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Tuesday, 29 January 2013

A situação actual das relações com a SSPX

Menos razões para sorrir actualmente...
Neste blogue tenho feito os possíveis por acompanhar a questão da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, o grupo tradicionalista que se encontra em ruptura com Roma e que é constituído por seguidores do falecido Arcebispo Marcel Lefebvre.

Durante o ano de 2012 chegou-se a pensar que uma reunificação com Roma estaria iminente, mas em cima da hora isso não se concretizou. Muitos deram então o processo de diálogo por concluído e, de facto, durante muitos meses não se ouviu nada de positivo, apenas silêncio da parte do Vaticano e bocas e insinuações menos simpáticas da parte da SSPX.

Desde então, contudo, deram-se dois desenvolvimentos dignos de nota.

Em primeiro lugar correu o boato, por enquanto não confirmado, de que o bispo tradicionalista Richard Williamson, expulso da SSPX por insistente desobediência ao superior geral Bernard Fellay, estaria a planear viajar para os Estados Unidos para participar num encontro da Sociedade de São Pio X da Estrita Observância, um grupo que se separou da SSPX pela “traição” de Fellay se ter atrevido a entrar em diálogo com Roma e a considerar a possibilidade de reunificar.

Mais, de acordo com este boato, Williamson estará mesmo a planear consagrar um novo bispo para estes tradicionalistas, nomeadamente o padre Joseph Pfeiffer, que tem sido particularmente crítico de Fellay.

Recordo que segundo a doutrina católica um bispo validamente consagrado pode ordenar outros bispos validamente. O facto de o fazer sem autorização do Papa faz com que a ordenação seja ilícita, mas não inválida. Por isso, a confirmar-se este desenvolvimento veremos provavelmente a multiplicação de bispos tradicionalistas ordenados por Williamson e Pfeiffer.

Tradicionalistas há muitos... nesta foto o "Papa"
Miguel I, dos EUA, residente no Kansas.
Será este o futuro da SSPX?
Este efeito de fragmentação da SSPX é tudo menos surpreendente. Quando se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído por não se concordar com o rumo, é apenas natural que o mesmo aconteça no seio do novo grupo. É assim com os protestantes e é assim com os mais diversos grupos tradicionalistas. Se a SSPX não se reunificasse com Roma um desenvolvimento destes seria uma questão de tempo, como eu alertei já em Dezembro de 2011 quando parecia certo que as negociações com Roma iam falhar.

Tomás de Aquino como arma
O outro desenvolvimento recente já não pertence ao mundo das especulações.

O ano passado, quando se percebeu que afinal a reunificação tinha caído por terra, o Papa substituiu o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Para o lugar foi um homem da confiança de Bento XVI mas que tinha um historial de conflitos com a SSPX, que na Alemanha operava um seminário na sua diocese.

Era claro que Gerhard Muller não era o homem indicado para representar a Santa Sé nestas conversações. Contudo, Bento XVI não dorme e ao mesmo tempo nomeou para vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei (sendo que o presidente é sempre o prefeito da CDF, neste caso Muller), o arcebispo Di Noia, ele sim uma figura encarada com muito menos suspeição pelos tradicionalistas. Tornava-se claro quem é que na verdade iria conduzir eventuais diálogos.

Este mês de Janeiro, farto de ver os tradicionalistas a contar apenas a sua versão dos acontecimentos que levaram ao fracassar da última ronda de conversações, Di Noia escreveu uma carta fortíssima endereçada a todos os padres da SSPX.

Nesta carta ele repudia muito claramente o emprego de linguagem e tons críticos por parte dos tradicionalistas, chamando ainda atenção para a carta que Bento XVI escreveu aos seus próprios bispos católicos a lamentar a falta de solidariedade que sentiu quando iniciou esta reaproximação.

Di Noia cita muito São Tomás de Aquino que identificou quatro grandes obstáculos à unidade: Orgulho, ira, impaciência e zelo desordenado. Estes obstáculos apenas podem ser ultrapassados com recurso às virtudes de humildade, mansidão, paciência e caridade.

O arcebispo reconhece que as barreiras que separam Roma da SSPX, apesar de anos de conversações, têm-se mantido basicamente iguais e que por isso torna-se necessário injectar no debate novas perspectivas e uma abordagem mais espiritual e teológica.

