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Wednesday, 2 August 2023

Sobre sínodos

Entre Outubro de 1971 e Outubro de 1987 realizaram-se sete assembleias do Sínodo dos Bispos, seis ordinários e um extraordinário que analisou a implementação do Concílio Vaticano II, 20 anos depois do seu encerramento. Eu era o secretário de imprensa da delegação dos bispos americanos em todas essas assembleias, e até contribui para alguns dos textos sinodais. Mais tarde cobri outras assembleias sinodais como jornalista.

Embora nada disto me faça especialista em sínodos, dá-me uma certa perspectiva, assente na experiência, a partir da qual consigo apontar os problemas que ameaçam tornar o próximo encontro no Vaticano uma experiência em sinodalidade menos satisfatória do que os participantes, ou o Papa Francisco, possam querer.

O primeiro e mais evidente problema é o tamanho. Dizem-nos que o sínodo de Outubro vai ter 364 delegados eleitores, 120 nomeados pelo Papa em Julho. Em contraste, os sínodos passados tendiam a ter 250 participantes, ou menos – e mesmo isso era muito.

A principal questão que isto levanta é evidente. Como é que 364 pessoas, vindas de muitas nações e culturas diferentes, e sem qualquer conhecimento prévio uns dos outros, podem esperar chegar a um consenso – ainda que interino – sobre o que quer que seja em apenas 25 dias (tendo ainda em conta que uma boa parte do tempo será dedicado a liturgias e eventos cerimoniais)?

Claro que a resposta honesta é que não podem. E isso aponta para o segundo grande problema. Os organizadores do sínodo – presumindo que estão todos a agir de boa fé – provavelmente sentir-se-ão na obrigação de apresentar qualquer coisa, com base nas notas tiradas durante as discussões e nas suas próprias ideias preconcebidas.

Com o tempo a escassear, o resultado deste trabalho será apresentado aos participantes, já cansados, numa altura em que estes estarão à procura de alguma coisa – qualquer coisa – para mostrar como fruto da primeira fase do Sínodo da Sinodalidade. Infelizmente, porém, todo o processo contribuirá ainda para reforçar as suspeitas que já existem de manipulação.

E recordem-se, entretanto, que já está agendado para Outubro de 2024 um segundo sínodo, provavelmente definitivo. Se a primeira fase está a tornar-se grande e impraticável, é difícil ver como a segunda pode escapar a um destino igualmente infeliz e inconclusivo.

O terceiro problema tem a ver com secretismo – ou, talvez seja mais correcto dizer uma ausência demoralizante de transparência. Na preparação de sínodos passados, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos optou por eleger os seus delegados em sessões abertas das suas assembleias gerais, na presença dos jornalistas. O Vaticano não gostava disso, mas os bispos persistiram.

Para além disso, durante as sessões do sínodo os americanos faziam conferências de imprensa regulares, e davam entrevistas. O Vaticano também não gostava disso, porque preferia limitar o fluxo de informação aos seus próprios briefings de imprensa. Mas também aqui os americanos persistiram e a coisa parecia correr bem. Aliás, a credibilidade geral do sínodo provavelmente saiu reforçada.

Desta vez, aparentemente para cumprir com as regras do Vaticano, os bispos americanos escolheram os seus delegados em sessões secretas e os nomes só foram divulgados quando a Santa Sé anunciou os restantes participantes. Quanto à informação durante o encontro de Outubro, resta saber como é que o Vaticano lidará com isso, mas a preferência por secretismo e centralização revelada até agora não dá grande confiança de que este encontro vai ser aberto e transparente.  

De acordo com o documento de trabalho para o sínodo, as consultas pré-sinodais revelaram vários temas mais ou menos sensíveis para colocar em cima da mesa, incluindo padres casados, diaconisas e o ministério para pessoas LGBTQ+. Nesse contexto, é de notar que para além dos cinco bispos americanos escolhidos pelos seus pares como delegados, o Santo Padre nomeou outros cinco que são normalmente considerados particularmente em linha com as suas opiniões. 

Claro que o Papa está no seu direito, mas há aqui uma certa tensão com a imagem do sínodo como um processo sem um desfecho predeterminado e onde todos são livres de manifestar a sua opinião.

Por fim, deixa-me oferecer uma observação pessoal sobre este exercício eclesial.

Temos ouvido dizer repetidamente que o resultado desejado de todo este processo é uma Igreja sinodal equipada para evangelizar as periferias. Muito bem. Mas que mensagem é essa que queremos fazer chegar às periferias? “Juntem-se a nós num enorme processo de consulta a que chamamos ‘Igreja’"? Espero francamente que não.

