segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Esmagar o Cristianismo com um rolo compressor

Vinde a mim, todos os cansados e oprimidos
Estive na Coreia do Sul em 2002 e nessa altura visitei a zona desmilitarizada, de onde é possível espreitar a Coreia do Norte. Da varanda de um posto militar lá pudemos ver uma aldeia, com umas torres modernas e impressionantes, várias casas, ruas impecáveis e uma bandeira gigantesca a esvoaçar.

Escusado será dizer que não vive lá ninguém. As luzes acendem e apagam automaticamente, nunca sai fumo das chaminés, as janelas não abrem e não anda ninguém nas ruas. É tudo propaganda.

Havia ainda uns letreiros gigantes afixados no chão, apontados para a Coreia do Sul. Perguntei a um soldado o que diziam e ele explicou que era algo do género “O nosso querido líder foi-nos enviado das estrelas”, e uma outra fantasia equiparável.

É um país de loucos, mas é um país de loucos com armas nucleares e túneis secretos construídos com capacidade para infiltrar milhares de homens e carros de combate por hora na Coreia do Sul.

A nível de religião a Coreia do Norte reage de forma tipicamente comunista, mas com um zelo de fazer corar os seus padrinhos chineses. Toda a prática religiosa é proibida. Existem um ou dois locais de culto em Pyongyang, mas são para uso exclusivo dos estrangeiros. A única forma de adoração que é permitida é ao Estado e à sucessão de líderes.
"Santíssima Trindade"

Porquê? Aí é que a coisa se torna interessante. É que para além do habitual ódio comunista à religião, há outro factor. Grande parte da mitologia que foi criada à volta dos Kim foi decalcada de histórias bíblicas. Assim, temos por exemplo que quando Kim Jong-Il nasceu, o evento foi assinalado por uma estrela no céu que pairou por cima da casa onde decorreu o parto. Ainda de acordo com a propaganda oficial o ditador que hoje morreu aprendeu a andar com apenas três semanas e às oito semanas já falava.

A imagem da Santíssima Trindade também é adoptada com frequência. O Pai, Kim il-Sung, com o Filho, Kim Jong-Il e o Espírito Santo que tanto pode ser a mãe de Jong-Il ou a própria doutrina da “auto-suficiência”, conhecida como Juche, que é a força motora de toda a economia norte-coreana.

"Deixai vir a mim as criancinhas"

Em que é que isto resulta, na prática? Na necessidade de proibir totalmente o ensino do Cristianismo, não vão as pessoas desconfiar das semelhanças.

Por isso, os campos de concentração na Coreia do Norte estão repletos de cristãos. São na maioria leigos, uma vez que não se acredita que nenhum padre ou bispo tenha sobrevivido às purgas que se seguiram à guerra civil. Quando um cristão é descoberto numa família são presas até três gerações, para extirpar completamente o mal da sociedade.

Alguns grupos de cristãos da Coreia do Sul operam a partir da China, dando guarida a refugiados que, depois de convertidos, regressam para evangelizar em segredo. O preço, caso sejam apanhados, é severo. Há alguns anos lembro-me de ler um relatório, preparado pela comissão de Liberdade Religiosa do Congresso dos EUA, que explicava o que aconteceu a umas pessoas numa aldeia em cuja casa foi encontrada uma Bíblia. Foram deitados no chão e um rolo compressor passou-lhes por cima das cabeças. Liberdade religiosa “à lá Querido Líder”.

Filipe d'Avillez

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