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Wednesday, 1 June 2022

Bem-aventurados os que choram

Randall Smith

“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mt. 5,4). No comentário às bem-aventuranças, no livro “Jesus de Nazaré”, o Papa Bento XVI refere que existem dois tipos de tristeza: “Uma que perdeu a esperança, que deixou de confiar no amor e na verdade e, consequentemente, insidia e destrói o homem por dentro; mas há também a tristeza que deriva da comoção provocada pela verdade e leva o homem à conversão, à resistência contra o mal. Esta tristeza cura, porque ensina o homem a esperar e a amar de novo”.

Falando sobre as mulheres aos pés da Cruz, o Papa escreve que “num cenário cheio de crueldade e cinismo ou de conivência gerada pelo medo, permanecem fiéis”. Elas não têm o poder de mudar a situação geral, ou prevenir o desastre, mas ao recusar deixar os seus corações endurecerem-se perante a dor de outro, “estando com” e “sofrendo com” o inocente que foi injustamente condenado, elas colocam-se do seu lado, ao seu lado. Através da sua paixão – no sentido etimológico de partilhar da Sua paixão – e através da sua recusa de virarem as costas ou de deixarem que a revolta, o medo ou a vingança endureçam os seus corações, abriram-se ao amor do Deus que é amor.

Que mais poderiam elas fazer? Fugir, com medo, como os outros discípulos? Sair com armas e matar todos os que achincalhavam Cristo? Interromper uma conferência de imprensa para se queixarem das autoridades judaicas e romanas? Alguma dessas coisas teria ajudado a dar continuidade ao Reino que o Senhor veio estabelecer? Ou teria simplesmente tornado tudo incomensuravelmente pior?

Facilmente imaginamos a reacção de um transeunte: “Por amor de Deus, mulheres, parem de chorar e façam alguma coisa! Peguem numa espada, cortem uma orelha a alguém! Vinguem-se do Sinédrio e do governo romano corrupto”. E que mais é que estas mulheres poderiam responder para além de: “Por amor de Deus, não. Lamentamos, mas está muito enganado”.

“A tristeza de que o Senhor fala é o não-conformismo com o mal, é um modo de opor-se àquilo que todos fazem e que se impõe ao indivíduo como modelo de comportamento. O mundo não suporta este tipo de resistência, exige que se participe. Esta tristeza parece-lhe uma denúncia que se opõe ao aturdimento das consciências”.

Recentemente uma amiga enviou-me um link para um artigo de Elizabeth Bruenig chamado “Uma cultura que mata as suas crianças não tem futuro”. Na sua mensagem a minha amiga comentou “tem piada, pensava que isto ia ser sobre o aborto”. Não era. Não podemos chorar as crianças abortadas. O mundo exige conformismo e chorar essas crianças seria considerado uma acusação contra consciências que se tornaram aturdidas.

Assim, um editorial publicado nesse mesmo dia no L.A. Times tinha como título: “A Califórnia deve tornar-se um porto de abrigo para abortos? Não pode não fazê-lo”. Uma cultura que se tornou tão confortável com a ideia de matar crianças não deve sentir-se tão chocada quando descobre que outras pessoas estão a matar crianças.

No seu artigo, a senhora Bruenig fala várias vezes de uma “cultura de morte”. Ecos do Papa São João Paulo II! Mas no seu caso este termo não se referia aos milhões de bebés abortados todos os anos, ou sequer aos milhares de jovens dos guetos que morrem anualmente em violência relacionada com gangues. Falou também de “declínio moral”, mas para ela isso significa o aumento do número de pessoas que possuem armas.

Memorial para as vítimas do massacre de Uvalde
Eu não gosto de armas. Mas as estatísticas citadas por pessoas como David Frum, no seu artigo “A América tem Sangue nas Mãos” sugerem que estou em minoria. “Os Estados Unidos têm posto mais e mais armas em mais e mais mãos, 120 armas por cada 100 pessoas neste país”, escreve Frum. É uma construção estranha: “pôr mais armas em mais mãos”? Foi alguém que as pôs lá?

Eu poderia dizer: “A América pôs mais material pornográfico em mais mãos este ano do que nunca!” Mas aí alguém poderia referir que esse material foi adquirido. Parece que existe mesmo um mercado para isso. Posso não gostar (e não gosto), mas como há tantas pessoas dispostas a pagar, calculo que elas gostem. Presumo, por isso, que se isto fosse a votos eu perderia – a não ser que antes conseguisse converter as suas mentes e os seus corações.

Eu acho as minhas convicções fantásticas. Por isso é que as tenho. Mas às vezes há quem discorde. Aprendi, ao longo dos anos, que isto não significa que essas pessoas sejam necessariamente más ou estúpidas. Simplesmente discordamos. É importante saber discordar sem ser desagradável, sem ódio e sem recriminação.

A autora do tal artigo sobre uma cultura que mata as suas crianças, em contraste, escreve isto: “Depois há algumas pessoas que dizem que todas as coisas terríveis – incluindo esta coisa insuportável que nenhuma civilização deveria ter de aguentar, esta lotaria assassina e demoníaca de alunos – deve simplesmente continuar. E essas pessoas estão a ganhar.” Fiquei a pensar: quem são essas pessoas? Quem é que diz que “todas as coisas terríveis devem continuar”? Não devo ter apanhado essas entrevistas.

