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Wednesday, 31 May 2023

Sóbria Embriaguez

Pe. Paul Scalia

Coitado de São Pedro. A primeira mensagem Urbi et Orbi, por assim dizer, do primeiro Papa, começou de forma pouco auspiciosa. Não foi com uma audaz proclamação de Cristo, mas sim com um desmentido de que os discípulos estivessem bêbados. “Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia” (Actos 2, 14-15).

É uma cena com bastante piada, e merece estar incluída na primeira leitura do Domingo de Pentecostes – mas não só pelo humor. São Pedro toca aqui num aspecto antigo, mas essencial da devoção ao Espírito Santo: a sóbria embriaguez. Talvez mais valia ter dito que de facto os apóstolos estavam embriagados, mas não da forma como as multidões supunham. Estavam sob o efeito da sóbria embriaguez do Espírito Santo que mais tarde seria encorajada por São Paulo: “E não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito” (Efésios 5,18).

Santo Ambrósio pegaria mais tarde neste tema e escreveria o verso: Laeti bibamus sobriam ebrietatem Spiritus – “Alegres bebamos a sóbria embriaguez do Espírito”, enquanto ensinava que “aquele que se embriaga de vinho cambaleia; aquele, porém, que se inebria do Espírito Santo é enraizado em Cristo. Verdadeiramente excelente é esta embriaguez que produz a sobriedade da alma!” Esta é uma embriaguez que não conduz ao cambalear a arrastar da voz, mas à estabilidade e à clareza. Temos de deixar que o Espírito a produza em nós.

Tal como qualquer paradoxo, é preciso que ambas as partes sejam professadas com igual força. A embriaguez que não seja do espírito é devassidão, ou, na melhor das hipóteses, patetice. A sobriedade sem esta embriaguez é rígida e morta, sem a liberdade que o Espírito concede.

Talvez a característica mais evidente de uma pessoa embriagada seja a alegria. Isso condiz bem com o fruto que o Espírito Santo deseja produzir em nós, a distintiva alegria dos seguidores de Cristo. Trata-se da própria alegria de Deus que a alma possui, independentemente das circunstâncias, e até por entre grandes sofrimentos.

Isto é o que encontramos ao longo dos Actos dos Apóstolos, protagonizados pela Igreja animada pelo Espírito Santo. Os Apóstolos deixam o sinédrio “cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41). O Espírito leva Paulo e Silas a cantar na prisão de Filipos. E assim continuou a ser ao longo da história da Igreja, nas vidas de todos os que se entregaram ao Espírito. São Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá alegraram-se na sua pobreza. Tal como Paulo e Silas em Filipos, também São Maximiliano Kolbe cantou na câmara da morte em Auschwitz.

Vivemos num tempo zangado, sem humor. E há muitas coisas sobre as quais devemos estar zangados. Ainda assim, embora toda a gente deseje a alegria, a maioria das pessoas contentam-se com o prazer. Embriagados pelo Espírito, os cristãos devem revelar a alegria que só Ele traz e que Deus deseja para todos.

Mais, o homem embriagado fala livremente – aliás, até demasiado livremente para boa companhia. Há um descuidado nas suas palavras e acções. Está inconsciente ou despreocupado com o que as pessoas pensam ou dizem dele. Não busca a aprovação dos outros com as suas palavras. Assim também, todos os que são conduzidos pelo Espírito devem falar com a mesma candura e sem se preocuparem com o respeito dos homens. Deve haver uma certa negligência e audácia quando se fala da fé.

Não é que isso nos permita sermos ordinários ou arrogantes. Disso já temos o que baste. Antes, dá-nos a coragem de falar com alegria sobre as questões difíceis e complicadas da fé, sem procurar adequá-las ao pensamento do mundo. Ao fazê-lo, encontramo-nos em boa companhia – não só a de Pedro e dos Apóstolos no Pentecostes, mas também do Senhor quando a sua própria família anunciou “está fora de si” (Marcos 3,21).

