Começo com uma tristíssima
notícia. Mais de cem pessoas terão morrido num incêndio que deflagrou durante a
festa de um casamento, no norte do Iraque. Porque é que esta notícia diz
respeito à Actualidade Religiosa? Porque atingiu precisamente a já frágil e
sofredora comunidade cristã daquele país, embora a maioria dos órgãos de
comunicação social – certamente por ignorância e não por preconceito – não o
tenham referido. Aqui explico porque é que este é mais um golpe duro para os cristãos iraquianos.
É já no sábado o
consistório que elevará D. Américo Aguiar a cardeal. Em princípio eu estarei na SIC Notícias de
manhã para comentar o assunto, e sairá um artigo no Expresso sobre o Colégio
dos Cardeais depois desta nova remessa criada por Francisco, fiquem atentos e
para a semana envio links. Entretanto, o novo bispo de Setúbal deu uma
entrevista em que faz um balanço da JMJ.
Infelizmente, as minhas previsões sobre a tragédia humanitária e limpeza étnica em Nagorno
Karabakh estão a realizar-se. Mais de metade da população arménia daquele
enclave já se refugiou na Arménia propriamente dita. É o fim de uma cultura milenar,
num dos berços e últimos redutos do Cristianismo na região do Cáucaso.
A selecção portuguesa de rugby
está a entusiasmar e domingo tem um novo teste de fogo contra uma Austrália
aparentemente enfraquecida. O rugby é o tema do meu mais recente artigo no The Pillar. Mas o que é que o rugby tem a ver com
religião, perguntam? Pois perguntam muito bem. Talvez Nossa Senhora do Rugby
possa esclarecer.
O caso do Pe Rupnik continua a
dar que falar e agora tem uma nova dimensão portuguesa. Saibam tudo aqui.
E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Stephen White explica
porque é que um dos grandes problemas da nossa sociedade é o facto de termos
perdido a noção do pecado.
Em 2016 viajei com um grupo de jornalistas para o enclave de Nagorno Karabakh. Fomos primeiro para Yerevan, na Arménia, e
de lá era suposto seremos levados de helicóptero para Stepanakert. Por causa do
mau tempo, porém, tivemos de partir de autocarro por volta da 1h00, para fazer
quase cinco horas de estrada, sempre com curvas e a subir montanhas.
Chegámos de madrugada à autoproclamada República de
Artsakh, um território historicamente povoado por arménios, dentro do Azerbaijão.
Quando a União Soviética se desintegrou, os Arménios de Karabakh, que era
administrada pelo Azerbaijão, declararam independência, o que conduziu a uma
guerra. Foram cometidas atrocidades de parte a parte, morreram famílias
inteiras, mas os arménios venceram e consolidaram o seu controlo sobre a
região. Declararam uma independência que nunca foi reconhecida por ninguém, nem
sequer pela Arménia, e assim viveram durante 30 anos, rodeados de inimigos, ligados
ao mundo exterior apenas pelo corredor de Lachin, que lhes permitia ter acesso
à Arménia.
Em Karabakh assistimos às comemorações dos 25 anos da "independência", junto ao cemitério militar. Uma das coisas mais impressionantes da viagem foi mesmo ver as inúmeras campas de soldados mortos ao longo dos anos a defender aquela terra. Num caso em particular estavam três irmãos que morreram na mesma batalha, outros tinham imagens gravadas no mármore dos mortos fardados e de arma na mão; visitámos ainda a linha da frente, onde recebi de um oficial um Novo Testamento arménio, camuflado, e fomos ao famoso monumento "Nós somos as nossas montanhas" que é o símbolo de Artsakh. Os arménios de Karabakh queriam mostrar-nos que estavam a defender mais que um país, estavam a lutar por uma herança, pela terra onde tinham vivido e morrido os seus antepassados, ao longo de séculos, e que contra todas as expectativas estavam a conseguir fazê-lo.
Tudo isso acabou ontem.
Depois de anos a rearmar-se e a incentivar um ódio étnico
e cultural aos arménios, e com o apoio imprescindível da Turquia, o Azerbaijão voltou
a atacar Karabakh, como tem feito sempre por esta altura do ano, ao longo dos
últimos dois anos. Desta vez, com o corredor de Lachin bloqueado por alegados activistas
ambientais, sabendo que a Arménia não se iria comprometer com uma guerra total
contra os azeris, e sem o apoio da Rússia, as autoridades de Nagorno Karabakh
anunciaram a sua rendição. Artsakh morreu.
Estão neste momento a ser negociadas as condições da
rendição, mas o que se avizinha é previsível. A perseguição dos arménios que não
fugirem – do aeroporto de Stepanakert já chegam as imagens de caos que acompanha
sempre estes momentos – e o apagamento sistemático da milenar herança cultural
e religiosa arménia da região.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, perguntei neste texto o que aconteceria se Moscovo perdesse a guerra, acrescentando
que perder a guerra, neste contexto, era tudo o que ficasse aquém da ocupação
de Kiev em três dias. Uma das minhas previsões era exactamente a tragédia que
agora se está a desenrolar à nossa frente.
Mas esta é também, de certa forma, uma derrota
diplomática para o Vaticano. Em 2016 Francisco visitou tanto a Arménia como o
Azerbaijão. O objectivo era tentar promover a pacificação. Mais recentemente o
cardeal Parolin também esteve em missão entre os dois estados para tentar impedir
o recrudescimento do conflito. Ao menos tentaram, mas sem sucesso.
Karabakh não é apenas mais um território. É para os
arménios o que Guimarães é para Portugal, o que o Kosovo é para os Sérvios
(outros cuja dependência do amigo Putin de pouco lhes tem valido). Independentemente
do direito internacional, que de facto reconhece a região como parte do
Azerbaijão, o que se está a passar ali é uma dor de alma. É o coração de um
povo que está a ser arrancado e esmagado diante dos seus olhos.
É também o recordar de tragédias colectivas do passado.
Os azeris são turcomanos, e existe uma expressão na Turquia e no Azerbaijão: Um
povo, dois estados. Por isso mesmo, e pela importância da mão de Erdogan nisto
tudo, os arménios sentem que este é apenas mais um capítulo do terrível
genocídio de 1915.
Como me disse um arménio quando estive lá em 2016: “Em 1915
mataram os arménios ocidentais, agora querem acabar o trabalho”.
"They protect the land" - Música dedicada a Nagorno Karabakh pela banda System of a Down, constituída por arménios americanos