério como a cruzada a favor da normalização da “fluidez de género”.

Recentemente veio-me parar às mãos a edição da Stanford Medicine News do Verão de 2017. A manchete era: “Jovens e Transgénero: Cuidando de Crianças na Transição” e elogiava uma endocrinologista pediátrica pelos seus esforços para “ajudar” estas crianças, utilizando medicamentos para bloquear a puberdade e outros “tratamentos” semelhantes. “Ao tratar os adolescentes transgénero com hormonas”, afirma a médica “estamos a afirmar quem eles são”. Ou seja, a cirurgia é apenas outra forma de afirmar que os seus corpos estão errados ao desenvolver-se correctamente.

Não pretendo implicar unicamente com a Stanford. A submissão à agenda transgénero tornou-se uma epidemia. A mais recente edição da “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” substituiu o antigo diagnóstico de “desordem de identidade de género” por “disforia” de género. E assim – voilá – deixa de haver uma “desordem” para tratar psiquiatricamente e o caminho certo torna-se necessariamente a mutilação através de hormonas ou de cirurgia.

A Associação Psiquiátrica Americana, deixando de lado o seu juízo, afirma simplesmente que a transição de género não envolve qualquer ilusão ou incapacidade psicológica – sendo que ilusão, neste caso, é definida como “uma crença falsa, ou juízo errado, mantido com convicção apesar de provas incontestáveis de sentido contrário”.

Para chegar a uma conclusão dessas é necessário negar a realidade objectiva ou, então, declarar que ela é subordinada à forma como os pacientes querem definir a “sua” realidade. Elas são quem afirmam ser, se o dizem. Mas se formos por esse caminho então ninguém pode ser classificado como sofrendo de ilusões e invalida-se por inteiro o próprio conceito de uma desordem psiquiátrica. Estarão os psiquiatras americanos a tentar acabar com a sua própria profissão?

A adesão de tantos profissionais altamente treinados e inteligentes a uma mentira tão óbvia é uma visão verdadeiramente triste. Algumas podem acreditar nos dogmas “oficiais” de género, por mais irracionais que sejam, mas acho que a maioria não acredita. Pelo menos não verdadeiramente. Mas há que salvar a face e preservar o emprego, por isso alinham.

A forma como se conseguiu este conformismo ao melhor estilo soviético sem um politburo é um fenómeno verdadeiramente impressionante. É o último elogio ao pós-modernismo. Não que o Congresso estadual da Califórnia (para citar apenas um exemplo) não esteja a tentar alcançar o estatuto de politburo; eles querem multar ou enviar para a cadeia pessoas em situações de prestação de cuidados de saúde que não se referem aos pacientes utilizando o pronome escolhido, ou seja, o errado.

O triunfo da desonestidade intelectual já é mau por si, mas forçar os outros a concordar com algo que sabem ser uma mentira é um dos maiores sinais de totalitarismo. Pior, “ajudar as crianças a transitar”, ao contrário de encorajá-las a jogar futebol americano ou qualquer outro desporto, é verdadeiramente uma forma de abuso infantil.

É isso que diz a Drª Michelle Cretella, presidente da Ordem Americana de Pediatras, que tem coragem de falar sem papas na língua. Mas muitos dos seus colegas não têm essa coragem. Aliás, o número de “profissionais” dispostos a dar ares de legitimidade médica à ideia de “transitar” de género supera até os que se querem submeter a essa absoluta impossibilidade. Com tantos autoproclamados defensores da “ciência” neste mundo, não deveria ser necessário dizer que os “sentimentos” não podem negar o veredicto contido nos cromossomas masculinos ou femininos presentes em cada célula do corpo.

Alguns dirão que afirmar a realidade é uma atitude “julgadora”. Mas a tentativa de obrigar à aceitação das teorias de transgenerismo viola o próprio credo do não-julgar. Por isso, já que se estão a fazer julgamentos, a maioria das pessoas concordaria que os profissionais que contribuem, de forma abusiva, para estas “transições” são muito mais culpados do que os adolescentes desorientados que precisam de compaixão e orientação firme. Os resultados para os que se submetem a operações de mudança de sexo não são bons. Os dados revelam-no. Profissionais de saúde que fingem – juntamente com escolas, media, corporações e outros – que a anormalidade é normal são, por definição, abusadores.

