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Wednesday, 17 January 2024

O que há de religioso na tensão no Médio Oriente? (Quase) tudo

Guardas Revolucionários do Irão

Ao longo dos últimos dias assistimos à surpreendente notícia de que o Irão lançou ataques, incluindo com mísseis balísticos e drones, contra alvos no Iraque e no Paquistão.

Trata-se de uma escalada inesperada na situação no Médio Oriente e também extraordinariamente perigosa. Basta recordar que o Paquistão é uma potência nuclear, e o Irão, se não é ainda, para lá caminha.

O que é que se passa? E o que é que a religião tem a ver com o assunto? Como veremos, muito.

Xiitas v. Sunitas

O primeiro ponto tem a ver com a divisão entre sunitas e xiitas, os dois grandes ramos do Islão. Mundialmente os sunitas são a vasta maioria, com cerca de 90% da população, mas olhando mais especificamente para o Médio Oriente a coisa não é tão evidente. O Irão é a grande potência xiita, e tem um regime teocrático que usa a religião para se legitimar. Mas depois existem vários países na região que têm significativas minorias, ou até maiorias de xiitas.

Já os sunitas são maioria em quase todos os países do Médio Oriente, excepto o Irão, obviamente, e o Iraque. As grandes potências sunitas são por um lado a Arábia Saudita, e por outro – já fora do Médio Oriente, mas na fronteira e com o olhar cada vez voltado para leste, a Turquia.

As grandes rivalidades na região – excluindo para já Israel, mas já lá vamos – são entre países sunitas e xiitas, e por vezes entre forças dessas duas correntes do Islão dentro dos países, que agem a mando de potências externas. Assim, a Arábia Saudita está actualmente em conflito com os houthis, do Iémen, que são xiitas e agem sob ordens de Teerão, e a Turquia apoia os grupos rebeldes na Síria, que são na maioria sunitas e de tendência jihadista, enquanto o Governo da Síria é dominado pelos alauitas, que são um ramo do xiismo.

Até agora, apenas uma coisa parecia capaz de unir os dois ramos, o ódio a Israel e, por extensão, aos seus apoiantes ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos. Mas até isso parece estar agora em causa.

Uma aposta ganha de Israel?

Durante anos Israel tem sido o alvo preferido da retórica do Irão. Contudo, os dois países não partilham qualquer fronteira, por isso a coisa resumia-se quase só a isso, retórica. Entretanto o Hezbollah, a força xiita no Líbano, começou a atacar Israel e o Irão está prestes a tornar-se um país nuclear, o que apresenta um sério risco para Telavive. Pior, o Irão tornou-se um dos principais patrocinadores do Hamas, o grupo armado que domina a Faixa de Gaza, e terá mesmo ajudado a treinar, armar e financiar os ataques de Outubro que levaram à mais recente guerra.

Quando Israel ripostou contra o Hamas, invadindo Gaza numa operação que já causou dezenas de milhares de mortos e está a deixar o território praticamente inabitável, pensou-se que estava a cometer um erro estratégico, colocando todo o resto do Médio Oriente – e uma boa parte da opinião pública do ocidente – contra si. Contudo, aquilo a que estamos a assistir agora pode indicar uma aposta ganha por Israel, na medida em que a tensão entre xiitas e sunitas isola o Hamas, dependente do Irão, e isola o próprio Irão na região. Note-se que no seguimento da guerra em Gaza nenhum país sunita veio em auxílio do Hamas, mas pelo contrário houve dois atentados dentro do Irão promovidos por forças sunitas radicais, uma com sede em Idlib, na Síria, outra com sede no Paquistão. Foram alvos desses grupos, supostamente, que o Irão atacou.

Claro que isto levanta a pergunta: porque é que estes grupos atacaram o Irão precisamente nesta altura em que o estado xiita estava a usar os grupos que apoia e controla para atacar Israel e alvos ocidentais, através dos ataques a navios no Mar Vermelho? Terá havido algum encorajamento por parte desses governos ocidentais, ou de Israel, nesse sentido?

O que sabemos é que há dias a Arábia Saudita já veio dizer que poderá vir a reconhecer Israel, desde que o problema da Palestina seja resolvido. Parece uma condição impossível, mas os sauditas também não disseram o que consideram ser uma justa resolução, portanto está tudo em aberto. Esta aproximação de Ríade mostra claramente que os países sunitas estão a compreender que não é Israel que é o seu grande inimigo na região, pois não os ameaça directamente, e que já não têm a ganhar com os apelos à solidariedade muçulmana com a Palestina, uma vez que o Irão os ultrapassou pela direita e assumiu essa causa para si.

Os próximos tempos poderão, por isso, revelar um novo equilíbrio de poderes no Médio Oriente, com os países sunitas a aceitar tréguas e até colaboração com Israel, e por extensão com o mundo ocidental, face a uma ameaça comum.

E se o Irão “flipar”?

Uma das ironias em toda esta situação é que o Irão é, nalguns sentidos, um tigre de papel. Não quero de forma alguma subestimar a sua importância e a sua força, mas sim sublinhar que essa força está toda concentrada no topo de uma pirâmide que está a ficar com as bases corroídas.

Mulheres no Irão queimam hijabs
em protesto contra o regime 
Meio século de um regime fundamentalista e retrógrado em Teerão conseguiu o feito de virar uma grande parte da população contra essas mesmas ideias. Nas grandes cidades iranianas as pessoas não querem saber de religião, de xiismo e de rivalidades com os sunitas. Não obstante toda a sua conversa antiocidental, os iranianos comuns estão profundamente ocidentalizados e a sentir cada vez mais o peso da falta de liberdade a que estão sujeitos. O Irão é, por isso, um barril de pólvora que já foi posto à prova várias vezes, mas que mais dia, menos dia, pode mesmo explodir e ver desaparecer o regime dos ayatollahs, sendo estes substituídos por uma nova realidade muito mais ocidentalizada, que recupera o lugar que o Irão já ocupou no mundo, em termos de cultura e de desenvolvimento. Mas isso ainda não aconteceu, nem se sabe se vai acontecer, por isso os ayatollahs ainda lá estão e são eles que estão quase a obter armas nucleares.

E por fim a Rússia

Claro que a Rússia também é para aqui chamada. Moscovo tem sido o grande aliado internacional do Irão. Juntos combateram na Síria e na Líbia e há muitos que acreditam, como eu, que o ataque do Hamas teve dedo de Moscovo, precisamente para provocar uma resposta israelita e levar os americanos a dividir com Israel o apoio militar que têm dado a Kiev.

