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Wednesday, 3 August 2022

Marta, Maria, Lázaro e o Amor de Jesus

Pe. Thomas G. Weinandy
Há muitos anos que penso que a solenidade de Santa Marta deveria incluir toda a sua família – Marta, Maria e Lázaro. Por isso foi com agrado que vi o Papa Francisco criar, em 2021, uma solenidade que honra os três. Eles são um exemplo de uma “família” de amor uns pelos outros e por Jesus, bem como do amor de Jesus por eles, em particular por Lázaro. Contudo, este trio também tem algo de misterioso.

São os três adultos, mas nenhum é casado – algo raro tendo em conta a cultura judaica do seu tempo. Em Lucas, Marta aparece sempre como a chefe de família. Lucas refere-se a Marta como acolhendo Jesus na “sua casa”, enquanto Maria é representada como a irmã contemplativa.

Lucas não menciona Lázaro. Porém, no Evangelho de João, quando as irmãs informam Jesus da doença de Lázaro referem-se a ele apenas como “aquele que tu amas”, presumindo que Jesus saberia logo de quem falam. João também diz “Jesus amava Marta, e a sua irmã, e Lázaro”. Eis o mistério. Porque é que duas irmãs e um irmão viveriam juntos, e porque é que Jesus teria um amor especial por Lázaro?

Há quem especule que Lázaro pudesse ter uma doença degenerativa, e que por causa disso ele estava ao cuidado das suas duas irmãs, o que poderá também ter levado a que Jesus sentisse por ele uma afeição especial. Assim, Jesus declara imediatamente que a sua doença não é para a morte, mas para a glória de Deus e do seu Filho. Não será apenas Jesus a ser glorificado com este evento, Marta e Maria também serão.

Quando Jesus chegou, soube que Lázaro estava no túmulo há já quatro dias. Marta, sempre igual a si mesma, saiu ao encontro de Jesus enquanto que Maria, na mesma medida, permaneceu em casa.

Marta diz que se Jesus estivesse presente, o seu irmão não teria morrido, mas que tudo o que Jesus pedir a Deus, Ele concederá. Em resposta Jesus declara a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26)

Este é o momento de glória de Marta. O Evangelho de João não narra a proclamação de fé de Pedro, de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Aqui é Marta quem tem a honra de ecoar a declaração de Pedro: “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Para Marta, Jesus é o “Senhor” divino, porque é filho encarnado do Pai, ungido pelo Espírito.

Marta é glorificada na sua profissão de fé; Maria é glorificada no seu amor. Quando Jesus viu Maria a seus pés, chorando amorosamente a morte de Lázaro, Jesus “comoveu-se profundamente”. Perguntou onde é que Lázaro estava sepultado. No túmulo, também Jesus chorou por amor e alguns dos judeus comentaram quanto ele o amava.

Assim, apercebemo-nos do amor que liga Marta, Maria e Lázaro a Jesus, e o amor de Jesus que O liga a eles. Vemos também que o amor de Marta e de Maria estava repleto de fé em Jesus, enquanto Filho do Pai.

Neste contexto de amor e de fé, Jesus ordena que a pedra seja removida do túmulo de Lázaro. Então clama em alta voz: “Lázaro, vem cá para for!”. Quando Lázaro sai do túmulo, Jesus diz-lhes para lhe retirarem as ligaduras e deixarem-no ir. Podemos presumir que Marta foi a primeira a desligar e a libertar Lázaro.  

Ao ressuscitar Lázaro dos mortos, Jesus manifesta que é verdadeiramente a ressurreição e a vida. E aqueles que crêem nele como Filho do Pai, ainda que morram, viverão.

Ainda que Jesus tenha ressuscitado Lázaro dos mortos, e assim o possa ter curado da sua anterior doença, esta não foi uma ressurreição gloriosa da morte – ele tornaria a morrer. Jesus apenas se torna a ressurreição e a vida quando ele mesmo morre e é gloriosamente ressuscitado de entre os mortos. Então, e só então, é que ele se torna capaz de ressuscitar gloriosamente de entre os mortos todos os que têm fé nele e, assim, habitam em amor nele.

Interessante e significativamente, João narra que, seis dias antes da Páscoa as duas irmãs e Lázaro convidam Jesus para uma refeição – uma refeição eucarística, em acção de graças por aquilo que Jesus fez ao ressuscitar Lázaro de entre os mortos. Claro que foi Marta quem serviu, e Lázaro estava entre os convidados.