E nem falemos do preocupante paralelo entre a mutilação de anatomia saudável envolvida numa “transição” e a prática, justamente condenada, de mutilação genital feminina.

A “transição” é apresentada como um triunfo da ciência e do progresso, mas com a compreensão de que alguns tipos de transição não deviam ser permitidos de todo. Refiro-me, claro está, à perspectiva de alguém que queira mudar a sua orientação sexual de homo para hétero.

Que isto seja prescrito e literalmente criminalizado nalguns contextos denuncia a farsa. Quando a escolha pessoal é tão claramente rejeitada, não obstante toda a retórica tradicional em sentido contrário, isso é um sinal claro de que tudo isto tem a ver com o avançar de uma conclusão já determinada e nada a ver com a vitória da liberdade de escolha em si.

O fim para o qual caminhamos não é outra coisa que a obliteração da ordem e da ética que derivam da tradição judaico-cristã. Tem tudo a ver com o poder para se mudar as regras, trocar o que é bom por aquilo que é mau. É o jogo da desintegração total.

O abuso não é um subproduto ocasional e acidental de uma revolução maior, na qual a fluidez de género é apenas a mais recente rajada. É mesmo o cerne da questão.

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 20 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 21 September 2017

Mea Culpa Papal e Livro Tolentino

O Papa Francisco admitiu hoje ter errado ao reabilitar um padre pedófilo que depois reincidiu. Foi numa audiência aos membros da Comissão Pontifícia de Protecção de Menores em que Francisco disse que a Igreja acordou demasiado tarde para este problema.


Se é coleccionador de moedas, ou devoto de Fátima… Esta notícia é para si!

Decorreu nos últimos dias em Fátima as jornadas da Pastoral Social. A Renascença esteve presente e traz-nos três reportagens. Uma sobre o medo que os jovens têm do compromisso, outra sobre a “viagem a dois” da Maria e do Duarte Barral e uma terceira sobre fragilidades, a conciliação com o trabalho e a alegria de viver em família.

Fica um convite para amanhã virem à Renascença para o lançamento do livro do padre Tolentino Mendonça. Basta enviar um email para a editora (quetzal@quetzaleditores.pt) a indicar o nome, contacto telefónico e número de cartão de cidadão para reservar lugar.

Já tentou ir ao registo civil pedir para mudarem a data do seu assento de nascimento? Não seria possível pois não, porque isso implicaria o Estado compactuar com uma mentira. Mas se a vontade do Bloco de Esquerda for para a frente é isso mesmo que o Estado vai fazer… não com a data, mas com o sexo. É mentira à mesma… Isto e mais na minha análise ao diploma do BE.

Wednesday, 7 December 2016

Os Monólogos da Vagina Silenciados

Randall Smith
Há alguns anos várias universidades confessionais estiveram envolvidas em discussões sobre se deviam permitir a encenação a peça “Monólogos da Vagina”. Muitas delas – algumas das quais católicas – foram coagidas a permitir a peça controversa, com o argumento de que seria contra a “liberdade académica” não o fazer.  

Agora, porém, pelo menos uma universidade tomou a decisão ousada de banir a peça, mas talvez não pelas razões que esperaria. Mount Holyoke College, que se descreve como uma “universidade de artes liberais para mulheres” decidiu agora que a peça “não é suficientemente inclusiva”.

Então? Não é uma peça só sobre mulheres? Ao que parece, não, não é.

A verdade é que o conselho de estudantes de Mount Holyoke baniu a peça porque, “no seu cerne, o espectáculo oferece uma perspectiva muito limitada do que significa ser mulher”.

Poderá estar a pensar “Viva! Mas porque é que as mulheres haviam de ser reduzidas a uma parte do seu corpo. Não é precisamente disso que muitas delas já se queixam?”

Claro que sim, mas o problema não é esse. Acontece que Mount Holyoke baniu a peça porque exclui “mulheres” que – e não, não estou a inventar – não têm vagina.

Ah... Calma... O quê?

Uma manchete louvou a decisão de Mount Holyoke, dizendo que “Algumas universidades estão a ultrapassar a peça ‘cisnormativa’ Monólogos da Vagina, de Eve Ensler”.