Aqui, claro, não é qualquer solidariedade religiosa que está em causa, mas apenas uma solidariedade de autocracias, até porque a muito significativa população muçulmana da Federação Russa é de maioria sunita. Mas se a situação no Médio Oriente deixar de ser uma guerra de procuração com rebeldes submissos a Teerão a lançar mísseis contra bases americanas e navios internacionais, tornando-se em vez disso uma guerra aberta entre estados, então a Rússia só tem a perder, porque o precioso apoio militar que tem recebido do Irão provavelmente vai cessar. Aos russos e aos iranianos interessa, por isso, ir longe, mas não longe de mais. E esse é sempre um jogo muito perigoso de se jogar.

Monday, 4 January 2016

Ano Novo, feriados velhos

Nimr al Nimr, clérigo xiita executado na Arábia Saudita
Os feriados de Corpo de Deus e Todos os Santos estarão de volta já este ano. Quem o garante é o bispo D. António Montes Moreira, que é o chefe da delegação da Santa Sé na Comissão Paritária, que discute estes assuntos com o Estado Português.


Foi publicado um livro que apresenta investigações sobre Bíblias portáteis do século XIII.

Apesar de toda a conversa sobre um conflito entre ocidente e o Islão, há muito que digo que devemos dar especial atenção ao conflito interno no mundo islâmico entre sunitas e xiitas, que é como quem diz entre a esfera de influência da Arábia Saudita e do Irão, com a Turquia sempre à espreita… Agora, com a execução de um importante clérigo xiita na Arábia Saudita o caldo entornou-se.

Entretanto Hillary Clinton chegou à conclusão, agora em tempo de campanha eleitoral, que afinal os cristãos estão a ser vítimas de genocídio no Médio Oriente. Mais vale tarde que nunca!

Os sikhs britânicos estão a pressionar os seus deputados para tentar obter a libertação do alegado terrorista detido no Algarve e que aguarda a avaliação de um eventual pedido de extradição para a Índia.

Thursday, 26 March 2015

O que interessa o Iémen? e "Todo o mal tem um fim"

Houthis no Iémen: "We care a lot!"
Uma coligação de forças árabes prepara-se para intervir no Iémen. Eu sei o que estão a pensar… O que é que interessa o Iémen?! Foi por isso que escrevi este artigo, porque o Iémen interessa muito e, agora mais que nunca, podemos ver que grande parte do problema do Médio Oriente é o conflito entre o bloco xiita e o bloco sunita. Nesse sentido, o Iémen é apenas o mais recente e importante campo de batalha.

O Papa Francisco encontrou-se esta tarde com 150 sem-abrigo que estavam a ter uma visita guiada aos museus do Vaticano. Em Setembro vai à Casa Branca e encontrar-se-á com Barack Obama.

A Ajuda à Igreja que Sofre está de visita aos campos de refugiados no Líbano e no Iraque, onde “falta tudo menos a fé”.

A situação dos refugiados cristãos na Síria e no Líbano inspirou a organização a preparar uma Via Sacra Meditada pelas Famílias Refugiadas da Síria. Pode-se encomendar a Via Sacra directamente à AIS, mas há quem a esteja a passar à prática, como acontece no Porto, na Igreja do Marquês, no dia 30 de Março, pelas 21h15. Quem puder que apareça!

Em Portugal encontra-se por estes dias o paquistanês Paul Bhatti, activista pelos direitos das minorias, cujo irmão foi assassinado por defender o fim da lei da blasfémia. Bhatti acredita que a lei está destinada a acabar, porque “todo o mal tem um fim”. Aqui podem ler a transcrição integral da curta entrevista que lhe fiz e aconselho-vos ainda a ouvirem na Renascença a partir das 23h uma entrevista mais alargada, sobre outros temas, feita pelo meu colega José Pedro Frazão.

Resta dizer que Bhatti está em Lisboa para participar no Meeting, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. Aqui têm o programa completo e aconselho vivamente a participarem, se puderem.

Tuesday, 15 October 2013

“Not even the majority of the Sunnis are with the opposition”

Full transcript of interview with Osama Siblani, publisher of the Arab American News, on the situation in Syria. Story, in Portuguese, here.

Transcrição completa da entrevista a Osama Siblani, editor da Arab American News, sobre a situação na Síria. Reportagem aqui.

What is your view of what is going on in Syria?
The Syrian crisis has many layers. The thinnest layer, at the moment, is between the Syrians themselves. When the so-called revolution, or uprising started, in a city called Deraa (?) it was for reforms, democracy, but they were not asking for the overthrow of the Government.

Unfortunately mistakes from the Government’s side, and interference from outside powers which have their own regional agenda, have put their input into the uprising and immediately after that it started becoming militarized. Once it had been militarized the dynamic changed on the ground and it slowly became a conflict within Syria but with outside forces intervening all the time, more and more. This is the second layer, of the regional forces, with Iran, Hezbollah and Iraq on the side of the Regime and on the other side Turkey, Qatar and Saudi Arabia. Israel had a silent role.

This layer also became important in the game and the whole dynamic had changed.

The biggest and probably the most important one, which has been always present but has become more and more prominent, having become the thickest layer, is the international involvement, with Europe, USA, Saudia Arabia, Turkey, Qatar and Jordan on the side of the rebels and on the other side Russia and China.

So there are the three layers, the Syrians, the regional players and the international layer.

So at this time it is no longer about freedom, reforms, overthrowing the regime and installing another one. It is a struggle to determine the future of the World Order. The Russians want to change how to do business in the world order and to flex their muscles in the Eastern Mediterranean. So this is where we are right now.

I don’t think Arabs, Arab Americans or even Syrians at this time are able to reconcile their differences and stop this war.

What do you think of the possibility of USA intervening?
I am against intervention, for many reasons.

The USA is not the policeman of the World. I don’t think it should be.

The USA is in financial difficulties, Detroit filed bankruptcy and is the first of many cities to do the same, because the country is going through a financial crises. We have 16 trillion dollars in debts and 1.5 trillion in budget deficit. We are cutting right and left and we cannot afford to lose more money, more troops, more men and women, and kill other people and have a bad reputation, considering what we did in Iraq in 2003, when we went in under false premises. We fought an immoral and unjustified war. We destroyed Iraq, we left 10 years later with the country still in shambles, and disintegrated, with more killings every day.

We killed millions and drove our economy into the ground. It is not in America’s best interest to intervene in Syria. It is not in Syria’s interest for America to intervene. If America intervenes militarily, on which side should they fight? If they fight Assad’s regime they will find themselves in the company of Al Qaeda and Jabhat al-Nusra, which we claim to have been fighting over the last 13 years.

So we are in a peculiar position, America is no longer the only power in the world. The world is changing, and it is changing in Syria, by the conflict in Syria. The USA can no longer dictate policies around the world. It is still the most powerful country, but others are rising, including Russia and China.