Este tipo de comentário ajuda? Irá trazer a paz que nós – todos nós, à sua maneira – tão desesperadamente deseja?

Tanta revolta, tanto ódio, tanta desconfiança, tanta vilificação desnecessária: talvez seja por isso que tantas pessoas compram armas. Pessoalmente, preferia que não o fizessem, mas as suas escolhas livres não dependem de mim.

Então, talvez haja momentos em que temos simplesmente que parar e chorar: sofrer com os outros, não virar as costas, nem apontar dedos de recriminação e culpa para anestesiar o sofrimento, mas simplesmente sentarmo-nos juntos e chorar. Não faltará tempo para voltarmos a arrancar olhos uns aos outros, amanhã, na próxima semana, ou no próximo mês.

“Quem não endurece o coração perante o sofrimento e a necessidade do outro, quem não abre a alma ao mal, mas sofre sob a sua pressão dando assim razão à verdade, a Deus, esse escancara a janela do mundo para fazer entrar a luz”. (Bento XVI).


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 31 de Maio de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 20 October 2021

A Liberdade das Crianças e Transfusões Forçadas

O Papa Francisco foi surpreendido esta quarta-feira por uma criança que foi ter com ele durante a audiência geral semanal. Francisco aproveitou o momento para falar da importância daquela liberdade que é muito particular às crianças.

Temos estado a falar nas últimas semanas sobre a questão das transfusões de sangue e Testemunhas de Jeová. Ora, do Brasil chega um caso surpreendente de um tribunal que ordenou que uma mulher recebesse uma transfusão de sangue contra a sua vontade.

Do lado de cá do Atlântico a notícia triste e chocante, mas menos surpreendente, de como a polícia impediu um padre de administrar a unção dos doentes ao deputado David Amess, que foi assassinado na passada sexta-feira.

Vem aí mais uma Caminhada Pela Vida. Este ano a caminhada acontece em dez cidades ao mesmo tempo e conta com o apoio de D. Manuel Clemente e de D. Francisco Senra Coelho.

Nos Estados Unidos existe muita tensão atualmente em torno da lei do aborto, que poderá ser posta em causa num processo que vai ser analisado pelo Supremo Tribunal. O que é que isso significa para o movimento pró-vida? Randall Smith diz que a batalha está apenas a começar e que os ativistas pró-vida devem esperar muitas ameaças e muita hostilidade. Já começou.

Wednesday, 10 June 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 19 February 2020

Once more unto the breach...

Valha-nos São Crispim
É já amanhã que se vota a eutanásia. Mas a luta não acaba amanhã, só muda de palco.

Passei os últimos dias a trabalhar muitos artigos sobre este tema, deixo-vos links para alguns:


Escusado será dizer que o Conselho de Ética da Ordem dos Médicos chumbou todas as propostas. Até agora todos os pareceres que o Parlamento recebeu – TODOS – foram negativos…

Mudando de assunto, no seguimento do artigo que escrevi sobre crianças nos funerais, publiquei um parecido, mas em inglês, no The Catholic Thing, que podem ler aqui.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre o génio da arte sacra Fra Angelico, aconselho vivamente, nem que seja para contemplar a beleza numa altura em que bem estamos a precisar dela.

Tuesday, 21 January 2020

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

Wednesday, 25 July 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Wednesday, 3 May 2017

Almas Sofredoras

Há muitos argumentos fortes, tanto a favor como contra, sobre a existência de Deus. Mas um dos desafios maiores à ideia de um Deus benigno e que nos ama, segundo o modelo Bíblico (os deuses sanguinários e caprichosos dos pagãos são uma coisa à parte), é o sofrimento dos inocentes. Um ateu britânico contemporâneo comentou que se lhe perguntassem porque é que Deus não existe, responderia simplesmente: “Crianças com cancro dos ossos”.

Austin Ruse, um dos fundadores do The Catholic Thing e antigo colunista, aceitou este desafio e a resposta é um livro conciso mas importante, chamado “The Littlest Suffering Souls: Children Whose Short Lives Point Us to Christ” [As Pequenas Almas Sofredoras: Crianças cujas curtas vidas nos apontam para Cristo]. Ele argumenta que o Cristianismo é único entre as diferentes religiões e filosofias, porque encontra sentido no sofrimento. O estoicismo, e a maior parte das outras fés, simplesmente assumem que o sofrimento é um facto da natureza e oferecem técnicas para o suportar.

Mas este livro não é um argumento abstracto. Ruse trata com detalhe de alguns casos concretos: A Margaret Leo e o Brendan Kelly (ambos da zona de Washington D.C.) e a “Audrey”, uma pequena rapariga que viveu e morreu perto de Paris e cujo apelido não foi divulgado, a pedido dos pais.

