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Friday, 21 December 2012

O mundo continua, o ranking acabou. Santo Natal!

Já foi divulgado o número 1 do meu ranking de notícias de religião de 2012. E o primeiro lugar vai para o caso Vatileaks, fantasticamente protagonizado pelo mordomo Paolo Gabriele… era óbvio não era?

Neste post podem ver a lista completa, juntamente com o que foi, para mim, a foto do ano.

De fora da contagem ficam os abusos sexuais na Igreja Portuguesa. Por um lado porque a coisa só rebentou quando eu já tinha acabado a lista, mas principalmente porque ainda estamos para ver até que ponto é que estamos perante uma avalanche de casos, como houve noutros países, ou um caso isolado numa diocese.

Ontem foi instaurado um inquérito à Ordem dos Hospitaleiros de São João de Deus. A ordem emitiu um comunicado esta tarde a dizer que não se passa nada, mas só se referem a um caso que terá sido arquivado o ano passado…


Bento XVI falou hoje à Cúria Romana e elegeu os ataques à família como um dos grandes perigos do nosso tempo. É um tema caro a Bento XVI, que não é de agora, como explica Aura Miguel num artigo de opinião.

E pronto. Resta-me desejar-vos um Santo Natal a todos, estes mails só devem regressar lá para dia 27. Podem ir vendo as últimas no Facebook. Para aqueles que sentem que o Advento passou sem darem conta, ainda têm uns dias para aproveitar! Aqui estão duas sugestões para o fazerem.

O ano religioso de 2012

Foto do ano, na minha opinião
Ao longo das últimas semanas elaborei aqui um ranking do ano de 2012 no que diz respeito às notícias de religião.

Foram dez temas e há para todos os gostos. Temos o Islão, o Judaísmo, o Cristianismo e o Budismo, temos. Temos notícias de África, da Europa, da Ásia, do Médio Oriente. Temos renovações de liderança e temos guerras intermináveis... é só escolher.

O ranking é feito com base no meu critério, não deixa por isso de ser falível, mas penso que apresenta uma bom retrato do ano e, sobretudo, releva alguns temas que passaram quase despercebidos na imprensa mas que são da maior importância.

Em 10º lugar da lista coloquei a viagem do Papa ao México e a Cuba. Contudo, a nível de imagens, penso que foi dessa viagem que surgiu a fotografia do ano, que é a que está neste post, de um manifestante a ser levado para fora da missa campal depois de ter gritado "Abaixo o Comunismo".

Aqui está a lista completa:

1 – Caso Vatileaks

2 – A Guerra Civil na Síria

3 – A Sociedade de São Pio X e os 360º

4 – Liberdade Religiosa na Europa

5 – Liberdade Religiosa nos EUA

6 – Auto-imolações no Tibete

7 – Boko Haram e o espectro da guerra religiosa na Nigéria

8 – Ofensas ao Islão e repercussões

9 – Novos líderes dos coptas e dos anglicanos

10 – Viagens do Papa a Cuba, México e Líbano

Thursday, 20 December 2012

Bento XVI: Autor, Colunista, Papa

Paulo VI - À espera de um milagre...
Hoje o jornal económico Financial Times publicou um artigo de um alemão. O que em si não seria notícia, não fosse o alemão Bento XVI e não fosse esta a primeira vez que o Papa escreve um artigo de jornal.

O artigo é sobre o Natal mas, como tudo o que este Papa escreve (sem ser no Twitter, pelo menos), é muito profundo e tem vários recados. César das Neves considera que esta foi uma boa forma de chegar a quem passa o Natal afastado da Igreja.

Hoje a ONU disse que o conflito na Síria assumiu contornos sectários. Basicamente aquilo que nós temos estado a dizer há um ano e meio. Obrigado ONU! Saiba tudo sobre este assunto com o número dois do ranking de notícias de religião de 2012 – A guerra civil na Síria!


No muro das Lamentações é que não faltam milagres, ou melhor, falta pelo menos um, para confirmar os outros. Confuso? Envolve mais de 370 milhões de euros…


Destaque ainda para a entrevista de ontem de Aura Miguel a Isabel Almeida e Brito, directora de um colégio, sobre o lugar da Fé na vida de quem trabalha no meio do mundo. Hoje e amanhã à noite ouviremos testemunhos de um médico e de alguém do mundo do direito.

E termino com um elogio a Thereza Ameal cujo livro “As Minhas Primeiras Orações”, que consta do Plano Nacional de Leitura e foi traduzido para italiano, vai agora ser traduzido e posto à venda na Coreia do Sul! Saibam mais aqui.

2 – A Guerra Civil na Síria

Mapa de distribuição religiosa na Síria
Clicar para aumentar
Graças a Deus, existe a ONU!

A Organização confirmou hoje que existem militantes do Hezbollah a combater pelo regime de Bashar al-Assad, na Síria e alertou para o facto de a guerra civil naquele país ter assumido contornos de luta sectária! A sério?!

Pois este é um tema sobre o qual temos falado incansavelmente durante todo o ano, até mais, mas foi sem dúvida um dos grandes temas deste ano no que diz respeito a informação internacional e também religiosa, porque a religião desempenha um grande e importante papel neste conflito.

A guerra na Síria ajuda-nos a compreender que isto da Primavera Árabe não é um fenómeno simples, igual em todos os países. A situação na Síria não tem nada a ver com o Egipto ou com a Tunísia. Se na Tunísia a população é praticamente homogénea, e no Egipto são apenas dois os grupos etno-religiosos de peso, os muçulmanos sunitas e os cristãos, a Síria é uma manta de retalhos.