Eve Ensler, a autora da peça, defendeu-se dizendo “Penso que é importante que se saiba que a minha intenção nunca foi escrever uma peça sobre o que significa ser mulher. Esse nunca foi o objectivo de ‘Os Monólogos da Vagina’”.

Ainda bem que isso ficou esclarecido. Afinal ela e os manifestantes católicos estão de acordo nesse ponto. Mas afinal de contas sobre o que é a peça?

“É uma peça”, explica Ensler, “sobre o que significa ter uma vagina.” (Então afinal sempre é sobre uma parte do corpo). “Nunca se disse, por exemplo, que a definição de mulher é alguém que tem uma vagina… Penso que essa distinção é muito importante… Temos de ter muito cuidado com o que dizemos quando utilizamos linguagem”.

Pois claro que sim. Muito, muito cuidado. Porque é cada vez mais claro que toda a gente tem um alvo nas costas hoje em dia, enquanto a elite intelectual joga o seu jogo interminável de superioridade ideológica, que passa por ver quem consegue ser superior ao próximo quando toca a indignação moralista por alegadas falhas na defesa escrupulosa da “ideologia do género”. E como eu não consigo imaginar qualquer situação em que não estejamos a “utilizar linguagem” – uma vez que usamos palavras para pensar – suponho que a solução seja ter sempre “muito cuidado” com o que se pensa. A “liberdade” moderna, como George Orwell já tinha previsto, requer que as pessoas estejam sempre à procura de provas de “crime de pensamento”.

A verdade é que não me interessa muito o que a Mount Holyoke faz ou deixa de fazer, nem acho que a cultura de um campus universitário deve ser julgado com base na participação ou não dos seus alunos nos “Monólogos da Vagina”, mas tenho duas preocupações.

A primeira é que aquilo que se está a perder neste caos linguístico são as próprias mulheres – mulheres verdadeiras, reais, com as suas necessidades específicas, algumas das quais biológicas. Enquanto homem não me cabe a mim dizê-lo, mas penso que as mulheres o deviam fazer.

Claro que uma mulher não se reduz ao seu corpo, mas requer um gnosticismo radical afirmar que o ser mulher – ou humano, já agora – não tem absolutamente nada a ver com a corporeidade. As questões de saúde femininas não são apenas emocionais, psicológicas ou culturais. Há realidades biológicas e físicas sérias, também.

Bruce Jenner
Mais ninguém está preocupado com o facto de haver pessoas a ocupar o território que devia ser exclusivo das mulheres? Não me parece nada claro que alguém como Bruce/Caitlyn Jenner tenha procurado aprender com mulheres sobre o que é ser mulher; antes, foram os media que o elevaram a “mulher do ano” no preciso momento em que alterou algumas (mas não todas) as partes do seu corpo.

Rachel Dolezal, que era branca, não pôde reclamar para si ser “negra”, apesar de ser muito dedicada à causa da justiça racial; mas Bruce Jenner foi nomeado “mulher do ano” porque acrescentou um par de maminhas falsas? Se isto não é reduzir a mulher a partes do seu corpo, então não sei!

As mulheres perdem meio litro de sangue todos os meses, carregam filhos nos seus ventres durante nove meses, suportam horas dolorosas de trabalho de parto e Bruce Jenner é a mulher do ano? Admito que não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas não percebo.

Questiono-me o que é que se vai passar ao longo dos próximos anos em áreas tão importantes como o desporto feminino, literatura feminina, ou até escolas e universidades femininas (como a Mount Holyoke, para dar apenas um exemplo óbvio)? Será que vão desaparecer por causa dos desejos e dos planos de certos – como é que posso dizer isto de forma delicada – homens? As mulheres atletas já começam a notar o potencial do problema.

Desculpem lá, mas isto é uma coisa que me preocupa, mesmo que não tenha nada a ver com isso, por ser aquele tipo de homem que não é uma mulher.

Mas há outra coisa que me preocupa também. Quando os católicos se queixaram que “Os Monólogos da Vagina” violava os seus princípios fundamentais, foram classificados como trogloditas. A “liberdade académica” tinha de triunfar. Agora que um grupo conseguiu posicionar-se ainda mais à esquerda que qualquer outro, o que é que aconteceu a esse grito de “liberdade académica”? Era apenas uma arma de arremesso para utilizar contra os inimigos naquele momento?