You don’t believe the Syrians can reconcile their differences. So how can this war end?
Probably it won’t end in the near future, because as I said it consists of three layers. The weakest layer is at the national level. I don’t think that the Syrians and the Arab countries are willing or able at this time to come together to resolve the situation, because it is far more spread and the regional interests of non-Arab countries, such as Israel, Turkey and Iran are heavily involved.

So I believe that we have to start at the top. We need to start by having an American – Russian agreement, and this will be an umbrella for a regional agreement. They cannot force it on the regional players, because they also have an agenda, so they need to bring Saudi Arabia, Turkey, Iran and Israel into the mix and try to find a solution at the regional level, that the international umbrella will cover.

Once this is done I believe the local layer can be resolved as quickly as anybody can imagine. Because all the players are financed and supported by regional and international powers, so once the international and regional players come to the table with an agreement, then the Syrians themselves, even if it is not acceptable to them will have to accept it.

Of course it remains to be seen who will have the upper hand on the ground at the time. That local player will perhaps be the local winner of the war. So there are too many components, it is very complicated, it cannot be resolved immediately and there is a lot at stake economically with the gas supplies, the pipelines, supply to Europe, how this will affect the Russian’s gas supply to Europe, which is the lifeline of Russia. How this will affect the industrial revolution in China, which depends heavily, up to 70% on Middle Eastern oil, how is this going to affect Europe in the long run, and Israel and the United States? All this is shaping up at this time, and unfortunately the ones who are paying the bill here are the Syrian people.

Do you imagine a future for Assad in a post-war Syria?
It depends on who will have the upper hand on the ground. I believe that Assad has proven, so far, that he has a formidable machine on the ground. There were some defections but they were insignificant for his army, his diplomatic and governmental branches are still robust and functioning. In this last crisis he has shown that a leader can make a decision quickly and abide by it, whereas the opposition are disintegrated, they have no central command, they are not able to make decisions, their loyalties are divided among their sponsors and supporters.

At the end of the day, in politics there are no feelings, it depends on who can deliver on the ground. Bashar Assad has proven that he is the strongest player in Syria, and when you are the strongest player. And when you are the strongest player you are not eliminated. It does not make sense to win and have them say “now you have to leave, you won, you fought, you paid all these sacrifices and now you have to pack and leave”. It doesn’t make any sense.

Do you believe that Assad was responsible for the chemical attack?
No I don’t.

First of all, I don’t know. I am the publisher of a newspaper, I have connections, I have met with several congressional leaders, to find out what they have. I did not get any indication from the congressional leaders I met with in the past few weeks. Nobody gave me any evidence. They have no evidence that Bashar al-Assad’s troops did that. In fact, we are hearing more facts coming out, like not all the people gathering in the hospitals were the casualties of that particular attack.

So I believe it has not been proven. We do not know what happened, we don’t know what kind of chemical weapons were used [interview recorded before UN’S final findings], I wanted to wait for the UN to come out with their findings, and again there is a major problem with United States intelligence and British intelligence, because they have fooled and lied to people in 2003 and they lost credibility and even their own people don’t believe them anymore and the world does not believe them either. They went to war on false pretence, where are the weapons of mass destruction? We have no answers to all these lies. Colin Powell holding the chemical agents, and such things.

I don’t believe the regime would use chemical weapons, for a simple reason, just logic. I don’t have proof, but I know they were making progress on the ground, scoring victories and taking over villages. So why would someone who is making gains on the ground use chemical weapons in order to aggravate the situation and get the west to intervene?

Also, the Syrian regime had accepted a UN commission to enter Syria and investigate previous acts of chemical attacks and allegations. They had just arrived in Damascus, so who would strike with Chemical weapons while a UN committee is sitting in a hotel in Damascus? It doesn’t make sense.

Plus, the third reason, is because the regime has a very organised structure that prevents something like this from happening. On the other side there is a chaotic situation and the loyalties are divided all over the place, and there is a major player who was introduced recently, Bandar bin Sultan [member of Royal Hhouse of Saud], who holds the whole issue of the opposition from the Saudi side, and some reporters have indications that he has given the opposition some chemical weapons or agents.

These are all assumptions, I have no proof. I am only using  my own analysis to look at the situation, to see who would benefit from this, the one who is losing on the ground, the one who has been asking for an American intervention, knowing that Obama had drawn a red line [in the case of use of chemical weapons]. They were trying to provoke the USA and bring them into the battle field, and they almost won, we were on the brink of war.

But fortunately we had cool heads in Moscow, Putin proved himself to be more worthy of the Noble Peace Prize than Barack Obama, unfortunately. Now the military solution is taking a back seat, the diplomatic solution is now what everybody is talking about, and that makes me happy.

Siblani fala a um grupo de manifestantes pró-Assad
Within the community in America is there also a sectarian divide?
I do not believe that most of the Sunni in Syria supports the opposition, it just doesn’t make sense.

Maybe not all the Sunnis support the opposition, but most of the opposition are Sunni…
First of all lets look at who is fighting the regime. There is Al Qaeda, the Wahhabis and the Muslim Brotherhood, which are Sunni. And who is supporting them? Turkey, run by the Muslim Brotherhood and Saudi Arabia, which is Wahhabi. So if you look at it this way, then yes, the majority of the opposition are Sunni, but the majority of those fighting for the regime are also Sunni.

Now maybe the forces that are actually making progress on the ground are not Sunni. I don’t know, I don’t know if the Alawites have special divisions or not. But I know that there is the Baathist party, and that there are socialist movements in Syria that cross the sectarian line. I know that they have forces and militias on the ground and that they don’t have religious affiliation. The Baathist party crosses all lines.

Christians in Syria, in Egypt, they want the government, they want stability. Look at what happened in Egypt. Immediately after the instability 72 churches were burned in two days. This is what is happening in Syria too. So under the Assad regime or the Mubarak regime, before, and under the Sisi regime know, the situation is under control and the Christians are more comfortable with the situation. I am not saying they are against democracy, but nobody is really respecting the democratic process anyway.

Aleppo and Damascus are majority Sunni, and the rebels were not able to get into Aleppo in the beginning. When they did get in to Aleppo and started the process of destruction, most of the people wanted the regime to come back. I am not saying that the Sunnis in Syria are in love with the regime, but they are definitely not in favour the chaotic situation in the country. They want change, but they want evolution, not revolution, not destroy and then build, and kill, but to change slowly but surely towards a democratic regime.

It has been proven that democracy is not a pill you can take. It is a process and a culture that you have to grow. Nobody can send a missile with a warhead of democracy. So we have to be careful when we start to talk about Sunnis and Shias. Is this a perception? Yes it is. Are there Sunnis opposed to the rebels? Inside Syria and outside Syria, yes. Here in this community, yes. But are there Sunnis also with the opposition, yes.