Se não vejamos:

População: Cerca de 22 milhões
Distribuição religiosa:
            Muçulmanos sunitas: 74%
            Muçulmanos de tradição xiita: 13%
            Cristãos, várias denominações: 10%
            Drusos: 3%

Mas se fosse só assim seria demasiado simples! Então temos que 9% da população é curda. Os curdos são na maioria sunitas, mas mantêm-se à parte da população árabe, por isso os árabes sunitas são apenas cerca de 65% da população total.

Entre os xiitas temos também três grupos distintos, mas o grupo principal são os alauitas, uma vertente esotérica do xiismo. Os alauitas vivem também no Líbano e na Turquia mas a maioria vive na Síria e, desde a subida ao poder da família Assad, dominam os aparelhos do poder político e militar, isto apesar de serem apenas cerca de 10% da população total.

Por fim, os cristãos pertencem a várias denominações diferentes. Há católicos (de várias igrejas), ortodoxos, arménios e protestantes. A variedade de hierarquias e uma notória falta de coordenação significam que os cristãos, mesmo que estejam de acordo, raramente falam a uma só voz.

Vamos então ao conflito. Quem é que está a lutar pela queda do regime?

O grosso dos militantes anti-Assad são árabes sunitas. São apoiados financeira e militarmente pelos países árabes sunitas do Golfo, muitos dos quais tentam impor aos grupos que financiam as suas ideologias extremistas. Contudo, alguns membros de outros grupos étnicos ou religiosos também apoiam a oposição.

E quem apoia Assad? Os alauitas, sem dúvida. Mesmo que não gostem da figura e da repressão do regime, vivem aterrorizados com o que lhes pode acontecer caso os sunitas tomem o poder. As garantias por parte da oposição de que não haverá lugar a retribuições e vinganças não parecem consolar os alauitas.

Os cristãos também apoiam, no geral, Assad. A Síria era, até há cerca de dois anos, um dos sítios mais seguros para os cristãos viverem em todo o Médio Oriente. Pela minha experiência pessoal, de contacto com cristãos sírios, mesmo antes do começo das revoltas, eles não gostavam do regime em si, mas calculavam que era um mal menor, tendo em conta o que se passava nos países à volta. Como os alauitas, temem um eventual Governo islamista sunita.

Na corda bamba estão os drusos que, mais que tudo, querem que os deixem em paz.

Complicado? Calma que ainda fica pior. É que há também os actores externos. Vejamos.

O Irão é a única potência regional xiita e faz tudo o que tem ao seu dispor para salvaguardar a sua influência regional. Uma Síria em mãos alauitas é aliada do Irão, uma Síria sunita não é. Por isso o Irão apoia Assad até porque o fim do regime impediria os iranianos de continuar a apoiar o Hezbollah, no Líbano.

O que nos leva precisamente ao Hezbollah. Esse grupo político-militar xiita é, actualmente, o mais influente no Líbano. Tem um arsenal próprio e conta com o tal apoio do Irão, que é muito significativo. Com o seu poder continua a fazer frente a Israel, como pode. Para o Hezbollah a perda da conduta Síria, por onde vêm armas do Irão, seria desastrosa. É por isso que o Hezbollah está, de facto, há muito tempo, a combater na Síria ao lado das forças armadas de Assad.

Para além dos países do Golfo que apoiam financeiramente a oposição há ainda que ter em conta a Turquia. Os turcos já não são aquele baluarte do secularismo que eram há anos, o país tem-se tornado crescentemente islâmico e à medida que a Europa vai mostrando que não a quer na União Europeia, os turcos vão virando as atenções para o Médio Oriente, conscientes de que a Primavera Árabe pode muito bem aumentar a sua influência na região.

Por isso a Turquia, um dos países sunitas mais importantes do Médio Oriente, também quer ver os sunitas no poder na Síria, de preferência com uma dívida de agradecimento para com Ancara.

E quem é que não pode ver os turcos à frente? Os curdos, pelo que esse grupo se mantém muito desconfiado em relação à oposição na Síria também.

Resumindo, uma enorme misturada, mas onde a religião é um factor chave para se compreender o que se está a passar. Não é, de certeza, uma mera questão de amantes da liberdade contra um estado tirânico.

Também é necessário realçar, claro, que há excepções. Há cristãos empenhados na oposição e há sunitas que não querem ver Assad pelas costas. A tendência até pode ser para a passagem gradual dos cristãos e outras minorias para o lado da oposição, à medida que percebem que a vida normal e calma que gozavam simplesmente não regressará.

E, claro, há muitos factores extra-religiosos na equação. O apoio da Rússia e da China a Assad tem outras raízes, por exemplo, e os EUA e Europa não apoiam certamente a oposição por amor ao Islamismo.

Actualmente a queda do regime parece ser simplesmente uma questão de tempo, mas isso não será o fim da história, é que muitos destes grupos poderão, em situações de perigo juntar-se nas suas terras ancestrais, e tentar, quem sabe, criar estruturas autónomas de Governo. Mas isso já são suposições.


Ver também:

Wednesday, 19 December 2012

I want to believe!

Mulder queria fazer parte dos 84%?
Anuncio-vos uma boa nova! Depois de um mês de interrupção regressam os artigos em português de The Catholic Thing. Esta semana Howard Kainz fala do mito da Superpopulação.


E vai em seis o Patriarcas que deixam vagos os seus tronos em 2012… Agora foi o Patriarca dos Caldeus. Não morreu, mas renunciou. Em Janeiro teremos substituto.

