quarta-feira, 9 de maio de 2012

Obediência


Pe. Bevil Bramwell, OMI
Na sua recente homilia de Quinta-feira Santa, o Papa Bento XVI referiu-se ao apelo à desobediência de alguns membros do clero na Europa. A obediência, por uma série de razões, não é um conceito popular. A maioria dessas razões são psicológicas e, por isso, não estão aqui em discussão.

Mas uma razão cultural é de que a obediência a um superior terreno, como um padre ou um bispo, é visto como humilhante. Contudo, a lógica não faz sentido. Apenas se deve obediência a um superior (outra palavra politicamente incorrecta) que nos pede para fazer algo que seja moralmente bom. Como é que isso pode ser humilhante?

Estamos aqui para fazer o bem, mas nem sempre sabemos ao certo que bem é esse. Não há maior bem que seguir a Cristo. Os pastores, superiores religiosos e bispos apenas querem ajudar as pessoas a seguir a Cristo.

É interessante que as pessoas que têm dificuldades em obedecer à igreja não deixam de obedecer ao patrão, ao meteorologista, ou ao polícia, e não notam qualquer inconsistência. Seguir a Cristo e à sua Igreja é o maior de todos os bens.

Outra razão invocada para a desobediência é de que obedecer a uma autoridade eclesial dá demasiado poder à Igreja, algo que é simplesmente inaceitável na era do material. Sim, fazer o bem tem, de facto, o seu próprio e extraordinário poder na cultura.

Veja-se a Igreja na Polónia debaixo dos nazis e dos comunistas. Veja-se a Igreja nos Estados Unidos onde tantas paróquias e institutos de solidariedade social trabalham no silêncio, ajudando os sem-abrigo, os doentes e os moribundos, para falar de apenas uma grande área de serviço.

O tipo de poder que despertou a objecção original à obediência data do Iluminismo, quando o poder da Igreja estava demasiado próximo das elites políticas e económicas em vários países. Mas essa aliança há muito que foi desfeita, por exemplo nos Estados Unidos. E é bom que assim seja, porque essa separação permite à Igreja ser Igreja, em vez de um mero passatempo das elites.

A obediência devia ser um conceito popular, porque apenas crescemos quando algo nos chega do exterior. Pode ser tão simples como comida ou tão fundamental como o mandamento de amar e seguir a verdade. Estamos vinculados a realidades maiores: em bebés, aos nossos pais; enquanto estudantes, às universidades; enquanto trabalhadores, às fábricas; enquanto católicos, à Igreja, e por aí fora.

Um sacerdote a prometer obediência ao seu bispos
A lista é interminável. Não podemos viver sem esta quantidade de coisas que todos os dias nos chegam. O amor, a comida, a informação, o exercício dos nossos direitos económicos e políticos, tudo isto abre a nossa vida a algo maior. Por isso mesmo num sentido puramente natural: “De facto, nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. (Romanos 14,7).

Mas na verdade, nessa passagem, Paulo estava a escrever sobre pessoas no exercício da fé. A obediência – a entrega de nós mesmos – faz parte da estrutura da fé. Não há outra forma de o exprimir: “não há outra possibilidade para possuir certezas em relação à nossa vida se não pelo abandono de si, em crescendo contínuo, nas mãos de um amor que parece aumentar constantemente, porque tem a sua origem em Deus.” (Bento XVI). Trata-se de um abandono nas mãos de Cristo, que nos chega pela Igreja. É por isso que a Igreja é apelidada de “nossa mãe”.

Falando de apenas uma vertente deste abandono: entregamo-nos aos documentos do Vaticano II e podemos dizer, com Bento XVI: “Devem ser lidos correctamente, conhecidos por muitos e entendidos pelo coração como sendo textos importantes e normativos do Magistério, no contexto da Tradição da Igreja... Sinto cada vez mais que é meu dever apontar para o Concílio como sendo a Graça dada à Igreja no Século XX: é lá que encontramos uma bússola segura para nos orientar neste século que agora se inicia.”

E continua:

“Gostaria de sublinhar aquilo que tive ocasião de dizer sobre o Concílio alguns meses depois da minha eleição como Sucessor de Pedro: ‘se formos guiados por uma hermenêutica correcta na sua interpretação e implementação, ele pode-se tornar um instrumento cada vez mais poderoso e necessário para a renovação da Igreja.”

A nossa obediência consiste, portanto, numa complexa leitura e interpretação de documentos da Igreja. Ela abre-nos para a Graça e leva à conversão e à renovação!

Termino com um pensamento de Henri de Lubac S.J.: “Uma aprendizagem deste género nunca termina; é dura para a nossa natureza e os homens que se acham mais iluminados são os que têm maior necessidade (é por isso que é particularmente útil para eles), de modo a que sejam esvaziados da sua falsa riqueza, ‘para humilhar os seus espíritos sob uma autoridade visível’ (Fénelon)”.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 6 de Maio 2012 em www.thecatholicthing.org)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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3 comentários:

  1. Como texto devocional sobre a obediência, parece-me muito bem. Mas infelizmente não aprofunda o tema até onde ele merece, ou seja, onde ele se torna problemático.

    Assim que se vamos um pouco mais fundo, cedo percebemos que a obediência pura e simples é suficiente para as crianças mas não para os adultos. Por exemplo: este artigo não considera que existem diferentes níveis de obrigação em relação ao que a hierarquia diz ou escreve; não considera que a hierarquia da Igreja possa cometer erros (e devemos ser humildes e prontos a reconhecê-los); não considera assuntos difíceis em que as respostas não são óbvias e o discernimento se torna necessário.

    Também seria especialmente cauteloso ao afirmar: "apenas crescemos quando algo nos chega do exterior": parece-me perigoso! Parece que só temos mal (ou vazio) em nós. Que antropologia é essa? Se Deus vive em nós - como eu acredito - a verdadeira obediência deve vir (também) do nosso íntimo mais íntimo!

    Obrigado por me fazer reflectir sobre este tema.

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  2. O meu principal obstáculo é esta frase: "Os pastores, superiores religiosos e bispos apenas querem ajudar as pessoas a seguir a Cristo"
    Num mundo ideal isso é verdade. Mas infelizmente não faltam casos na história recente da Igreja de pastores, superiores religiosos e bispos que se preocuparam mais em proteger reputações do que em ajudar as pessoas a seguir a Cristo.

    Quanto ao "apenas crescemos quando algo nos chega do exterior", compreendo o que diz o autor. Não é que apenas tenhamos mal ou vazio dentro de nós, mas o bem que temos tem de ser estimulado para crescer. É assim que entendo a ideia da fé ser um dom que recebemos, sozinhos não vamos lá, e devo essa ideia a um seu colega jesuíta.

    Por fim, não obstante as questões que levantou, não esqueçamos o contexto: o tal "apelo `desobediência" que o autor refere, que se me afigura chocante.

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  3. Sim, quem acredita em Cristo e na «Sua» Igreja, sujeita-se a Cristo e à «Sua» Igreja, que é assistida pelo Espírito Santo. Mas... Jacques Maritain distinguiu muito bem entre «a pessoa da Igreja» e «o pessoal da Igreja».
    V. o livro: «De l'Église du Christ. La personne de l'Église et son personnel», Desclée de Brouwer, 1970. Vale a pena voltar a esse livro magnífico, que coloca bem a questão e aprecia casos históricos, mas não resolve os nossos casos concretos.
    Muito obrigado, Filipe, pelo seu blog.
    Fernando Católico

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