Depois, “Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume”. Maria, aquela que ama, manifesta, de forma sensual, o seu amor por Jesus ao derramar o seu dom mais precioso, um dom que simboliza a dádiva de si mesma. Em resposta a Judas Iscariote, que lamentou o desperdício, Jesus afirma que Maria o estava a preparar para o enterro – para a sua passagem da morte para a vida, em que ele se tornaria a ressurreição e a vida.

Nesta recriação simbólica da Eucaristia reconhecemos que tal como Jesus se oferece completamente a nós na Eucaristia, com o seu Corpo Ressuscitado e Oferecido e o seu Sangue Ressuscitado e Oferecido, assim também nós, na mesma Eucaristia, devemos dar-lhe, em amor, o nosso dom mais precioso, o dom de nós mesmos.

Nesta vivência mútua entre nós e Jesus a fragrância do amor deve encher as nossas igrejas e chegar aos Céus. Mais, podemos ter a certeza de que quando Ele regressar em Glória, no fim dos tempos, Jesus chamar-nos-á a cada um pelo nome, e ascenderemos em glória para o banquete celeste – para a presença do Pai celeste com todos os santos e anjos.

Então, o amor que existia na família de Marta, Maria e Lázaro – bem como o seu amor por Jesus e o amor de Jesus por eles – encontrará a sua plenitude universal, pois Jesus será a plena ressurreição para a vida eterna.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 29 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 8 February 2022

Ursos Pardos e a Nova Criação

Pe. Thomas Weinandy

A primeira vez que vi um urso pardo foi há muitos anos, nas Montanhas Rochosas, no Canadá. Por alguma razão fiquei cheio de vontade de lhe fazer uma festinha. Era tão grande e peludo. Seria maravilhoso, pensei, poder fazer festinhas a um urso pardo. Claro que se pode sempre fazer festinhas a um urso pardo sedado, mas isso não conta. Seria batota, e por isso não daria a mesma satisfação. O problema, obviamente, é que muito antes de eu conseguir chegar suficientemente próximo de um urso pardo para poder fazer-lhe uma festinha, ele faria uma “festinha” a mim e assim terminaria abrupta e conclusivamente esse meu propósito. O que me conduz ao ponto onde quero chegar.

Qualquer bom tomista nos dirá que os animais, mesmo o eminente urso pardo, não têm almas imortais e, por isso, deixam de existir quando morrem. Isso pode bem ser verdade. Mas eu sei, contudo, que no final dos tempos, quando Jesus regressar na sua glória, inaugurará uma Nova Criação, um Novo Céu e uma Nova Terra. Normalmente, quando pensamos nessa nova criação, pensamos nas estrelas, nas montanhas, nas plantas e nas árvores que ganharão uma novidade e um esplendor que as nossas imaginações não conseguem alcançar. Mas os animais não constam.

A Bíblia, porém, sobretudo no Antigo Testamento, refere que todas as criaturas serão encorajadas a louvar e glorificar o seu Criador, e é precisamente isso que fazem. Não são só o sol e a lua que louvam o Senhor, mas “as feras e todos os gados, répteis e aves voadoras” (Salmo 148). No Livro de Daniel lemos que todas as criaturas de Deus – baleias, pássaros, animais selvagens, gado – o devem “exaltar para sempre” (Daniel 3). Tudo o que Deus criou é bom, e por isso os animais, na sua própria natureza, na sua intrínseca bondade, exaltam e louvam Deus.

O pássaro que voa louva o Senhor, o coiote que uiva louva o Senhor, até o gato arrogante que dorme louva o Senhor – e claro que o grande urso pardo também louva o Senhor. Mas o que me espanta ainda mais é o “para sempre”. É essa a esperança orante da profecia bíblica. Mas se os animais, enquanto espécie, deixarem de existir, não serão capazes de louvar Deus para sempre.

Isaías profetiza que com a chegada da Era Messiânica escatológica, “o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitar-se-á junto do cabrito, o vitelo e o leão pastarão juntos; A vaca pastará com o urso [pardo], as suas crias deitar-se-ão juntas, e o leão comerá erva com o boi” (Isaías 11,6-7).