O que é que você faria se no seu país estivesse a decorrer uma campanha de inoculação contra a poliomielite? Se é amigo dos Talibans então é natural que a sua resposta envolva assassinatos a sangue frio de funcionárias de saúde… afinal de contas o que é a campanha contra esta doença terrível que não uma tentativa de esterilizar muçulmanos?

Continuamos com o ranking de notícias de religião de 2012 e hoje entramos no Top 3. Então em terceiro lugar temos a autêntica montanha russa que foram as conversações entre os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X e Roma.

3 - A Sociedade de São Pio X e os 360º

O líder da SSPX e o Papa Bento XVI
Todos conhecem a famosa (e provavelmente apócrifa) história do futebolista que se alegra por a sua vida ter dado uma volta de 360º…

Pois foi mais ou menos isso que se passou, até agora pelo menos, nas conversações entre o Vaticano e a Sociedade de São Pio X, que reúne os tradicionalistas que seguiram o Arcebispo Marcel Lefebvre e estão em situação de ruptura com Roma.

Durante a primeira metade do ano de 2012 falou-se e escreveu-se muito sobre a iminência da reunificação. Foi uma verdadeira montanha russa que começou com aproximação, depois aparente afastamento, depois aproximação tão grande que importantes vaticanistas e comentadores chegaram a dar o acordo por certo e, finalmente, o balde de água fria que foi a certeza de que não se tinha chegado a acordo.

Os documentos são confidenciais mas o que se sabe é que o Vaticano estava disposto a oferecer aos SSPX uma prelatura pessoal que lhes daria autonomia para se governarem, em comunhão plena com a Santa Sé. Mas ao que parece a exigência de que o grupo aceitasse que o Concílio Vaticano II não representava qualquer ruptura na doutrina da Igreja parece ter sido demais para o Bispo Fellay, actual líder do grupo, e os seus seguidores.

Muitos foram os que vaticinaram que este diálogo “ou ia ou rachava”, por assim dizer. A confirmar-se essas previsões, então rachou e os tradicionalistas poderão estar agora a sair definitivamente da órbita de Roma.

Se isso se confirmar, então é pena. Por um lado porque esta era uma reunificação muito desejada por Bento XVI, que investiu nela a grande custo pessoal. Por outro, porque assim aumenta a probabilidade de a SSPX começar a entrar na espiral de loucura que costuma caracterizar estes grupos cismáticos.

Apesar do fracasso do diálogo, pelo menos aparentemente e até agora, os efeitos não deixaram de se fazer sentir. Um dos quatro bispos tradicionalistas, o anti-semita e ferozmente anti-romano Williamson, foi afastado da sociedade e alguns padres saíram também para formar um novo grupo (acção típica da espiral de loucura de que falava).

É claro que o diálogo continua mas neste momento, e ao contrário do que pensava há seis meses, julgo que a reconciliação será bastante pouco provável.

Monday, 17 December 2012

Tristeza no novo continente e liberdade religiosa no velho

Vigília de oração pelas vítimas de Newtown
A tragédia de Newtown dominou o fim-de-semana. Os bispos americanos asseguram os familiares das vítimas que estão a rezar por eles e o Papa revelou-se profundamente triste pelo episódio.

O Papa recebeu hoje o Presidente da Autoridade Palestiniana, que lá esteve no contexto da viagem que está a fazer pela Europa para agradecer o reconhecimento pela ONU enquanto Estado observador.

Este fim-de-semana foi de bênção das grávidas em vários pontos do país. Em Lisboa D. Nuno Brás falou da vida de fé como único caminho para a felicidade.

E D. Jorge Ortiga, que hoje publicou a sua mensagem de Natal, disse também que o Estado e a sociedade têm de dar as mãos para resolver os problemas das pessoas.

Estamos a entrar na recta final do ranking das 10 notícias mais importantes de 2012 em termos de religião! Se bem se recordam o número 5 foi a liberdade religiosa nos EUA, no número 4 temos a liberdade religiosa na Europa. Dois continentes que enfrentam o mesmo desafio por razões completamente diferentes.

4 – Liberdade Religiosa na Europa


Uma semana mais tarde um tribunal em Colónia proibiu a circuncisão de crianças por razões religiosas, o que passados seis meses ficou novamente resolvido por forma legislativa.

Há coisa de semanas o debate sobre a matança ritual, que afecta judeus e muçulmanos, voltou a estar na ordem do dia, mas desta vez na Polónia.


À primeira vista são várias notícias diferentes, mas todas têm em comum as novas ameaças à liberdade religiosa na Europa.

Se não se tiver em conta o caso britânico, então até seria possível fingir que isto não é mais do que um continente historicamente cristão a adaptar-se a novas religiões, como o Islão, que vão chegando juntamente com as suas tradições.  No caso da matança ritual o que choca os opositores é o facto de os animais não serem atordoados quando são abatidos.

Mas não é nada disso. Os judeus vivem na Europa há milhares de anos e sempre usaram os mesmos rituais para matar animais e garantir que a carne é ritualmente pura, acontece que esses rituais são praticamente idênticos aos islâmicos. Ou seja, isto não é nada de novo. O que é novo é a ideia de que um grupo religioso, respeitável e bem implementado na sociedade, possa ser agora impedido de levar a cabo uma prática que lhe é essencial.

Com a carne, ainda vá que não vá, há comunidades judaicas e muçulmanas que não têm dimensão suficiente para garantir toda a logística necessária para montar os processos de matança que respeitem as regras kosher e halal. Podem passar muito bem sem comer carne, se assim entenderem. Mas o que dizer sobre a circuncisão?

