Showing posts with label Evangélicos. Show all posts
Showing posts with label Evangélicos. Show all posts

Thursday, 12 October 2023

A complexa relação entre cristãos e Israel

[Artigo escrito originalmente em 2012, actualizado em 2023]

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui um ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há 75 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos, o que neste contexto não significa necessariamente “interesseiros”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Ao contrário do que se possa esperar, nem sempre os melhores amigos de Israel são os judeus noutros países - muitos dos quais são até bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é uma realidade confinada à América.

Os evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas por razões mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista que defende que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final.

Claro que muitos desses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem acolhido a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral, assumindo a forma de ajuda financeira e política.

A situação muda de figura com as igrejas evangélicas mais liberais/progressistas, que tendem a apoiar mais a causa palestiniana, mas estas são menos expressivas, porque menos organizadas.

Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com antissemitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anticristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Os interesses do Vaticano na Terra Santa são representados pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, cujo Patriarca, Pierbattista Pizzaballa, foi recentemente elevado a cardeal. Quando recebeu do Papa os símbolos cardinalícios, este disse-lhe "força, coragem!", mostrando entender a delicadeza da sua posição, de ter de cuidar de cristãos de ambos os lados da barricada e de lidar com as autoridades árabes e judaicas.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto no território da Administração Palestiniana (mais na Cisjordânia do que em Gaza, mas a diminuir em ambos), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos e aquele que foi talvez o único exemplo de um bispo detido por tráfico de armas foi o palestiniano Hilarion Capucci.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana
Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade da zona, que acaba por desembocar em perseguições anticristãs.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados - sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição - e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas. Ainda recentemente, quando começou este novo conflito em Outubro de 2023, o Governo israelita criticou o Papa por apelar à paz e à contenção de ambas as partes, acusando-o de falsos paralelismos.

Por fim, temos o factor ortodoxo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. O Patriarcado de Constantinopla tinha a sua sede precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
Aos olhos dos Otomanos, os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras instituições, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que os ortodoxos tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado, os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Quem são os cristãos na Terra Santa?

Normalmente olhamos para a Terra Santa, e para o conflito entre Israel e a Palestina, como uma dicotomia judaica-muçulmana, mas são muitos os cristãos que vivem nestes territórios. 

Os mais numerosos são os cristãos árabes, identificados hoje em dia como palestinianos. Neste momento estes constituem cerca de 3% da população na Faixa de Gaza e da Cisjordânia, embora historicamente tenham sido uma percentagem muito maior, que foi diminuindo pelo facto de os cristãos emigrarem em muito maior proporção que os muçulmanos. 

Entre a comunidade árabe/palestiniana que vive em Israel a percentagem de cristãos é significativamente maior, cerca de 7%, o que representa a vasta maioria dos cristãos israelitas (75%). Os cristãos palestinianos dividem-se mais ou menos em igual número entre católicos e ortodoxos, sendo que existem católicos de rito latino e de rito oriental, principalmente melquita. 
Judeus messiânicos

Os restantes cristãos em Israel são de diferentes comunidades, incluindo entre três e seis mil arménios. Há um número muito significativo de russos de ascendência judaica que emigraram para Israel mas cujas famílias tinham entretanto convertido ao cristianismo, pelo que existem dezenas de milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa Russa no país. O mesmo se aplica a alguns milhares de membros da comunidade etiope em Israel. 

Existe também uma relativamente pequena, mas significativa comunidade de cristãos de língua hebraica. Integrada na Igreja Católica de rito latino, esta comunidade é composta por judeus convertidos ao Cristianismo, mas também por descendentes de católicos que já nasceram em Israel e para quem o hebraico é a língua materna.

Por fim, existem algumas comunidades protestantes, a mais polémica das quais são os chamados "judeus messiânicos", que são judeus que acreditam que Jesus é o Messias prometido a Israel e que são por isso cristãos, mas continuam a vestir-se e a comportar-se como judeus, procurando muito activamente converter outros judeus à sua fé. Por causa do seu proselitismo, são muito mal vistos por judeus devotos em Israel. Segundo alguns dados, existem mais de cinco mil judeus messiânicos em Israel.