Acontece que eu acredito verdadeiramente na “liberdade académica”. Mas se as pessoas se convencerem que ela se tornou apenas um instrumento ideológico e não uma posição de princípio, então vão tornar-se cínicas e, tal como aconteceu em “Pedro e o lobo”, deixarão de acudir quando for invocada.

E isso é o que me preocupa verdadeiramente, porque todos nos devemos preocupar com a existência de um diálogo livre e aberto.

Infelizmente, porém, há quem prefira monólogos – excepto quando até isso se torna ideologicamente suspeito.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 June 2016

A ideologia do género é demoníaca?

Pe. Paul Scalia
Quando o cardeal Sarah esteve em Washington para um evento, há pouco tempo, referiu-se três vezes à ideologia do género como “demoníaca”. Mais recentemente o arcebispo Coakley, da Cidade de Oklahoma, utilizou o mesmo termo em idêntico contexto e o mesmo fez o bispo Paprocki, de Springfield, em relação ao casamento homossexual. É uma palavra forte, certamente. Mas a maioria das pessoas não percebem bem o alcance. Alguns consideram que se trata meramente de hipérbole para descrever algo que não é apenas mau, mas muito, muito mau. Outros consideram que se trata de um juízo apressado dos adversários, diabolizando-os. E depois há aqueles que consideram que se trata de um exagero de fanáticos religiosos, que já não regulam bem de qualquer maneira.

Mas “demoníaco” é na verdade um juízo sóbrio e esclarecedor do pensamento por detrás da ideologia do género. Não é um juízo de intenções. Não significa que as pessoas que defendem a ideologia do género são demoníacas, ou estão possessas. Significa, antes, que o raciocínio e os resultados daquela filosofia – independentemente da inocência com que é defendida – estão em linha com os desejos, as tácticas e os ressentimentos do próprio Belzebu.

A ideologia do género repete uma mentira básica do demónio: “Sereis como Deuses” (Gen. 3, 5). Esta mentira está na verdade por detrás de todas as tentações. Todo o pecado deriva do desejo orgulhoso de suplantar Deus. Mas no campo da sexualidade humana tem uma gravidade maior.

Deus cria; o homem é criado. Deus dá existência; o homem recebe a existência. A ideologia do género propõe uma versão alternativa: Nós somos os nossos próprios criadores. Num dos seus últimos discursos, e talvez um dos mais importantes, o Papa Bento XVI disse:

Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: “Ele os criou homem e mulher” (Gn. 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo… Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação… Chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser...

E se concluirmos que os nossos corpos não estão em linha com o que determinámos ser, então alteramo-los de acordo. É contra isto que o Papa Francisco aconselha: “Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos omnipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada.” (AL, 56)

Existe também um ódio demoníaco pelo corpo. No livro “Vorazmente Teu”, C.S. Lewis refere-se ao ressentimento do demónio pelo facto de Deus ter favorecido os “bípedes calvos… [animais] gerados numa cama”. Porquê este ódio? Talvez porque o corpo e a alma humana são um só. A alma, tendo tanto em comum com a natureza angélica, está unida ao corpo, que tem tanto em comum com a natureza animal. O diabo considera isto pessoalmente ofensivo. Ele procura (tal como todos podemos verificar) desfazer esta união – dividir-nos da nossa carne, virar a alma e o corpo um contra o outro. Com grande perícia, leva-nos a adorar o corpo num instante e odiá-lo no minuto seguinte. A morte – a separação entre o corpo e a alma – foi, claro, a sua maior vitória.

Existe ainda o facto de a Palavra se ter tornado carne. O grande acto de generosidade de Deus para connosco apenas agrava a inveja do demónio. O Filho de Deus assumiu a natureza humana, incluindo o corpo humano. Ele salvou-nos não apenas nesse Corpo, mas através dele. Porque é que esta dignidade havia de nos ser dada a nós, tão inferiores aos serafins, e não a ele, o mais elevado dos anjos?

Adão e Eva depois de terem pecado
O homem caído nunca está em paz com o seu corpo. O Cristianismo procura sarar essa divisão. Mas a ideologia do género procura codificá-la, com base no princípio de que não existe uma verdadeira relação entre o corpo e a alma. A divisão entre os dois é de tal forma absoluta que se pode ser uma coisa fisicamente e outra espiritualmente.