Sejamos claros. A história da proibição, e mais tarde legalização, da circuncisão religiosa na Alemanha (por mais que tenha sido só num Estado e a verdade é que rapidamente o fenómeno se espalhou), é uma das mais importantes notícias deste ano. A circuncisão é, para os judeus e muçulmanos, o cumprimento de um mandato divino, a correspondência do povo à aliança estabelecida por Deus. Uma comunidade judaica que não pode circuncidar os seus filhos está efectivamente a ser impedida de ser judaica.

Chegámos mesmo ao tempo em que um tribunal se julga no direito de proibir algo deste género? Pelos vistos sim. Pode-se argumentar que é indiferente porque mais tarde o Parlamento legalizou a circuncisão, mas apesar de resolver o problema a solução não deixa de ser preocupante também. Efectivamente, a circuncisão é hoje legal na Alemanha por decreto, não porque é um direito inalienável dos pais, mas sim porque os políticos se deram ao luxo de o permitir. Da mesma forma poderão retirar esse direito quando quiserem. Isto é, simplesmente, inacreditável.

Inacreditável e só possível porque chegámos a um ponto em que somos governados por classes políticas para quem a sensibilidade religiosa é inexistente. O exemplo máximo disso foi a provedora das crianças na Noruega que sugeriu, qual iluminada, que os judeus e muçulmanos passassem a circuncidar os seus filhos “simbolicamente”. Simbolicamente? Que mais senhora provedora? Porque é que não pedimos aos carnívoros para passarem a comer carne apenas de forma simbólica? Baptismo simbólico para os cristãos? Afinal de contas, a água fria pode fazer mal aos pequenos.

No meio disto continua no Reino Unido a saga de duas pessoas que foram despedidas por que se recusaram a retirar crucifixos e outras duas porque disseram que eram contra o “casamento” homossexual. O caso está perante o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem porque os tribunais britânicos não reconheceram nestes despedimentos nada de anormal.

Shirley Chaplin, uma das queixosas
Uma sociedade em que eu, de um dia para o outro, tenho de deixar de usar o meu crucifixo ao pescoço, ou no qual eu perco o meu emprego porque digo que defendo que o conceito de casamento não deve ser mudado, é uma sociedade em que a liberdade religiosa está severamente ferida.

E é porque acredito que isto é uma clara tendência e não apenas um apanhado de factos isolados, que não tenho dúvidas em considerar que as notícias sobre liberdade religiosa na Europa são, no seu conjunto, uma das histórias mais importantes dos nossos tempos, às quais não se está a dar o devido valor.

Wednesday, 12 December 2012

12/12/12 e o Papa no Twitter

Foi no dia 12/12/12 que Bento XVI mandou o seu primeiro “tweet”. Mesmo assim, o mundo não acabou.

Há cada vez menos cristãos na Inglaterra, mas apesar de uma diminuição de 13% numa década, continuam a ser maioria naquele país. Ateus e agnósticos subiram 10%.

O bispo da Guarda esteve com os alunos do seminário menor do Fundão e com as suas famílias. Até agora a resposta de D. Manuel Felício a este escândalo está a ser exemplar, ao que tudo indica.

No Egipto foi hoje detido um activista ateu, acusado de blasfémia e ofensas à religião. Alber Saber não discriminava e ofendia cristãos e muçulmanos de forma igual.

Estamos já a meio da tabela do Ranking de 2012 de notícias de religião. Hoje olhamos mais de perto a “guerra” entre Obama e os bispos católicos americanos.

Atenção a todos os que interessam pelo diálogo inter-religioso. No próximo domingo, dia 16, estarei presente numa tertúlia no LX Factory para falar deste assunto, juntamente com Ajahn Vajiro (um monge budista), o muçulmano António Barahona e Pedro Teixeira da Mota. É às 16h, na Ask For Alchemy, no edifício 4. Há um custo de 5 euros para não-sócios, mas com direito a lanche e a conversa promete ser interessante. Apareçam e divulguem!

5 – Liberdade Religiosa nos EUA

Assistimos em 2012 a uma luta hercúlea nos Estados Unidos que opôs a hierarquia da Igreja Católica à Presidência, que está longe de terminar. Em causa está a liberdade religiosa, um dos direitos fundamentais para aquele país e que os bispos consideram estar a ser posta em causa pelo Governo.

No centro da questão está o plano de reforma do sistema de saúde que foi a grande bandeira de Obama no seu primeiro mandato. Os bispos até apoiaram a passagem de ObamaCare, como passou a ser conhecido, mas não esperavam o decreto que foi emitido o ano passado que obriga muitas instituições religiosas a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluam a cobertura de serviços abortivos e contraceptivos.

De fora ficam as igrejas propriamente ditas, ou seja, uma pessoa que esteja empregada como organista ou como sacristã não tem direito a um seguro com estes serviços. Mas de fora fica tudo o que são hospitais, universidades e escolas, por exemplo. Ou seja, um hospital católico tem de pagar os serviços abortivos e contraceptivos de que os seus funcionários eventualmente queiram beneficiar.

E que dizer das empresas privadas? São muitos os católicos que já contestaram este decreto por via judicial, não aceitando que o Estado os obrigue a financiar um serviço não essencial que ainda por cima atenta contra os seus valores morais.

Obama v. Católicos
Os bispos queixaram-se imediatamente e à primeira vista Obama ofereceu um compromisso. O custo desses serviços seria suportado pelas seguradoras e não pela instituição. Mas rapidamente se percebeu que essa não era solução nenhuma. Por um lado porque a seguradora simplesmente iria aumentar o prémio, por outro porque muitas instituições não recorrem a seguradoras externas, preferindo gerir os seus próprios sistemas de seguro, pelo que a decisão nada resolve.