Em busca de uma resposta melhor, recorri à poderosa encíclica Fides et Ratio do Papa João Paulo II, de 1998. Aí encontrei algumas questões que, segundo João Paulo, as pessoas sempre colocaram: Quem sou eu? De onde vim e para onde venho? O que há depois desta vida? Porque é que existe o mal?

Estas podem bem ser questões perenes, mas há muitas razões para pensar que hoje muitas pessoas – incluindo muitas que estão nas periferias – já não as colocam. Em vez disso, o canto da sereia desta nossa cultura secularizada, distrai-os com imagens, sons e apelos constantes ao consumo que os movem a fazer outro género de perguntas: Como é que posso obter? Como posso guardar? Como posso gozar? O que é que eu quero, ainda sem o saber?

Se aquilo que eu disse está certo, segue-se que a Igreja sinodal deve reconhecer essas questões sobre obter, guardar, gozar e aprender a querer e tê-las como ponto de partida para levantar as tais questões perenes. Por outras palavras, muito mais do que as habituais questões prementes, terá de abordar – de forma urgente – a evangelização, como dizer às pessoas, com amor e convicção, que hoje, como sempre, as respostas que procuram têm um nome e uma face humanas: Jesus Cristo.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de Julho de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 17 February 2021

Acerca da “Sinodalidade”

Russell Shaw
O Sínodo dos Bispos reunirá no próximo mês de outubro no Vaticano para discutir como deve ser uma Igreja sinodal. É verdade que um sínodo sobre sínodos pode parecer, à primeira vista, uma coisa dolorosamente aborrecida, mas os bispos estarão a discutir um assunto com enormes implicações para o futuro do Catolicismo.

Por isso, antes de avançarmos demasiado longe pelo caminho que tem sido promovido recentemente pelos líderes da Igreja na Alemanha, faríamos bem em questionar se a sinodalidade é, como o Papa acredita, aquilo de que a Igreja mais precisa neste momento, ou se a emenda será pior que o soneto. Por agora, pelo menos, a resposta mais sincera é: depende.

A palavra “sínodo” vem de dois termos gregos: “sun” (com) e “hodos” (caminho). Uma igreja sinodal é aquela que se conduz de forma participativa, com base na apreciação da sua própria natureza enquanto comunhão de crentes. A Comissão Teológica Internacional diz que a sinodalidade remonta ao chamado Concílio de Jerusalém, descrito nos Actos dos Apóstolos, em que os “apóstolos e anciãos” da igreja de Jerusalém discutiu o que se devia fazer em relação aos convertidos gentios.

Nos séculos que, entretanto, passaram, houve vários sínodos regionais e diocesanos. Os sínodos são importantes na eclesiologia do Cristianismo Oriental e o Concílio de Trento decretou que se realizassem sínodos diocesanos anualmente e sínodos provinciais de três em três anos para implementar os seus decretos. Pouco depois de ser eleito, o Papa João XXIII anunciou que os seus três grandes projetos seriam um concílio ecuménico, a revisão do Código de Direito Canónico e um sínodo para a Diocese de Roma.

Todavia, o modelo operacional para a Igreja nos tempos modernos não tem sido a sinodalidade, mas sim a centralização da autoridade: no Papa para a Igreja Universal, nos bispos diocesanos para as Igrejas locais. No que diz respeito ao papado a palavra definitiva está contida na Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, sobre a primazia papal e a infalibilidade, que declara que a jurisdição do Papa é universal, ordinária e imediata. Contudo, até a “Paspr Aerternus” admite que a primazia papal está “longe de ser um impedimento” ao exercício pelos bispos da autoridade que lhes compete. 

O Concílio Vaticano II repetiu o ensinamento do Vaticano I sobre a primazia papal, mas também sublinhou que a autoridade dos bispos não lhes é delegada pelo Bispo de Roma, mas vem directamente de Cristo. O Concílio também enuncia o princípio da colegialidade episcopal.


O Vaticano II não fala nem de sínodos nem, propriamente, de sinodalidade. Mas a Comissão Teológica Internacional (num documento sobre sinodalidade publicado em 2018) conclui que o Concílio preparou o terreno ao apresentar a Igreja enquanto Povo de Deus e encorajou a sinodalidade com o seu decreto sobre bispos, indicando aos ordinários o estabelecimento de senados ou conselhos de padres e recomendando a criação de conselhos pastorais com membros leigos.