Há uns anos uma raposa começou a entrar regularmente no terreno do nosso convento em Washington D.C. e eu comecei a dar-lhe os restos do jantar – gordura, ossos de frango, etc. Depois de algum tempo, ela começou a aproximar-se até a cerca de um metro e meio de mim, e eu lançava-lhe a sua comida diária. O meu objectivo era conseguir que ela comesse da minha mão. Alguns dos meus confrades criticaram-me por estar a alimentar um animal “selvagem”. Respondi que a estava a preparar para o eschaton. Calculei que se o nosso fundador, São Francisco de Assis, conseguiu domesticar um lobo, eu conseguiria domesticar uma raposa. No final, porém, os frades anti-escatológicos ganharam e fui proibido de alimentar a minha amiga raposa.

Contudo, São Paulo declara que “o mundo todo espera e deseja com ânsia essa manifestação dos filhos de Deus. Na verdade, o mundo ficou sujeito ao fracasso, não por sua vontade, mas porque era esse o plano de Deus. Entretanto, Deus manteve-o sempre nesta esperança: Um dia, o mundo será libertado da escravidão e da destruição, para tomar parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Bem sabemos que até agora o mundo todo geme e sofre como se fossem dores de parto. Não é só o Universo, mas também nós que já começámos a receber os dons do Espírito. Nós sofremos e esperamos a hora de sermos adotados como filhos de Deus, a hora da nossa total libertação” (Romanos 8, 19-23).

Em comunhão connosco, toda a criação – estrelas, montanhas, plantas, árvores e, sim, animais – gemem, aguardando ansiosamente o dia em que será libertada da maldição do pecado que é a morte. Só quando Jesus regressar na sua gloria escatológica, e nos ressuscitar em corpo de entre os mortos, é que toda a criação poderá partilhar na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Não faço ideia se todos os animais que alguma vez existiram regressarão à vida no Novo Céu e na Nova Terra. Mas acredito que nada da boa Criação de Deus se perderá, precisamente porque o bom Deus a criou boa. Tal como Deus criou toda a Criação boa através da sua Palavra, também Deus recriou toda a Criação através da sua Palavra Incarnada. E tal como Deus deu em primeiro lugar a Adão e a Eva “domínio sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra” (Génesis 1,28), assim os filhos e as filhas redimidas de Deus cuidarão da nova criação.

O Novo Céu e a Nova Terra partilharão da glória ressuscitada da humanidade – não haverá mais gemidos e decadência. Esta é a esperança que reside na plenitude da Era Messiânica. Quando Jesus surgir no seu trono celestial, ouvi-lo-emos proclamar: “Eis que faço novas todas as coisas” (Revelação 21,5).

Assim, a minha esperança é de que se não posso fazer festinhas ao urso pardo nesta Criação, podê-lo-ei na Nova Criação. E estou convencido de que ele me dará um grande e entusiástico abraço de volta. Mais importante, exaltaremos e louvaremos juntos, para sempre, cada um de acordo com a nossa natureza, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 6 de Fevereiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 17 November 2021

Amar a Igreja

Thomas G. Weinandy

Às vezes é difícil amar a Igreja Católica Romana. Os infindáveis escândalos de abusos sexuais não só nos desencorajam como nos tornam cínicos sobre o estado actual da Igreja; ficamos zangados com a sua aparente incapacidade de se reformar. Mas há outras razões para nos preocuparmos. Muitos católicos, hoje, dão a impressão de que não amam a Igreja, não por causa dos seus membros pecaminosos, mas porque não gostam da Igreja no seu estado tradicional.

Consideram as suas doutrinas antiquadas – dogmas mortos do passado, cuja presença sufocante impede a verdadeira renovação. Da mesma forma, consideram os seus ensinamentos morais tradicionais, em especial no que diz respeito ao casamento e à sexualidade, rígidos, impiedosos e inflexíveis que não permitem às pessoas “ser quem verdadeiramente são”.

Estas leis, acreditam, agrilhoam a liberdade dos homens e das mulheres e o seu direito inerente a escolher o que é melhor para si. Na sua opinião os princípios morais da Igreja não fazem mais do que alimentar uma vida infeliz e de recheada de culpa. Uma Igreja assim não pode ser amada. Para ser amada, dizem, a Igreja deve mudar aos níveis mais profundos do seu ser. E os que estão vivos no Espírito são chamados a usar o seu poder político e financeiro para garantir que essa mudança se realiza.

Quando rezava na igreja abandonada em São Damião, São Francisco de Assis ouviu o Jesus crucificado falar com ele: “Francisco, vai e recupera a minha casa que, como vês, está a cair em ruína”. Francisco, na sua simples inocência, começou a pegar em pedras para restaurar aquela capela e outras. Só mais tarde é que percebeu que era a própria Igreja, Corpo de Cristo, que precisava de ser restaurada.