Não é fácil resumir a carta e recomenda-se a sua leitura na íntegra, pois é de facto muito boa e forte. Pode ser lida aqui em português do Brasil, numa tradução pela qual evidentemente não me responsabilizo, e aqui em inglês, a versão que eu próprio consultei.

Quanto ao futuro, a Deus cabe. De facto, neste momento se tivesse que apostar não seria na reunificação mas sim numa acelerada auto-destruição da SSPX... contudo, em Dezembro de 2011 estava no mesmo estado de espírito e apenas sete meses mais tarde estava preparado para anunciar uma reviravolta a qualquer momento. Por isso prefiro não arriscar. Em todo o caso, humanamente, diria que as coisas estão neste momento muito difíceis.

Wednesday, 19 December 2012

3 - A Sociedade de São Pio X e os 360º

O líder da SSPX e o Papa Bento XVI
Todos conhecem a famosa (e provavelmente apócrifa) história do futebolista que se alegra por a sua vida ter dado uma volta de 360º…

Pois foi mais ou menos isso que se passou, até agora pelo menos, nas conversações entre o Vaticano e a Sociedade de São Pio X, que reúne os tradicionalistas que seguiram o Arcebispo Marcel Lefebvre e estão em situação de ruptura com Roma.

Durante a primeira metade do ano de 2012 falou-se e escreveu-se muito sobre a iminência da reunificação. Foi uma verdadeira montanha russa que começou com aproximação, depois aparente afastamento, depois aproximação tão grande que importantes vaticanistas e comentadores chegaram a dar o acordo por certo e, finalmente, o balde de água fria que foi a certeza de que não se tinha chegado a acordo.

Os documentos são confidenciais mas o que se sabe é que o Vaticano estava disposto a oferecer aos SSPX uma prelatura pessoal que lhes daria autonomia para se governarem, em comunhão plena com a Santa Sé. Mas ao que parece a exigência de que o grupo aceitasse que o Concílio Vaticano II não representava qualquer ruptura na doutrina da Igreja parece ter sido demais para o Bispo Fellay, actual líder do grupo, e os seus seguidores.

Muitos foram os que vaticinaram que este diálogo “ou ia ou rachava”, por assim dizer. A confirmar-se essas previsões, então rachou e os tradicionalistas poderão estar agora a sair definitivamente da órbita de Roma.

Se isso se confirmar, então é pena. Por um lado porque esta era uma reunificação muito desejada por Bento XVI, que investiu nela a grande custo pessoal. Por outro, porque assim aumenta a probabilidade de a SSPX começar a entrar na espiral de loucura que costuma caracterizar estes grupos cismáticos.

Apesar do fracasso do diálogo, pelo menos aparentemente e até agora, os efeitos não deixaram de se fazer sentir. Um dos quatro bispos tradicionalistas, o anti-semita e ferozmente anti-romano Williamson, foi afastado da sociedade e alguns padres saíram também para formar um novo grupo (acção típica da espiral de loucura de que falava).

É claro que o diálogo continua mas neste momento, e ao contrário do que pensava há seis meses, julgo que a reconciliação será bastante pouco provável.

Monday, 18 June 2012

Roma e SSPX, em que pé estamos?


Persistência... e paciência!
Ao que parece enganaram-se todos os que esperavam uma solução para breve, e incluo-me a mim mesmo nesse lote. Só espero é que não se tenham enganado todos os que davam o acordo como certo... pelas últimas indicações as coisas ainda podem correr mal... esperemos que não, nem que seja por Bento XVI, que tanto investiu neste “reencontro” com os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X.

Recapitulando, Roma e a Sociedade têm estado em diálogo há alguns anos. Finda a fase de discussão, Roma propôs um “preâmbulo doutrinal” aos tradicionalistas, que estes deviam subscrever para serem reintegrados. Depois de uma primeira finta, acabaram por enviar o documento assinado, mas com algumas alterações.

As alterações foram vistas pela Congregação para a Doutrina da Fé, que submeteu a opinião ao Papa. Corre o rumor que o Papa já estaria a par do documento antes e que teria dado o seu beneplácito, indicando que a CDF não deveria levantar problemas. Tudo parecia muito bem encaminhado, mesmo nas entrevistas concedidas pelo bispo Bernard Fellay, superior-geral da SSPX, era isso que se entendia. Até já se falava da estrutura que iria ser proposta, uma prelatura pessoal do género que tem o Opus Dei.