Quando o Concílio se aproximava do fim, o Papa São Paulo VI anunciou a criação de um Sínodo dos Bispos permanente para a Igreja universal, mas até agora essas assembleias têm tido resultados mistos. No seu livro “Things Worth Dying For”, a publicar em breve, o arcebispo Charles Chaput lamenta que “em vez de serem ocasiões para trocas sinceras de ideias”, as duas assembleias sinodais em que participou, em 2015 e 2018, sofreram de “manipulações… exercícios de poder em vez de esforços para chegar a uma posição honestamente comum”.

Escrevendo o ano passado, o cardeal Gerhard Muller, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, levantou uma questão que o sínodo do próximo ano deve sublinhar. A sinodalidade, escreveu, pode ser de dois tipos: a sinodalidade dos bispos enquanto mestres e pastores e a sinodalidade da comunidade cristã, que pode ajudar os decisores, mas não deve infringir a sua autoridade.

O que nos leva à experiência de sindalidade na Alemanha, que ameaça tornar-se (se é que ainda não é) uma sinodalidade descarrilada.

As igrejas cristãs na Alemanha têm perdido milhares de membros todos os anos, há anos. Só em 2019 a população católica caiu em cerca de 273 mil pessoas. Com este pano de fundo, os bispos têm estado a seguir um projeto de “reforma” em conjunto com um grupo de leigos chamado o Caminho Sinodal que tem como enfoque questões como o celibato sacerdotal, a moral sexual, questões LGBTQ+ e o papel das mulheres.

Numa entrevista feita o ano passado a uma revista católica alemã, o bispo Georg Batzing, de Limburg, presidente da Conferência Episcopal alemã, reconheceu as críticas feitas “a nós alemães e à nossa forma de fazer as coisas”, mas insistiu que ele e os colegas tinham de estar na linha da frente para procurar formas de “prevenir que a distância entre o Evangelho e a respetiva cultura se torne ainda maior”.

É evidente que este é o tipo de pensamento que tem acompanhado e, pode-se argumentar, acelerado, a queda precipitosa do protestantismo liberal durante anos.

Na melhor das hipóteses, por isso, o modelo sinodal é aquilo a que um autor chama “andar a todo o vapor”. A Comissão Teológica Internacional diz que é “o modus vivendi et operandi específico da Igreja” enquanto comunidade de fiéis cujos membros “caminham juntos, reúnem-se em assembleia e tomam parte ativa na missão evangelizadora”. Mas a comissão também lança um aviso: “O perigo de cisma está sempre à espreita, e não deve ser ignorado”.

Então a sinodalidade é um remédio ou uma ameaça? Na verdade, pode não ser nem uma coisa nem outra, depende de quem está envolvido no processo, como compreendem o seu papel e se demonstram muito ou pouco respeito pela tradição católica.

Se vamos agora pelo caminho sinodal, que seja com esperança cautelosa e cautela esperançosa.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 10 fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 3 August 2016

Compreender o Desapego

Russell Shaw
O desapego é um tema central para o Cristianismo desde o seu início. Recordemos a história do homem rico, encontrado em todos os Evangelhos sinópticos, que pergunta a Jesus o que deve fazer para ser melhor. Jesus responde: “Vai e vende todos os teus bens e dá aos pobres. Depois vem e segue-me”. O jovem afasta-se, triste, porque, diz-nos o evangelista, “tinha muitos bens” (Mt. 19, 21-22). Faltava-lhe o desapego – precisava de se desprender de algo grande, mas não conseguia fazê-lo.

O desapego tem uma importância crucial, não só para jovens ricos, mas para todos os que querem imitar Cristo e viver segundo os seus ensinamentos. Mas do que é que estamos a falar, exactamente? E porque é que é tão importante não só para quem tem “muitos bens” mas também para aqueles cujos bens são mais modestos? Deixem-me propor uma definição que talvez ajude a chegar a uma resposta.

A definição é minha e não acarreta outra autoridade. Aceitem-na ou ignorem-na:

Ser-se desapegado – praticar o desapego – passa por estabelecer e manter uma relação com tudo e com todos na sua vida, de acordo com a qual todas as coisas são avaliadas consoante auxiliam ou dificultam a nossa relação com Deus, a imitação de Cristo e o serviço aos outros.

É uma boca cheia, admito. O que se segue talvez ajude a explicar o que significa.

No final da Idade Média os melhores pensadores consideravam que o desapego era contemptus mundi – desprezo pelo mundo. Encontra-se isto na sua forma mais pura em “A Imitação de Cristo”, um clássico da literatura espiritual (1419) que se costuma atribuir a Tomás Kempis, embora outros possam ter contribuído também. Prega uma mensagem de contemptus mundi a toda a linha, a começar pelo Livro Um, Capítulo Um:

A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.
Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas.
Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada.
Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado.
Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa.
Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura.
Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.