Então o que é que Francisco fez? Saiu para mudar os ensinamentos doutrinais e morais, acabando por rejeitar a própria Igreja? Afinal de contas era isso que alguns dos “movimentos de reforma” dentro da Igreja no seu tempo estavam a propor. Não. Francisco, enquanto filho fiel da Igreja, sabia que ela só podia ser restaurada se a verdade vivificante das suas doutrinas voltasse a ser as pedras sobre as quais ela é edificada. Assim, Francisco, tanto por palavras como por ações, devolveu vida aos mistérios da fé no seio da Igreja.

A sua pregação centrava-se na doutrina da Encarnação. O Filho de Deus existiu realmente como homem no seio de Maria. Tornou-se pobre na nossa humanidade, para que nós nos tornássemos ricos na sua divindade. E que melhor maneira de manifestar esta enorme verdade que encená-la? Então foi isso que ele fez. Encenou a cena do presépio na vila de Greccio. Rodeado de ovelhas, vacas e burros, a Encarnação ganhou vida. E consta que o menino Jesus, filho de Maria e eterno Filho do Pai, apareceu nos braços de Francisco.

As vidas das pessoas foram transformadas. Escutaram o chamamento ao arrependimento do pecado e à fé no seu Salvador. Voltaram a tornar-se pedras vivas da Igreja de Cristo.

Se a Encarnação foi fundacional para o esforço de Francisco de reconstruir a sua Igreja, o seu amor por Jesus crucificado tornou-se o cume. Na Cruz, o pobre Jesus ofereceu a sua vida santa e impecável para remissão do pecado e assim fez por merecer a sua gloriosa ressurreição. Nesta cena dupla Jesus, pelo sangue e pela água que jorrou do seu lado trespassado, gerou a esposa santa e pura – a Igreja.

Por essa mesma esposa, essa mesma Igreja, Francisco sacrificou a sua vida, para a tornar santa de novo. Os estigmas, as marcas físicas dos pregos e da lança, não são simplesmente um sinal de que Francisco era uma imagem viva de Cristo crucificado, mas mais, na medida em que ele, em imitação de Jesus, se ofereceu pela renovação da Igreja. Tal como Cristo é o esposo eterno, adorável e crucificado da Igreja, Francisco foi o esposo adorável e crucificado da Igreja do seu tempo.  

Enquanto os falsos defensores da renovação desprezavam os sacramentos da carne, Francisco gloriava-se na sua materialidade, porque a matéria manifestava a glória de Deus: Irmão sol e irmã lua, irmão fogo e irmã água. A Eucaristia, a mais material de todos os sacramentos, era a maior alegria de Francisco. O próprio pão e o vinho transformavam-se em carne e sangue ressuscitados do Jesus ressuscitado em corpo.

Dessa forma a pessoa entra em comunhão corporal com o próprio Jesus incarnado. A pobreza da nossa carne é enriquecida pela carne ressuscitada de Jesus – uma convivência mútua para a vida eterna. Para Francisco a Eucaristia não era uma doutrina obsoleta, mas sim a fonte e o cume da vida da Igreja. No contexto destas doutrinas carregadas de verdade e de vida, Francisco exortaria os seus contemporâneos a arrepender-se dos seus pecados e viver vidas santas. Francisco não encarava os ensinamentos morais do seu dia como decretos rígidos impossíveis de cumprir. Pelo contrário, tal como experimentou na sua própria vida, Francisco sabia que a crença no Senhor Jesus e o cumprimento dos seus mandamentos, como professados pela Igreja, conduzem a uma liberdade, santidade e felicidade cheios do Espírito.

Francisco reconheceu, à luz da sua insensatez juvenil, que defender a mudança dos ensinamentos morais da Igreja equivalia a oferecer ao mundo a morte – uma vida atormentada na terra e agonia eterna no Inferno. Francisco, no seu amor sacrificial, queria restaurar a Igreja de Jesus e fazer dela um santuário de luz e de vida num mundo escurecido pelo pecado e pela morte.

É difícil amar uma Igreja neste estado. Porém, as palavras que Jesus crucificado proferiu a Francisco ecoam nos nossos ouvidos. “Recupera a minha casa que, como vês, está a cair em ruína”. Francisco e todos os santos são os nossos exemplos. Não somos chamados a edificar uma “nova igreja” sobre as mentiras enganadoras de Satanás. Antes, devemos restaurar a Igreja antiga, mas perenemente nova de Jesus, um templo edificado com as pedras vivas da verdadeira doutrina apostólica, os mistérios da fé que alimentam a santidade na vida.