O episcopado norte-americano, habilmente liderado pelo Arcebispo de Nova Iorque, Cardeal Timothy Dolan, não cruzou os braços. Num movimento inédito naquele país todos os bispos se declararam contra a medida. Nem uma dissensão. Aos católicos juntaram-se vários outros líderes religiosos que, não tendo nada de especial contra a contracepção viam com alarme este ataque à liberdade religiosa. Obama não cedeu.

Estavam lançados os dados para uma guerra épica entre as duas instituições. Igreja contra Presidente. Sobretudo em ano de eleições.

Sem o apoiar oficialmente os bispos pareceram colocar o seu peso por detrás de Mitt Romney, a derrota de Obama seria para eles uma enorme vitória. Mas essa expectativa gorou-se. Obama ganhou e os bispos perderam.

E agora? Do ponto de vista da Igreja há uma memória histórica. O Cristianismo nasce precisamente de uma aparente enorme derrota. Os primeiros tempos da Igreja são de derrota após derrota, perseguição após perseguição. Mas haverá maior derrota que não lutar?

Dolan não cruza os braços...
Dolan e os seus colegas no episcopado percebem que esta guerra é crucial e não mostram sinais de ceder. Temem o que poderá vir a seguir. Quando o Governo pode mandar uma Igreja pagar abortos dos seus empregados, alguma coisa estará segura?

Mas a batalha trava-se também noutros campos, sobretudo no judicial. Aqui há boas possibilidades de o Supremo considerar que esse decreto em particular é inconstitucional e aí voltaria tudo à estaca zero e os bispos sairiam triunfantes.

Contudo, há uma coisa que nenhuma decisão judicial pode disfarçar. É que os bispos falaram, falaram a uma só voz e falaram com firmeza, mas os fiéis também falaram, nas urnas, e a maioria dos católicos deu o seu voto a Obama, o Presidente mais pró-aborto da história da América, que quer obrigar os bispos a comprar preservativos.

Claro que o número tem nuances. A maioria dos católicos praticantes votou em Romney, a maioria dos não praticantes votou em Obama. O problema está, portanto, em haver mais não praticantes que praticantes. E esse é um problema que os bispos têm de resolver internamente.

Tuesday, 11 December 2012

União Europeia, arte sacra e pessoas a arder


Já é conhecido o sexto lugar no ranking de notícias religiosas de 2012. A vaga de auto-imolações no Tibete.



Não é só Lisboa que tem direito a ter um presépio na cidade. Os eborenses também vêem aqui uma boa possibilidade para evangelizar.

O que valerá mesmo a pena é ir ver um dos dois concertos de Natal dos jovens das EJNS, do CL, do CUPAV e de Schöenstatt. Realizam-se nos dias 15 e 16 de Dezembro e o dinheiro angariado, como sempre, é para boas causas. Podem ver o cartaz em anexo.

6 – Auto-imolações no Tibete

Cada vez mais penso que os europeus não estão equipados para lidar com o fenómeno das auto-imolações no Tibete. De que outra maneira se pode explicar que depois de 95 casos (sim 95!), cada nova notícia de imolação é tratada com uma notícia de um ou dois parágrafos?

Muitos têm dificuldade em compreender que haja quem esteja disposto a morrer por uma causa, mas isso, ainda assim, é um conceito que faz parte da nossa cultura cristã, religião fundada por vagas sucessivas de mártires. Deploramos o facto de haver quem esteja disposto a matar, matando-se no processo, por uma causa ou por uma fé. Isso já não faz parte da nossa matriz. Mas há algo repulsivamente lógico em dar a nossa vida desde que consigamos causar danos graves ao “inimigo”, ou matar mais deles do que os que perdemos.

Mas o que se passa no Tibete é totalmente diferente. Lá, homens, mulheres e jovens estão a tirar a sua própria vida como manifestação política, sem ferir mais ninguém. Estão-se a imolar em ambos os sentidos da palavra, isto é, fazendo-se consumir pelo fogo mas também como acto sacrificial.

É por isso que, como já escrevi aqui, o gesto da auto-imolação tem tão maior impacto que outras formas de suicídio. A imolação pelo fogo tem recorda-nos temas religiosos, os sacrifícios do Antigo Testamento. Nada disto é acidental.

Em dois anos são 95 as pessoas que, em defesa da liberdade da sua nação e em protesto contra o exílio do seu líder, se regam com gasolina e dão a vida às chamas. Dois dos casos, pelo menos, deram-se fora do país, um na Índia e outro em França.

Se nós temos dificuldade em lidar com isto os chineses também têm. Como é que se impede este tipo de protesto? Como é que se continua a dizer que os tibetanos estão melhor com a China do que estavam quando eram independentes quando as pessoas em causa se incendeiam para protestar a sua presença?

A solução até agora tem passado por culpar o Dalai Lama. Este, por sua vez, já disse que os tibetanos devem evitar este tipo de actos, mas os Governo tibetano no exílio recusa-se a condenar as vítimas e fala actos compreensíveis e uma “expressão de liberdade”.

Não está aqui em causa a glorificação do acto. Um acto que para os cristãos, e não só, é inteiramente condenável, por ser suicídio, mas que revela também a diferente visão que os budistas têm da vida e da existência humana, como essencialmente marcada por sofrimento e decadência da qual nos devemos tentar libertar.*

Estas notícias têm, por isso, uma incontornável carga religiosa. Primeiro porque o Tibete é uma nação profundamente religiosa e o Dalai Lama, por quem estas pessoas dão a vida, é antes de mais um líder religioso. Depois, porque é precisamente a religião budista, professada pela esmagadora maioria dos tibetanos, que molda e informa esta opção tão extrema.