E por aí fora.

A mensagem da “Imitação” é de uma sabedoria perene e tem sido crucial para a vida espiritual de incontáveis pessoas ao longo de seis séculos, e continua a sê-lo. Ainda assim, não há como negar que a sua visão do mundo contrasta, para não dizer que entra em conflito com, a visão expressa em “Amar o Mundo Apaixonadamente”, a famosa homilia de São Josemaria Escrivá, o fundador da Opus Dei.

“Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir.”
 
"Pois tinha muitos bens" - Watts
Existe uma clara tensão entre isto e o contemptus mundi. Então o que devem fazer os cristãos que querem exercer o desapego? Encarar o mundo com desprezo, ou amá-lo apaixonadamente?

Esta tensão resolve-se, creio eu, num texto do Concílio Vaticano II que deu pouco nas vistas mas que é extremamente importante, “Gaudium et Spes”. Os teólogos não parecem saber muito bem o que fazer com o documento, mas no meu entender ele pode fazer uma enorme diferença para a maneira como os cristãos encaram a vida no mundo.

Os padres conciliares estão a discutir o sentido da actividade humana na perspectiva da fé. Recordando o ensinamento bíblico de que “a figura deste mundo, deformada pelo pecado, passa certamente, mas Deus ensina-nos que se prepara uma nova habitação e uma nova terra, na qual reina a justiça”. E continua dizendo que “a expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro.”

“Todos estes valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo o seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: ‘Reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz’. Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição”. (GS 39)

Claramente isto significa que, pelo menos os bens humanos para os quais trabalhamos agora e que por vezes realizamos, embora de forma imperfeita, não desaparecerão na próxima vida. Há uma verdadeira continuidade. Os bens humanos estarão presentes no Céu, também, de forma perfeita e realizada. E embora a passagem não o diga, suspeito que o modelo que os padres conciliares tinham em mente é a humanidade ressuscitada de Cristo.

Aqui está, portanto, o ponto de partida e a fundação de um verdadeiro desapego, que valoriza as obras para a realização de bens humanos e os utiliza ao serviço de Deus e um do outro, sem lhes dar, na sua forma imperfeita, o valor permanente que apenas terão na sua forma perfeita no Reino dos Céus.

Amar o mundo apaixonadamente significa que podemos desapegar-nos dele graças à promessa da ressurreição e da vida eterna, confiantes de que encontraremos no Céu o melhor daquilo pelo qual trabalhámos na terra. É essa a essência do desapego.



Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 31 de Julho de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 19 November 2014

O Papa e a Comunicação Social

Russell Shaw
Será que a lua-de-mel do Papa com a comunicação social está a chegar ao fim? Nem por isso. O que se está a passar é algo superficialmente semelhante, mas substancialmente diferente e que, a longo prazo, pode ser bem mais saudável, tanto para a imprensa como para o Papa, do que o mero prolongamento do estado de graça.

À medida que o programa do Papa para a Igreja passa das palavras à acção – o sínodo dos bispos em Outubro e a nomeação de um novo arcebispo em Chicago são dois exemplos concretos – as críticas deixaram de vir apenas das margens da direita católica e passaram a ser mais generalistas. E os media, sem se virarem contra o Papa, estão a tomar nota do que se está a passar e a começar a relatá-lo.

Nas palavras de John Allen, do “Boston Globe”, “estamos a entrar na segunda fase do pontificado de Francisco, em que um período de bons sentimentos começa a dar espaço a uma era de crispação”.

O ponto de viragem nos media pode ter sido o artigo de opinião pós-sinodal de Ross Douthat, no “New York Times”. Douthat, um católico conservador, disse aquilo que outros já tinham dito – que o Papa corre o risco de abrir fracturas na Igreja se for longe demais e rápido demais na exigência das mudanças que defende – mas fê-lo de forma enfática, extensa e num lugar de grande visibilidade: a página de opinião do “New York Times”.

Sublinhando que até ao sínodo o Papa tinha recebido críticas apenas “da franja tradicionalista da Igreja”, Douthat realçou que o Papa conseguirá a maior parte daquilo que procura sem pôr em causa a doutrina estabelecida. “Mas se parecer que está a optar pelo caminho mais perigoso – se começar a tirar de cena os seus potenciais críticos na hierarquia [tal como o Cardeal Raymond Burke?], se parecer estar a encher as fileiras do próximo sínodo com os apoiantes de grandes mudanças – então os católicos precisarão de olhar cuidadosamente para a situação”. Douthat vai ao ponto de falar em “cisma”.