The minorities always stand with the Government because they want protection and they do not want the majorities to take over and they have seen what they have done in other areas, especially in Egypt and Tunisia. They want to be protected by the regime. Bashar Al-Assad is Alawite, but his wife is Sunni. I really don’t think that the struggle there is Sunni – Shia. I think that it has many shapes. One of them is that the World Order has to be changed. There are other powers… They may not be as powerful as the US, but they are willing to challenge.

But the countries supporting the regime and the opposition, here there seems to be a clear sectarian line…
At the regional level the countries that are supporting the regime… for example, the Government in Egypt is now supporting the regime…

Because of the Muslim Brotherhood?
Because of the Muslim Brotherhood, but at the same time the blood between Qatar and Saudi Arabia is deeper than between them and Iran. Also what is happening between Turkey and the United Arab Emirates, there is a real struggle there. What is happening in Egypt has nothing to do with Sunni and Shia. Algeria, for example, is Sunni and is supporting the regime. They have interests that they have to take into consideration with the Saudis, but they voted against the strike against Syria, they voted against kicking Syria out of the Arab League.

So I do not want to draw these lines with a knife, but at the same time I do not want to blur them to the extent that I look silly. They exist, some people are trying to play this card and it is very obvious that the sectarian line and tension has been played for a long time. Some forces in the region wanted this to happen. I hope that what we have seen in Lebanon, that the majority of the Sunnis may be standing with the Saudis, with the March 14th, but also there are 30 to 40% of the sunnis who are not with the March 14th and the Saudis. So there is a blurred line. We have to see that this is a struggle, it is a war, and in a war you use all your weapons, including the sectarian and there is a ground that is fertile for the sectarian struggle, and it is being used.

I don’t think that there are many things in common between the shias of Lebanon, Iraq and Iran. You’ll find, if you look back in history, that it is not true. The Shia in the Arab world are more nationalist, they looked at Nasser, and at Khadafi at a younger age, and Arafat, they never were in the fold of the Shah of Iran, even though he was Shia.

The historical differences between Sunnis and Shias are 1400 years old, they are not something new. Why have they surfaced now? Because there are people who are playing with this, really feeling it and trying to use it for a different goal. So far they have failed and I hope they do fail, because this is a very dangerous thing to play with.

Nasser
You were born in Lebanon?
I was born in Lebanon and came to the USA in 1976.

And you are from a Shia family?
I don’t like to identify myself, because I don’t feel this way. I don’t even feel Lebanese. I have always been a pan-arabist. Look at this picture behind me? It is Nasser. He is more important to me than my father. I don’t have a picture of Hassan Nasrallah, for example [leader of Hezbollah], and I could if I wanted to. I have grown up with Nasser’s ideas that there is one Arab nation and that we have common causes, grounds and denominators. I don’t believe in sectarianism. I am a Muslim and I happen to be from the Shia family, but I don’t believe in any of this.

I don’t even believe in differences between Muslims and Christians. I believe what Imam Ali, son in law of the Prophet said, “A man is either your brother in religion or an equal to you in humanity”. So if you are not my brother in religion you are my equal as a human. I truly believe this. I truly believe that as humans we have more in common among us than differences. And religion and politics sometimes gets in the way.

Tuesday, 24 September 2013

Síria – Quem apoia quem?

A situação na Síria está mais complexa que nunca. Aqui pretendo elencar as diferentes partes interessadas, tanto internamente como externamente, para benefício dos leitores que estão por fora do assunto.

Internamente:

Sunitas: Os muçulmanos sunitas são a maior percentagem de sírios. Actualmente a esmagadora maioria dos rebeldes são sunitas, incluindo vários grupos de militantes que vêm de fora do país para combater a ditadura de Bashar al-Assad. Contudo, isto não é o mesmo que dizer que todos os sunitas apoiam os rebeldes. A família Assad estabeleceu uma série de alianças complexas, sobretudo com as classes mercadoras de sunitas nas principais cidades da Síria. O grão-mufti, supostamente o líder espiritual dos sunitas na Síria, é um acérrimo apoiante de Assad. Ainda há sunitas influentes no regime, mas é curioso notar que praticamente todos os militares e políticos que abandonaram o regime, desde o início da guerra, são sunitas.

Alauítas: Os alauítas são um ramo do Islão Xiita e na sua quase totalidade apoiam o regime de Assad que é, ele mesmo, um alauita. Numa região em que a fidelidade à tribo ou à religião é muito importante, é com naturalidade que a maioria dos alauitas começou por apoiar Assad, mas há um outro factor muito importante a ter em conta. É que os alauitas não passam de cerca de 12% da população, apesar de terem, desde a ascensão da família Assad ao poder, um poder desproporcional, dominando as Forças Armadas e os aparelhos do Estado. Neste momento existe um enorme medo, fundamentado, de que a subida ao poder dos sunitas resulte em vinganças sobre os alauitas. É um ciclo vicioso, quanto mais os alauitas o temem, mais duramente lutam e mais aumenta a possibilidade de vinganças, como aliás até já tem acontecido em diversas ocasiões nas zonas controladas pelos rebeldes.

Cristãos: São o terceiro maior grupo religioso do país, apesar de estarem divididos em diversas confissões, ortodoxas e católicas. Os cristãos tendem a ser bem educados e ocidentalizados, contudo na esmagadora maioria não apoiam os movimentos democráticos que combatem Assad, precisamente porque têm medo de que no final não seja a democracia que resulte da queda do regime, mas sim um Estado islamista onde eles se tornem cidadãos de segunda e sejam perseguidos, como tem acontecido no Egipto e no Iraque. Contudo, apesar de, tendencialmente apoiarem o regime, os líderes cristãos têm sido firmes em impedir que os seus fiéis se juntem a milícias pró-regime, apelando sempre a uma solução sem recurso às armas. Há, como é evidente, cristãos a servir nas forças armadas, como quaisquer outras religiões.

Druzos
Drusos: O quarto grupo religioso na Síria, os drusos são relativamente poucos, tendem a viver concentrados nas mesmas áreas e, por regra, tendem a ser cidadãos leais aos países em que vivem (Síria, Líbano e Israel). Neste caso os drusos têm-se mantido bastante à parte da revolta, não se querendo associar nem a um lado nem a outro.

Curdos: Os curdos não são um grupo religioso, mas sim étnico, na esmagadora maioria muçulmanos sunitas. Contudo, os curdos estão mais interessados em aumentar a sua própria autonomia. Por isso, estão dispostos a lutar contra qualquer grupo que sintam ser uma ameaça. Combateram ao lado dos rebeldes de início mas, quando chegaram grupos islamistas que quiseram impôr-lhes a sua versão do Islão, lutaram contra eles também. Os casos mais recentes de tensão levaram o curdistão iraquiano a ameaçar intervir para proteger os curdos na Síria.

