quarta-feira, 2 de maio de 2012

Então confessei-me, não posso fazer outra coisa


[Nota: O título original é: “Then I confessed, I can do no other”, que é claramente um jogo de palavras e uma referência a Martinho Lutero que, aquando da sua ruptura com Roma declarou, referindo-se às suas posições: “Here I stand, I can do no other”, que já vi traduzido para português como “Aqui estou, não posso fazer outra coisa”. A pertinência da citação fica clara ao longo do texto]

Francis J. Beckwith
No dia 29 de Abril de 2007 fui recebido publicamente na Igreja Católica, na paróquia de St. Joseph em Bellmead, Texas. Com a minha mulher, Frankie, ao meu lado, de pé diante do padre Timothy Vaverek, que presidiu à breve cerimónia entre a homilia e a recitação do Credo da missa de Domingo. A Frankie foi recebida como catecúmena uma vez que, ao contrário de mim, não tinha sido baptizada nem crismada em nova.

Frankie mal podia esperar para se tornar católica e achou um bocado injusto que nós, os regressados, tínhamos esta escapatória: Tudo o que eu tinha de fazer era usufruir do Sacramento da Confissão. Felizmente para ela, o padre Timothy fez-lhe um curso intensivo de iniciação ao Catolicismo que culminou com a sua recepção no mês de Agosto seguinte.

No dia 28 de Abril fui-me confessar pela primeira vez em 30 anos. O meu irmão mais novo, James, enviou-me um e-mail a oferecer-se para me ajudar a recordar os meus pecados.

Quando entrei no confessionário sentei-me de frente para o padre Rakshaganathan Selvaraj (ou “padre Raj”), fechei os olhos, fiz o sinal da cruz e disse, “Passam 30 anos desde a minha última confissão. Não sei se me consigo lembrar de todos os pecados.” Com o seu sotaque indiano cerrado o padre Raj respondeu: “Não se preocupe. Deus sabe-os todos.” “Era o que eu temia”, disse eu.

O padre Raj ouviu a minha confissão e deu-me a absolvição. A minha penitência, se bem me lembro, foi um Pai Nosso e uma Avé Maria. Quando contei à Frankie ela achou que tinha sido bem leve. Tem razão, ela conhecia os meus pecados.

Quando nos decidimos tornar católicos procurámos os conselhos de amigos de confiança. Isto porque naquela altura eu era presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS), uma associação de biblistas, teólogos, filósofos, historiadores e pastores protestantes que em 2007 tinha quase 4500 membros. Por isso é que, inicialmente, tinha decidido adiar a nossa recepção na Igreja até depois do fim do meu mandato em Novembro de 2007.

Os nossos amigos protestantes acharam boa ideia e recomendaram-nos que mantivéssemos as nossas intenções para nós até depois de Novembro. Os nossos amigos católicos tinham outra perspectiva, estavam preocupados que a notícia saísse e causasse escândalo. Sugeriram que anunciássemos aquilo que pretendíamos fazer. Sem saber que conselhos seguir, rezámos sobre o assunto.

Duas semanas mais tarde estávamos a tomar o pequeno-almoço com os meus pais em Washington. Tínhamos vindo ao casamento do meu primo Jimmy Sclafani. Tocou o meu telemóvel. Era o meu sobrinho Dean, de 16 anos, o filho mais velho do meu irmão James. Dean pediu-me para ser o seu padrinho de crisma. Vários meses antes os seus tios, tias e avós tinham-lhe escrito cartas, a pedido da sua mãe Kimberly, a explicar porque é que o Crisma era importante.

Embora ainda fosse protestante quando escrevi a minha carta (embora já claramente a caminho de Roma, mas sem ter chegado lá), via o Crisma como uma forma pela qual um Católico anuncia publicamente a sua fidelidade a Jesus Cristo. Encarei o desafio de forma séria. Poucos anos antes, quando tinha 12, o Dean tinha-se debatido com a questão da existência de Deus e a racionalidade da crença cristã. Sabia que tinha de escrever uma carta que lhe tocasse tanto na mente como no coração.


Comecei por lhe dizer que Jesus Cristo era o homem mais inteligente que alguma vez tinha vivido. Depois expliquei o grau de influência que Ele e os seus discípulos tinham tido – na literatura, nas ciências, no direito, na medicina, na filosofia, na teologia e na política. Disse ao Dean que, ao colocar a sua confiança em Cristo, estava a entrar numa rica tradição intelectual e espiritual, sem paralelo na história da Humanidade.

Quando me ligou naquela manhã disse-me que tinha sido a minha carta a convencê-lo a receber o sacramento. Pousei brevemente o telefone e disse à Frankie “acho que as nossas orações foram atendidas.” O Crisma de Dean era daí a quatro semanas, não poderia ser seu padrinho se não estivesse em comunhão com a Igreja. Uma semana mais tarde, no dia 28 de Abril, entrei no confessionário. No dia seguinte fui recebido publicamente na Igreja.

Nessa noite escrevi uma carta aos outros membros da direcção executiva do ETS, a dizer-lhes o que tinha feito. Contudo, garanti-lhes que poderia continuar como presidente uma vez que não havia nada na declaração de crenças da sociedade com a qual um católico não pudesse concordar. Estava a ser ingénuo. Menos de uma semana mais tarde demiti-me, percebendo que não podia permanecer no cargo sem causar escândalo.

Quando fui eleito presidente da ETS em Novembro de 2006 estava longe de imaginar que menos de seis meses mais tarde estaria de volta à Igreja. É verdade que me tinha aproximado do Catolicismo na década precedente, mas havia ainda alguns assuntos que considerava impeditivos, e estava certo que continuariam a sê-lo. Estava enganado. Nos meses seguintes os obstáculos dissiparam-se a uma velocidade alarmante. As escamas caíram-me dos olhos.

Então confessei-me, não podia fazer outra coisa.



Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de “Return to Rome: Confessions of AnEvangelical Catholic” (Brazos, 2009) e um dos quatro principais autores de "Journeys of Faith: Evangelicalism, Eastern Orthodoxy, Catholicism andAnglicanism" (Zondervan, 2012).

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 27 de Abril 2012 em www.thecatholicthing.org)

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