Esta semana que passou, Bernard Fellay foi a Roma encontrar-se com a CDF; estaria iminente a assinatura final do acordo? Especulou-se que sim, mas algo se passou. Fellay saiu de Roma sem acordo assinado e com um documento alterado que deve agora ser novamente estudado pelos tradicionalistas antes de poderem assinar de vez. É verdade, todavia, que também saiu de Roma com uma proposta já detalhada de estrutura de prelatura pessoal, o que começa a dar consistência ao cenário pós-reentrada. Mas só há pós-reentrada se houver reentrada... haverá?

O que se passou na reunião? Que alterações foram feitas e a mando de quem? Claro que já correm muitos boatos e teorias, desde pressões da ala liberal da curia romana à omnipresente e conspirativa maçonaria, fala-se de tudo. Uma das teorias que parece credível é que Bento XVI terá rejeitado o termo “erros do concílio” que estava no documento assinado por Fellay, o que se compreende. Liberdade de interpretação é uma coisa, falar de erros é outra.

Entretanto a oposição a Fellay dentro da SSPX, por parte daqueles que estão decididamente contra uma reunificação, aumenta de tom. Um dos outros três bispos já estava colocado de parte à partida. Richard Williamson, o mesmo que duvida da existência das câmaras de gás no holocausto, é ferozmente contra uma reunificação. Mas Bernard Tissier de Mallerais também se colocou definitivamente de fora, chegando a acusar Bento XVI de ser herege. Um abaixo-assinado posto a circular entre os fiéis também ia nesse sentido, embora, na última vez que tenha visto, só tivesse umas 200 assinaturas.

Tissier de Mallerais "não gosta" disto
Por outro lado, não tem havido falta de golpes de teatro e de bluff em todo este processo. Será este prolongamento uma forma de dar a entender, tanto de um lado como do outro, que se espremeram as negociações ao máximo, para que no fim ambos possam dizer que conseguiram o melhor acordo possível? Talvez, é possível, era bom.

Agora, segundo algumas fontes, Fellay apenas tomará uma decisão depois do capítulo geral da SSPX, que tem lugar em meados de Julho. A decisão cabe-lhe sempre a ele, mas é verdade que essa reunião, que evidentemente será dominada por esta questão, poderá servir para colocar pressão sobre ele, tanto num sentido como no outro. Não sou de maneira nenhuma especialista quanto às dinâmicas internas da SSPX, mas pelo que vou depreendendo, apesar dos outros três bispos serem contra (dois de certeza, um parece tender para aí), uma grande parte dos superiores distritais, que são sacerdotes, estão com Fellay. Ou seja, o capítulo tanto pode dar força a Fellay como pode esvaziar a sua autoridade moral. Claro que seria melhor chegar lá com o facto consumado, mas não deve ser possível.

O que resta? Rezar! Convém a ambos os lados compreender que esta reunificação beneficia da boa-vontade de Bento XVI e de Fellay, mas só terá hipóteses se Deus assim quiser. Rezar, rezar, rezar, para que seja feita a Sua vontade, seja ela qual for...

Nós por cá iremos acompanhando.

Filipe d’Avillez

Tuesday, 22 May 2012

Todos fortes, todos diferentes



Os israelitas também são fortes e por isso mesmo não tencionam largar mão dos lugares santos de Jerusalém. Netanyahu diz mesmo que isso seria um “erro fatal”.


Na Irlanda querem-se fazer das fraquezas forças e criar um “Dia da Expiação” para pedir perdão às vítimas de abusos sexuais. A Igreja já disse que alinha… só é pena que a ideia tenha tido que partir de uma vítima.

E segundo os tradicionalistas bem precisamos todos de força, isto porque “O diabo está à solta”, e quer evitar a reintegração da SSPX na Igreja.

Finalmente, para quem não pôde ir à conferência de ontem de Peter Colosi, podem ver o vídeo no blogue, graças ao trabalho da Infovitae, que agradecemos. Força aí!

Monday, 30 April 2012

Maio, mês de reconciliação? E será que interessa?



Um leitor deste blogue sugeriu o dia 13. Seria uma data interessante, sobretudo se tivermos em conta que o bispo Bernard Fellay, o actual líder desta sociedade fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre que se encontra em ruptura com Roma desde 1988, convocou há poucos anos uma “cruzada de terços” pela reunificação.

