segunda-feira, 2 de julho de 2012

Depois dos tradicionalistas, um gesto para os liberais?


Arcebispo Gerhard Ludwig Müller
Bento XVI nomeou hoje um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. O agora arcebispo Gerhard Ludwig Müller era bispo de Ratisbona e sucede ao cardeal William Levada num dos mais importantes postos da Igreja, ocupado pelo próprio Papa até à sua eleição em 2005.

Confesso que fiquei surpreendido com a esta troca. Levada já tinha idade para resignar, mas o Papa também o podia ter mantido no lugar. A mudança vem numa altura em que o americano tinha acabado de ver frustrada, pelo menos temporariamente, a reconciliação com os tradicionalistas da SSPX. Surge também depois da “condenação” às freiras americanas, um acto que no meu entender era perfeitamente justo, mas que poderá não ter sido tratado da forma mais delicada. Pode mesmo ter sido esse episódio que levou a que finalmente o Vaticano contratasse um especialistas para regular as relações com a imprensa.

A saída de Levada será um castigo? Foi o que pensei inicialmente, mas vozes mais entendidas que eu garantem que não, foi mesmo só por limite de idade… talvez. Talvez eu esteja a cair na tentação de procurar conspirações em todo o lado.

O que dizer de Müller? Ao que parece, ele é um daqueles casos peculiares, considerado liberal pelos tradicionalistas e conservador pelos liberais. Os sites e blogues de pendor mais tradicionalista (católicos ou não), estão a alertar para o facto de Müller ser defensor da teologia da libertação, a corrente que fez tanto furor na América Latina nas últimas décadas e que ainda tem muitos proponentes, mas que até agora o Vaticano tinha condenado de forma bastante clara. Não deixa de ser estranho ter na CDF um pessoa que vê o movimento com bons olhos e que o tem defendido publicamente diversas vezes.

Bento XVI tem sido criticado por só ter gestos de aproximação para uma certa ala da Igreja. Desde as conversações com os herdeiros de Lefebvre, passando pela criação de ordinariatos pessoais para ex-anglicanos, na vasta maioria conservadores, até à “censura” às freiras americanas. Esta nomeação pode então ser entendida como um gesto de boa vontade para com a ala liberal, dando um pequeno encorajamento a uma das suas causas preferidas, a teologia da libertação.

Aparentemente, contudo, seria um gesto destinado a rebentar completamente com qualquer possibilidade de reunificação com a SSPX. Ainda por cima, Müller e a SSPX já tiveram trocas de palavras bastante azedas no passado.

Arcebispo Di Noia
Será aí que entra outra nomeação feita a semana passada, a do Arcebispo Di Noia para vice-presidente da Ecclesia Dei, uma comissão criada precisamente para lidar com grupos tradicionalistas. Di Noia veio preencher um lugar que estava vago há anos, sendo que o presidente da Ecclesia Dei é sempre o prefeito da CDF.

Penso, portanto, que o esquema será este:
Müller na CDF para se dedicar às milhentas coisas que a CDF faz e tentar equilibrar a imagem de uma agência que muitos pensam que existe para perseguir apenas liberais, mas essencialmente fora das conversações com a SSPX, e Di Noia na Ecclesia Dei, como vice-presidente mas a agir com autonomia, para procurar selar o regresso da SSPX.

O tempo dirá se é esta a realidade ou não.

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