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Friday, 20 January 2023

Igreja "portuguesa" destruída na Birmânia e os telhados de vidro dos pecadores

Uma das coisas que mais amo sobre Portugal é o legado humano que os portugueses deixaram em várias partes do mundo. Nos mais recônditos lugares da Ásia, por exemplo, existem comunidades centenárias que se sentem e dizem portuguesas. É o caso dos Bayingyi, na Birmânia, que recentemente viram os soldados da ditadura militar destruir-lhes uma igreja centenária. Porque é que o Governo português não se manifesta contra estes abusos? Também não sei…

Recordo que o episódio do Hospital de Campanha da semana passada foi sobre o Papa Bento XVI. A conversa com o editor Henrique Mota, que conheceu pessoalmente o Papa alemão, foi daquelas que fluiu tão bem, e foi tão interessante, que praticamente nem foi preciso editar no final. Se já ouviram, espero que tenham gostado, se não, ouçam!

As pessoas envelhecem e morrem, é a lei da natureza, e o clero não é excepção. Mas não é todas as semanas que assistimos à morte de dois religiosos centenários. É o caso do Pe. João de Brito, de Lisboa, que morreu aos 100 anos depois de uma vida de notáveis contribuições para a Igreja em Portugal e da irmã André, de França, que aos 118 anos era a mulher mais velha do mundo.

Que tipo de enterro tiveram estas duas figuras? Não faço ideia. Mas suponho que tenha sido um enterro tradicional cristão. Sou capaz de garantir que não optaram pela “compostagem humana”, uma nova moda que ganha terreno entre pessoas que se acham muito sofisticadas, mas que não percebem o horror de tratar o corpo humano como lixo. David G. Bonagura explica porquê no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A guerra na Ucrânia fez mais vítimas inocentes quando a Rússia lançou mísseis contra um bloco de apartamentos. O líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia pede ao mundo que não deixe passar em branco o “massacre de Dnipro”.

Lembram-se do documento que Roma emitiu há vários anos a explicar porque é que homens homossexuais não deviam ser admitidos ao sacerdócio? Um dos principais autores desse documento acaba de ser suspenso do sacerdócio precisamente por ter abusado de jovens rapazes. Isto levanta, naturalmente, várias perguntas. Neste texto eu faço as perguntas e… não dou qualquer resposta. Mas convido-vos a meditar nelas como eu farei.

Thursday, 19 January 2023

O caso Tony Anatrella. Perguntas para meditar...

Pe. Tony Anatrella

Há vários anos, em 2005, saiu um documento de Roma a explicar que pessoas com tendências homossexuais “profundamente radicadas” não devem ser aceites como candidatos para a ordenação sacerdotal. Causou alguma polémica, mas dentro da Igreja penso que muitos viram-no como uma medida necessária para acabar com uma certa subcultura gay entre o clero, sobretudo na Europa Ocidental, que estava a causar grandes problemas.

Em 2016 a instrução foi reafirmada num novo documento. Lembro-me que na altura falei com responsáveis dos seminários de Lisboa que defenderam o documento e que até já estavam, anteriormente, a rejeitar candidatos com atracções homossexuais.

Ao mesmo tempo iam-se conhecendo histórias de homens já ordenados que, sendo homossexuais, não deixavam por isso de ser bons padres, nem levavam vidas devassas, abraçando o celibato.

Julgo que, no fundo, cabia, e cabe, aos formadores nos seminários ajuizar bem entre aqueles que são capazes de controlar os seus impulsos sexuais – seja qual for a orientação – e os que se deixam controlar por eles. Mas isso é tema para outro texto.

A razão deste texto é que há alguns anos surgiram indicações de que um dos padres que contribuiu de forma mais importante para as orientações de 2005 era suspeito de ter abusado de jovens do mesmo sexo, ainda por cima utilizando para o efeito a sua prática clínica de psiquiatra.

Esta semana essas suspeitas foram confirmadas pela decisão de afastar o Pe. Tony Anatrella, que agora tem 81 anos, de qualquer ministério sacerdotal, remetendo-o para uma vida de oração e penitência. Uma revelação como estas leva-nos obviamente a questionar muita coisa e torna-se difícil defender um documento sobre um assunto desta natureza que tenha tido mão de um homem assim.

Cada vez mais, à medida que vão surgindo estes casos, teremos de nos questionar se os pecados dos homens envolvidos, ainda que sejam pecados desta gravidade (e notem que não estamos a falar apenas de homossexualidade, ou sequer de ephebofilia – a atracção por jovens rapazes pós-pubescentes – mas de aproveitamento de uma posição de confiança e de autoridade para manipular e abusar de pessoas vulneráveis) põem em causa todo o resto da sua obra de vida.

É certo que ninguém é a soma dos seus pecados, e isso inclui pedófilos e abusadores, mas haverá pecados que são tão graves que mancham por associação o resto do que fazemos? Uma boa homilia, um bom retiro que nos ajuda, uma obra social levada a cabo, deixam de ter valor porque descobrimos mais tarde que o padre envolvido afinal tinha uma vida escondida? Lembro-me bem do choque que senti quando vi as primeiras revelações sobre Jean Vanier, que sinceramente considerava um santo.

No caso do Pe. Rupnik, de que falei recentemente, as suas obras de arte – que são sem dúvida muito belas – devem ser retiradas das igrejas porque descobrimos os requintes de malvadez dos abusos que ele praticava sobre freiras que supostamente deveria estar a dirigir espiritualmente?

E agora, no caso do Pe. Anatrella, o documento sobre o acesso ao sacerdócio, que com certeza não foi obra de apenas um homem, deve ser totalmente descartado porque descobrimos que nem ele estava em linha com o que estava a recomendar?

Lembram-se do caso McCarrick? Ele foi o principal autor e promotor da Carta de Dallas, que tem revolucionado a forma como a Igreja americana lida com a questão dos abusos sexuais. No entanto, veio-se a descobrir coisas do pior sobre ele também. Devemos descartar a Carta de Dallas?

Eu não tenho as respostas para estas perguntas. Tenho algumas ideias, mas não são bandeiras pelas quais estou disposto a lutar ainda. Acho é que devemos todos – nós que levamos a Igreja a sério e a amamos – pensar a fundo sobre estas questões porque a verdade é que nenhum de nós está a salvo de descobrir que aquele que tanto nos inspirou no passado, ou mesmo agora, afinal tinha telhados de vidro.

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