A data certa é um mistério. Se o Vaticano trabalhar ao seu ritmo, que não é o ritmo do mundo (como já sabemos pelas negociações a propósito dos feriados religiosos), então bem podemos esperar. Mas penso que o Papa não quererá perder muito mais tempo a este respeito. Esta unificação, a confirmar-se, configurará a concretização de um sonho e uma reconciliação pessoal. Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé na altura em que se deu a ruptura e, então, foi incapaz de a evitar.

E se os tradicionalistas forem recebidos de volta à Igreja, como se espera, o que se passará?

Em termos de organização, o Papa certamente lhes oferecerá uma estrutura que lhes dá bastante autonomia. Alguma coisa do género da prelatura pessoal do Opus Dei ou do ordinariato pessoal dos ex-anglicanos. Assim os membros da SSPX ficarão em larga medida a salvo das interferências dos bispos liberais que, em muitos locais da Europa Ocidental, são muito contrários a esta reunificação. Exactamente qual será essa estrutura não se sabe, mas o Papa tem total liberdade para inventar a estrutura que bem quiser, portanto não adianta muito tentar adivinhar.

Ou não...
Qual será a reacção da SSPX? Em primeiro lugar quero esclarecer que embora conheça uns quantos católicos de pendor tradicionalista, não conheço pessoalmente ninguém da SSPX. Em Portugal não são propriamente numerosos. Por isso tudo o que escrevo a seguir diz respeito ao que vou lendo, no meu esforço de acompanhar esta situação.

Com base nessas leituras, que incluem artigos, blogues e comentários aos mesmos feitos por simpatizantes e/ou membros da SSPX, penso que se engana quem pensa que os tradicionalistas regressam a Roma quais filhos pródigos, humildemente agradecidos pela magnanimidade do pai.

Há excepções, e já li alguns comentários de tradicionalistas a elogiar a benevolência de Bento XVI, mas a tendência geral é de um enorme triunfalismo, eventualmente de missão, de quem vem salvar Roma dos seus desvios. Os tradicionalistas não são conhecidos pela sua flexibilidade e, enquanto grupo, penso que o convívio debaixo do mesmo tecto nem sempre será fácil. A verdade, também, é que raramente estarão mesmo debaixo do mesmo tecto, uma vez que terão a sua estrutura autónoma.

Poderei estar a ser injusto com esta análise, se for o caso peço desculpa.

Who cares?
Finalmente, alguns poderão perguntar mas, afinal de contas, o que é que isto interessa?

Interessa muito, e basta olhar à nossa volta para ver o que se está a passar na Igreja actualmente para perceber porquê.

Sem querer fazer juízos de valor, o que é que vemos? O mesmo Papa que abriu as portas aos anglicanos conservadores (esvaziando, na prática, o diálogo ecuménico com uma igreja que insiste em cavalgar rumo ao liberalismo extremo) abre agora as portas aos católicos tradicionalistas que estavam afastados. No mesmo mês sabemos que a Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente as religiosas americanas pelos seus desvios à doutrina católica e a insistência em promover causas contrárias ao magistério.

Na Europa, onde a SSPX é mais forte, os tradicionalistas regressam a uma Igreja em que está a ocorrer, debaixo dos nossos olhos, uma rebelião liberal nos países germânicos. Centenas de padres assinam “manifestos pela desobediência”.

Aos 85 anos, e depois de sete na Cadeira de Pedro, o Papa está a tomar medidas concretas para reforçar a sua posição, que é conservadora e tradicionalista, sem ser extremista. Os resultados levarão tempo a fazer-se notar, mas penso que a atitude dos bispos americanos no seu “conflito” comObama já é um reflexo desta nova realidade.

Portugal não é um bom espelho desta realidade, mas a clivagem entre uma Igreja conservadora e uma Igreja liberal é demais evidente em várias partes do mundo.

Quando foi eleito muitos vaticinaram um duro pontificado do “Pastor Alemão”. Bento XVI tem surpreendido os mais críticos e, até certo ponto, desiludido os seus defensores mais ferozmente conservadores.

Afinal, ao que parece, o “Pastor Alemão” ainda sabe ladrar.

Filipe d’Avillez

Wednesday, 18 April 2012

Tradicionalistas respondem “Sim”, segundo imprensa italiana

Fim da cisão com a Sociedade de São Pio X, fundada por Lefebvre, poderá estar por dias. Este é um projecto pessoal de Bento XVI.

