quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Contra o “Agora Evolucionário”

Enquanto procuram conduzir os jovens rumo à idade adulta os pais dizem muitas vezes, sobretudo aos adolescentes: “pensa por ti”. Claro que não é isso que querem dizer. Sob a capa dessa aparente liberdade, o que querem dizer para não pensar, muito menos agir, como os idiotas dos amigos com quem te dás. Mas pensar como os amigos – ao invés de pensar como os pais, professores ou pastores – é precisamente o que as crianças imaturas entendem por “pensar por si”.

Talvez a comparação seja injusta, mas lembrei-me deste triste facto da natureza humana quando li a entrevista recente da irmã Pat Farrell, presidente da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) à cadeia NPR, durante a qual ela disse que o actual conflito entre as freiras americanas e o Vaticano resume-se à questão: “Pode ser-se católico e ter uma mente interrogativa?”. Que fique claro que a irmã Farrell enfrentou anos de perigo na América Latina, de onde regressou, como muitos outros, com o que me parece ser um entendimento errado da teologia da libertação. Mas arriscou a vida por aquilo em que acredita, e isso revela uma atitude adulta.

Ainda assim, há algo mais do que um pouco adolescente – e paternalista – sobre a pergunta. Amanhã [ontem] em St. Louis começa a conferência anual da LCWR, cujo tema é: “Mystery Unfolding: Leading in the Evolutionary Now” [Um mistério que se revela: Liderança no Agora Evolucionário]. Só pessoas com uma perspectiva que ultrapassou o prazo de validade por volta de 1978 é que poderiam propor em 2012 um tema que mais parece pertencer a um “então reaccionário”. Farrell e as suas irmãs são grandes fãs da evolução e de mudar as ideias para responder aos sinais do tempo – sobretudo quando essas novas ideias nada têm a ver com o Catolicismo tradicional. Tudo isto estará em cima da mesa quando discutirem as críticas do Vaticano à LCWR na conferência.

Tudo isto tem tido grande ressonância nos media, que não se têm dado ao trabalho de entrevistar religiosas que pertencem a ordens que talvez ainda existam dentro de 20 anos. Mas ao celebrar a irmã Farrell e a LCWR os media praticam uma forma subtil de ventriloquismo, passando a ideia de que os verdadeiros católicos pensam por si, precisamente porque pensam como, por exemplo, a NPR.

O meu entendimento disto é que um certo segmento de uma geração mais velha de católicos comprou gato por lebre num período caótico – aqueles anos depois do Vaticano II quando parecia que a Igreja não sabia em que é que acreditava. Pensar por si é óptimo, mas nem sempre é fácil e nunca somos os únicos a fazê-lo.

O caso mais famoso de uma pessoa a tentar pensar unicamente por si foi Descartes com o seu cogito ergo sum “penso, logo existo”. Uma antiga história francesa, provavelmente apócrifa, conta como um tolo parisiense interrogou Descartes: “Mas monsieur Descartes, e eu? Não penso, porém existo”.

Mas agora a sério, como é que Descartes poderia ter escrito o cogito se não tivesse aprendido latim com os jesuítas do College Royale em La Flèche? E porque é que criaria a sua proposição se a sociedade europeia do seu tempo não estivesse a viver uma crise epistemológica? Se podemos pensar é precisamente porque existem comunidades humanas e pessoas que nos ensinam a falar.

Pode parecer recôndito, mas é importante para a questão que temos diante de nós: “É possível ser-se católico e ter uma mente interrogativa?” Ignorem o insulto escondido na formulação da pergunta. A forma séria de colocar a questão seria: “Como é que podemos ser católicos nas nossas interrogações, tão necessárias, e nas nossas demandas intelectuais?”

Religiosas da LCWR

Ser um pensador ou um interrogador católico não é, ao contrário do que indica a LCWR, acreditar que aquilo que nos passa pela cabeça merece, só por si, algum relevo especial. Há questões de juízo e de experiência e de pertença a uma comunidade que entram em jogo também.

Um dos fundadores de The Catholic Thing, Michael Novak, disse que quando leu em Aristóteles que ninguém pode ser filósofo antes dos quarenta anos, pensou para si mesmo: “Muito bem, então o que posso fazer entretanto?”. Aí está a atitude de um jovem promissor.

A Igreja, que absorveu a sabedoria dos antigos pagãos, tem sido a encarnação deste tipo de realismo. A expressão latina sentire cum ecclesia “pensar com a Igreja”, pode parecer uma limitação à liberdade intelectual. Mas tudo se resume a saber se somos católicos, isto é, uma pessoa a fazer perguntas no contexto de uma tradição viva.

O Catolicismo não tem resposta para tudo, é certo. As freiras americanas podem pensar que sabem acabar com a pobreza ou com a crise financeira, mas a Igreja, como um todo, não sabe. Mas se em 2000 anos ela não acumulou alguma sabedoria verdadeira, então mais vale desistir.

Atribuo grande parte destes juízos apressados, mesmo dentro da Igreja, a uma atitude que persiste desde o tempo de Kant (1724 – 1804), um grande pensador e um moralista sério. Mas o seu lema pessoal Aude sapere, “atrever-se a saber”, muitas vezes associado à ideia de que a humanidade “atingiu a maioridade”, tem tido algumas consequências infelizes.

Pela minha parte, sou demasiado novo para ter seguido de perto o Concílio Vaticano II, mas lembro-me, um pouco mais tarde, de ouvir católicos a falar com grande segurança sobre um mundo que tinha “atingido a maioridade”, (um termo que aparece mesmo nos documentos do concílio) e a fazerem-se corajosamente à estrada naquilo que pensavam ser um caminho de renovação.

Passaram-se dois séculos desde Kant e meio século desde o Concílio. Temos tido melhorias materiais: contrariamente ao que dizem os liberacionistas, o capitalismo, o industrialismo e a tecnologia têm aumentado o nível de vida das pessoas comuns e retirado milhares de milhões a uma vida de pobreza. Tem sido um percurso acidentado? Claro! Mas não tem paralelo na história da humanidade.

No que diz respeito à maioridade, porém, estamos quase sempre na mesma. Se, enquanto católico – ou Ser Humano – quiser pensar um bocadinho por si, é melhor esquecer o Agora Evolucionário e reconciliar-se com esta antiga mas indispensável evidência.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 6 de Agosto 2012 em www.thecatholicthing.org)

Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

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