quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Incondicional?", de Brian Zahnd: Meio livro bom…

Em 2006 estava sentado num hotel no Vietname quando vi, num canal de notícias internacional, a notícia da matança numa escola da comunidade Amish, nos Estados Unidos. Nessa mesma noite surgiram as primeiras notícias da reacção da comunidade, que tinha feito questão de ir ter com a família do assassino para lhes dizer que não guardavam ressentimentos e que perdoavam. O próprio assassino tinha-se suicidado.

A partir dessa altura fiquei fascinado pelo tema do perdão.  Esse fascínio resultou primeiro num texto e eventualmente numa tese de mestrado.

Foi por isso com o maior interesse que soube da publicação de “Incondicional” de Brian Zahnd, um pastor pentecostal americano, que foi publicado em Portugal pela Letras d’Ouro, que muito simpaticamente me ofereceu um exemplar.

Tendo feito a minha tese sobre este assunto conheço já os principais trabalhos que foram escritos nos últimos anos sobre o perdão. Zahnd fala de pelo menos três deles, incluindo um que foi escrito sobre o caso dos Amish, e sustenta grande parte da sua argumentação nessas obras. Para quem não os conhece isso é uma forma boa de apanhar uma síntese, mas para quem os conhece bem, e serão claramente uma minoria dos leitores portugueses, o autor traz pouca coisa de novo.

O principal propósito do livro, contudo, é conseguido nas primeiras 150 páginas, isto é, realçar que o perdão não é um acessório bonito e secundário do Cristianismo, mas sim um aspecto absolutamente central. O perdão é uma das grandes novidades que o Cristianismo introduz no mundo e ainda hoje é algo que o distingue das restantes religiões. Isto é frequentemente ignorado por quem fala de valores judaico-cristãos, como se fossem todos comuns.

Zahnd é convincente ao estabelecer que o perdão é central para o Cristianismo e que um Cristianismo sem perdão não o é verdadeiramente. Daí lança algumas das questões importantes, como por exemplo, até onde se deve ir? A dúvida é tão pertinente, que foi precisamente a pergunta que São Pedro fez a Jesus. Quantas vezes devemos perdoar? Jesus foi claro, 70 X 7, que é como quem diz, infinitamente. É nesta altura que me lembro da frase de um simpático mas simples padre que confrontado com a passagem do Evangelho em que Jesus diz que se deve oferecer a outra face, começou a homilia dizendo: “Nem tudo o que Nosso Senhor nos diz é para se levado a sério”.

Mas não, este assunto claramente é para se levar a sério. Tão a sério que as últimas palavras de Jesus na cruz são para enfatizar este ponto: “Perdoai-os porque não sabem o que fazem”.

Zahnd faz pontes interessantes e desconhecidas da maioria entre o perdão proposto por Jesus e o antigo testamento. Mas como é hábito neste género de temas o mais interessante são mesmo os casos pessoais apresentados, como o da holandesa Corrie Ten Boom, que perdeu a família toda no holocausto e foi torturada por guardas alemães, que depois da guerra andou pela sua Holanda natal e pela Alemanha a pregar o perdão, até ao dia em que foi confrontada, no final de uma palestra, pelo seu carrasco no campo de concentração, que lhe tinha vindo pedir perdão pessoalmente. A sua explicação de como ultrapassou a resistência interior para estender a mão àquele homem é uma das maiores lições sobre o Cristianismo que já li.

Zahnd apresente muitos outros exemplos, todos inspiradores, e usa-os para tentar explorar também a complexa relação entre o perdão e a justiça, concluindo, correctamente, que perdoar alguém náo equivale a livrar essa pessoa da justiça civil.

Amish, exemplos de perdão cristão
Infelizmente, contudo, Zahnd deixa alguns temas por explorar, ficando só pela rama. No caso dos Amish, que ele apresenta como o protótipo da prática do perdão cristão, baseia-se muito no livro “Amish Grace”, mas ignora totalmente os trechos desse livro que falam de como para alguns membros da comunidade, sobretudo vítimas de abusos sexuais, o facto de haver tantas expectativas sobre o perdão pode tornar-se um peso, causando traumas quando este não surge de forma espontânea. Nada disto invalida a importância e a pertinência do perdão, mas ajuda-nos a compreender que o tema nem sempre é simples.

Zahnd faz outra conclusão particularmente importante, que levanta dúvidas a muita gente. Perdão e reconciliação, são a mesma coisa? A resposta é não e a consequência dessa resposta é que é possível perdoar um infractor que não se arrependa, na medida em que é possível perdoar sem reconciliar, pois a reconciliação, essa sim, exige o arrependimento do infractor.

Temos então, até este momento, meio livro bom. O problema começa a partir daí, até ao fim da obra, com Zahnd a lançar-se no que parece ser uma interminável homilia, dirigida sobretudo a um público-alvo americano e evangélico com o qual poucos leitores portugueses se identificarão. O seu objectivo é convencer-nos que é preciso viver o Cristianismo de forma mais radical, algo que se pode aplicar tanto ao tema do perdão como a muitos outros, e de facto, pelo meio, o autor mete referências ao perdão quase que a martelo, como se lembrasse de vez em quando de que era esse o propósito do livro.

É pena, porque chega-se ao fim do livro a pensar que metade do tempo que despendemos a lê-lo foi um desperdício, o que era desnecessário, tendo em conta a riqueza do tema.

Se recomendo o livro? Recomendo sobretudo para quem quer uma introdução ao tema e para quem não tem facilidade em ler inglês e que por isso não se pode lançar a ler obras que são, para dizer a verdade, substancialmente melhores, mas estão por traduzir.


Filipe d'Avillez

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