Filipe d’Avillez


A reunificação entre a Sociedade de São Pio X (SSPX) e o Vaticano pode estar prestes a ser anunciada. Segundo o jornal italiano La Stampa, a resposta dos tradicionalistas já chegou a Roma e é positiva.

A SSPX está num estado de ruptura com o Vaticano desde 1988. Os seus padres e quatro bispos rejeitam alguns dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, bem como a reforma litúrgica, e a cisão com Roma consumou-se quando o seu fundador, o Arcebispo Marcel Lefebvre, ordenou quatro bispos sem autorização do Vaticano.

Desde a sua eleição, Bento XVI tem feito esforços para tentar sanar a ruptura. Depois de alguns anos de conversações o Vaticano apresentou a Bernard Fellay, o superior da SSPX, um “preâmbulo doutrinário”. Caso Fellay assine o documento o Vaticano oferecerá uma estrutura autónoma que permita aos tradicionalistas agir com liberdade e sem interferência dos bispos diocesanos dos países em que têm membros.

Segundo o vaticanista Andrea Tornielli, do jornal La Stampa, a resposta de Fellay já terá chegado ao Vaticano e é positiva. Fellay poderá ter proposto algumas ligeiras alterações ao documento que lhe foi apresentado, mas que não alteram substancialmente o seu conteúdo. A resposta deverá agora ser estudada por Roma que poderá em breve anunciar o fim da cisão com os tradicionalistas e explicitar a estrutura que lhes será oferecida no seio da Igreja.

Para além de quatro bispos, a SSPX conta nas suas fileiras com cerca de 500 sacerdotes, bem como 200 seminaristas e algumas centenas de religiosos. Os fiéis leigos rondarão as centenas de milhares.

Não é certo, contudo, que todos os membros acompanhem o superior no regresso a Roma. Pelo menos um dos bispos, o inglês Richard Williamson, é tido como ferozmente anti-romano e deverá permanecer fora da Igreja Católica, à frente de um grupo de “ala dura” que não aceitam submeter-se novamente ao Papa.

Para além das notícias que circulam na imprensa italiana não há, por enquanto, qualquer confirmação oficial por parte de Roma ou da Sociedade.

Monday, 9 April 2012

Silêncio prometedor da Sociedade de São Pio X?

A seis dias do prazo dado por Roma para uma nova resposta dos responsáveis da Sociedade de São Pio X (SSPX), fundada pelo falecido arcebispo Marcel Lefebvre, o que mais me surpreende é precisamente o silêncio acerca deste assunto.

Vamos recapitular. Depois de alguns anos de conversações a Igreja fez uma proposta concreta à Sociedade, que se encontra fora de comunhão com Roma. Caso a Sociedade aceite um “preâmbulo doutrinal”, cujo conteúdo não foi revelado, terá direito a um lugar especial, com bastante autonomia, dentro da Igreja, com a sua situação canonicamente resolvida. Mais uma vez, os detalhes não são certos, mas foram descritos como bastante generosos.

A Sociedade, chefiada actualmente pelo Arcebispo Fellay, enviou uma resposta para Roma que foi considerada insuficiente. Depois de algum estudo Roma disse-o e afirmou que esperava outra resposta até ao dia 15 de Abril. O termo “ultimato” nunca foi usado, mas tem sido entendido como tal por muitos.

Acontece que antes da Sociedade enviar a sua resposta inicial o arcebispo Fellay falou em público em várias ocasiões deixando várias vezes a impressão de que ela seria negativa.

Agora, pelo contrário, parece reinar o silêncio. Com o tríduo pascal não têm faltado ocasiões para fazer homilias em que possa expressar novamente essas ou outras opiniões, mas Fellay não o tem feito, contrastando claramente com atitudes anteriores, sobre os quais escrevi aqui e aqui.

Que quer isto dizer? Será o silêncio um bom sinal? Talvez as declarações negativas de há meses tenham sido uma forma de “bater o peito” e mostrar que a Sociedade não iria ceder de mão beijada. Não leiam isto como uma crítica, pode ser uma forma de tentar manter unida a Sociedade, onde certamente existem opiniões divergentes.

Dia 15 de Abril a resposta da SSPX será conhecida. Se é para ser tornada pública no imediato ou não, não sei, mas estaremos atentos.

Todos aqueles que desejam que essa união aconteça devem seguir o principal conselho tanto de Roma como dos membros da SSPX e rezar. Mas este silêncio, em minha opinião, pode ser um sinal prometedor.