O ódio demoníaco contra a procriação está ligada de perto com isto. O demónio não pode procriar, mas o homem pode. O homem e a mulher cooperam com Deus, gerando uma nova pessoa. O demónio tem inveja disto porque Deus é generoso. Como é evidente, a ideologia do género rejeita a complementaridade entre masculino e feminino e aquilo que a sua união alcança.

O Senhor pega em verdades naturais – corpo, casamento e família – e usa-as como modelo e meio para a sua obra salvífica. Ele é a Palavra feita carne, o Esposo, filho de José e de Maria, que nos torna membros da família de Deus. Apercebemo-nos do significado da oferta que Jesus faz do seu corpo na Cruz e na Eucaristia, precisamente porque sabemos que o corpo tem significado. A união permanente, fiel e de vida oferecida entre marido e mulher permite-nos compreender o que significa dizer-se que Cristo é o esposo e a Igreja a sua esposa.

A perda destas verdades naturais inibe, por isso, a nossa capacidade de compreender o sobrenatural e compreender a salvação. Se o corpo humano não tem significado intrínseco – se não nos diz nada sobre nós e se pode ser ajustado ao nosso gosto – então como podemos apreciar as palavras “este é o meu Corpo”?

Se não temos qualquer experiência vivida da complementaridade entre homem e mulher, entre esposo e esposa, então não podemos compreender o facto de Cristo, o Esposo, ter dado a vida pela sua Esposa. E também não conseguimos compreender o significado de Deus enquanto Pai, Deus enquanto Filho, Igreja enquanto Mãe, etc. O Demónio tem todo o interesse em despojar-nos destes sinais naturais do sobrenatural.

Como é evidente, estas tendências não surgiram do nada. São as suas tácticas habituais. Vimo-las em acção durante a revolução sexual, na contracepção, aborto e fertilização in vitro. A ideologia do género assenta sobre estas fundações e promove-as como nunca.

O reconhecimento da dimensão demoníaca pode ser útil. Mas deve também levar-nos a um exame de consciência – para ver até que ponto caímos nas suas armadilhas, através dos nossos pequenos actos de auto-exaltação orgulhosa (que na verdade é uma forma de autocriação), pelo nosso desprezo e maus tratos do corpo (nosso e dos outros), pela falta de castidade (que ridiculariza o poder da procriação), pela forma como dificultamos a aproximação dos outros a Deus.

Alguns de nós podemos reconhecer a dimensão demoníaca da ideologia do género. Mas todos devemos arrepender-nos por termos cedido a ela. 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 26 de Junho de 2016 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 8 January 2014

Uma Visão Sacramental do Corpo

Randall Smith
Num artigo anterior realcei que a nossa cultura, que tem encorajado os adolescentes a pensar que se podem tornar pessoas diferentes mudando a marca da roupa que usam, está agora a encorajá-los a acreditar que podem tornar-se pessoas diferentes alterando os seus órgãos sexuais – como quem muda um casaco.

A formo como os publicitários vendem artigos aos jovens é associando-os a um certo tipo de pessoa: cerveja com um tipo porreiro, fixe e universitário; perfume ou roupa com um tipo magro, urbano e social; um carro com um certo tipo másculo, bem-vestido, sofisticado e urbano.

Ironicamente, os jovens dizem muitas vezes que estão a “expressar a sua individualidade” com as coisas que compram, quando isso é o oposto da verdade. A escolha de certos produtos em vez de outros é normalmente motivado por um desejo de se tornar mais como o modelo de pessoa “fixe” a que aspiramos. Logo, longe de se tornarem “mais individualistas”, os adolescentes procuram tornar-se mais como os outros.

Estas práticas culturais reforçam a ilusão moderna de que a nossa identidade não é algo que recebemos (da natureza, de Deus, da cultura, da tradição), mas algo que criamos individualmente, sozinhos.

Enquanto no passado os jovens podiam ver-se como sendo oriundos de (e por isso, de certa forma, em divida para com), uma certa família, tradição cultural ou religiosa, agora, por causa da influência do modernismo, os jovens tendem a ver-se como auto-criadores. Seja qual for o seu passado, sejam de onde forem, independentemente de quem forem os seus pais, podem recriar-se de novo: podem ser “aquilo que quiserem ser”. Têm o dever de se criarem, aparentemente ex nihilo.