Externamente:

Hezbollah: Antes de entrar pelos países, há que ver o Hezbollah, o principal partido e força armada do Líbano. O Hezbollah é um partido xiita, fortemente apoiado e armado pelo Irão. As armas iranianas chegam ao Líbano através da Síria, que fecha os olhos ao tráfego. Por isso o fim do regime de Assad poderia ser desastroso para o Hezbollah. O partido sempre apoiou Assad mas, mais recentemente, os seus soldados entraram em força na Síria para combater ao lado das tropas sírias. Os dirigentes do Hezbollah mandaram também aos militantes do Hamas, o movimento islamista na Palestina, deixar de apoiar os rebeldes. O Hamas é sunita mas depende muito do Hezbollah para apoiar a sua luta contra Israel.

Líbano: O Líbano é o país com maior diversidade de religiões e grupos étnicos. Os xiitas, como já vimos, apoiam o Assad, mas os sunitas tendem a apoiar os rebeldes. Isto já levou a conflitos no Líbano e muitos temem que todo o país se desestabilize e volte a guerra civil dos anos 80. Os cristãos, que formam cerca de 40% da população, tanto quanto me tem sido possível perceber ao longo destes dois anos, não sentem grande afinidade pelos seus correligionários na Síria e guardam ainda grandes ressentimentos pela ocupação do seu país por parte da Síria durante longos anos.

Irão:  O Irão é a grande potência xiita do mundo islâmico e está constantemente envolvido num braço de ferro com os países de maioria sunita, para ganhar influência na região. A queda de Saddam Hussein foi uma bênção para o Irão, pois permitiu à maioria xiita ganhar o poder naqueles país, mas a queda de Assad seria uma derrota. Por isso o Irão tem feito tudo para apoiar Assad e tentar manter a Síria na sua esfera de influência.

A manutenção do regime também é importante para o Irão conseguir enviar armamento para o Hezbollah, no Líbano.

Iraque: Durante muitas décadas o Iraque era dominado pelo regime de Saddam Hussein que priviligiava a minoria sunita (cerca de 40%) e reprimia a maioria xiita (cerca de 60%). Desde a queda desse regime os xiitas ganharam o poder e o país tem-se visto mergulhado numa terrível onda de violência entre as duas comunidades. Essa violência acalmou nos últimos anos, mas a crise na Síria veio reacender a rivalidade e este ano os níveis de mortandade voltaram aos de 2006.

Do Iraque têm partido ondas de voluntários para a Síria. Xiitas para combater pelo regime, sunitas para combater pelos rebeldes. Quanto ao Governo, não tem criado grandes ondas, talvez para não desestabilizar ainda mais o país, mas tenderá a apoiar Assad. O Iraque é um país através do qual o Irão faz chegar armas à Síria, e também ao Hezbollah, através da Síria.

Turquia: Durante anos a Turquia esteve virada para a Europa, na esperança de conseguir entrar na União Europeia. À medida que essas esperanças arrefecem, e sobretudo depois do começo da Primavera Árabe, os turcos perceberam que podiam tornar-se uma das grandes influências no Médio Oriente e no mundo islâmico.

Sendo um país de maioria sunita, os turcos colocaram-se ao lado da oposição, a quem dão cobertura, permitindo que as chefias se organizem, treinem e reúnam em território turco.

Arábia Saudita: Tal como a Turquia, a Arábia Saudita também quer ser uma das grandes influências no Médio Oriente. Os sauditas julgam-se guardiões da ortodoxia islâmica, são exclusivamente sunitas e odeiam o Irão, que para além de xiita não é sequer árabe, mas persa. Por isso os sauditas têm todo o interesse em apoiar os rebeldes para acabar com um regime “herético” e aumentar a esfera de influência sunita na região. Contudo, os sauditas também temem o aumento da influência dos grupos mais fanáticos dos rebeldes, pois internamente tem problemas com islamistas que consideram que o regime saudita é corrupto e foge à essência do Islão.

Israel: A posição de Israel é, no meu entender, um pouco mais difícil de explicar. Historicamente Israel tem estado em conflito com a Síria, sobretudo por causa da região fronteiriça, que Israel ocupou depois da guerra dos seis dias. Várias vezes os israelitas bombardearam a Síria para destruir o que consideravam ser o começo de construção de instalações nucleares e de facto ninguém em Israel morre de amor por Assad.

Mas por outro lado, imagino que os israelitas também estejam preocupados com o regime que o possa substituir, pois uma Síria islamista seria uma maior dor de cabeça na fronteira com Israel do que o regime de Assad que, para além de retórica, raramente incomodava.

Por outro lado, o fim do regime poderia acabar com o fornecimento de armas por parte do Irão ao Hezbollah, enfraquecendo aquela que tem sido a maior espinha no lado de Israel na última década.
Friamente diria que aos israelitas interessa sobretudo que o país se mantenha no caos o máximo tempo possível, pois enquanto aquela guerra continuar a maior parte dos inimigos de Israel tem mais com que se ocupar do que atacar o estado judaico.

Egipto: A posição do Egipto em relação à Síria alterou-se 180º com a queda do regime apoiado pela Irmandade Muçulmana. Os islamitas apoiavam os rebeldes, mas o novo regime militar, que detesta a Irmandade, cortou com todo esse apoio. O apoio egípcio era importante para a oposição, uma vez que aquele país é uma espécie de farol para o mundo islâmico sunita. A posição do Egipto assemelha-se, por isso, ao da Argélia, que apesar de ser sunita, apoia o regime sírio porque não quer encorajar movimentos semelhantes no seu país.

Rússia: Mais que tudo a Rússia quer mostrar que continua a ser uma grande potência, com influência a nível mundial. Ao contrário dos americanos, que apoiaram algumas das ditaduras que depois vieram a criticar, Putin quer mostrar que é leal às suas alianças, e a Rússia, de facto, é aliada da Síria há muitos anos. Os russos têm uma base naval na Síria e querem também defender esses interesses, para além de esta ser mais uma oportunidade para se oporem aos EUA, ainda por cima, até agora, com considerável sucesso.

Há, contudo, alguns factores religiosos que entram em jogo também. Sendo a maioria dos cristãos sírios de igrejas ortodoxas, esta é uma oportunidade para os russos poderem armar-se em defensores mundiais da ortodoxia, com o argumento de que uma vitória dos rebeldes seria má para os cristãos.
Por outro lado, os russos têm muitas dores de cabeça com grupos islamistas nas suas regiões orientais e quer tudo menos uma vitória islamista na Síria para dar força a esses grupos.