Fazê-lo é amar a esposa de Cristo – a Igreja desposada por Jesus.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 11 de Novembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 14 June 2018

Irlanda não perdoa a hospitais católicos

A Irlanda prepara legislação para legalizar o aborto e o primeiro-ministro Leo Varadkar já avisou que todos os hospitais que recebem fundos públicos vão ter de “fornecer” este “serviço”. Os hospitais católicos não são excepção.

O Papa diz que a crise dos migrantes exige uma “mudança de mentalidade” e uma resposta humanitária internacional.

Começou o Mundial! Francisco pede que este seja uma “ocasião de encontro” entre culturas e religiões.

Esta quarta-feira há artigo do The Catholic Thing em português. Perante as acusações de neo-gnosticismo na Igreja actual o padre Weinandy dá uma contextualização histórica sobre esta heresia e diz que se ela existe não será onde muitos pensam.

Mas há mais no The Catholic Thing esta semana. Depois de vários anos a colaborar com este site, traduzindo centenas de artigos de qualidade, ontem vi publicado pela primeira vez um artigo da minha autoria. É sobre a recente votação da eutanásia, no Parlamento. Espero que gostem!

Decorre nos dias 20 e 21 de junho o colóquio “A Religião nas Multiplas Modernidades”, cujo programa podem ver aqui. Para os que se interessam por esta área académica, fica o convite.

Wednesday, 13 June 2018

Gnosticismo nos Nossos Dias

Thomas G. Weinandy, OFM, Cap.
Fala-se muito, hoje em dia, da presença de um novo gnosticismo na Igreja Católica. Algumas das coisas que se têm escrito são úteis, mas muito daquilo que se tem descrito como sendo um reavivar desta heresia tem pouco a ver com o antecedente histórico. Mais, as atribuições desta antiga heresia a várias facções no seio do Catolicismo contemporâneo tendem a ser mal direccionadas. Mas para que haja alguma claridade nesta discussão sobre o neo-gnosticismo, primeiro temos de compreender a forma antiga.

O gnosticismo antigo tinha várias formas e expressões, muitas vezes confusas, mas é possível discernir alguns princípios essenciais:

Primeiro, o gnosticismo defende um dualismo radical: a “matéria” é a fonte de todo o mal e o “espírito” é a origem divina de tudo o que é bom.

Segundo, os seres humanos são compostos de matéria (corpo) e de espírito (que dá acesso ao divino).

Terceiro, a “salvação”, consiste em obter o verdadeiro conhecimento (gnosis), uma iluminação que permite progredir do mundo material do mal para o reino espiritual e, por fim, até à comunhão com a divindade suprema imaterial.

Quarto, surgiram diversos “redentores gnósticos”, cada um afirmando possuir estes conhecimentos e a capacidade de fornecer o acesso a esta iluminação “salvífica”.

Neste contexto, os seres humanos encaixam-se em três categorias diferentes: 1) os sarkikos, ou carnais, estão de tal forma presos ao mundo corporal do mal que são incapazes de acolher o “conhecimento salvífico”; 2) os psíquicos, ou da alma, parcialmente confinados ao reino da carne e parcialmente iniciados no domínio espiritual. (No que diz respeito ao “gnosticismo cristão”, estes são os que vivem meramente pela “fé”, pois não possuem a totalidade do conhecimento divino. Não estão inteiramente iluminados e por isso dependem daquilo em que “acreditam”.) 3) por fim, aqueles que são capazes de verdadeira iluminação, os gnósticos, pois esses possuem a totalidade do conhecimento divino. Através do seu conhecimento salvífico conseguem extrair-se do mal do mundo material e ascender ao divino.

Vivem, e salvam-se, não através da “fé” mas do “conhecimento”.

Comparado com o gnosticismo antigo, aquilo que hoje está a ser proposto como sendo neo-gnosticismo no seio do catolicismo contemporâneo aparece como confuso e ambíguo, para além de mal direccionado. Alguns católicos são acusados de neo-gnosticismo alegadamente por acreditarem que são salvos por aderir a “doutrinas” inflexíveis e inertes e por acreditarem num “código moral” rígido e impiedoso. Afirmam “saber” a verdade e, por isso, exigem que esta deve ser defendida e, mais importantemente, obedecida. Supostamente, estes “católicos neo-gnósticos” não estão abertos ao movimento fresco do Espírito na Igreja Contemporânea, conhecido como o “novo paradigma”.

