quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pentecostes


James V. Schall, S.J.
Sempre gostei daquela passagem do primeiro capítulo dos Actos dos Apóstolos, a cena da Ascensão, em que, tendo observado os últimos momentos de Cristo na terra, aparecem dois anjos que perguntam aos apóstolos: “Porque estais aí a olhar para o céu?”

Com todo o respeito pelas mentes angélicas, não percebo que mais é que os apóstolos deveriam estar a fazer perante uma cena tão formidável. A repreensão é normalmente compreendida como sendo um espicaçar para que os Apóstolos comecem a cumprir a missão que o Senhor os deixou. A contemplação deveria extravasar para a acção. Ainda assim, os Apóstolos precisavam de algum tempo para absorver tudo aquilo.

A outra passagem está em Actos 19. Paulo está para os lados de Éfeso. Pergunta a uns discípulos se ja receberam o Espírito Santo. Eles respondem com franqueza: “Mas nós nem sequer ouvimos dizer que existe o Espírito Santo”. Pensando bem, de certeza que a maioria das pessoas no mundo hoje, se questionadas, responderiam da mesma forma. E nós, cristãos, que ouvimos falar no Espírito Santo ficamos confusos com a sua presença na Santíssima Trindade e no mundo. Esta confusão é um incentivo para pensarmos nesse mesmo Espírito Santo.

A cena de Pentecostes no Evangelho de São João surpreende-nos por outra razão. Os discípulos estão numa sala com as portas fechadas, com medo dos judeus. Cristo aparece no meio deles e diz-lhes: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

Eles sabiam o que significava uma tarefa enviada pelo Pai. Então Cristo respirou sobre eles: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados, mas aqueles a quem os retiverdes, serão retidos.” Com esta missão eles estão agora ligados ao plano divino através do mesmo Espírito Santo enviado pelo Filho e o Pai. O que é que isto significa?

São Basílio Magno escreveu um tratado sobre o Espírito Santo. “Os títulos dados ao Espírito Santo devem certamente mexer com a alma de quem os ouve”, diz-nos. “Eles levam-no a perceber que se trata de nada menos que o Ser supremo.” Que títulos são esses? Ele é “conhecido por Espírito de Deus, Espírito da verdade, que procede do Pai, o Espírito constante, o Espírio que guia. Mas o seu título principal e mais pessoal é Espírito Santo.” A Santidade representa a Trindade na sua vida interior.

No Credo de Niceia dizemos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, que procede do Pai e do Filho; com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele falou pelos profetas.” Como é que entendemos que o Espírito “falou pelos profetas”?

Como é evidente, o que se passou no Antigo Testamento, aliás em todo o cosmos, bem entendido, foi a preparação para a Encarnação do Verbo no meio de nós. Da mesma forma, depois do regresso de Cristo para o Pai, o Espírito – o advogado – é-nos enviado para executar este mesmo plano.

A ideia de que possamos estar envolvidos num “plano” a ser executado pela divindade no meio de nós parece-nos um atentado à nossa autonomia. Não precisamos de ajuda. Supostamente é essa a nossa dignidade. Contudo, no seu discurso de despedida aos cristãos de Éfeso, Paulo, que não espera voltar a vê-los, diz que pregou o plano, ou o propósito, de Deus. Não se trata do seu plano pessoal.

Outro dos nomes dado ao Espírito é “dom”. A vida interior da Trindade desemboca no Espírito Santo. A plenitude da vida já está aqui. Ela não “precisa” de mais nada. Deus não precisa de nós porque lhe falta alguma coisa, não é essa a natureza da nossa relação com Ele.

À primeira vista pode parecer que este facto diminui a nossa significância. Mas é precisamente o contrário. Nós relacionamo-nos com Deus inteiramente por dádiva. Aquilo que somos neste mundo teve origem em algo que está para além da justiça. Existimos por causa da abundância, e não da necessidade, que existe no seio da Trindade. Este facto significa que tudo de nós, incluindo nós mesmos, é dom.

São Basílio também nos diz que o Espírito “ilumina aqueles que foram purificados de toda a mancha do pecado e torna-os espirituais pela comunhão consigo.” Às vezes esquecemo-nos que Cristo veio para o mundo para nos redimir dos pecados. Ele não veio para os ultrapassar, para nos dizer que não interessavam ou para fingir que nunca tinham acontecido. Ele veio para nos perdoar.

O que torna o Cristianismo diferente de todas as filosofias e religiões não é que elas não têm conhecimento do pecado ou de que há algo de mal com a humanidade; é que elas não têm forma de perdoar os pecados. Sozinhos, os cristãos também não. Também isso é algo que nos é dado.



James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 29 de Maio 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

4 comentários:

  1. Sim, sim: falar do Espírito Santo é sempre novidade. Porque Ele é a novidade infinita. Mas também porque nós nos esquecemos d'Ele. Já o disse o Papa Leão XIII. Faz bem, Caro Filipe, em destacar esta notícia.
    FC

    ResponderEliminar
  2. Sobre a Santíssima Trindade, nunca percebi porque é que é um "mistério". Para quem acredita facilmente entende que Deus, um Enviado de Deus e o Espírito de Deus, estão juntos. Não consigo entender as dúvidas.

    Agora o que não percebi muito bem foi o último parágrafo. "O que torna o Cristianismo diferente de todas as filosofias e religiões não é que elas não têm conhecimento do pecado ou de que há algo de mal com a humanidade; é que elas não têm forma de perdoar os pecados. Sozinhos, os cristãos também não. Também isso é algo que nos é dado"?????

    ResponderEliminar
  3. As outras religiões e filosofias reconhecem que o homem é pecador, mas não têm forma de perdoar os pecados. Isso é algo que é exclusivo do Cristianismo, mas não por mérito ou característica dos cristãos, é antes um Dom.

    Penso que é essa a ideia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desculpe! Fiquei ainda pior. De qualquer modo, obrigada pela tentativa. Não se preocupe, não foi você quem fez o discurso...

      Eliminar

Partilhar