Dizia, não está em causa a glorificação mas sim o espanto por este tema não ser tratado com a seriedade que merece. Mas como podemos esperar que os media tratem um assunto que simplesmente não conseguem compreender? E atenção que me incluo nesta crítica, eu que me tenho esforçado por acompanhar o problema e dar as notícias, mas que também tenho dificuldade em captar o seu verdadeiro significado e a sua verdadeira magnitude.

* Tendo em conta que surgiram algumas dúvidas, não estou a insinuar que essa "libertação" deva ser alcançada por via do suicídio.

Monday, 10 December 2012

7 – Boko Haram e o espectro da guerra religiosa na Nigéria

Cristãs aterrorizadas fogem do local de um atentado
Uma das coisas mais deprimentes que há é quando tragédias começam a ser tão comuns que deixam de ser notícia.

Há o sério risco de isso acontecer na Nigéria. Já perdi a conta às vezes que fiz notícias sobre ataques a alvos cristãos naquele país, ao ponto de ter de puxar pela cabeça para inventar títulos, porque “Igreja atacada na Nigéria” ou mesmo “Mais um ataque a cristãos na Nigéria” simplesmente não diz nada.

Todos os dias em África morrem pessoas vítimas de terrorismo, assassinadas por um dos milhentos grupos armados que lá opera ou então mesmo pelas Forças Armadas oficiais que por vezes pouco mais são que bandos armados também. Mas os ataques na Nigéria são particularmente importantes pelo potencial explosivo que têm. Para o compreender temos que ver o contexto do país.

A Nigéria é, em termos demográficos, o maior país de África, com cerca de 170 milhões de habitantes. Ainda em termos demográficos é quase um modelo do continente em si, dividido mais ou menos ao meio entre cristãos, no Sul, e muçulmanos, no Norte.

É neste contexto que nasce o grupo armado Boko Haram, simplesmente como expressão mais extrema de uma tendência já existente no Norte da Nigéria de islamização e imposição da Sharia nos Estados de maioria islâmica. São vários os Estados que já têm leis islâmicas e os membros do Boko Haram simplesmente querem aprofundar isso e aplicar a lei a todo o país, incluindo ao Sul maioritariamente cristão.

Houve vários incidentes antes de 2010, muitos nem foram levados a cabo pelo Boko Haram, mas um dos piores ataques foi no dia de Natal de 2010, com ataques concertados a Igrejas cristãs. Em 2011 repetiu-se a dose e, a duas semanas do Natal, veremos se não acontece este ano o mesmo. Mas parece que para este grupo terrorista o Natal é mesmo quando o homem quer e portanto todos os domingos qualquer Igreja no Norte ou centro do país torna-se um potencial alvo. Só este ano foram dezenas de ataques e centenas de mortos.
Comunicação do líder do Boko Haram
Provavelmente sobre paz e amor...

Em abono da verdade, o Boko Haram não ataca só cristãos. Já mataram polícias, militares, políticos e até muçulmanos que não partilhem da sua visão. Atacaram a sede da ONU em Abuja e são responsáveis, ao todo, por centenas, se não milhares de mortos.

A violência perpetrada pelo Boko Haram é interessante do ponto de vista religioso, então, por três motivos. Em primeiro lugar porque se insere no quadro mais geral do aumento do Islão político fundamentalista no Norte da Nigéria, em segundo lugar porque os terroristas agem motivados sobretudo por razões religiosas e em terceiro lugar pelo potencial que existe de se motivar uma guerra civil entre o Norte muçulmano e o Sul cristão que poderiam ter ramificações absolutamente terríveis a nível de todo o continente.

Foi sobre isto que falei com um padre nigeriano em Setembro deste ano. O padre Michael disse-me que os bispos católicos e outros líderes cristãos estão a fazer grandes esforços para evitar que os seus fiéis entrem na lógica da retaliação. É verdade que tem havido alguns incidentes, sobretudo em cidades onde a mistura de populações é mais equilibrada e onde tem havido também massacres de muçulmanos por cristãos, normalmente em resposta a ataques prévios. Mas não existe do lado cristão um equivalente ao Boko Haram nem existe no Sul do país um movimento equivalente ao islamista no Norte, que queira impor um modo de vida e leis religiosas ao resto do país. Mas o facto de isso não ter acontecido ainda não significa que não venha a acontecer. Esperemos que não.

É que uma guerra civil na Nigéria dificilmente deixaria de se tornar logo um conflito de âmbito continental, com efeitos imediatos noutros países com população mista.

Wednesday, 5 December 2012

2012 - Annus Horribilis para Patriarcas

Definitivamente, este não tem sido um bom ano para ser Patriarca.

Hoje morreu Inácio IV, líder da Igreja Ortodoxa de Antioquia. É o quinto Patriarca a morrer este ano depois de Shenouda II dos Coptas, Paulos da Etiópia, Maxim da Bulgária, Inácio de Antioquia e Torkom Manoogian, Patriarca Arménio de Jerusalém.

Outra curiosidade, com a morte de Inácio Bento XVI torna-se o líder cristão em funções mais velho do mundo… como se não lhe bastassem as responsabilidades que já tem.


E ainda neste tema hoje é lançado no Porto o livro do Papa sobre Jesus de Nazaré. Na notícia pode ainda consultar o texto lido por D. Nuno Brás aquando do lançamento em Lisboa anteontem.