Thursday, 21 January 2021

Médicos a escolher quem vive e quem morre é mau, menos quando é bom

Quando regressei, há uns meses, disse que ia tentar voltar a mandar estes mails com regularidade. Ao longo do último mês isso foi completamente impossível, por várias razões, e por isso peço desculpa. Agora vai assim, dia-a-dia, a ver o que se consegue fazer.

Os bispos voltaram a suspender as missas com presença de fiéis, numa altura em que a Covid atingiu dimensões nunca vistas em Portugal. A maioria das comunidades religiosas minoritárias já tinha tomado decisão igual antes.

E numa altura em que morrem centenas de pessoas por dia de coronavírus e os médicos choram, literalmente, por se encontrarem na posição de ter de decidir quem vive e quem morre, o nosso Parlamento não achou melhor ideia do que aprovar uma lei que permite aos médicos matar os seus doentes. A lei da Eutanásia segue agora para Belém, veremos o que acontece a seguir.

Biden foi empossado ontem. A cerimónia teve muita simbologia e linguagem religiosa e o Papa mandou uma mensagem. O presidente da Conferência Episcopal Americana também o fez, mas essa não caiu tão bem, causando até divisões dentro do episcopado. A relação entre Biden e os bispos promete dar que falar e foi tema do artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

O tribunal do Vaticano condenou hoje a penas pesadas dois ex-dirigentes do Banco do Vaticano, um com 81 anos e outro com 97 e ainda confiscou dezenas de milhões de euros das suas contas!

Como sabem estive a coordenar a publicação no site da Renascença de uma série de Postais de Quarentena. Hoje publicámos o 100º, mas um dos mais recentes foi um postal da clausura, escrito pelas monjas de Campo Maior, que podem ler aqui.

Friday, 17 November 2017

Liberdade Religiosa nos quartéis e dia Mundial dos Pobres

Existe liberdade religiosa nas Forças Armadas? Os militares evangélicos têm dúvidas e o assunto foi discutido ontem numa conferência na Academia Militar. Leia e conheça o capelão do hospital das Forças Armadas que só pode trabalhar como voluntário.


Hoje é o primeiro Dia Mundial dos Pobres, mas em muitos sítios a data será assinalada no Domingo. Em Lisboa a Cáritas organiza uma caminhada, em Roma o Papa almoça com 1.500 pobres.

O Papa publicou esta sexta-feira uma mensagem a dizer que visita a Birmânia com uma “mensagem de reconciliação, de perdão e de paz”.

Terminou ontem a reunião plenária dos bispos portugueses. Na conferência de imprensa final D. Manuel Clemente falou sobre a (não) admissão de homossexuais no seminário e do padre madeirense que assumiu ter tido um filho. No campo da educação os bispos têm recados para o Governo.

Decorre no Vaticano um encontro sobre os cuidados no final da vida. O Papa enviou uma mensagem aos participantes, criticando tanto a eutanásia – que é sempre errada – como a distanásia.

Wednesday, 19 July 2017

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 8 September 2015

Nulidade agilizada e solidariedade com refugiados

Os processos de nulidade dos casamentos católicos vão ser mais rápidos e simples a partir de Dezembro. Com as reformas introduzidas pelo Papa há mais responsabilidade do bispo local o que deverá resultar em menos espera por parte de quem se encontra nestas situações complicadas.

Um especialista português fala mesmo num conceito de “via verde” da nulidade.

Numa altura em que se continua a falar muito da crise dos refugiados, um bispo húngaro criticou os pedidos do Papa para acolher quem pede ajuda. Mas a conferência episcopal da Hungria, numa prova de unidade com Francisco, publicou ontem uma carta em que se coloca ao dispor para acolher quem precisar.

Em relação ao tema dos refugiados, a sociedade civil continua a mexer-se e as igrejas vão fazendo a sua parte. De um amigo evangélico recebi a informação deste evento de 24 horas de oração pelos refugiados, para o qual todos, católicos, protestantes ou outros, se devem sentir convidados!