Mas também é preciso sobriedade. Esta não é uma embriaguez que arruína vidas e leva ao arrependimento. Pelo contrário, traz maior sobriedade, uma razoabilidade mais profunda e uma maior claridade de pensamento e de palavra. Em Éfeso os artesãos revoltaram-se contra Paulo e os outros discípulos que tinham “virado o mundo de pernas para o ar” (Actos 17,6). O Cristianismo virou de facto o mundo pagão às avessas. Mas fê-lo apenas para introduzir uma nova forma de pensar, que já não estava alinhada só com o pensamento humano, mas com a sabedoria divina. Se esta embriaguez vira as coisas às avessas, é só para as colocar numa base mais firme.

Um outro paradoxo desta sóbria embriaguez é o facto de nos ter sido adquirida pela triste Paixão de Nosso Senhor. Na sua própria hora de sóbria embriaguez, Cristo conquista para nós o Espírito ao verter o seu Sangue na Cruz. Assim, o dom do Espírito está associado ao Precioso Sangue de Jesus. “Sangue de Cristo, inebria-me”, cantamos no Anima Christi. E na Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue, o padre reza depois da comunhão que “sejamos sempre lavados pelo Sangue de nosso Salvador; torne-se ele em nós uma fonte que jorra para a vida eterna.”

E hoje no altar, onde se re-apresenta o verter do seu sangue, rezamos que o Espírito produza nas nossas almas aquela sóbria embriaguez através da qual levamos aos outros a chocante alegria do Evangelho que estabiliza o mundo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 11 May 2016

Presentes de Despedida

Pe. Paul Scalia
“Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.”

Hoje acompanhamos Nosso Senhor até ao monte para a sua Ascensão. Talvez não saibamos o que dizer. Ele tentou preparar-nos para este momento. Disse-nos que devemos ficar felizes por Ele, porque regressa para o Pai (Jo. 14,28). E na verdade esta festa é caracterizada pela alegria simples do regresso do Filho para junto do Pai. Mais uma vez Ele nos instrui que regozijemos porque, ao regressar para o Pai, enviará sobre nós o Espírito Santo. Se Ele não for, o Espírito não virá. Por isso é melhor para nós que Ele vá. (Jo. 16,7)

Todavia, tal como os discípulos, não conseguimos compreender tudo o que Ele nos diz. Mateus diz-nos que os discípulos foram com ele até ao monte da Ascensão: “Quando o viram adoraram, mas alguns duvidaram” (Mt. 28,17). Lucas diz-nos que as suas mentes continuavam centradas em coisas terrenas, preocupados com a restauração do reino de Israel. (Actos 1,6)

Então como é que abordamos este mistério? Qual deve ser a nossa disposição e quais as nossas palavras? Há duas histórias do Antigo Testamento que podem ilustrar e guiar-nos neste mistério da Ascensão.
 
Em primeiro lugar temos o episódio de Jacob e do anjo (Gen, 32, 25-32). O livro do Genesis diz simplesmente que, nesse evento, “e lutou com ele um homem, até que a alva subiu”. Quem, ou o que, é que tenha sido essa figura, Jacob compreendia que vinha do Céu e que lhe podia dar uma bênção. Por isso não o largou e exigiu: “Não te deixarei ir, se não me abençoares”. Dessa forma Jacob recebeu uma bênção divina e tornou-se Israel, o Patriarca de uma nova nação.

Tal como Jacob depois desse encontro, qualquer analogia é coxa. Não nos podemos agarrar a Nosso Senhor como Jacob agarrou o anjo. Jesus não criticou Maria Madalena precisamente por isso? (Jo. 20,17). Mas se não nos podemos agarrar literalmente ao Senhor para o deter, não devemos deixar de imitar a insistência de Jacob. Ele tinha uma tenacidade e uma confiança que se adequam bem à festa da Ascensão. Revela a confiança de que aquele que vai para o Céu pode dar dons aos que estão cá em baixo. “Subindo ao alto… Deus dons aos homens” (Ef. 4,8)

Jacob luta com o anjo
Devido à sua insistência, Jacob recebeu um novo nome, uma nova vida e um novo propósito. De igual modo, as nossas últimas palavras para Jesus não deviam ser perguntas sobre um qualquer reino terreno nem nada que seja deste mundo. Antes, devemos pedir-lhe uma bênção – que aquele que Ascende nos dê uma nova vida e propósito através do dom do Espírito Santo.