John Kerry
EUA: Por regra, os Estados Unidos têm apoiado sempre os movimentos revolucionários nestas ditaduras árabes. É por isso natural que o façam novamente na Síria. Mas apesar disso, o apoio tem sido pouco mais do que da boca para fora e tem havido enorme relutância em meter tropas no terreno.

Mais recentemente Obama disse que a utilizaçção de armas químicas seria algo inaceitável, que levaria a uma intervenção. Em Agosto os EUA e grande parte da comunidade internacional concluíram que o regime tinha de facto usado armas químicas contra a sua própria população.

A resposta da Administração Obama, contudo, tem sido um total fracasso. O Presidente começou por dizer que era urgente fazer alguma coisa, mas decidiu submeter a proposta de atacar a Síria ao Senado e depois ao Congresso. Isso é um processo que leva semanas, portanto logo ali verificava-se a estranha situação de Obama dizer algo do género: “Vamos atacar, se nos deixarem, talvez, daqui a muito tempo”, dando oportunidade para Damasco se preparar e bem.

Depois houve a aparente gaffe de John Kerry que, questionado se havia alguma coisa que Assad pudesse fazer para mudar a opinião do regime, disse, aparentemente sarcástico, que só se ele entregasse as armas à comunidade internacional. Os russos aproveitaram para apresentar formalmente essa proposta e Assad, evidentemente, aceitou, retirando ainda mais legitimidade a um ataque americano.

Perante isto, Obama foi à televisão pedir ao Congresso para adiar a votação e dizer que então os Estados Unidos esperariam para ver se de facto era possível essa outra solução, entregando de bandeja o iniciativa aos russos.

Há quem diga que, sabendo que ia perder a votação no congresso, a gaffe de Kerry tenha sido propositada para abrir uma porta de saída de toda a situação, sem que Obama passasse uma vergonha interna ou fosse forçado a entrar numa guerra que a que a esmagadora maioria da população se opõe.

Monday, 20 May 2013

Projecto Família e Patriarca de Lisboa

Claro que a notícia dos últimos dias é a confirmação da nomeação de D. Manuel Clemente para o Patriarcado de Lisboa.


Resta agora saber quem será o novo bispo do Porto. Mas há mais nomeações na calha…

Numa altura em que as famílias estão cada vez mais desestruturadas, que bom saber que há quem se dedique a mantê-las unidas apesar das dificuldades! É o caso do “Projecto Famílias”, do Movimento de Defesa da Vida, que vale a pena conhecer melhor.

No Iraque a tensão entre xiitas e sunitas está no ponto mais alto desde os últimos cinco anos. Só hoje contabilizaram-se mais de 50 mortos.

Monday, 18 March 2013

Primavera em Roma, tensão no Médio Oriente

Penso que no oficial a estrela e
a flor de nardo são douradas...
Realiza-se amanhã a missa de inauguração do pontificado do Papa Francisco (e não a entronização, que será mais tarde). Quem quiser pode ir ao auditório do Colégio São João de Brito e lá assistir à transmissão da celebração, a partir das 08h00. A Renascença fará de lá uma transmissão especial que pode ser acompanhada com imagem através do site.

Entretanto hoje foi divulgado o brasão do novo Papa, que é essencialmente igual ao seu brasão de bispo, mas adaptado ao pontificado.


Ontem foi o primeiro Angelus. Estavam milhares de pessoas em São Pedro, incluindo vários portugueses.

Mudando de ares, mas ainda no Cristianismo. Há tensão entre ortodoxos. A Igreja Grega de Antioquia ameaça mesmo romper comunhão com a de Jerusalém.


E paz é coisa que já não há no Tibete há muito tempo. Mais um monge imolou-se pelo fogo este fim-de-semana.

Thursday, 20 December 2012

2 – A Guerra Civil na Síria

Mapa de distribuição religiosa na Síria
Clicar para aumentar
Graças a Deus, existe a ONU!

A Organização confirmou hoje que existem militantes do Hezbollah a combater pelo regime de Bashar al-Assad, na Síria e alertou para o facto de a guerra civil naquele país ter assumido contornos de luta sectária! A sério?!

Pois este é um tema sobre o qual temos falado incansavelmente durante todo o ano, até mais, mas foi sem dúvida um dos grandes temas deste ano no que diz respeito a informação internacional e também religiosa, porque a religião desempenha um grande e importante papel neste conflito.

A guerra na Síria ajuda-nos a compreender que isto da Primavera Árabe não é um fenómeno simples, igual em todos os países. A situação na Síria não tem nada a ver com o Egipto ou com a Tunísia. Se na Tunísia a população é praticamente homogénea, e no Egipto são apenas dois os grupos etno-religiosos de peso, os muçulmanos sunitas e os cristãos, a Síria é uma manta de retalhos.

Se não vejamos:

População: Cerca de 22 milhões
Distribuição religiosa:
            Muçulmanos sunitas: 74%
            Muçulmanos de tradição xiita: 13%
            Cristãos, várias denominações: 10%
            Drusos: 3%

Mas se fosse só assim seria demasiado simples! Então temos que 9% da população é curda. Os curdos são na maioria sunitas, mas mantêm-se à parte da população árabe, por isso os árabes sunitas são apenas cerca de 65% da população total.

Entre os xiitas temos também três grupos distintos, mas o grupo principal são os alauitas, uma vertente esotérica do xiismo. Os alauitas vivem também no Líbano e na Turquia mas a maioria vive na Síria e, desde a subida ao poder da família Assad, dominam os aparelhos do poder político e militar, isto apesar de serem apenas cerca de 10% da população total.

Por fim, os cristãos pertencem a várias denominações diferentes. Há católicos (de várias igrejas), ortodoxos, arménios e protestantes. A variedade de hierarquias e uma notória falta de coordenação significam que os cristãos, mesmo que estejam de acordo, raramente falam a uma só voz.

Vamos então ao conflito. Quem é que está a lutar pela queda do regime?

O grosso dos militantes anti-Assad são árabes sunitas. São apoiados financeira e militarmente pelos países árabes sunitas do Golfo, muitos dos quais tentam impor aos grupos que financiam as suas ideologias extremistas. Contudo, alguns membros de outros grupos étnicos ou religiosos também apoiam a oposição.

E quem apoia Assad? Os alauitas, sem dúvida. Mesmo que não gostem da figura e da repressão do regime, vivem aterrorizados com o que lhes pode acontecer caso os sunitas tomem o poder. As garantias por parte da oposição de que não haverá lugar a retribuições e vinganças não parecem consolar os alauitas.

Os cristãos também apoiam, no geral, Assad. A Síria era, até há cerca de dois anos, um dos sítios mais seguros para os cristãos viverem em todo o Médio Oriente. Pela minha experiência pessoal, de contacto com cristãos sírios, mesmo antes do começo das revoltas, eles não gostavam do regime em si, mas calculavam que era um mal menor, tendo em conta o que se passava nos países à volta. Como os alauitas, temem um eventual Governo islamista sunita.