Tuesday, 4 December 2012

Bolachas solidárias e presépio na cidade

Ainda ontem chegou ao Twitter e já tem cerca de meio milhão de seguidores. Entre esses há 14 mil lusófonos que querem saber o que o Papa, ou melhor, @Pontifex, escreve em 140 caracteres.

O bispo do Porto já publicou a sua mensagem de Natal. D. Manuel Clemente fala este ano da importância da família.

O Papa falou ontem, e não no Twitter, sobre a importância do direito ao trabalho.


Hoje desvendo o nono lugar do ranking de notícias de religião do ano. Temos então para vossa apreciação: A eleição de novos líderes dos coptas e dos anglicanos.

E se vive nos arredores de Lisboa, aqui fica uma ideia para um presente de Natal. Bolachas caseiras, feitas pelas jovens mães da casa de Santa Isabel, do Ponto de Apoio à Vida. Custam 3 euros, vêm em diferentes sabores e até podem servir para decorar a árvore de Natal. Podem ver as fotos em anexo. Encomendas podem ser feitas por mail para fernandaludovice@gmail.com, ou 919195602.

9 – Novos líderes dos coptas e dos anglicanos

Por regra a eleição de um líder de uma grande confissão cristã acontece com pouca frequência. Não é comum, por isso, que no mesmo ano se dê a eleição de líderes de duas das mais importantes comunidades cristãs do mundo.

Estas duas eleições foram em tudo diferentes. Comecemos pelo Papa dos Coptas, porque foi o primeiro cronologicamente.

A 17 de Março morreu o Papa Shenouda III. Shenouda estava para a Igreja copta um pouco como João Paulo II para os católicos. Teve um papado de décadas e para gerações inteiras de coptas era o único líder que conheciam. Ainda por cima teve um papel muito importante em modernizar aquela que é a maior comunidade cristã do Médio Oriente e uma das mais antigas do mundo e, numa região conturbada, era um pilar de estabilidade.

Shenouda morreu precisamente numa altura de grande mudança regional e por isso o sentimento de orfandade foi realçado para os coptas. Como o processo de selecção para um novo Papa é tão complexo, foi preciso esperar meses até ter um novo líder e, durante esses meses, o Egipto passava por mudanças radicais sem que os coptas tivessem uma voz forte que intercedesse por eles.

Tudo isso mudou no dia 18 de Novembro com a eleição de Tawadros II. O futuro dirá, mas Tawadros já falou firmemente contra, por exemplo, a inclusão da Sharia na constituição do país, que está a ser preparada. A nível ecuménico a escolha parece ter sido feliz porque ele era apontado como o mais aberto em termos de diálogo com outras confissões cristãs e tem ampla experiência internacional. Isto é tanto mais importante quanto a Igreja Copta não tem grande tradição a nível do diálogo ecuménico e a investir nele seria sem dúvida um parceiro bem-vindo para católicos e ortodoxos.

De todo este processo ficam duas imagens muito fortes. Primeiro as cerimónias após a morte de Shenouda, sobretudo a do seu cadáver, paramentado e coroado, colocado no trono patriarcal para veneração e, radicalmente diferente, a imagem de uma criança vendada a retirar o nome do novo Papa do lote de três candidatos, assegurando assim a intervenção do Espírito Santo na escolha do líder de milhões de coptas no Egipto e no exterior.

Mudamos então completamente de ares e vamos para o Reino Unido, para uma Igreja que se afasta cada vez mais do Cristianismo tradicional que os coptas representam, a Igreja Anglicana.

O Arcebispo de Cantuária é uma espécie de “primus inter pares” na Comunhão Anglicana e acumula a tarefa de supervisionar a Igreja de Inglaterra e também de zelar pela unidade de toda a Comunhão Anglicana, o que tem provado ser um trabalho absolutamente impossível.

Rowan Williams é um homem afável, bom teólogo, se bem que bastante liberal, com quem é fácil simpatizar. O Papa, diz-se, gosta imenso dele. Mas era claramente o homem errado no lugar errado. Não tinha maneira de evitar a ruptura crescente da Comunhão Anglicana, entre liberais radicais nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e até certo ponto no próprio Reino Unido, e conservadores, sobretudo dos países africanos.

Durante a sua vigência diferentes primazes excomungaram-se uns aos outros, os americanos ignoraram todos os apelos no sentido da moderação e consagraram mais que um bispo a viver em relação homossexual e até aprovaram ritos de bênção de uniões homossexuais, tudo para horror não só dos anglicanos africanos mas também da Igreja Católica que deu a entender que o diálogo ecuménico já não iria a lado nenhum.

É neste contexto que Rowan Williams resigna e é eleito Justin Welby. Welby, um homem relativamente novo e com experiência no mundo empresarial será, espera-se, o homem certo para tentar garantir a unidade. Ainda por cima, vem de um espectro conservador do ponto de vista teológico mas relativamente liberal do ponto de vista litúrgico e por isso poderá eventualmente construir pontes.

Mas os primeiros tempos de Welby, que só será entronizado em Março, mas que para muitos fiéis e sobretudo para a imprensa já é “o” Arcebispo de Cantuária, não correm da melhor maneira.

Justin Welby
Questionado sobre um dos temas do momento, a introdução do “casamento” homossexual no Reino Unido, a que sempre se opôs, Welby admite repensar o assunto e no seu primeiro grande teste, a votação em sínodo para permitir a ordenação de mulheres bispo na Igreja de Inglaterra, é aplaudido longamente no seu discurso a defender a medida mas depois tem de vir a público lamentar o facto de o sínodo ter rejeitado a decisão e procurar meios para contornar as próprias regras anglicanas para ver se conseguem fazê-la passar para o ano em vez de esperar outros cinco.