Numa segunda história do Antigo Testamento temos os profetas Elias e Eliseu (2 Reis 2: 1-14). Quando o seu mentor e mestre é elevado ao Céu, Eliseu segue Elias desde Betel ao Jordão, em Jericó. Ambos parecem saber que Elias está prestes a partir. A multidão pergunta a Eliseu: “Sabes que o Senhor hoje tomará o teu senhor por sobre a tua cabeça?”. Ele responde, de forma abrupta, “Também eu bem o sei. Calai-vos”. Depois, quando chega a hora de Elias ser arrebatado aos Céus, Eliseu suplica: “Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim”.

Porquê uma porção dobrada? Uma porção não seria mais que suficiente? É um pedido curioso e muito se tem escrito sobre ele. Mas para o que hoje nos interessa bastará focarmo-nos no atrevimento do pedido. Eliseu não se limita a pedir, não pede sequer o mesmo, não pede apenas um pouco! Ele pede uma porção dobrada daquele mesmo Espírito que fez de Elias tão grande testemunha da aliança.

Este atrevimento deve ser também o nosso quando acompanhamos o Senhor até à sua Ascensão: Dai-me uma porção dobrada do vosso espírito. Para quê fazer cerimónia a pedir aquilo que Ele já deseja oferecer – e oferecer em abundância – e que ascende precisamente para poder conceder? Este é o atrevimento que devia caracterizar os próximos nove dias, enquanto rezamos pelo dom do Espírito prometido. Esse atrevimento alarga o nosso coração para receber aquilo que Ele já tenciona conceder.

Agora ele ascendeu para poder dar-nos dons. Ordenou que esperemos pelo poder que vem do Céu. Agora, enquanto nos preparamos para o Pentecostes e para receber o dom do Espírito Santo, rezemos com a insistência de Jacob e com o atrevimento de Elias. Vinde, Espírito Santo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 30 May 2012

A dor do Papa e heróis portugueses no Holocausto


Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho
Já começou em Milão o Encontro Mundial das Famílias. Já há milhares de pessoas naquela cidade e hoje puderam ouvir os Cardeais Ravasi e George Pell a falar sobre a “Casa” e o “Trabalho”.


Ontem foi lançado um livro sobre “Portugueses no Holocausto”, de Esther Mucznik. A autora esteve na Renascença e teve uma interessante conversa sobre a obra e o papel dos portugueses naquela tragédia, entre heróis e vítimas. (Na imagem, dois dos heróis).

Em Portugal nota-se cada vez mais a escassez de padres, mas não em todo o país! Os Açores, pelos vistos, têm a mais e estão dispostos a emprestar.

Hoje publicamos o 20º artigo de The Catholic Thing em português. O Jesuíta James V. Schall fala do Pentecostes e explora aquele conceito que tanto confunde os cristãos: O Espírito Santo. Vale a pena ler.

Pentecostes


James V. Schall, S.J.
Sempre gostei daquela passagem do primeiro capítulo dos Actos dos Apóstolos, a cena da Ascensão, em que, tendo observado os últimos momentos de Cristo na terra, aparecem dois anjos que perguntam aos apóstolos: “Porque estais aí a olhar para o céu?”

Com todo o respeito pelas mentes angélicas, não percebo que mais é que os apóstolos deveriam estar a fazer perante uma cena tão formidável. A repreensão é normalmente compreendida como sendo um espicaçar para que os Apóstolos comecem a cumprir a missão que o Senhor os deixou. A contemplação deveria extravasar para a acção. Ainda assim, os Apóstolos precisavam de algum tempo para absorver tudo aquilo.