Na corda bamba estão os drusos que, mais que tudo, querem que os deixem em paz.

Complicado? Calma que ainda fica pior. É que há também os actores externos. Vejamos.

O Irão é a única potência regional xiita e faz tudo o que tem ao seu dispor para salvaguardar a sua influência regional. Uma Síria em mãos alauitas é aliada do Irão, uma Síria sunita não é. Por isso o Irão apoia Assad até porque o fim do regime impediria os iranianos de continuar a apoiar o Hezbollah, no Líbano.

O que nos leva precisamente ao Hezbollah. Esse grupo político-militar xiita é, actualmente, o mais influente no Líbano. Tem um arsenal próprio e conta com o tal apoio do Irão, que é muito significativo. Com o seu poder continua a fazer frente a Israel, como pode. Para o Hezbollah a perda da conduta Síria, por onde vêm armas do Irão, seria desastrosa. É por isso que o Hezbollah está, de facto, há muito tempo, a combater na Síria ao lado das forças armadas de Assad.

Para além dos países do Golfo que apoiam financeiramente a oposição há ainda que ter em conta a Turquia. Os turcos já não são aquele baluarte do secularismo que eram há anos, o país tem-se tornado crescentemente islâmico e à medida que a Europa vai mostrando que não a quer na União Europeia, os turcos vão virando as atenções para o Médio Oriente, conscientes de que a Primavera Árabe pode muito bem aumentar a sua influência na região.

Por isso a Turquia, um dos países sunitas mais importantes do Médio Oriente, também quer ver os sunitas no poder na Síria, de preferência com uma dívida de agradecimento para com Ancara.

E quem é que não pode ver os turcos à frente? Os curdos, pelo que esse grupo se mantém muito desconfiado em relação à oposição na Síria também.

Resumindo, uma enorme misturada, mas onde a religião é um factor chave para se compreender o que se está a passar. Não é, de certeza, uma mera questão de amantes da liberdade contra um estado tirânico.

Também é necessário realçar, claro, que há excepções. Há cristãos empenhados na oposição e há sunitas que não querem ver Assad pelas costas. A tendência até pode ser para a passagem gradual dos cristãos e outras minorias para o lado da oposição, à medida que percebem que a vida normal e calma que gozavam simplesmente não regressará.

E, claro, há muitos factores extra-religiosos na equação. O apoio da Rússia e da China a Assad tem outras raízes, por exemplo, e os EUA e Europa não apoiam certamente a oposição por amor ao Islamismo.

Actualmente a queda do regime parece ser simplesmente uma questão de tempo, mas isso não será o fim da história, é que muitos destes grupos poderão, em situações de perigo juntar-se nas suas terras ancestrais, e tentar, quem sabe, criar estruturas autónomas de Governo. Mas isso já são suposições.


Ver também:

Tuesday, 27 November 2012

Fé no Campo Pequeno, tourada no Iraque

Começou hoje uma exposição sobre a Fé no Campo Pequeno, em Lisboa. A entrada é livre, há actividades hoje à noite e amanhã, não percam.

Em todo o continente africano, e mesmo em muitas partes do mundo ocidental, a Igreja depara-se com o problema da feitiçaria. Os bispos angolanos não vão admitir mais que os fiéis tenham um pé em cada campo. Quem pratica feitiçaria não comunga em Angola.

A Igreja tem novos cardeais. São seis e ouviram o Papa falar da universalidade da Igreja. Recorde-se que no último consistório houve queixas de que os cardeais eram quase todos do mundo ocidental, pois esta leva era quase exclusivamente africana e asiática.

No Iraque mais um atentado dirigido a muçulmanos xiitas. Digam o que disserem, o grande conflito regional no Médio Oriente agora é este, entre sunitas e xiitas, como se explica aqui.

Uma última nota para esta reportagem. Não tem nada a ver com religião, mas não é todos os dias que se entrevista um homem com 101 anos e só por isso merece ser visto!

Monday, 16 July 2012

Uma breve análise da situação na Síria, pelo espectro religioso

Alauítas na Síria em apoio a Assad
A Síria continua emaranhada numa terrível violência, sem solução à vista.

Nas últimas duas semanas houve notícia de duas deserções muito significativas para regime, nomeadamente do embaixador sírio no Iraque e, antes disso, de um importante general aliado de Bashar Al-Assad.

O que é que estas duas figuras têm em comum? São ambos sunitas, como é quase toda a hierarquia da oposição ao regime, bem como a massa dos opositores que nas ruas têm agitado pelo fim do regime de Assad.

Estas notícias apenas confirmam algo que tenho dito desde o início do conflito: não é possível compreender o que se passa na Síria sem ver e compreender o espectro religioso, não só internamente mas também a nível regional.

Antes de mais, um rápido olhar ao país.

A Síria é composto por vários grupos éticos e religiosos. A esmagadora maioria da população, cerca de 75%, são muçulmanos sunitas. Os sunitas são o maior grupo islâmico a nível mundial e dominam também a maioria dos países da região árabe.Contudo, na Síria o regime é dominado por outro grupo, os alauítas.

Os alauítas são um ramo do Islão Xiíta. São encarados como heterodoxos tanto por sunitas como por a maioria dos xiítas, mas apesar de tudo são mais próximos destes do que aqueles. Na Síria os alauítas constituem cerca de 10% da população, mas tanto a família Assad como grande parte da estrutura que o cerca, pertencem a este grupo.

Ainda dentro do Islão deve-se falar dos curdos. Em termos religiosos os curdos, que são cerca de 5% da população, são sunitas também, mas isso não significa um alinhamento automático com a oposição. A questão tem grandes aspectos religiosos, mas a identificação religiosa não explica tudo.

Por fim, temos os cristãos. Cerca de 10% da população, há décadas que os cristãos encaram a Síria como um oásis de paz, progresso e estabilidade numa região volátil.


Sendo dominado por outra minoria religiosa, ao regime nunca interessou usar um discurso religioso e por isso o secularismo era ferozmente defendido em nome da unidade nacional. Não havia liberdade de expressão, é certo, nem liberdades políticas, mas havia liberdade de culto e não existiam problemas inter-religiosos.

Os cristãos estão divididos em várias igrejas católicas e ortodoxas, mas no terreno as relações são normalmente próximas. Com o início do conflito os cristãos não aderiram à revolta e alguns dos seus representantes apoiaram clara e publicamente o regime. Com a intensificação das lutas esse apoio foi-se moderando com apelos ao fim da violência, mas é claro que uma boa parte da oposição identifica os cristãos como sendo aliados de Assad e há muita preocupação entre a comunidade cristã de que o fim do regime traga os mesmos problemas que se têm visto no Iraque desde a queda de Saddam.