Este abrir de olhos da imprensa continuou com a reunião de 10 a 13 de Novembro dos bispos americanos em Baltimore. Uma forma de ler a situação passa por discernir uma crescente tensão entre o Papa e os bispos, uma variante de “Papa Bom/Bispos Maus” com que Rachel Zoll, da “Associated Press”, nos brindou quando afirmou que Francisco estava a “pressionar os bispos americanos a fazer um volte-face” ao abandonar os temas fracturantes e abrir-se a consultar os leigos.

Mas o próprio Papa não hesita em falar claramente de temas sociais como o aborto e o casamento homossexual, e rodeou-se de um pequeno círculo clerical de conselheiros. Laurie Goodstein, do “New York Times”, esteve mais próxima da verdade quando escreveu que o sínodo de Outubro “voltou a despertar uma divisão na Igreja entre conservadores e liberais que estava relativamente adormecido durante a lua-de-mel de 20 meses... Agora o pontificado de Francisco entrou numa fase mais delicada, com alguns bispos a questionar se existe uma visão sobre para onde é que ele quer levar a Igreja e um plano para lá chegar”.

Então, Goodstein revelou uma citação impressionante de uma entrevista com o recentemente reformado Cardeal Francis George, de Chicago: “Ele [o Papa Francisco] diz coisas maravilhosas, mas nem sempre junta as peças, por isso ficamos sem saber bem qual é a sua intenção. O que ele diz é suficientemente claro, mas o que é que pretende que nós façamos?”

Esta parece ser a direcção a adoptar pela cobertura jornalística no futuro imediato. Mas ainda existe bajulação, sobretudo nos círculos católicos liberais, onde Francisco continua a ser visto como a melhor esperança para as suas causas. Daí que um editorial na edição de 25 de Outubro do “The Tablet”, de Londres, tenha elogiado o seu discurso final ao sínodo como “uma exposição soberba do ensinamento católicos sobre o casamento e a vida familiar”.

Papa Francisco com jornalistas

O que não deixa de ser estranho, tendo em conta que o texto não diz praticamente nada sobre o casamento e a vida familiar. Em vez disso, Francisco coloca em contraste os extremos inaceitáveis (“inflexibilidade hostil” vs. “uma tendência destrutiva para a caridadezinha”), dando a entender que o orador é um homem de moderação, com quem os ouvintes razoáveis devem concordar.

Mas deixando de parte os liberais, esta bajulação poderá ser difícil de sustentar durante muito mais tempo. O sínodo deixou demasiadas questões em aberto. Contudo, esta mudança de rumo da cobertura e do comentário não é de todo uma coisa má, nem para os media nem para o Papa. Aqui temos muito a aprender com o exemplo de Barack Obama e a imprensa.

Em 2008 muitos jornalistas ficaram caidinhos por Obama e a lua-de-mel durou até ao fim do seu primeiro mandato. Mas isso já mudou. Terrenos anteriormente amistosos, como a página de opinião do Washington Post, tornaram-se um campo minado onde jornalistas previamente bajulantes lançam ataques cerrados, acusando o presidente de ser mais um espectador do que um participante na sua própria presidência.

Não é natural que se chegue a esse ponto com o Papa Francisco. O respeito pelo papado garante que as questões e a crítica do catolicismo generalista serão mais moderadas e a cobertura mediática, se for responsável, reflectirá isso.

Mas as vantagens para os media de uma abordagem menos embeiçada a Francisco são evidentes. A cobertura factual e uma análise com base nos factos são o ar que os jornalistas respiram. A isenção é tudo. Um jornalista não serve para fazer claque. Nem sequer por um Papa.

Também existem vantagens para Francisco: Os media como confronto com a realidade. Debaixo das críticas dos jornalistas, Barack Obama refugiou-se numa espécie de ressentimento aéreo, o que não lhe tem servido de nada. Se o Papa for esperto usará a cobertura mediática do seu trabalho para se manter no rumo certo.

Goodstein, do New York Times, publicou outra citação curiosa do Cardeal George, que está a receber tratamento oncológico: “Gostava de me sentar com ele e dizer: Santo Padre, em primeiro lugar, obrigado por me deixar reformar-me. Agora, posso fazer algumas perguntas sobre as suas intenções?”

Não é natural que o cardeal George ainda o consiga fazer e a maior parte de nós certamente não o fará. Mas, se tivermos sorte, os media farão esse trabalho por nós. De certa forma, já começaram.



(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 18 de Novembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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