Claro que todos conhecemos católicos que agem como se fossem superiores aos outros, que se gabam de compreender melhor a teologia dogmática ou moral e que acusam os outros de laxismo. Este tipo de julgamento presunçoso não tem nada de novo, mas é uma forma de superioridade pecaminosa que, todavia, tem tudo a ver com o orgulho e não é, em si mesmo, uma forma de gnosticismo.

Só faria sentido chamar a isto neo-gnosticismo se aqueles que dele fossem acusados estivessem a propor um “conhecimento salvífico novo”, uma iluminação nova que difere do Evangelho como este é tradicionalmente conhecido, e daquilo que é ensinado de forma autêntica pela tradição viva do magistério.

Verdade salvífica, ao alcance de todos
Mas esta acusação não se pode fazer contra “doutrinas” que, longe de serem verdades abstractas e mortiças, são expressões maravilhosas das realidades centrais da fé católica – a Trindade, a Encarnação, o Espírito Santo, a presença real substancial de Cristo na Eucaristia, o mandamento de Jesus de amor a Deus e ao próximo reflectido nos Dez Mandamentos, etc. Estas “doutrinas” definem o que a Igreja foi, é, e sempre será. São estas as doutrinas que fazem da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Mais, estas doutrinas e mandamentos não são uma espécie de forma de vida esotérica que nos torna escravos de leis irracionais e impiedosas, impostas de fora por uma autoridade tirânica. Pelo contrário, estes mesmos “mandamentos” foram-nos dados por Deus, no seu amor misericordioso, a toda a humanidade, para garantir uma vida santa e à imagem de Deus.

Jesus, o filho encarnado do Pai, revelou-nos ainda o tipo de vida que devemos viver na expectativa do seu reino. Quando Deus nos diz aquilo que não devemos nunca fazer, está a proteger-nos do mal, o mal que destrói as vidas humanas – vidas que ele criou à sua imagem e semelhança.

Jesus salvou-nos da devastação do pecado através da sua paixão, morte e ressurreição, e verteu sobre nós o seu Espírito Santo, precisamente para nos tornar capazes de viver vidas genuinamente humanas. Promover este estilo de vida não é propor um novo conhecimento salvífico. No antigo gnosticismo as pessoas de fé – bispos, padres, teólogos e leigos – eram chamados psíquicos. Os gnósticos olhavam-nos com sobranceria precisamente porque não reivindicavam possuir qualquer “conhecimento” único ou esotérico. Vêem-se obrigados a viver pela fé na revelação de Deus, como compreendido e transmitido fielmente pela Igreja.

Aqueles que erradamente acusam os outros de neo-gnosticismos propõem – quando confrontados com as miudezas de questões morais e doutrinais da vida real – a necessidade de discernir aquilo que Deus gostaria que fizessem. As pessoas são encorajadas a discernir, sozinhas, a melhor via de acção, tendo em conta o dilema moral que enfrentam no seu próprio contexto existencial – aquilo de que são capazes em determinado momento no tempo. Desta forma a consciência individual de cada um, a sua própria comunhão com o divino, determina quais são os requisitos morais nas circunstâncias individuais. Aquilo que a Escritura ensina, aquilo que Jesus afirmou e que a Igreja nos faz chegar através da sua tradição magisterial viva, é ultrapassado por um “conhecimento” mais alto, uma “iluminação” avançada.

Se existe de facto um novo paradigma gnóstico na Igreja actualmente, diria que é aqui que se encontra. Quem propõe este novo paradigma afirma ser um verdadeiro conhecedor, com especial acesso ao que Deus nos diz enquanto indivíduos aqui e agora, mesmo que isso ultrapasse ou possa mesmo contradizer aquilo que Ele revelou a todas as outras pessoas através da Escritura e da tradição.

As pessoas que afirmam ter este conhecimento não deviam, pelo menos, ridicularizar enquanto neo-gnósticos aqueles que se limitam a viver segundo a “fé” na revelação de Deus, que nos chega através da tradição da Igreja.

Espero com isto ter trazido alguma clareza para a actual discussão sobre o gnosticismo “católico” contemporâneo, colocando-o no seu contexto histórico adequado. O gnosticismo não pode ser usado como alcunha para os fiéis “não iluminados” que se limitam a agir, com a ajuda da graça de Deus, da forma como o ensinamento divinamente inspirado da Igreja os convida a agir.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 7 de Junho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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