O facto de os cristãos, por tradição, não terem milícias nem recorrerem à violência torna-os alvos fáceis e, nalgumas aldeias, obriga-os a alianças de ocasião, na maior parte dos casos com os alauítas, que são na esmagadora maioria fiéis ao regime e temem uma verdadeira limpeza étnica no caso de este cair. É de realçar que o ministro da Defesa, nomeado em Agosto de 2011, e por isso uma peça chave no combate à revolta, é cristão.
Assad com o Patriarca Ortodoxo-antioqueno da Síria

O cenário interno é este, e é também isto que ajuda a perceber a reacção dos países vizinhos, a começar pela Turquia. Depois de anos a tentar entrar na União Europeia, sem qualquer sucesso para apresentar, Ancara está a olhar para o que se passa no Médio Oriente e a dar sinais de se querer impor como a grande força da região. Os turcos são, na esmagadora maioria, muçulmanos sunitas e por isso não é de admirar que haja uma natural solidariedade com a oposição, que tem usado terreno turco para se reunir e planear os ataques ao regime.

Outra grande potência da região é a Arábia Saudita, que apesar de ser tudo menos democrática, tem apoiado os esforços da oposição para destronar Assad. A solidariedade saudita não chega, por exemplo, ao Bahrein, onde um regime dominado por sunitas é contestado pela maioria da população, que é xiíta.

É precisamente o contrário do que se passa com o Irão, a grande potência xiíta mundial, que apoia os revoltosos do Bahrein mas tem todo o interesse em manter o regime de Assad em Damasco.

A Síria é assim uma peça fundamental no jogo de influências entre o mundo xiíta, liderado por um Irão prestes a conseguir uma arma nuclear, e o mundo sunita, maioritário.

Ao lado da Síria reina o nervosismo no Líbano, onde cristãos, sunitas e xiítas vivem mais ou menos em iguais proporções. O Líbano é um país minúsculo, que durante anos viveu na órbita de Damasco. Mudanças na Síria seriam muito importantes para o Líbano, principalmente porque um regime sunita dificilmente permitira que o Irão continuasse a fornecer o Hezbollah, o partido xiíta que hoje em dia tem mais força em Beirute e que mais mostra os músculos a Israel.

Quanto a Israel, a outra potência a ter em conta na região, poderá até ver com bons olhos a instalação de um regime que ajude a controlar o Hezbollah, mas por outro lado as relações com Assad estavam relativamente pacificados, e nunca se sabe o que trará um Governo novo ou democraticamente eleito.
Filipe d'Avillez

Monday, 11 June 2012

Jesuit in Syria: "I am leaving the country in the next few days, by decision of the Church"

Paolo Dall'Oglio, jesuíta italiano na Síria
Full transcript of interview with Paolo Dall'Oglio, italian jesuit in Syria. News item can be read here.

Transcrição completa da entrevista com Paolo Dall'Oglio, jesuita italiano na Síria. Leia a notícia aqui.


Are you optimistic about a solution to the crisis?
I was never optimistic! In January 2011 I said to an important ambassador in Damascus that I didn’t expect Syria to change quickly and relatively peacefully like Tunisia and Egypt.

Unfortunately, at that time, I was convinced that the risk of a civil war was a reality for Syria and there was a big need for a large international dialogue to facilitate the democratic transformation of Syria without falling into civil war.

Can a civil war be avoided?
We have been in a civil war since June 2011. I won’t say there is no revolution, there is a revolution and a civil war.

Is it between Sunnis and Alawites?
It is going this way, but this does not mean that all the Alawites are with the state nor that all the Sunnis are against the regime. But in the regions where the ethnic fight is ongoing, we cannot but recognize that there are two sides, one Alawite, one Sunni, sometimes with the help of some Christian villages.

What is the position of the Christians in Syria at the moment?
It is difficult to generalize; it is different from one region to the other. In big cities like Damascus and Aleppo the Christians are substantially neutral.

In the region where the confrontation is more immediate, between Alawites and Sunni, the Christians are in a very difficult situation, that is why they emigrate or they are obliged to side, in this case they usually side with the Alawites, but generally speaking the Christians remain neutral and as long as the civil war progresses, they will leave.

You were threatened to be expelled from Syria, then allowed to stay. You are obviously free to speak, what is your relation with the state?
I started to speak freely and loudly again once the state signed an agreement with the Arab League recognizing the right of opinion and expression. I have allowed myself to speak clearly, loudly, because the Syrian government has agreed that freedom of opinion should be implemented. But at the same time I am obliged to leave the country this week, because in fact this freedom of expression is not recognized. I will leave the country in the next few days, I am obliged by a decision of the church.

Padre Paolo no mosteiro de Deir Mar Musa
What has the position of the Church leaders been?
The church has always been used as an instrument to build the popular opinion upholding the State's priorities.

Is there a future for the current regime?
I am not interested in the future of the regime. I am very interested in the future of syria and the rights of Syrians.

And you believe it would be better for them if the regime would be replaced?
People have passed a point of no return. But I believe in national dialogue, not to keep any regime, but to have the largest consensus possible, because we need a Syria for all the Syrians.

Should the international community intervene?
I believe in international non-violent action. Read my letter to Kofi Annan. In it I asked for 3000 military observers and 30 000 civil society activists to work with the Syrian civil society to implement democracy.

Nevertheless there is sometimes the need for occasional limited operations, I call them police operations. In order to avoid terrorism or violence of whatever kind to spread in a country like ours.

The church believes in the right of self-defence. And so far there is a duty of solidarity with the people who are trying to defend themselves, to protect their rights. I believe in both cases, for those who are trying to defend their rights, and for those who are in solidarity with them, that non-violence is always better, but this does not mean giving up rights or giving up solidarity.

Monday, 4 June 2012

Um milhão em milão, duas dúzias em Bagdade, 12 na Nigéra


Consigo ver o Papa daqui!


Bento XVI falou sobre os casais separados, sobre os jovens e a santidade e sobre a liberdade, e saiu de Milão feliz.

Felicidade que bem falta lhe tem feito numa altura marcada pelo escândalo Vatileaks. O Vaticano avisa que poderão sair mais documentos. Escrevi sobre este assunto para o blogue, para ajudar a compreender o que se está a passar.

Também para ajudar a compreender o que se está a passar, mas neste caso entre sunitas e xiitas, devem ler este artigo, sobre o atentado que matou duas dúzias de pessoas em Bagdade, hoje.


E por fim, chegam amanhã a Lisboa duas dezenas de padres e bispos católicos e ortodoxos. Vêm falar sobre a crise, que não olha a confissões religiosas quando ataca. Amanhã há mais sobre este assunto.

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