Ao longo destes dias era suposto ter-se realizado uma visita da imagem peregrina de Fátima a Damasco, mas tal não foi possível por razões de segurança. Mas a oração é sempre possível e por isso a fundação Ajuda à Igreja que Sofre pede que se intensifique a oração pela paz na Síria nestes dias.

Friday, 29 November 2013

“Defender os ciganos é a quinta-essência do Cristianismo”

Transcrição integral da entrevista a Francisco Monteiro, director executivo da Pastoral dos Ciganos. Notícia aqui.

Como é que se começou a envolver com as comunidades ciganas?
Há 14 anos um dos primeiros directores nacionais da Pastoral dos Ciganos, o Padre Filipe Figueiredo, que já morreu há anos, disse-lhe que estava um bocado mais livre, porque tinha saído de um cargo importante numa universidade, e ele pediu-me para o ajudar a preparar uma exposição internacional da cultura cigana, em 1997, para coincidir com a Expo de Lisboa. Caí na asneira de dizer que sim, mas é claro que não estou arrependido e estou a trabalhar com ciganos, como voluntário, desde então.

A minha experiência com ciganos então era nula. Não conhecia nada. Foi uma aprendizagem a partir do zero.

Mas tinha conceitos, nem que fossem preconceitos…
Tinha aqueles de criança, que em adulto não me afectavam muito. O que ouvíamos em criança, que os ciganos roubavam as crianças, coisas desse género. Mas na fase adulta eram pessoas que se cruzavam comigo. Tinha tido uma paixão muito grande pelos africanos, em Moçambique, onde estive três anos. Mas os ciganos descobri-os rigorosamente em 1997.

Nas conclusões do vosso encontro lê-se que faltam mais iniciativas de actos litúrgicos que envolvam as pessoas de etnia cigana e que se adaptem à sua cultura. Por exemplo?
Faltam mais experiências dessas. Já houve uma em Cuba, no Alentejo, pelo pároco local. Ele decidiu fazer umas celebrações por alma dos ciganos falecidos. Cerimónias pelos mortos, uma coisa a que os ciganos são muito sensíveis. Foram leituras da Bíblia, orações pelos defuntos, uma coisa extraordinária, com um acesso enorme.

Em Lisboa desenvolvemos um projecto chamado Palavra, durante três anos e três anos no Fogueteiro. Um projecto de oração, de meditação da palavra e de esclarecimento da parte espiritual, de evangelização, com o objectivo de preparar ciganos para eles próprios assumirem o papel. Esta última parte é que falhou um bocado, mas a primeira sim, correu muito bem. As pessoas vinham, estavam muito interessadas, houve uns certos conhecimentos do Evangelho, da Bíblia, que foram adquiridos. Tocávamos músicas religiosas, muitas actividades desse género, mas quando as coisas terminaram, terminaram.

A liturgia em África é muito africanizada. As liturgias católicas de rito oriental também são próprias. Não é difícil fazer liturgias adaptadas a ciganos, mas era preciso promover esse tipo de acções.

Celebração evangélica cigana
Seria necessário haver uma maior participação dos ciganos na vida da Igreja, mas a esmagadora maioria dos ciganos não são católicos…
Os ciganos já foram católicos e ainda hoje em dia há católicos. Os que tivemos no encontro são católicos e há católicos que vão regularmente à missa em Lisboa ou noutros sítios. Agora é certo que a maioria, actualmente, passou-se um pouco para a Igreja Evangélica, porque é uma Igreja Cigana. Chama-se mesmo a Igreja de Filadelfia Cigana de Portugal, em que os pastores são ciganos, os cânticos são ciganos, são cânticos para Deus, como dizem, e as regras são ciganas.

É preciso que se diga que a Igreja Evangélica teve uma influência enorme positiva entre os ciganos para os afastar do álcool, da droga, de outros procedimentos errados, foi muito importante e é preciso dizer isso.

A cultura cigana é por natureza religiosa?
É por natureza religiosa. Os ciganos são profundamente religiosos, evidentemente à sua maneira. Os ciganos trazem o seu substrato religioso do Norte da Índia, de onde vêm, e vão-se adaptando às religiões dos países onde passam e onde se estabelecem. Havia uns bastante nómadas, hoje em dia entre nós quase não há nómadas, e por isso chegaram a Portugal e adaptaram-se à religião católica.