A outra passagem está em Actos 19. Paulo está para os lados de Éfeso. Pergunta a uns discípulos se ja receberam o Espírito Santo. Eles respondem com franqueza: “Mas nós nem sequer ouvimos dizer que existe o Espírito Santo”. Pensando bem, de certeza que a maioria das pessoas no mundo hoje, se questionadas, responderiam da mesma forma. E nós, cristãos, que ouvimos falar no Espírito Santo ficamos confusos com a sua presença na Santíssima Trindade e no mundo. Esta confusão é um incentivo para pensarmos nesse mesmo Espírito Santo.

A cena de Pentecostes no Evangelho de São João surpreende-nos por outra razão. Os discípulos estão numa sala com as portas fechadas, com medo dos judeus. Cristo aparece no meio deles e diz-lhes: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

Eles sabiam o que significava uma tarefa enviada pelo Pai. Então Cristo respirou sobre eles: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados, mas aqueles a quem os retiverdes, serão retidos.” Com esta missão eles estão agora ligados ao plano divino através do mesmo Espírito Santo enviado pelo Filho e o Pai. O que é que isto significa?

São Basílio Magno escreveu um tratado sobre o Espírito Santo. “Os títulos dados ao Espírito Santo devem certamente mexer com a alma de quem os ouve”, diz-nos. “Eles levam-no a perceber que se trata de nada menos que o Ser supremo.” Que títulos são esses? Ele é “conhecido por Espírito de Deus, Espírito da verdade, que procede do Pai, o Espírito constante, o Espírio que guia. Mas o seu título principal e mais pessoal é Espírito Santo.” A Santidade representa a Trindade na sua vida interior.

No Credo de Niceia dizemos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, que procede do Pai e do Filho; com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele falou pelos profetas.” Como é que entendemos que o Espírito “falou pelos profetas”?

Como é evidente, o que se passou no Antigo Testamento, aliás em todo o cosmos, bem entendido, foi a preparação para a Encarnação do Verbo no meio de nós. Da mesma forma, depois do regresso de Cristo para o Pai, o Espírito – o advogado – é-nos enviado para executar este mesmo plano.

A ideia de que possamos estar envolvidos num “plano” a ser executado pela divindade no meio de nós parece-nos um atentado à nossa autonomia. Não precisamos de ajuda. Supostamente é essa a nossa dignidade. Contudo, no seu discurso de despedida aos cristãos de Éfeso, Paulo, que não espera voltar a vê-los, diz que pregou o plano, ou o propósito, de Deus. Não se trata do seu plano pessoal.

Outro dos nomes dado ao Espírito é “dom”. A vida interior da Trindade desemboca no Espírito Santo. A plenitude da vida já está aqui. Ela não “precisa” de mais nada. Deus não precisa de nós porque lhe falta alguma coisa, não é essa a natureza da nossa relação com Ele.

À primeira vista pode parecer que este facto diminui a nossa significância. Mas é precisamente o contrário. Nós relacionamo-nos com Deus inteiramente por dádiva. Aquilo que somos neste mundo teve origem em algo que está para além da justiça. Existimos por causa da abundância, e não da necessidade, que existe no seio da Trindade. Este facto significa que tudo de nós, incluindo nós mesmos, é dom.

São Basílio também nos diz que o Espírito “ilumina aqueles que foram purificados de toda a mancha do pecado e torna-os espirituais pela comunhão consigo.” Às vezes esquecemo-nos que Cristo veio para o mundo para nos redimir dos pecados. Ele não veio para os ultrapassar, para nos dizer que não interessavam ou para fingir que nunca tinham acontecido. Ele veio para nos perdoar.

O que torna o Cristianismo diferente de todas as filosofias e religiões não é que elas não têm conhecimento do pecado ou de que há algo de mal com a humanidade; é que elas não têm forma de perdoar os pecados. Sozinhos, os cristãos também não. Também isso é algo que nos é dado.