O Austin é um amigo e colaborador de longa data (estas histórias começaram como crónicas do The Catholic Thing e provocaram centenas de reacções de todo o mundo). Mas posso dizer que o resultado é quase milagroso. Quem diria que estas crianças santas e sofredoras poderiam ser prova viva, para aqueles que as conheciam ou que simplesmente ouviram falar delas, da existência de um Deus que nos ama?

É quase impossível escrever bem sobre a dimensão espiritual de crianças que enfrentam situações de saúde dramáticas. O resultado costuma ser beato, no mau sentido, e por isso falsamente sentimental. A grande e irredutível Flannery O’Conner vacilou, por essa razão, quando as dominicanas de Hawthorne lhe pediram para escrever uma introdução às Memórias de Mary Ann, um relato de outra pequena sofredora da década de 60.

O prefácio deste volume é escrito pelo Cardeal Burke, que o recomenda, citando João Paulo II sobre a unicidade do Cristianismo que ensina que os nossos sofrimentos – até os das almas mais novas – participam no sofrimento redentor de Jesus.

Neste livro Ruse capta esta ideia melhor do que qualquer outro autor que eu conheço, preservando os sentimentos adequados (e não o sentimentalismo) mas também transmitindo o humor ocasional, bem como a inspiração final destas vidas, sem recurso a palavras falsas. (E já que estamos numa de elogios, parabéns à TAN Books por ter produzido um volume tão simples e bonito).

A verdade é que mesmo os pais e as famílias podem chegar a odiar Deus quando confrontados com provas destas – e frequentemente são as crianças sofredoras que as ajudam.

Duas das crianças que aparecem no livro têm pais importantes. Leonard Leo é vice-presidente executivo da Sociedade Federalista, um grupo de advogados que aconselhou o Presidente Trump sobre a recente nomeação para o Supremo Tribunal e Frank Kelly chefia o departamento de assuntos governamentais globais da Deutsche Bank. Ambos estiveram esta semana no Centro de Informação Católica em D.C. para a apresentação do livro, homens altamente qualificados mas – via-se – sem palavras quando questionados sobre os seus filhos. Daí o valor adicional deste livro.  

Brendan Kelly, com o Papa João Paulo II
Brendan Kelly nasceu com trissomia 21 e aos dois anos foi diagnosticado com leucemia. Só morreu aos 16 anos depois de uma série de dramas médicos, pontuados por muito amor e eventos incríveis – incluindo inexplicáveis e milagrosos – que tocaram uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um episódio com São João Paulo II em Castel Gandolfo que o fará rir-se desalmadamente. Duas mil pessoas foram ao seu enterro.

Margaret Leo tinha uma forma de espinha bífida tão severa que costuma ser fatal, não obstante os avanços médicos. A maioria das crianças que são diagnosticadas com esta condição através da amniocentese são abortadas porque a sua “qualidade de vida” vai ser tão baixa. A Margaret passou a vida toda numa cadeira de rodas por causa de distorções tão severas na sua coluna que quando inseriram barras de titânio para manter as costas direitas, as barras entortaram. Mas esta criança minúscula nunca se queixou nem parecia sentir medo. Tinha uma fé simples e um dom para a amizade, apesar de muitas pessoas se sentirem incomodadas por deficientes em cadeiras de rodas. Ela acabou por morrer, de forma quase inesperadas, mas a sua morte foi seguida de acontecimentos miraculosos.

A Audrey morreu depois de sete anos a lutar contra uma leucemia. A sua família francesa era nominalmente católica e não a instruiu na fé, mas aos três anos começou ela a instruí-los a eles. Vendo um crucifixo num confessionário, comentou: “Só de olhar para Ele, amamo-Lo”. Instintivamente adoptou a mortificação, abdicando de comer doces; fazendo actos de penitência sem que alguém lhe tivesse explicado o sentido; insistindo na oração antes das refeições – o que não se fazia em casa. Parecia conhecer passagens do Evangelho sem as ter aprendido e vivia perpetuamente – pelo menos era isso que as pessoas sentiam – na presença de Deus.

Estes são apenas alguns detalhes das histórias de três crianças santas que têm muito para nos ensinar, o resto das histórias segue muito a mesma linha. Mas o facto de terem nascido em famílias importantes também tem significado, como explica Ruse. À medida que ele explica as suas várias ligações familiares, comenta que: “Tenho noção que estou a citar nomes, mas é de propósito e espero que me desculpem, pois faço-o para sublinhar um aspecto particular destas ‘pequenas almas sofredoras’… Estes não eram filhos de camponeses a tratar dos rebanhos. Nasceram em famílias influentes, famílias que habitavam um certo meio: os corredores de poder de Washington, D.C. Resumindo, nasceram numa espécie de deserto espiritual, um ambiente em que as coisas do mundo facilmente prevalecem sobre as coisas de Deus e tinham – e ainda têm – coisas a ensinar aos habitantes desse deserto em particular.”

Ultimamente temos debatido a Opção Beneditina, a Opção Dominicana e muitas outras “opções” do género na nossa Igreja e no nosso país atribulados. Todas essas opções têm algo que se lhes diga, mas na minha opinião, e não só em Washington, a opção das almas sofredoras ganha aos pontos.

Leia também:


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 27 de Abril de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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