Simplesmente a Igreja nem sempre os aceitou bem nem sempre os integrou normalmente, portanto aí não se sentem em casa. Não percebem muito da liturgia. Mesmo os que tivemos no Fogueteiro não iam à missa porque a Igreja da Amora era longe. Depois os scalabrianos construíram uma igreja mesmo no Fogueteiro, mas mesmo assim continuam a não ir. Vão à Igreja de Filadélfia, porque lá as raparigas encontram rapazes para se casarem, etc. A Igreja Católica não lhes diz muito.

Tínhamos de fazer aqui alguma coisa ao nível da Igreja. As cerimónias que tivemos na Amora eram exemplares, porque o pároco em vez de fazer cerimónias separadas só para os ciganos, fê-las integradas nas missas normais, o que foi notável.

Tem conhecimento de algum religioso cigano em Portugal?
Há um, não sei se é padre, que veio de longe e está radicado cá. Mas não se manifesta como cigano. Em Espanha há, mas temos um problema estatístico. Os ciganos em Portugal são 50 ou 60 mil, em Espanha são 700 mil, há muito maior campo de evangelização e facilidade de as pessoas aderirem. Mas é um ponto que nos toca bastante, e que nos faz muita pena, de não haver nenhuma vocação religiosa entre os ciganos em Portugal

Fala-se muito na integração dos ciganos. Os ciganos querem ser integrados?
Os ciganos não querem ser integrados, mas querem ser integrados. Ou seja, eles não querem ser integrados mas querem ser incluídos.

O SOS Racismo fez um inquérito nas câmaras há uns anos, e uma das respostas que obtiveram foi “ciganos sim, desde que sejam iguais a nós”. Os ciganos não querem ser iguais a nós em termos de cultura. Têm a sua cultura própria a que são fortemente fiéis, e muito bem.

A Europa conhece a diversidade cultural e Portugal, que tem uma tradição tão rica de diversidade cultural também o devia aceitar. Eles querem ser incluídos na sociedade, querem ser parte da sociedade, querem funcionar connosco, não querem ser discriminados, e são, sistematicamente, há 500 anos. Expulsos, perseguidos, toda a classe de coisas que depois gera neles um sentimento de autoprotecção e de rejeição da sociedade maioritária onde se inserem.

Eles querem ser incluídos, não querem ser aculturados. Devemos ter respeito pela cultura deles, como disse muito claramente D. Joaquim Mendes, no encontro. Aliás os documentos da Igreja dizem-no claramente, a cultura dos ciganos é rica e tem de ser respeitada. Temos de ir ao encontro.

Dou alguns exemplos. Ao nível escolar havia, e há, o problema da integração das crianças no sistema escolar. Nós tínhamos obrigação de ter um sistema escolar plural, mas não temos, temos um sistema monolítico. As várias experiências que tem havido de adaptar o sistema escolar aos ciganos têm tido pleno êxito, inclusivamente os programas que fazem a ponte entre as comunidades ciganas e as estruturas escolares.

Peregrinos ciganos em Saintes Maries de la Mer
Estamos a falar de programas noutros países?
Estou a falar de Portugal. Temos um programa que é o PIEF, do PIEC, que depende não do Ministério da Educação mas do Ministério da Segurança Social e que tem sido um enorme sucesso. Ainda recentemente tivemos oportunidade de assistir a uma experiência dessas em Évora, na Malagueira, que é a endogeneização do sistema escolar à cultura cigana. Ou seja, a cultura cigana comanda o sistema escolar, ou o sistema escolar adapta-se. Realmente nestes PIEF do PIEC são as próprias famílias que vêm também apoiar a escolarização das crianças e dos jovens. É uma coisa extraordinária, porque demos o passo de dizer, “senhores venham cá”, que é o que se fizéssemos na Igreja também daria resultados.

Para além disto há muita vivência cristã em que a pastoral dos ciganos, quer a nacional quer a das dioceses, faz em relação aos ciganos. No sábado fomos visitar a obra que o Secretariado Diocesano de Lisboa tem na Quinta da Fonte, na Apelação, o famoso bairro que tanto apareceu nas televisões há poucos anos, e que é um trabalho extraordinário de integração dos vários grupos étnicos naquele bairro.