James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 29 de Maio 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 25 May 2012

The butler did it!


Paolo Gabriele, mordomo de Bento XVI

A culpa, obviamente, era do Mordomo! O mordomo do Papa foi hoje detido no Vaticano, parece que terá estado envolvido na divulgação de documentos secretos da Santa Sé.


E este fim-de-semana é o Pentecostes. Digo fim-de-semana porque para os cristãos é no Domingo, mas para os judeus é no Sábado. Para esta reportagem falei com o padre Pedro Lourenço sobre a vertente cristã e com o rabino de Lisboa Eliezer Shai, foram duas curtas conversas muito interessantes, que podem ler na íntegra clicando nos links.

"Pentecostes é entrega da nova lei, gravada nos corações"


Transcrição integral da entrevista ao padre Pedro Lourenço, sobre a importância e o significado da festa de Pentecostes para os cristãos. A notícia encontra-se aqui.

Qual é a importância da festa do Pentecostes?
A solenidade de Pentecostes é o encerramento do tempo da Páscoa, é o último dia do Tempo Pascal. Não é só uma festa de fecho mas de completar aquilo que é o sentido da Páscoa. O tempo pascal é o tempo em que celebramos a Ressurreição de Jesus e o seu dom mais importante, o dom do Espírito.

Cinquenta dias depois há esta celebração para recordar aquilo que aconteceu aos apóstolos, descrito no Acto dos Apóstolos, o dom do Espírito sobre os apóstolos reunidos em oração e, por sua vez, a sua missão para toda a Igreja e envio ao mundo.

É a altura em que a Igreja sai do Cenáculo…
É interessante reparar que a tradição cristã, e a tradição litúrgica na vivência cristã, coloca a celebração do dom do Espírito no chamado dia de Pentecostes que já se chamava assim na própria vivência judaica. Era já um dia significativo para o calendário judaico.

Mas no Evangelho de São João o dom do Espírito não acontece assim separado 50 dias da Páscoa. Na tarde da Ressurreição estavam reunidos os apóstolos e Jesus aparece no meio deles e comunica-lhes o Espírito Santo. Sopra sobre eles e diz: “recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados”.

Portanto o dom do Espírito na perspectiva da teologia de São João é um fruto imediato da Páscoa, na perspectiva dos Actos dos Apóstolos, e isso depois marcou o calendário cristão. Acontece 50 dias depois da Páscoa, a culminar esta obra de Cristo. É a realização da promessa que tinha feito aos discípulos: “Eu vou para o Pai, mas sereis revestidos da força do alto e sereis minhas testemunhas”, neste sentido pode-se dizer que é de facto a manifestação deste dom de Deus que faz com que a Igreja se manifeste ao mundo realizando a sua missão.

A Igreja nasceu na Cruz, mas a manifestação da Igreja e a sua capacidade de testemunhar é fruto do Espírito que se manifesta agora no Pentecostes.

Se os Judeus celebram a entrega da Lei a Moisés neste dia, do ponto de vista cristão pode-se ler o Pentecostes como o dom de interpretar correctamente a Lei?
Essa perspectiva não está excluída, mas mais do que isso, trata-se de entender o espírito como a plenitude da Lei, a nova Lei de Deus, gravada nos corações, pelo dom do Espírito.

Para os judeus esta festa era primeiramente a festa das colheitas, depois ganha esta perspectiva teológica de ser o dom da Lei.

Sem dúvida que os acontecimentos bíblicos servem-se da perspectiva profética que existia na vivência da fé judaica, dando um novo sentido, um sentido cristão, ao que se realizava. O chamado dia de Pentecostes não é um nome cristão, os actos dos Apóstolos dizem que “quando chegou o dia de Pentecostes os apóstolos estavam reunidos”, era já um dia assim chamado no próprio calendário judaico e significava os 50 dias depois da Páscoa judaica, também.