Filipe d’Avillez

Friday, 3 February 2012

Lefebvrianos dispostos a deixar morrer “a geração Vaticano II”

O bispo Fellay com Bento XVI
A reintegração dos lefebvrianos da Sociedade de São Pio X na Igreja poderá levar cinco a dez anos, disse ontem o superior-geral desta organização, o arcebispo Bernard Fellay.

Numa homilia ontem, no Minnesota, Estados Unidos, Fellay falou de forma franca sobre as negociações com Roma e as perspectivas de sucesso das mesmas. Deixando bem claro que uma resolução será difícil.

Quem se interessa pelo assunto deve ler o texto completo aqui, em inglês. Contudo, realço os seguintes aspectos.

Afinal, nada está perdido. No final do ano passado, com base em palavras do mesmo Fellay, tinha-se ficado com a ideia de que a SSPX ia simplesmente rejeitar a proposta de Roma. Desde então a sociedade mandou uma resposta para o Vaticano que, pelos vistos, dava alguma margem de manobra e por isso as negociações continuam.

Os Lefebvrianos estão dentro ou fora da Igreja? A resposta não é simples. Vejamos esta passagem da homilia: “Mesmo se estamos a lutar contra Roma estamos ainda, por assim dizer, com Roma. Lutamos com Roma, ou se preferirem, contra Roma, mas ao mesmo tempo ao lado de Roma. E dizemos, e continuamos a dizer, que somos católicos. Queremos permanecer católicos”.

O que eu tenho dito antes é que este estatuto de “dentro mas simultaneamente fora” é incomportável durante muito mais tempo. Se as negociações falharem definitivamente então a SSPX pode-se considerar definitivamente fora, com tudo o que isso implica, e que descrevi aqui.

Contudo, o bispo tem razão ao apontar uma incoerência nas atitudes de Roma: “Seria mais fácil estarmos fora. Teríamos muito mais vantagens. Tratar-nos-iam muito melhor! Olhem os protestantes, como lhes abrem as portas das suas igrejas. A nós fecham-nas”. Não são apenas palavras, são factos. Bem sei que as disputas são tanto mais dolorosas quanto mais próximas são as pessoas, mas vejam isto pelos olhos dos tradicionalistas: Deve doer ver que as antigas catedrais se abrem mais rapidamente a celebrações protestantes do que a comunidades seguidoras de Lefebvre.

Fellay continua a usar um tom pouco realista quando diz que estão dispostos a negociar mas que a única solução viável é que a Igreja renuncie a todos os “erros” do Concílio Vaticano II. Contudo, olhando mais de perto entrevê-se outra possibilidade: “Dissemos-lhes muito claramente, se nos aceitarem como somos, sem nos obrigarem a aceitar estas coisas, então estamos prontos. Mas se querem que aceitemos estas coisas, então não estamos”.

Portas fechadas, ou prestes a abrir?
Ou seja, deixem-nos voltar sem nos obrigarem a aceitar o que o Concílio diz e não nos chateamos mais. “Live and let live”. Curiosamente há precedentes para esta atitude, o que não significa que Roma aceite. Se SSPX está dividida internamente, a Igreja Católica também. Há muita pressão no sentido de não permitir a reentrada desta sociedade sem que ela ceda, sobretudo no que diz respeito à questão da liberdade religiosa e do diálogo ecuménico, as duas grandes questões do Concílio que eles não aceitam. O que nos leva a…

O factor tempo
Fellay refere que uma solução poderá ser possível, mas que não prevê que isso aconteça num futuro próximo. “Talvez em cinco, ou dez anos”, diz.

Como é que se pode ler esta frase? Basicamente o que Fellay está a dizer é que daqui a cinco ou dez anos a “geração Vaticano II” já terá, efectivamente, partido para conhecer o seu Criador. E insinua que a geração seguinte será mais compreensiva, sem uma ligação tão forte ao concílio.

Fellay está a apostar em algo que muitos já notaram, que a nova geração de sacerdotes (e por conseguinte a próxima geração de bispos) é significativamente mais conservadora e tradicionalista que a actual.

Tudo bem, mas não deixa de ser uma aposta arriscada. Como estará a SSPX dentro de cinco a dez anos? Manter-se-á unida? O que achará uma nova geração de lefebvrianos que nunca esteve em comunhão plena com Roma? Sentirão a falta? Vale a pena correr esse risco? Ou será tudo isto bluff, tendo em conta a próxima ronda de negociações que se aproxima?