Existe também a ideia de que estamos perante uma cultura extremamente patriarcal, onde a mulher tem um papel subalterno. Não é contraditório querer preservar esta cultura numa sociedade que se quer igualitária?
É uma ideia errada, não é uma sociedade patriarcal, pelo contrário é matriarcal. São as mulheres que transmitem a cultura cigana, os homens observam e protegem a cultura cigana, mas quem verdadeiramente transmite são as mulheres.

Agora, preservar não é preservar as coisas más de uma cultura. As coisas que não batem com a cultura maioritária não podem ser preservadas. Agora, a maneira de ser, a estima que têm pela família… Mas não aquela coisa que eu tanto tenho combatido entre as famílias que conheço, que é deixarem as crianças não irem à escola porque não lhes apeteceu, e eles respeitam as crianças em tudo o que querem, é evidente que isso tem de ser combatido, não há dúvida nenhuma. Mas o respeito pelas crianças e a estima que têm por elas, isso sim temos de aprender com eles. É aproveitar os valores positivos da cultura cigana e tentar que as mentalidades se vão adaptando, o que tem sido feito, realmente.

O estereótipo associa os ciganos à criminalidade, à subsidiodependência, ao tráfego, à venda de artigos contrafeitos etc. É só um estereótipo, ou existe mesmo um problema entre a comunidade? E se sim, como combater?
São as duas coisas. Existem problemas com eles, como existem com qualquer pessoa. Mas aí é que começa o estereótipo. Quando um cigano faz alguma coisa dizem “todos os ciganos fazem”. É como se uma pessoa de alguma terra fizesse alguma coisa e viéssemos dizer que todas as pessoas daquela terra são criminosos. Não estou a exagerar. É tal e qual o que acontece com os ciganos. Recentemente tivemos um caso desses.

Agora, atenção, a comunicação social tem feito um caminho notável contra a estereotipização dos casos com ciganos. Tão notável que quando acontece uma coisa do género dizia-se logo que era de etnia cigana, hoje em dia ainda vão dizendo, mas neste momento acontecem coisas em bairros onde sabemos que vivem muitos ciganos e eu tenho de ligar para lá para saber, porque a comunicação social não associou logo as coisas. A comunicação tem feito isso e muitas outras coisas boas também, por exemplo programas sobre a cultura cigana, sobre as festas ciganas, o que tem sido muito positivo para mostrar que as populações ciganas são muito melhores do que as pessoas pensam que são.

São pobres, na maioria vivem muito mal. Mas a subsidiodependência é mentira, a esmagadora maioria das pessoas que recebem o rendimento social de inserção não são ciganas. Depois há crimes, como cortarem sem qualquer razão o rendimento mínimo a uma família que conheço de 12 pessoas, algumas crianças e bebés. Isto são crimes que nós cometemos contra alguns ciganos.

A recente história da menina “Maria”, na Grécia, prejudicou o vosso trabalho?
Para ser franco, foi positivo para os ciganos, porque isso foi desmontado. Foi descoberto que a criança não tinha sido roubada àquela família irlandesa, pelo ADN que a criança era mesmo cigana e tinha sido mesmo uma família albanesa que a tinha dado a uma família grega, por não a poder criar. Foi um caso miserável da parte da comunicação social, que assumiu como facto uma situação completamente falsa. Assumiu, mas depois não a desmentiu com a mesma força com que assumiu. Essas coisas falsificam a imagem e revoltam e afastam as pessoas, contribuem para as pessoas não serem compreensivas e interculturais. Como D. Joaquim disse no encontro anteontem, rejeitar é pecado. Não pode ser assim.

Beato Zefferino Giménez
Primeiro beato cigano
Os ciganos que vieram de outros países vieram desestabilizar a vida dos ciganos em Portugal?
Eles não se dão muito, embora tenhamos tido um projecto com os ciganos romenos em 2002 que foi operacionalizado por duas ciganas portuguesas, duas irmãs. Foi um projecto relativamente curto.