É entendido na perspectiva cristã como o completar-se desta obra pascal pelo dom do Espírito e nesta perspectiva da Lei como a nova Lei dada por Deus a partir de Cristo, que não anula a Lei anterior, que a leva à plenitude, como o próprio Cristo diz.

Que tradições estão associadas a esta festa litúrgica?
Nós agora referimo-nos ao Pentecostes como o quinquagésimo dia, ou seja, cinquenta dias depois da Páscoa, mas nos primeiros séculos os autores referiam-se ao “tempo de Pentecostes”, ou seja ao tempo dos cinquenta dias entre o tempo de Páscoa e o quinquagésimo dia.

Todo este tempo era o “tempo do Pentecostes” e por isso o tempo do Espírito Santo, e na tradição popular portuguesa encontramos as Festas do Espírito Santo, muito vincadas nos Açores. Este culto ao Espírito Santo manifesta-se como experiência de caridade, de vivência da humildade. Isso manifesta-se na caridade fraterna, a matança do boi e da carne que chega para todos, do pão dado a todos, as sopas do Espírito Santo, nos Açores.

Aqui no Continente essas tradições perderam-se bastante, ainda se conserva nalguns locais mas com pouca expressão, por exemplo em Alenquer havia as festas do Espírito Santo; e no Penedo, em Sintra. A festa dos Tabuleiros em Tomar tem, creio, essa origem, com a ideia do pão para todos. Isto ligado à tal tradição judaica de acção de graças pela colheita, aquilo que recebemos como dom de Deus reparte-se para todos pela acção do Espírito, que é amor.

"Podia ser um dia de aproximação"


Rabino Eliezer Shai
Transcrição integral da entrevista ao rabino Eliezer Shai, sobre a importância e o significado da festa de Shavuot [Pentecostes]. A notícia encontra-se aqui.
Rabino Eliezer Shai

Qual é a importância da festa de Shavuot no calendário judaico?
Shavuot faz parte de um ciclo único com a Páscoa. O facto de se chamar Pentecostes, que é uma palavra grega, é por ser o quinquagésimo dia. Da Páscoa contamos 49 dias e o 50º é Shavuot.

Na Páscoa os judeus ganharam liberdade física, o princípio de uma nação, é imprescindível que essa nação seja livre. No Pentecostes recebem a própria constituição, que é a Torá, com a revelação no Monte Sinai. Biblicamente vemos que Shavuot tem várias denominações: Shavuot, que significa festa das semanas, porque se contam sete semanas desde a Páscoa; Festa das Colheitas, porque é nessa altura que se começa a fazer as colheitas dos frutos, e também o Dia das Primícias. Outro significado é o dia da entrega dos dez mandamentos no Monte Sinai.

Que tradições estão associadas ao Shavuot?
Na altura do Templo fazia-se a oferta das primícias e de dois pães feitos com a primeira farinha produzida depois da Páscoa.

Hoje em dia o que fazemos são as orações, dois dias para os judeus na diáspora, um dia em Israel. Lê-se publicamente a passagem do Êxodo, da entrega dos dez mandamentos, os três dias à volta do Monte Sinai, e a grande epifania, da revelação colectiva dos dez mandamentos e da Torá.

Além disso lemos também o Livro de Rute, porque Rute converteu-se ao judaísmo, passou a ser parte do nosso povo, aceitou a Torá. Assim como o povo de Israel aceitou a Torá nesse dia, Rute recorda-nos esse processo.

Poderia ser um dia de aproximação e aprofundamento entre cristãos e judeus?
Eu gostaria muito que assim fosse. Não tendo nenhuma coisa negativa associada a este dia, podia ser bem um dia de aproximação e conhecimento entre as duas fés. Não sei, nem sou expert, até que ponto, entre o povo, o dia de Pentecostes é considerado um dia importante.

Mas podia-se fazer previamente uma actividade de Estudo em conjunto para conhecer esse dia tão importante para as duas religiões.

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