Há muito neste ponto de vista que é bom, claro, dado que a Igreja sempre enfatizou a importância do livre arbítrio. Em certo sentido sim, criamo-nos pelas escolhas que fazemos.

Mas há algo que se pode perder com este ponto de vista também: nomeadamente, a noção da nossa ligação e responsabilidade para com os outros. Se eu me crio ex nihilo, então não devo nada a ninguém. Sou responsável apenas por mim e pelo meu projecto de auto-criação. É verdade que isto me poderá induzir a deixar os outros em paz para se dedicarem aos seus próprios projectos de “auto-criação” (embora as crueldades da vida adolescente contemporânea sugiram o contrário), mas poderá também (e mais provavelmente) levar-me a negar qualquer responsabilidade em relação aos outros.

A minha individualidade é mais individual que a tua
Quando falo aos meus alunos sobre a forma como os agentes do marketing procuram seduzir os adolescentes, um deles dirá algo como: “Mas temos de vestir alguma coisa”. Respondo que sim, “mas seria melhor se, em vez de encararmos as nossas escolhas como expressões de uma individualidade radical, as víssemos como expressões de socialização. Isto é, eu escolho as roupas que escolho precisamente para me poder misturar mais facilmente em certas situações sociais. Uso fato e gravata quando é apropriado usar fato e gravata, mas roupa mais casual quando isso contribui para que as pessoas à minha volta se sintam mais confortáveis. A minha roupa não serve para me definir como algo que está à parte e é diferente dos outros. Seria melhor encará-la como algo que posso usar para me ajudar a unir a eles”.

E se tivéssemos uma visão “sacramental” das coisas, incluindo do corpo humano? E se eu visse o meu corpo (ou a minha roupa) como algo que serve de instrumento do meu amor a Deus e ao próximo?

João Paulo II dizia frequentemente que não podemos amar o nosso próximo – não nos podemos revelar a ele ou tornar-nos presentes a ele – se não através do nosso corpo. Deste ponto de vista, o meu corpo e tudo aquilo que ajuda a formar a minha “personalidade” deve ser entendido como estritamente “meu” de um ponto de vista, mas também de outros e para os outros. Eu moldo o meu carácter de certas formas porque quero ser prestável aos outros e poder cuidar deles.

Tal como a modernidade nos levou a adoptar a noção de propriedade como algo essencialmente “meu”, posto à parte dos outros e unicamente para meu usufruto, agora também temos a ideia dos nossos corpos e das nossas identidades como sendo algo que nos põe à parte dos outros e com os quais os outros não devem interferir. É significativo que as pessoas falam hoje dos seus corpos como sendo da sua “propriedade”, a serem usados como entenderem.

João Paulo II sugeriu, pelo contrário, que uma vez que somos feitos à imagem de um Deus trinitário, descobrimo-nos ao fazer de nós mesmos um dom sincero aos outros. Por isso ele propôs que ao trabalharmos seja para nós mesmos, mas também com e para os outros, e insistiu numa noção de propriedade “privada” que é ao mesmo tempo “minha” mas também sempre para outros.

O mundo boémio da liberdade sexual esteve sempre claramente ligado ao mundo burguês do capitalismo laissez-faire. Ambos assentam numa noção de individualismo radical e auto-criação que a Igreja sempre rejeitou. É por isso que os ensinamentos autênticos quer da moral sexual quer da justiça social ofendem sempre uma das partes nos debates entre conservadores individualistas e liberais individualistas. É por isso que “conservadores” e “liberais” estão sempre a tentar afirmar um dos lados do ensinamento da Igreja, enquanto evitam o outro, embora uma compreensão autêntica quer da moral sexual quer da justiça social insista que ambos se baseiam na mesma visão “sacramental” de toda a realidade criada, na qual todas as coisas criadas, incluindo nós mesmos e os nossos corpos, devam ser entendidas como “instrumentos” do amor de Deus.

“A verdadeira queda do homem”, escreveu o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann, é viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 4 de Janeiro 2014 em The Catholic Thing)

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