Os ciganos romenos têm a sua própria história na Roménia, que trazem com eles. É completamente diferente dos nossos neste momento, os nossos também já andaram a pedir, agora de uma maneira geral não o fazem, dedicam-se à venda e a outras coisas.

Veio realmente prejudicar a imagem dos ciganos portugueses que estão cá. Não se reconhecem muito neles. Os ciganos romenos têm uma cultura até bastante boa, conseguia falar normalmente com eles em inglês, mas é um fenómeno à parte, tem de ser tratado à parte.

O Papa Francisco tem tido várias vezes que a Igreja não é uma ONG e que o trabalho social deve ser acompanhado de evangelização. Tendo em conta que os ciganos são na maior parte evangélicos, faz-se alguma coisa no sentido de evangelizar e procurar aproximá-los da Igreja Católica?
Temos os projectos que já mencionei, temos secretariados em todo o país. Tem havido essa proximidade. O Sr. D. Joaquim disse muito claramente que a Igreja primitiva é uma Igreja que foi de caridade e a seguir de evangelização.

A Santa Sé, nos seus documentos, diz sempre que a evangelização não pode ser divorciada da acção social. Quando nós defendemos os direitos dos ciganos, quando há um problema desse tipo e nós o denunciamos, quando intervimos em projectos para defender os ciganos, estamos a dar um testemunho nosso, cristão, perante uma população que é muito carente, que está entre aquela população que o Papa Francisco menciona como os mais marginais, estamos com eles, a ajudá-los a serem eles próprios a reagirem contra a marginalidade. Isto é o Cristianismo na sua quinta-essência, verdadeiramente.

Qual é a sua formação
Sou de filosofia, de pedagogia, educação, teologia também. Trabalhei durante muitos anos na banca e trabalhei sempre bastante na evangelização e acção social sob todas as formas.

É casado?
Sim.

Tem filhos?
Sim

Eles acompanham esta sua paixão pela cultura cigana?
Acompanham no sentido em que empatizam e simpatizam com esta minha actividade.

Wednesday, 2 May 2012

Então confessei-me, não posso fazer outra coisa


[Nota: O título original é: “Then I confessed, I can do no other”, que é claramente um jogo de palavras e uma referência a Martinho Lutero que, aquando da sua ruptura com Roma declarou, referindo-se às suas posições: “Here I stand, I can do no other”, que já vi traduzido para português como “Aqui estou, não posso fazer outra coisa”. A pertinência da citação fica clara ao longo do texto]

Francis J. Beckwith
No dia 29 de Abril de 2007 fui recebido publicamente na Igreja Católica, na paróquia de St. Joseph em Bellmead, Texas. Com a minha mulher, Frankie, ao meu lado, de pé diante do padre Timothy Vaverek, que presidiu à breve cerimónia entre a homilia e a recitação do Credo da missa de Domingo. A Frankie foi recebida como catecúmena uma vez que, ao contrário de mim, não tinha sido baptizada nem crismada em nova.

Frankie mal podia esperar para se tornar católica e achou um bocado injusto que nós, os regressados, tínhamos esta escapatória: Tudo o que eu tinha de fazer era usufruir do Sacramento da Confissão. Felizmente para ela, o padre Timothy fez-lhe um curso intensivo de iniciação ao Catolicismo que culminou com a sua recepção no mês de Agosto seguinte.

No dia 28 de Abril fui-me confessar pela primeira vez em 30 anos. O meu irmão mais novo, James, enviou-me um e-mail a oferecer-se para me ajudar a recordar os meus pecados.

Quando entrei no confessionário sentei-me de frente para o padre Rakshaganathan Selvaraj (ou “padre Raj”), fechei os olhos, fiz o sinal da cruz e disse, “Passam 30 anos desde a minha última confissão. Não sei se me consigo lembrar de todos os pecados.” Com o seu sotaque indiano cerrado o padre Raj respondeu: “Não se preocupe. Deus sabe-os todos.” “Era o que eu temia”, disse eu.