Em conclusão, contudo, pode-se dizer que esta intervenção de Fellay é substancialmente mais positiva no seu tom do que aquelas que ele teve antes de enviar a resposta para Roma. Para todos os efeitos a bola está agora no campo do Papa, que estará a meditar uma contraproposta. Por enquanto só sabemos que a proposta que está em cima da mesa “já é bastante diferente daquilo que nos foi apresentado a 14 de Setembro”, nas palavras de Fellay, por isso a situação não está tão negra como parecia estar em finais do ano passado.

E agora? Cá estaremos para ver.

Friday, 16 December 2011

Lefebvrianos dizem que não. E agora?

Ao que parece a Sociedade de São Pio X vai rejeitar a proposta feita por Roma para reunificação. Os detalhes estão nesta notícia.

Que dizer deste aparente falhanço das negociações?

Em primeiro lugar um cristão deve recordar que embora a situação pareça impossível, a Deus nada é impossível.

Em segundo lugar, porém, é com muita pena que vejo o processo a chegar a um beco sem saída. Este sempre foi um projecto pessoal de Bento XVI, não duvido que ele desejava muito a regularização da SSPX e que acreditava que a sua reintegração na plena comunhão da Igreja pudesse servir para fortalecer a “reforma da reforma” que parece apostado em fazer.

Acima de tudo, a recusa e os termos em que é feita são um duro golpe da ala tradicionalista para um Papa que todos os dias tem de lidar com obstáculos colocados por bispos da ala liberal, que fazem tábua rasa dos seus documentos e das suas recomendações, por exemplo, no campo da liturgia.

Aparentemente a resposta da SSPX vai ser algo do género “obrigado pela vossa proposta, mas não a aceitamos. E se em vez de sermos nós a mudar a nossa visão fossem vocês a mudar para que nos possamos sentir em casa?”

Por um lado até se percebe o optimismo dos lefebvrianos. Olham para os seminários vazios da Igreja Católica e para os seus, que estão cheios, e abanam a cabeça. Olham para as missas com fantoches gigantes e sucessivos atropelos litúrgicos nas catedrais europeias e sentem-se reconfortados com as suas missas solenes. Vêem centenas de padres na Áustria a assinar “manifestos de desobediência” e consolam-se dizendo que estão firmemente agarrados à tradição imutável da Igreja.

Mas há um problema, estão fora de comunhão com Pedro. A consumar-se um “chumbo” à iniciativa romana, o cisma poderá tornar-se definitivo.

E depois? Depois, na minha opinião, assistiremos ao que tem acontecido a todos os grupos que entram em cisma convencidos da sua superioridade, uma espiral descendente em direcção à loucura, bizarria e obscuridade. Pode levar décadas, mas não tenho dúvidas de que acontecerá.

A Igreja Católica está em crise, sem dúvida, embora essa crise se faça sentir sobretudo nas sociedades ocidentais (ao criticar os seminários vazios na Europa, Monsenhor Bernard Fellay não fala dos africanos ou asiáticos que rebentam pelas costuras), mas já passou por muitas e há-de sair de pé. Os lefebvrianos que ficarem na SSPX preferem saltar de um barco desorientado e morrer afogados na certeza das suas verdades a permanecer e contribuir para que o rumo seja corrigido.

Penso que um dos primeiros efeitos da recusa será uma onda de deserções individuais, ou de pequenos grupos que regressarão a Roma. A SSPX está presente em muitos países e é ilusão pensar que não tem as suas próprias divisões internas. Essas poderão tornar-se mais aparentes agora, levando mesmo a fracturas.

Quando surgiu a notícia do “convite” de Roma, num blogue católico mas tradicionalista e próximo das posições dos Lefebvrianos os comentários foram bem indicativos da vontade que muitos dos seus membros têm de regressar à plena comunhão. Esses dificilmente se manterão no caso de uma rejeição que mais parece fruto de birra do que convicção.

Nos Evangelhos Jesus deixa bem claro o que acontece aos ramos que se separam da vinha. Ao olhar para toda esta situação só me vem à cabeça o cartoon de uma pessoa que serra um ramo alto enquanto se mantém sentado alegremente em cima dele.

Filipe d’Avillez

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