quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Onde Estão os Demónios?

Michael Pakaluk
De entre os primeiros relatos da vida de Cristo, o Evangelho de Marcos tem uma certa primazia. É possível, como crêem a maior parte dos especialistas, que tenha sido o primeiro Evangelho a ser escrito. A tradição dita que era o “evangelho de Pedro”, isto é, que foi escrito por Marcos mas que lhe foi contado por Pedro. E Pedro era “a pedra”, o primeiro de entre os apóstolos, o primeiro Papa.

É costume, hoje, (ainda que em tempos tenha sido mais), ouvir os não-cristãos a admitir pelo menos que Jesus foi “um grande mestre moral”. Este ponto de vista já foi bastante bem demolido por C.S. Lewis e por Peter Kreeft: Jesus ensinou que era o Filho de Deus, que podia perdoar os pecados, e que a nossa salvação dependia dele. Mas se não forem verdade, então estas afirmações apontam mais no sentido da demência. Logo, Jesus ou era Deus ou era um homem mau. Não há alternativa. E em nenhum dos casos ele pode ser descrito simplesmente como “um grande mestre moral”. Os Padres da Igreja já tinham argumentado no mesmo sentido: aut Deus aut homo malus.

Daí que a ideia de que Jesus é um “grande mestre moral” não tenha fundamento. Se é grande, devemos acreditar nos seus ensinamentos, incluindo a de que é Deus; se, todavia, os seus ensinamentos são falsos, então não pode ser grande. Infelizmente, contudo, este tipo de argumentação não aponta para a verdade. Só por si é tão provável que leve alguém a rejeitar Jesus como aceitá-lo.

Mas aquilo que transparece do Evangelho de Marcos é um “argumento” mais forte e convincente, talvez aquele que mais falta faz nos nossos dias. Não é que Jesus não seja simplesmente um mestre moral – é antes que o Jesus que lá nos é apresentado nem sequer é um “mestre moral”! Mais simplesmente, mais do que ensinar alguma coisa, ele proclama, e o que ele proclama é a incursão do “Reino de Deus” nas possessões do demónio.

Aquilo que está em causa no Evangelho de Marcos não é tanto o género de conselhos sobre como conduzir a vida, mas o facto de estarmos perante a chegada de uma autoridade espiritual capaz de banir e subjugar o demónio.

Dito isto, sim, é verdade que alguns especialistas tendenciosos têm disputado estas conclusões: também é verdade que os ensinamentos da Igreja ao longo dos séculos continuam a ser a única forma sã de interpretar as escrituras. Mas continua a ser verdade que Marcos oferece uma correção impressionante de alguns dos nossos preconceitos, como por exemplo o à vontade com que lidamos com o pecado e os actos pecaminosos.

O primeiro milagre de Jesus em Marcos (capítulo 1) é um exorcismo: “Que tens tu a ver connosco, Jesus de Nazaré”, grita o demónio, “vistes destruir-nos? Eu sei quem és, o Santo de Deus”. Logo desde o inicio aquilo a que as pessoas se referem quando falam no “seu ensinamento” é o seu poder sobre o demónio. “Que é isto?”, perguntam, “um novo ensinamento! Com autoridade ele comanda até os espíritos impuros, e estes obedecem-lhe” (1,27).

Quando Jesus nomeia os doze como seus apóstolos, envia-os para ensinar, dando-lhes “autoridade para expulsar demónios” (3,15). O facto de Jesus possuir este poder é, aos olhos dos seus inimigos, a sua principal característica: “é pelo príncipe dos demónios que ele expulsa os demónios”, dizem, reconhecendo o facto.

Quando ele começa a ensinar (capítulo 4), fala apenas em parábolas sobre a incursão do Reino. Logo na primeira parábola refere-se a Satanás e aos seus esforços de resistência, roubando a palavra que é semeada (4,15). Quando começa a fazer actos de misericórdia é a cura do “endemoniado gadareno” que recebe mais atenção, num capítulo que também inclui a cura da hemorroísa e a ressurreição da filha de Jairo (capítulo 5). Quando envia os doze para pregar, a sua mensagem é a do arrependimento dos homens, associado ao facto de terem “expulso muitos demónios” (capítulo 6).

A primeira vez que lida com os pagãos, sinal de que o Evangelho está a ser pregado às nações, é quando exorciza a filha da mulher sirofenícia (capítulo 7). A sua famosa repreensão a Pedro mostra o que achava da oposição ao Reino: “Vá de retro, Satanás!” (capítulo 8). Quando se procura saber se certa pessoa está com ele ou contra ele, a prova dos nove é saber se expulsa demónios em nome de Jesus (11, 38-41).

Só no décimo capítulo é que encontramos algum traço do “ensinamento moral”. Nem de propósito, tendo em conta os nossos tempos, diz respeito à indissolubilidade do casamento e o acolhimento das crianças. Depois disso, o Evangelho de Marcos dedica-se aos eventos da Semana Santa.

Mas devemos enfrentar este contraste. Muitos de nós rezamos a oração de São Miguel depois da missa. O Santo Padre refere-se várias vezes ao demónio, que claramente trata como uma realidade.

Contudo, em geral a “cultura” da fé em que estamos imersos é muito diferente da de Marcos. Perdemos o sentido de luta contra o demónio como sendo parte do discipulado cristão, e que é precisamente daí que a Igreja retira o seu poder.

Mas com a nossa atitude complacente estamos a colocar-nos em campos opostos, não apenas a Marcos mas a todo o Cristianismo histórico. “Pelo pecado dos primeiros pais, o Diabo adquiriu certa dominação sobre o homem, embora este último permaneça livre (CCC 407); “E porque o Baptismo significa a libertação do pecado e do diabo, seu instigador, pronuncia-se sobre o candidato um ou vários exorcismos” (CCC 1237).

Então e hoje? Onde é que se meteram os demónios? Espero que possam ser banidos da “Cristandade”. Mas as muralhas dessa civilização já foram comprometidas – não obstante o facto de uma vida sacramental continuar a ser a melhor maneira de se proteger. Os demónios são seres imateriais, que não podem, por isso, ser destruídos. Diz-se que andam pelo mundo, até ao fim desta geração. Se admitirmos que sempre existiram, então faríamos bem em partir do princípio de que actualmente estão bem mais próximos.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 13 de Novembro de 2018)

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