Lembram-se da polémica por causa da Isabel Jonet? A mulher
que, sozinha, já deve ter feito mais para aliviar a fome e a pobreza neste país
do que todos os ministros dos últimos Governos, foi arrasada há uns anos depois
de ter criticado algumas atitudes esbanjadoras dos portugueses.
Nessa altura a esquerda ao estilo “bloquista” deixou cair
a máscara e trucidou-a. É que para eles a Isabel Jonet e todas as “isabéis
jonets” deste país, fazem apenas “caridadezinha”. Ao alimentar os pobres não
estão a fazer mais do que aplicar um adesivo a uma hemorragia causada pelo
sistema capitalista, esse sim o verdadeiro culpado dos males sociais. Pior, ao
disfarçar esses males, perpetuam o problema.
Pois agora temos uma nova versão da mesma estratégia, mas
em vez da Isabel Jonet o problema é o Miguel Duarte e todos os que, como ele, ajudam
a resgatar sírios, afegãos, e africanos de diferentes nacionalidades, de botes à
deriva no Mediterrâneo.
E agora é malta de direita – de uma certa direita – que aponta
o dedo. Não é que o Miguel Duarte e seus colegas são, aos olhos destas pessoas “negreiros”?
Sim, leram bem. Para muitos críticos um homem que deixa o conforto da sua casa e
do seu trabalho e vai viver para alto mar durante semanas a fio, retirando da
água pessoas que talvez não, mas muito possivelmente sim, iriam morrer,
entregando-os depois num porto seguro é equiparado a traficante de escravos.
Dizem os críticos que o Miguel Duarte e companhia são
parte do problema, que não são a solução para a crise dos migrantes. Duvido que
alguém tenha dúvidas disso. Duvido que o Miguel pense que ao tirar homens, mulheres
e crianças do Mediterrâneo está a contribuir para melhorar o regime da Eritreia
ou pôr fim à guerra na Síria. Mas há ali homens, mulheres e crianças a ser
salvas e o seu afogamento também não trava guerras nem depõe ditadores.
Apliquemos, então, a lógicas dos “negreiros” a outras
áreas. Afinal de contas, os amigos da Sea-Watch não são os únicos a fazer “a
caridadezinha”.
Já ouviram falar daquelas freiras que saem de noite para
ajudar prostitutas? Convidam-nas a entrar numa carrinha para beber um chá
quente, comer uma bucha. Dão-lhes um cartão e convidam-nas a pensar em mudar de
vida. Conhecem? Pois bem. Segundo esta lógica são chulas. Com aqueles gestos de
amizade, a melhorar um bocado a vida daquelas mulheres, que mais estão a fazer
se não a perpetuar a exploração sexual? Anátema!
As várias instituições que existem por todo o país,
fundadas por ativistas pró-vida depois do primeiro referendo ao aborto em 1998?
Que ideia é aquela de dar roupa, estadia e comida quente a miúdas que
engravidam aos 16 anos? Assim não estão a resolver o problema da gravidez
adolescente! Estão, pelo contrário a incentivar a sexualidade desregrada… Assim
reza a lógica dos “bloquistas de direita”.
A Comunidade Vida e Paz? Alimenta redes de pobreza e de
exclusão. Madre Teresa de Calcutá? Ui! O
Christopher Hitchens é que tinha razão…
Mas sobre estes, curiosamente, os bloquistas de direita
não falam. Se calhar, afinal, o problema está em quem está a ser alvo da
caridadezinha, e não de quem a pratica. O problema com os “novos negreiros”,
aparentemente, não está nos “eiros”.
Deixem-me dizê-lo claramente, agora sem ironias. Nojo.
Não há outras palavras para isto. É um nojo e deviam ter vergonha.