A nível da Comunhão Welby ainda não foi devidamente testado mas dificilmente conseguirá melhor do que Williams durante os anos em que ocupou a sé de Cantuária, ou seja pouco mais que capitanear um navio claramenteà deriva e com pessoas a remar em direcções opostas.

Monday, 3 December 2012

We follow @Pontifex

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Quais foram as notícias de religião mais importantes de 2012? Sei que é isso que toda a gente quer saber e por isso elaborei o meu próprio ranking. Hoje apresento o 10º lugar:


Tive que juntar, se não era preciso fazer um ranking de +20...


O Vaticano anunciou hoje que o Papa está no Twitter com o nome “@Pontifex” e que embora não seja ele a escrever as mensagens, aprovará todas as que forem enviadas, o que já não é nada mau.


Também uma referência ao escândalo de abusos sexuais na Igreja que chegou agora à Austrália. Para ajudar a compreender a situação entrevistei o jovem jornalista católico Robert Hiini, que vê isto como uma oportunidade. Podem ler a transcrição integral da entrevista aqui, como de costume.

Termino com uma sugestão. Para quem gostaria de fazer um retiro de advento mas sente que não tem tempo, há amigos de Peniche que o querem ajudar. O santuário local oferece retiros de um dia, um dos quais mesmo a jeito para antes do Natal. Está tudo aqui…

10 – Viagens do Papa a Cuba, México e Líbano

Ao longo das próximas semanas vou publicar aqui um ranking das mais importantes notícias religiosas do ano de 2012. O critério é unicamente meu e quaisquer comentários são bem-vindos!

Em jeito de contagem decrescente, vejamos então qual foi a décima notícia mais importante...



As Viagens do Papa a Cuba, México e Líbano

Das várias viagens que o Papa empreendeu este ano escolhi estas por serem as mais significativas.

A visita à América Latina, em Março, que levou o Papa primeiro ao México e depois a Cuba foi especial por várias razões. Num caso estamos perante um país fortemente católico mas que viveu durante várias décadas debaixo de um regime totalmente anticristão onde a Igreja foi perseguida duramente, ao ponto de o povo ter pegado em armas para defender a sua fé, nas guerras que ficaram conhecidas como a Cristada.

A ida ao México foi, por isso, uma oportunidade de fazer as pazes com um país que está em mudança e que constitui um baluarte do Catolicismo naquele lado do Atlântico. Não podemos esquecer, por exemplo, que a população católica dos EUA está a crescer a olhos vistos em grande parte devido à entrada de imigrantes mexicanos.

Mas o ponto alto da viagem foi sem dúvida a ida a Cuba e aqui valeu tanto pelo seu conteúdo como pelas incríveis imagens que nos chegaram.

Desde a missa celebrada a céu aberto diante de gigantes painéis de Ché Guevara até à fotografia, para mim uma das mais fortes do ano, de um manifestante a ser levado da missa campal depois de ter gritado “Abaixo ao Comunismo”.

O encontro final entre Bento XVI e Fidel Castro foi também interessante e comovente. Toda a viagem revelou, no meu entender, uma vitória para a Igreja num local onde ela é já pouco conhecida depois de duas gerações de total supressão, mas onde se reinventou como fonte de apoio para movimentos civis de resistência ao regime.

Eventos deste género são sempre, também, vitórias para os regimes que assim se credibilizam, mas neste caso em particular fê-lo à custa da sua própria doutrina, na qual duvido que os próprios líderes ainda acreditem. Bento XVI falou sem medos e sem cerimónias sobre a situação política da ilha, com uma elevação intelectual e uma franqueza que lhe são características e manteve a tradição de transformar mais um “fracasso internacional”, como a imprensa insiste em descrever antecipadamente todas as suas viagens, num retumbante sucesso com banhos de multidão.

Mais tarde, em Setembro, o Papa foi ao Líbano.

Multidões para ver o Papa no Líbano
Esta notícia era importante por duas razões. A primeira, como é evidente, por causa da região e da situação geopolítica, sempre instável, mas particularmente difícil por causa da Guerra na Síria. Nesse sentido, como factor de esperança e mensagem de paz a viagem foi marcante e da maior importância. As centenas de milhares de pessoas que foram ver o Papa são o testemunho de uma Igreja viva no Médio Oriente e os encontros inter-religiosos mostram que a religião pode ser fonte de muita da violência no mundo, mas também há quem esteja apostado em usá-la para a paz.

O lado menos positivo terá sido, talvez, a própria exortação apostólica que o Papa foi ao Líbano entregar. O documento resulta do sínodo para os bispos do Médio Oriente, que decorreu em 2010, e embora tenha incluído alguns bonitos apelos à paz e considerações sobre a região, muitas das questões práticas que foram levantadas pelos padres sinodais foram simplesmente esquecidas. Dois exemplos claros são a autoridade dos patriarcas e demais líderes de Igrejas orientais sobre os seus fiéis a residir fora dos territórios patriarcais tradicionais e ainda a proibição, anacrónica, de estas igrejas ordenarem homens casados fora dos mesmos territórios.

Não se percebe, por exemplo, porque é que os católicos maronitas a viver nos EUA não dependem directamente do Patriarca dos Maronitas mas sim de Roma, nem é aceitável que a Igreja Greco-Católica da Ucrânia possa ordenar homens casados em Kiev, mas não em Nova Iorque.

Os sínodos de bispos de pouco servirão enquanto Roma continuar a fazer o que quiser das suas deliberações, digo eu.

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