O padre Raj ouviu a minha confissão e deu-me a absolvição. A minha penitência, se bem me lembro, foi um Pai Nosso e uma Avé Maria. Quando contei à Frankie ela achou que tinha sido bem leve. Tem razão, ela conhecia os meus pecados.

Quando nos decidimos tornar católicos procurámos os conselhos de amigos de confiança. Isto porque naquela altura eu era presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS), uma associação de biblistas, teólogos, filósofos, historiadores e pastores protestantes que em 2007 tinha quase 4500 membros. Por isso é que, inicialmente, tinha decidido adiar a nossa recepção na Igreja até depois do fim do meu mandato em Novembro de 2007.

Os nossos amigos protestantes acharam boa ideia e recomendaram-nos que mantivéssemos as nossas intenções para nós até depois de Novembro. Os nossos amigos católicos tinham outra perspectiva, estavam preocupados que a notícia saísse e causasse escândalo. Sugeriram que anunciássemos aquilo que pretendíamos fazer. Sem saber que conselhos seguir, rezámos sobre o assunto.

Duas semanas mais tarde estávamos a tomar o pequeno-almoço com os meus pais em Washington. Tínhamos vindo ao casamento do meu primo Jimmy Sclafani. Tocou o meu telemóvel. Era o meu sobrinho Dean, de 16 anos, o filho mais velho do meu irmão James. Dean pediu-me para ser o seu padrinho de crisma. Vários meses antes os seus tios, tias e avós tinham-lhe escrito cartas, a pedido da sua mãe Kimberly, a explicar porque é que o Crisma era importante.

Embora ainda fosse protestante quando escrevi a minha carta (embora já claramente a caminho de Roma, mas sem ter chegado lá), via o Crisma como uma forma pela qual um Católico anuncia publicamente a sua fidelidade a Jesus Cristo. Encarei o desafio de forma séria. Poucos anos antes, quando tinha 12, o Dean tinha-se debatido com a questão da existência de Deus e a racionalidade da crença cristã. Sabia que tinha de escrever uma carta que lhe tocasse tanto na mente como no coração.


Comecei por lhe dizer que Jesus Cristo era o homem mais inteligente que alguma vez tinha vivido. Depois expliquei o grau de influência que Ele e os seus discípulos tinham tido – na literatura, nas ciências, no direito, na medicina, na filosofia, na teologia e na política. Disse ao Dean que, ao colocar a sua confiança em Cristo, estava a entrar numa rica tradição intelectual e espiritual, sem paralelo na história da Humanidade.

Quando me ligou naquela manhã disse-me que tinha sido a minha carta a convencê-lo a receber o sacramento. Pousei brevemente o telefone e disse à Frankie “acho que as nossas orações foram atendidas.” O Crisma de Dean era daí a quatro semanas, não poderia ser seu padrinho se não estivesse em comunhão com a Igreja. Uma semana mais tarde, no dia 28 de Abril, entrei no confessionário. No dia seguinte fui recebido publicamente na Igreja.

Nessa noite escrevi uma carta aos outros membros da direcção executiva do ETS, a dizer-lhes o que tinha feito. Contudo, garanti-lhes que poderia continuar como presidente uma vez que não havia nada na declaração de crenças da sociedade com a qual um católico não pudesse concordar. Estava a ser ingénuo. Menos de uma semana mais tarde demiti-me, percebendo que não podia permanecer no cargo sem causar escândalo.

Quando fui eleito presidente da ETS em Novembro de 2006 estava longe de imaginar que menos de seis meses mais tarde estaria de volta à Igreja. É verdade que me tinha aproximado do Catolicismo na década precedente, mas havia ainda alguns assuntos que considerava impeditivos, e estava certo que continuariam a sê-lo. Estava enganado. Nos meses seguintes os obstáculos dissiparam-se a uma velocidade alarmante. As escamas caíram-me dos olhos.

Então confessei-me, não podia fazer outra coisa.



Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de “Return to Rome: Confessions of AnEvangelical Catholic” (Brazos, 2009) e um dos quatro principais autores de "Journeys of Faith: Evangelicalism, Eastern Orthodoxy, Catholicism andAnglicanism" (Zondervan, 2012).

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 27 de Abril 2012 em www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar