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Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 29 December 2021

Um Mundo de Encarnação

Randall Smith
Quando Santo Agostinho chegou a Milão, em 384, já tinha ficado insatisfeito com os maniqueus, a seita gnóstica a que tinha estado ligado nos últimos 12 anos. Seguindo o conselho de amigos, começou a ler “certos livros dos platonistas”. Estas obras ajudaram-no a transcender os conceitos estreitamente materialistas e conceber um Deus que não é uma coisa, mas é a fonte do ser de todas as coisas. Foi um passo importante, mas não ausente de perigos.

No seu esforço para se unir às “coisas do alto” acabou por se encher de outro tipo de arrogância, dando-lhe a ilusão de ocupar um lugar privilegiado fora do mundo, olhando-o de cima. Ao procurar o Deus “nas alturas”, Agostinho esqueceu-se de procurar o Deus “cá em baixo”. O Cristo Encarnado – cujo nascimento celebramos nesta época de Natal – ensinou-lhe a encontrar Deus não só “nas alturas”, mas também “cá em baixo”: não só nos picos da mente, mas na matéria e nas realidades criadas do mundo.

Por isso, embora Agostinho tenha aprendido muito dos livros platónicos, o que é igualmente interessante é aquilo que não encontrou lá. Não encontrou nada sobre a Palavra se tornar carne e habitar entre nós; nada sobre o Deus que se esvazia e assume a forma de um servo; nada sobre Jesus a humilhar-se e a tornar-se obediente até à morte, mesmo a morte de cruz. “Onde estava esse amor que edifica sobre as fundações da humildade?”, perguntou.

Esta humildade não se baseava no desprezo pelo corpo, mas no amor bem-ordenado por ele; não em considerar os pecados como coisas carnais, mas na total responsabilização por eles; não em tentar elevar-se até ao divino, mas no reconhecimento das próprias limitações e pecados e da necessidade de perdão e auxílio divino.

E essa foi a segunda coisa que Agostinho não encontrou nos livros dos platonistas: um relato da graça de Deus. Esse, acabou por encontrar nas cartas de São Paulo.

Em breve deixaria de se querer contar entre um grupo de elite de filósofos que procuravam chegar aos pontos mais altos da “linha dividida” de Platão através dos seus próprios esforços intelectuais. Doravante, pelo contrário, depositaria a sua fé no “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”, que se tinha mergulhado na matéria da sua criação no amor, para a elevar no amor.

Para Agostinho a “linha dividida” já não era apenas uma ascensão vertical. A “salvação” era agora “história da salvação”. A linha tinha sido deitada de lado, por assim dizer, tornando-se a história da entrada de Deus na História – a sua autorrevelação e a redenção da humanidade realizadas no tempo e nos eventos da história humana. Desta perspetiva os humanos devem fazer a sua parte, mas a sua parte é tornada possível pelo amor divino que existe para além dos nossos méritos e dos nossos esforços. Assim, para se ser elevado, é preciso primeiro ser “como Cristo” e abraçar os humildes, os pobres, os meigos e os humildes. É necessário unir-se ao seu corpo e morrer para nós mesmos, e para o nosso egoísmo, para se ser erguido com Ele na comunhão eterna de amor, como o Filho está unido ao Pai. 

Santo Agostinho
Forçado a contemplar o significado de o Verbo se tornar carne, Agostinho chegou a várias conclusões importantes. A primeira é de que a matéria não é má, nem é a fonte do mal. Pensar que sim implica confundir uma causa com um efeito. Não é o corpo da mulher que leva o homem a pecar, mas sim a sua incapacidade de apreciar a beleza da pessoa como um todo: corpo, alma, espírito e mente. Ironicamente, Agostinho nunca conseguiu deixar de estar viciado em sexo durante os seus tempos com os maniqueus, que odiavam o corpo. Esta liberdade só foi alcançada quando ele reconheceu que o corpo não é uma prisão, mas um instrumento com o qual a alma exprime o seu amor desinteressado por Deus e pelo próximo.

O mesmo se aplica ao resto do mundo material: não se trata de uma prisão da qual temos de ser libertados. Através da encarnação ele torna-se o local da nossa salvação. Não somos salvos do mundo, somos salvos no mundo e com o mundo. Somos salvos de uma relação disfuncional com o mundo, através da qual tentamos usá-lo para nos exaltarmos, numa tentativa de autocriação e autodeificação.

Deus deu à Criação uma ordem e é importante que nos conformemos a ela. Não nos realizamos fugindo para outro mundo ou impondo uma ordem estranha a este. Realizamo-nos, e o nosso mundo realiza-se connosco, quando compreendemos a ordem que Deus pretende e nos disciplinamos para preservar e alargar essa ordem. E nesta nova vida, este acesso a uma nova ordem e harmonia não é algo que criamos ou alcançamos sozinhos; é algo que nos é dado de fora do mundo, por um poder fundamental de amor criativo que transcende as nossas próprias capacidades.

Por isso a redenção cristã é a transformação da criação e da pessoa, não uma obliteração ou negação. Não podemos destruir a natureza para realizar o nosso destino humano. Nem podemos controlar completamente a natureza e canalizá-la para os nossos propósitos egoístas sem nos preocuparmos com o bem-estar dos outros. A mensagem cristã é de que apenas realizamos o nosso destino humano quando o vivemos de acordo com a ordem natural criada por Deus, compreendendo-a de forma “encarnacional” e tratando-a “sacramentalmente” como um “instrumento” e “corporização” do amor de Deus.

Deve ter sido fascinante para um homem com um intelecto tão sofisticado como o de Agostinho reconhecer que todo o mundo conceptual da antiga filosofia tinha sido virado de pernas para o ar por uma única criança numa manjedoura em Belém – uma criança que, para além de toda as expectativas humanas, era o Verbo feito carne. Hoje não é mais fácil do que então, embora também não seja mais difícil. Mas se a história for verídica – e é – então não é nada menos do que a chave do sentido de todas as coisas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 27 de Dezembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 9 December 2021

A Fome como Arma, o Correio como Esperança

O Papa Francisco voltou a conversar com jornalistas no voo de regresso da Grécia e criticou os países que fecham as suas fronteiras aos imigrantes e refugiados.

A verdade é que muitos fogem de realidades como esta, no Mali, onde a fome é usada como uma arma.

Entrámos na fase das mensagens de advento dos bispos. O bispo do Porto convida ao “silêncio comunicativo” da Cabana de Belém e o bispo de Viana do Castelo, recém-empossado, lamenta que o homem moderno tenha medo até de si mesmo. Já em Vila Real abriu-se a porta santa para o jubileu da diocese.

A pastoral penitenciária de Braga lançou uma iniciativa interessante. O “Correio da Esperança” permite escrever aos reclusos e melhorar um pouco o seu Natal.

Como é que a Igreja reconquista a confiança aos olhos da sociedade na sequência da crise dos abusos sexuais? É o que pergunta o especialista Stephen P. White no artigo desta semana do The Catholic Thing em português. Um artigo cada vez mais actual e que todos devemos ler.

Wednesday, 1 December 2021

Gratidão, Expectativa e Advento

Francis X. Maier

Este ano o Natal – aliás, peço desculpa, a época festiva – começou no início de Outubro. Foi nessa altura que vi o meu primeiro anúncio pré-Black Friday. Sim, parece um bocado prematuro, mas nunca é cedo para começar a comprar coisas. E numa economia em crise a satisfação dos nossos apetites, comprando mais do que quer que seja, é uma espécie de juramento da bandeira patriótico, real e muito prático. Falando por mim, gosto sempre de preparar estes festejos de Outono lendo dois dos meus textos festivos favoritos.

O primeiro é um clássico ensaio de Natal de Neio Postman, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, sobre uma dona de casa despassarada que compra o detergente errado para as camisas brancas do marido. Podem ler aqui. Postman nota que “os anúncios de televisão são uma espécie de literatura religiosa. Comentá-los de forma séria é um exercício de hermenêutica, um ramo da teologia que se ocupa da interpretação e explicação das Escrituras”.

Os anúncios de televisão mais importantes, diz ele – e recordemos que o comércio de Natal tem um papel salvífico para muitas empresas – “assumem a forma de parábolas organizadas em torno de uma teologia coerente. Como todas as parábolas religiosas, propõem um conceito de pecado, apontam o caminho de redenção e uma visão do Céu. Também sugerem quais são as raízes do mal e quais as obrigações dos santos”.

Postman escreve:

Nas parábolas dos anúncios de televisão, a causa do mal é a Inocência Tecnológica, o desconhecimento dos detalhes dos sucessos benévolos do progresso industrial. Esse desconhecimento é a principal fonte da infelicidade, humilhação e discórdia na vida. E como se vê de forma poderosa na parábola da mancha, as consequências dessa inocência podem surgir a qualquer momento, sem aviso, e com toda a força da sua acção fulminante.

Acrescenta:

Não é fácil saber precisamente quando, como povo religioso, trocámos a nossa fé nas ideias tradicionais de Deus pela crença na força enobrecedora da Tecnologia, mas os anúncios de televisão constituem a maior fonte de literatura que possuímos sobre este nosso novo compromisso espiritual.

Tal como outros textos religiosos, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, agora já com cerca de 40 anos, perdeu algum do seu contexto social. As críticas feministas e os especialistas em estudos do género podem ser particularmente hostis quanto a esta parábola. Contudo, ela contém um ensinamento-chave da ortodoxia americana moderna: desejar bugigangas é bom; comprar coisas é ainda melhor; e quanto mais quantidade e mais novas forem as coisas, melhor. Menos que isso é suspeito.

Claro que há outra forma de pensar sobre a temporada que começa este domingo, se bem que menos comercial, em tempos conhecido como “Advento”. Incrivelmente ainda há alguns seguidores de Jesus que usam esse termo.

O que me leva a Alfred Delp e o Advento do Coração, o segundo texto que leio sempre nesta altura do ano, e que é muito mais emocionante.

Os americanos nunca viveram uma ditadura política. A última guerra travada no nosso solo acabou há mais de 150 anos. Logo, para muitos de nós é difícil imaginar a vida nos regimes totalitários do século passado. Mas esses regimes, e toda a selvajaria catastrófica que soltaram, foram muito reais, tal como documentado por testemunhas desde Elie Wiesel a Alexander Solzhenitsyn. O Terceiro Reich assassinou milhões de vítimas inocentes, incluindo milhares de mártires cristãos. Alguns, como Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano e teólogo, são bem conhecidos. Alfred Delp, o padre jesuíta alemão, estão entre os mais significativos.

Alfred Delp S.J.

O Advento do Coração é uma coleção dos textos de Delp sobre o Advento escritos entre 1933, o ano em que os Nazis tomaram o poder na Alemanha, e Dezembro de 1944, semanas antes de morrer. Os textos fazem parte de um diário da fé de Delp e revelam uma alma que, mesmo debaixo de opressão brutal, está recheado de uma claridade, caridade, coragem e beleza penetrantes. No seu ensaio “O Advento Eterno”, escrito em 1933 e dirigido aos jovens, Delp escreve:

Como devemos celebrar a festa

Para a qual nos apressamos?

Que aprendamos a celebrá-la

Livres da avalanche de ninharias

Com as quais, tão facilmente, se submerge

O grande sentido deste dia santo

Que possamos encarar de frente

A grande, santa realidade do Natal.

No Advento do Coração encontram-se ainda as notas de Delp sobre o Advento de 1935, bem como as homilias e meditações sobre o Advento dos anos entre 1941 e 1944 e ainda as meditações da prisão de Tegel, das últimas semanas da sua vida. Quando a guerra começou a virar-se contra a Alemanha, aumentaram os bombardeamentos aliados e a repressão Nazi contra a dissidência subiu de tom. Delp continuou a enfatizar três temas do Advento: gratidão pelo dom da vida; esperança e alegria na expectativa do Natal; e confiança inabalável na Segunda Vinda de Cristo, o seu triunfo e a sua justiça.

Em 1942-1943, com o apoio do seu superior jesuíta, Delp juntou-se ao Círculo Kreisau, um grupo de resistência cristã preocupado com a reconstrução de uma Alemanha desnazificada depois da guerra. Juntamente com muitos outros, foi detido em Julho de 1944 depois de uma tentativa falhada para matar Hitler, apesar de não ter tido qualquer envolvimento. Foi interrogado e torturado durante seis meses. Algumas das suas meditações de Advento foram escritas em algemas e contrabandeadas para fora da prisão no meio da roupa suja. Em Janeiro de 1945 foi condenado por traição e sentenciado à morte pelo juiz homicida Roland Freisler, que presidia ao Tribunal Popular do Terceiro Reich. No dia 2 de Fevereiro de 1945 foi enforcado. Menos de 24 horas mais tarde, num pormenor de justiça divina, Roland Freisler morreu, atingido diretamente por uma bomba americana.

Entre as palavras de Delp que nos chegaram encontram-se estas:

Jamais experimentaremos o nosso desejo primordial e saudoso por Deus de forma mais activa e desperta que nesta época… O Advento é o tempo do que busca Deus. O desejo original contido em cada coração humano é um grande impulso em direcção ao Deus distante e escondido, um anseio para caminhar naquela longínqua e esquecida pátria da alma. Esse anseio é o que a Igreja exprime, tanto na sua atitude interior como na liturgia desta época.

Alfred Delp morreu a acreditar nessas palavras. Podemos pelo menos tentar vivê-las neste advento e, ao fazê-lo, entrar no verdadeiro coração do Natal.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 26 de Novembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 24 November 2021

Missões Várias

As bravas mulheres religiosas da rede Talitha Kum, contra o tráfico humano, vão lançar amanhã uma campanha para alertar para o risco acrescido deste problema com o aumento da pobreza. Saiba mais sobre esta missão aqui.

Com a aproximação do Natal a Fundação Fé e Cooperação também volta à campanha dos Presentes Solidários. É outra forma de missão.

E por falar em solidariedade, os cristãos de Belém, na Terra Santa, têm alguns artigos de artesanato à venda em Lisboa. Os próprios não conseguiram vir cá vender este ano, mas o material estava armazenado e cada peça comprada é uma ajuda na grande missão de manter a fé em Cristo viva na terra onde Ele nasceu. Vejam mais informações no cartaz.

Desafio-vos a ler a entrevista desta semana da Renascença e da Ecclesia ao responsável pela Missão País, talvez um dos melhores exemplos de nova evangelização que existe na actualidade!

A sua família é numerosa? A do David Bonagura é e ele refere neste artigo do The Catholic Thing algumas das bocas e preconceitos de que tem sido alvo ao longo destes anos. Devo admitir que a minha experiência tem sido mais positiva, embora também tenha algumas histórias para contar. Aproveitem para partilhar as vossas histórias e experiências nos comentários.

Wednesday, 23 December 2020

Arranjar Espaço na Estalagem

O Evangelho de Lucas é o único que narra os eventos que rodearam o nascimento de Jesus. É difícil pensar noutra passagem das escrituras que exerça uma influência tão grande sobre a imaginação, sobretudo das crianças, do que a Natividade. E como é que não havia de ser? É uma história que tem tudo aquilo com que as crianças se podem identificar: uma “viagem” de família, um bebé, anjos, pastores, animais.

É verdade que muitos dos detalhes que associamos à Natividade – vacas, camelos, burros e por aí fora – não são mencionados nos Evangelhos, mas isso só realça o que disse. Nenhum episódio na vida de Cristo, nem mesmo a Paixão, se adequa tanto à imaginação infantil.

O Natal é a mais humana das grandes festas da Igreja, a que é mais acessível para nós num nível natural. É no Natal que encontramos Deus no seu estado mais acessível e familiar: um recém-nascido.

Na sua homilia da Missa do Galo de 2012, o Papa Bento XVI resumiu-o da seguinte forma:  É como se Deus dissesse “Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar”.

Também isto explica a facilidade com que as crianças se apaixonam pela história de Natal e porque é que o seu poder permanece connosco mesmo quando ficamos mais velhos e mais ocupados. Para a maioria de nós não há festa que evoque mais as alegrias (e talvez as tristezas) da nossa juventude do que o Natal.

Quanto mais velho fico, mais reparo que a alegria do Natal traz consigo uma nota da mais doce tristeza. Que incrível que a alegria do Natal seja tão diferente da alegria pascal (sendo esta última muito mais mundana, no melhor sentido possível da palavra).

Uma das personagens da história da Natividade que mais me tem interessado à medida que vou ficando mais velho nem sequer é mencionado no Evangelho, tal como o camelo ou o burro. Estou a falar do pobre estalajadeiro.

Segundo o Evangelho de Lucas, a Sagrada Família chega à vila de Belém e descobre que não há lugar para eles na estalagem. O estalajadeiro anónimo costuma ser apresentado como uma lição para as pessoas que estão demasiado ocupadas e centradas em si mesmas para receber Cristo quando ele vem.

Naquela mesma homilia do Natal de 2012, o Papa Bento usou este ponto para reflectir sobre o nosso estado de preparo para receber Cristo:


“Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles?”

E continua:

“A grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos?”

O Papa Bento propõe uma bela meditação sobre a humildade de Deus e os perigos das preocupações mundanas. Cada um de nós deve ultrapassar o nosso próprio egoísmo para que possamos receber não só o Bebé de Belém, mas também o pobre e o indigente com quem o Senhor se identifica tão estreitamente.

Mas voltando ao tal estalajadeiro…

Penso bastante se, ao imaginá-lo como insensível e preocupado, não estaremos a ser injustos.

É fácil partir do princípio que o pobre estalajadeiro rejeitou a Sagrada Família e lhes fechou a porta na cara. Mas porque havemos de o fazer? E se a única razão pela qual Maria tinha sequer uma estalagem para o seu recém-nascido era porque o estalajadeiro lhes ofereceu o pouco que tinha em termos de abrigo? Alguém deu guarida a José e a Maria, porque é que partimos do princípio que não foi ele? Porque é que devemos presumir que o seu humilde envolvente foi o resultado de malícia ou de indiferença?

O Natal é um tempo que se presta à imaginação, por isso imaginemos:

Imagine José a bater à porta da estalagem, já tarde. O estalajadeiro vai à porta. A estalagem está cheia, por causa do recenseamento. Mas o estalajadeiro consegue ver a preocupação estampada na cara de José. Consegue ver que a jovem Maria não podia estar mais grávida. Não tem quartos. Claro que não pode acordar os seus clientes e expulsá-los a meio da noite!

Então faz o que pode.

Oferece ao casal um estábulo. É humilde, mas pelo menos é quente. E oferece-o sem custos. Traz-lhes um pouco de comida, alguma coisa para beber. Traz cobertores e água para se lavarem. Talvez a sua mulher lhe tenha lançado um daqueles olhares, como que dizendo: “Estás doido? Quem são estas pessoas?” Mas ele ajuda na mesma. Ou talvez a sua mulher seja tão generosa como ele e também ajude. Vão visitando durante a noite, sem querer incomodar, para ver se os viajantes têm tudo o que precisam.

Talvez o estalajadeiro seja um homem honesto, compassivo, que dedicou toda a vida e a carreira à hospitalidade e tendo dado o pouco que tinha para oferecer, com o amor e o cuidado possíveis, obteve a graça de poder acolher o próprio Deus, sem nunca ter percebido quem é que estava a receber na sua morada – ou pelo menos no seu estábulo.

Talvez o estalajadeiro de Belém seja uma recordação de que, quando somos generosos para com aqueles que não podem retribuir a nossa simpatia, quando damos o que temos, por mais humilde que seja, Deus pode transformar os nossos esforços em algo maravilhoso, capaz até de mudar o mundo. Talvez.

Pelo menos eu gosto de pensar que sim.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Monday, 7 January 2019

Recados sobre o Brexit no Natal egípcio

Christmas like an Egyptian
O Papa Francisco falou hoje ao corpo diplomático na Santa Sé e, em tempos de Brexit, saudou os benefícios da integração europeia, para além de ter referido uma enorme variedade de outros assuntos da atualidade. Tudo aqui.

Hoje é Natal para muitos cristãos do Oriente, incluindo os coptas, a quem o Papa Francisco saudou de forma especial, durante a inauguração de uma nova catedral.

Um cardeal francês começou hoje a ser julgado por alegadamente encobrir um caso de abusos sexuais.

Durante o fim-de-semana o Papa Francisco pediu aos países europeus que acolham os refugiados que estão neste momento abordo de dois navios de organizações não-governamentais, no Mediterrâneo. Na sexta-feira passada falei precisamente com o tripulante de um desses navios, que considera uma vergonha a atitude da Europa neste caso.


E parece que o Vaticano não se vai imiscuir na questão da exumação de Francisco Franco, em Espanha.

Monday, 24 December 2018

D. Manuel Linda e a virgindade de Nossa Senhora

Adenda II

No dia 27 O Observador publicou um novo artigo em que pede desculpa ao bispo por ter deturpado as suas palavras e lhe dá voz para esclarecer a sua posição. O artigo explica ainda por que é que seria grave que um bispo - ou qualquer católico, já agora - negasse a virgindade de Nossa Senhora. 

O que é interessante sobre este segundo artigo é que é assinado pela mesma jornalista que assina o primeiro, mais um colega dela que se tem especializado em religião nos últimos tempos e ainda o director executivo do Observador... É pelo menos indicativo da dimensão que a coisa assumiu lá dentro.

Queria só dizer ainda que, da mesma forma que comecei este artigo a dar o benefício da dúvida ao bispo, porque conheço os jornalistas, também não garanto que a jornalista original tenha toda a culpa do que se passou e também hesitaria muito antes de a crucificar a ela. Se D. Manuel Linda não foi claro da primeira vez que falou, então também tem culpas e convém lembrar que antes de um artigo ser publicado passa sempre por editores e nem sempre o jornalista pode ser responsabilizado pelo resultado final.

Lição? Cuidado a tratar assuntos de religião. Cuidado a falar com jornalistas. E já agora mais vale não crucificar ninguém, mesmo.



Adenda I

Desde que escrevi este texto, no dia 24, D. Manuel Linda proferiu a seguinte frase, na homilia da missa de Natal:
"Evidentemente, não haveria Natal sem a Virgem Santa Maria, Aquela que, de acordo com a fé da Igreja -que é também a minha fé!-, é proclamada “virgem antes, durante e depois do parto”, de maneira expressa a partir do Sínodo de Milão (ano 390), ou “Mater intacta”, como dizemos na ladainha. Saudamo-la e agradecemos-lhe profundamente o seu insubstituível contributo para a história da nossa salvação."




Este não é um texto a crucificar D. Manuel Linda. Este é um texto escrito por um jornalista de religião, que sabe bem como é que se costuma escrever sobre religião na imprensa, e que por isso quer dar a D. Manuel Linda o benefício da dúvida.

Há aí muita gente preocupada com um artigo que saiu hojeno Observador. É mais um daqueles artigos a “desmistificar” o Natal, que explica que provavelmente não foi neste dia que Jesus nasceu, que se calhar nem nasceu em Belém, que os cristãos adaptaram a festa da Saturnália… Enfim, nada de novo, e até pode ser interessante para algumas pessoas que não o tenham lido já em artigos idênticos, publicados todos os anos. Mas eu, que sou jornalista, sei melhor que ninguém que por vezes temos de escrever peças destas. Aqui, portanto, nada contra ninguém.

O problema surge nesta frase. «Jesus não é filho de uma mulher virgem, explicam quer o padre Anselmo Borges quer o bispo D. Manuel Linda. Ele foi concebido por Maria e José como qualquer outra pessoa e é “verdadeiramente homem”. A virgindade só é associada a Maria como metáfora para provar que Jesus era uma pessoa muito especial.» 

Que o padre Anselmo Borges pense isto e o tenha dito, não tenho grandes dúvidas. Mas se D. Manuel Linda o pensa e o diz, então é grave. É grave porque contraria um dogma de fé, de que Maria era virgem quando concebeu Jesus e que assim permaneceu.

Mas será que D. Manuel Linda disse mesmo aquilo que o jornal diz que ele disse? É aqui que lhe dou o benefício da dúvida. Que citações é que há?

«O bispo do Porto refere ao Observador que “nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria”: “O Antigo Testamento diz muitas vezes que Jesus iria nascer de uma donzela, filha de Israel, que fosse simples, pobre e humilde. Mas na verdade isso é apenas uma referência à devoção plena dessa mulher a Deus. O dom de ser mãe de Deus foi dado a Maria por ela ter um coração indiviso. O que importa é a plena doação“, explica D. Manuel Linda. E acrescenta: “Há com certeza mulheres com o hímen rompido [que é associado ao sinal físico da perda da virgindade por uma mulher] que são mais virgens no sentido da plena devoção a Deus do que algumas com o hímen intacto”.»

Neste trecho é claro que D. Manuel Linda se está a referir à virgindade no sentido estritamente anatómico, de ter o hímen íntegro. Não há nada aqui que justifique o que O Observador escreve antes, que o bispo terá dito que Jesus foi concebido através de uma relação sexual entre Nossa Senhora e São José. Se o disse, então, não há citação, e eu sei demais sobre estas coisas para simplesmente confiar na interpretação feita pelos autores da peça.

A questão da integridade do hímen como condição de virgindade é algo que o nosso tempo não compreende, mas que noutros tempos já foi considerado fundamental. A dificuldade biológica é que, salvo intervenção milagrosa, Jesus não poderia ter nascido de forma normal sem romper o hímen de Nossa Senhora de qualquer maneira. Mas isso significa que ela deixava de ser virgem?
Santo Agostinho, salvo erro, aborda esta questão e fala mesmo em intervenção milagrosa, dizendo que Jesus passou através do hímen como a luz através de uma janela. A mim, francamente, a questão nem aquece nem arrefece.

Certamente o espírito tanto do texto como da doutrina da Igreja é que Jesus não foi concebido através de uma relação sexual, mas sim por intervenção divina. Há várias formas de se romper o hímen e não nos passa pela cabeça, hoje, questionar a virgindade de uma mulher que nunca tenha tido relações sexuais por ela ter, ou não, essa membrana intacta.

A questão que se põe é: D. Manuel Linda acredita que Jesus foi concebido sem que Nossa Senhora tivesse tido relações sexuais com nenhum homem? Eu não quero acreditar que a resposta seja negativa e sugiro aos indignados que dêem o benefício da dúvida, até que o próprio possa esclarecer a questão.

Wednesday, 10 January 2018

Europa sem Sharia e reclusos no circo

Estou de volta depois de uma ausência motivada por horários nocturnos, dias de folga e excesso de trabalho. Certamente já morriam de saudades!

Começo por vos informar que foi preciso esperar por 2018 para a Sharia deixar de ser obrigatória na… Grécia. Leu bem. Saiba porquê.

O Papa teve um dia ocupado. Começou por assumir o controlo directo de mais uma organização católica conservadora envolvida em escândalos de abusos sexuais e ainda teve tempo de convidar 2.100 sem-abrigo, presos e refugiados para ir ao circo.

Boas notícias de Angola, onde a Igreja venceu a “guerra da rádio” contra o regime. A Ecclesia vai poder emitir para todo o país.

No dia 7 assinalou-se o Natal para os cristãos que seguem o calendário juliano. No Egipto, onde a data tem sido ocasião para atentados nos últimos anos, correu tudo bem mas em Belém o patriarca greco-ortodoxo passou um mau bocado, tendo sido insultado por uma multidão que lançou ovos e pedras contra o seu carro. Os responsáveis? Não foram muçulmanos, foram os seus próprios fiéis. Veja porquê.

Depois de na semana passada o The Catholic Thing nos ter desafiado a largar a ira durante 2018, hoje o grande Randall Smith pede-nos para dar um passo atrás antes de embarcar nas discussões já cansadas entre liberaise conservadores sobre problemas como a educação católica, os processos de nulidade e outros e perceber quais são as verdadeiras origens destes problemas. É boa leitura, não deixe de ver!

Wednesday, 27 December 2017

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

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Thursday, 16 November 2017

Quem não gostava de receber um Lamborghini para o Natal?

Faltam 40 dias, mas já cheira a Natal… A FEC já lançou o seu projecto dos presentes solidários e o Bazar Diplomático começa na sexta-feira, dia 17. Mas o melhor presente de todos, até agora, é o Lamborghini do Papa

Mas com ou sem carro de luxo, o Papa vai almoçar com 1.500 pobres no Dia Mundial dos Pobres, que se realiza este ano pela primeira vez.

Há uma suspeita de desvio de fundos por parte de um padre em Vila Real. A Cáritas – alegadamente a visada do desvio – está a colaborar com as autoridades, informa.

Os bispos consideram que os incêndios e a seca obrigam a rever a relação com o ambiente. É um dos temas em cima da mesa na reunião plenária da CEP.

A recente mania de derrubar estátuas e referências a figuras históricas – que até já chegou a Portugal – é o que está por detrás do artigo desta semana do The Catholic Thing. O jovem Casey Chalk foi ver o que Jesus acha sobre o revisionismo histórico.

Wednesday, 18 December 2013

Feridos de Medo

[Nota prévia: O The Catholic Thing é uma organização não-lucrativa que depende unicamente de donativos dos seus leitores e benfeitores. Todos os anos, por esta altura, faz-se uma angariação de dinheiro. Qualquer valor é bem-vindo para poder ajudar o site a publicar um artigo novo, todos os dias do ano, em várias línguas diferentes. O Actualidade Religiosa tem um acordo com o The Catholic Thing e publica um desses artigos por semana. Contudo, como já referi várias vezes, os vossos donativos irão directos para o The Catholic Thing e não passam por aqui. Para fazer uma contribuição basta clicar aqui]

Anthony Esolen
“Não há por aí ninguém”, clama um Charlie Brown desconsolado, “que me possa dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal?”

“Claro, Charlie Brown”, responde o Linus. Ele é um pequeno teólogo, apesar da mantinha. “Eu posso-te dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal”. Então, com um foco centrado nele, o mesmo rapaz que nunca consegue memorizar as duas ou três linhas para a festa de Natal recita, palavra por palavra, estes versículos da Bíblia de King James*:

Nas proximidades havia pastores que estavam nos campos e que durante a noite cuidavam dos seus rebanhos. E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu a eles e a glória do Senhor reluzindo os envolveu; e ficaram feridos de medo.
Todavia o anjo lhes revelou: “Não temais; eis que vos trago boas notícias de grande alegria, e que são para todas as pessoas:
Hoje, na cidade de David, vos nasceu o Salvador, que é o Messias, o Senhor! Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado sobre uma manjedoura”.
E no mesmo instante, surgiu uma grande multidão do exército celestial que se juntou ao anjo e louvavam a Deus entoando:
“Glória a Deus nos mais altos céus, e paz na terra às pessoas que recebem a sua graça!”

“E esse, Charlie Brown, é o verdadeiro significado do Natal”, diz o Linus.

Sim, eu sei que é apenas uma banda desenhada, mas o rapaz que nunca faz nada bem, que é gozado por todos, incluindo os seus colegas e até mesmo o seu cão, grita do fundo da sua angústia e da sua solidão. É noite. Para o pecador, é sempre anoitecer, ou noite, ou luz dura e metálica, acompanhada do som das suas tentativas desesperadas para tentar manter a noite afastada.

Porque é que partimos do princípio que alguém ficaria contente por vislumbrar a glória do Senhor? Os pastores não ficaram contentes. A sua noite calma e ordeira foi destroçada. Temeram com grande temor, diz São Lucas, que falava fluentemente grego, mas que aqui usou uma frase de origem semítica, como se tivesse a traduzir algo que um falante de aramaico, ainda atónito, lhe tivesse relatado.

As novas traduções retiram a duplicação e mudam a frase para “E tiveram muito medo”. Os tradutores da versão King James, que normalmente tinham cuidado para preservar o som e a cor do original, aqui forçam um bocadinho a linguagem à procura de algo que dê ideia não só do grau do medo, mas do tipo de medo. Por isso, de forma incaracterística, transformam um verbo no seu adjectivo e adicionam um modificador raro: “They were sore afraid” [não tendo encontrado qualquer versão satisfatória em português, penso que a expressão “Ficaram feridos de medo” melhor traduz o espírito e o sentido desta expressão].

Os pastores não são os primeiros nas Sagradas Escrituras a sentir medo. Zacarias fica perturbado de medo quando lhe aparece o anjo Gabriel, trazendo-lhe a boa notícia de que iria ter um filho, João, que seria grande aos olhos do Senhor. Maria também se sentiu perturbada quando Gabriel lhe apareceu para dar a boa notícia de que iria ter um filho, Jesus, que seria chamado Santo, o Filho de Deus.
 
Linus a brilhar
Agora estes homens simples, no meio das tarefas comuns de uma vida dura, acordados debaixo das estrelas ou a dormir aconchegados contra o frio, ouvem uma Boa Nova destinada à humanidade e também eles sentem medo. É como se este primeiro encontro com a Glória de Deus trouxesse consigo a dor – a dor da primeira e humilde tentativa do homem pecador e finito que convida Deus Santo e Todo-Poderoso a entrar no seu covil.

Já ouvi dizer que palavra “sore” na versão antiga, era usada como um intensificador, como a sua prima alemã “sehr”, que significa “muito”. Mas não é o caso; no Inglês Antigo, “sar” significava “sore”, tanto a ferida como a dor, e ganhou a sua força adverbial desse significado fundamental; alguém que é “sorely” desejada não é simplesmente alguém que é muito desejada; aquele que deseja, deseja de forma sofrida. E quem foi, ou é, mais desejado que Jesus?

Os pastores, então, estavam de facto “feridos de medo”: como estaria qualquer pessoa com um mínimo de reverência. Quando Isaías viu os anjos a servir ao altar de Deus, clamou que certamente deveria morrer, pois ninguém pode contemplar O Santo e viver.

Maria contemplaria a face do menino Jesus, sabendo de uma forma que dificilmente conseguiria explicar, que estava a contemplar a divindade. O seu medo surgiu antes do momento da concepção, mal viu o anjo. O nosso medo, o medo sofrido da humanidade, vem depois, quando ouvimos as notícias que abalam o mundo.

Nós, católicos, temos como dogma que Nossa Senhora não sentiu dores de parto. Somos nós que devemos sofrer para o receber e então, com a ajuda de Nossa Senhora das Dores, aguardar a sua vinda consumada, pois a mulher que está a dar à luz sofre dores e tem medo, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebé nasce, ela já não mais se lembra da angústia, por causa da alegria de ter vindo ao mundo o seu filho.

Mas este não é um medo que paralisa. Longe disso. O medo é sofrido, mas traz de volta o sentido aos nossos membros, faz fluir sangue para corações de pedra, obriga os olhos e os ouvidos a abrirem-se.

Conduz os pastores primeiro a Belém e depois a toda a terra envolvente, louvando a Deus. Conduz os apóstolos a todas as nações do mundo, para dar testemunho da única coisa verdadeiramente nova que aconteceu neste velho mundo; leva-os ao machado e à Cruz. É a primeira e assustadora luz da alegria.

“No mundo tereis tribulações”, diz Jesus, na noite antes da sua morte, “mas não temais; eu venci o mundo”.

*A Bíblia King James é considerada uma referência para as traduções inglesas da Bíblia, completada em 1611, para uso da Igreja Anglicana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 5 November 2013

Faltam 20 dias do Natal!

Faltam precisamente 20 dias para o Natal! Na Venezuela… É verdade, o Presidente Maduro decretou a antecipação do Natal. Pois…

A Igreja em Moçambique está preocupada com o aumento da violência, como não podia deixar de ser.

Tristes notícias da Síria. Informação sobre o maior massacre de cristãos desde o início da guerra, e um ataque à nunciatura em Damasco, esta manhã, que pode ter sido acidental e felizmente não fez vítimas.

Ainda o sínodo da família. Esta manhã houve conferência de imprensa e ficou claro que as perguntas enviadas por Roma “não são um referendo”.

Friday, 21 December 2012

O mundo continua, o ranking acabou. Santo Natal!

Já foi divulgado o número 1 do meu ranking de notícias de religião de 2012. E o primeiro lugar vai para o caso Vatileaks, fantasticamente protagonizado pelo mordomo Paolo Gabriele… era óbvio não era?

Neste post podem ver a lista completa, juntamente com o que foi, para mim, a foto do ano.

De fora da contagem ficam os abusos sexuais na Igreja Portuguesa. Por um lado porque a coisa só rebentou quando eu já tinha acabado a lista, mas principalmente porque ainda estamos para ver até que ponto é que estamos perante uma avalanche de casos, como houve noutros países, ou um caso isolado numa diocese.

Ontem foi instaurado um inquérito à Ordem dos Hospitaleiros de São João de Deus. A ordem emitiu um comunicado esta tarde a dizer que não se passa nada, mas só se referem a um caso que terá sido arquivado o ano passado…


Bento XVI falou hoje à Cúria Romana e elegeu os ataques à família como um dos grandes perigos do nosso tempo. É um tema caro a Bento XVI, que não é de agora, como explica Aura Miguel num artigo de opinião.

E pronto. Resta-me desejar-vos um Santo Natal a todos, estes mails só devem regressar lá para dia 27. Podem ir vendo as últimas no Facebook. Para aqueles que sentem que o Advento passou sem darem conta, ainda têm uns dias para aproveitar! Aqui estão duas sugestões para o fazerem.

Thursday, 20 December 2012

Exemplo a seguir!

Numa altura em que toda a gente se queixa da situação em Portugal, nada como um exemplo de sucesso que ainda por cima apela à oração!

Apresento-vos os livros de Thereza Ameal, autora de dois livros de oração para crianças, editadas pela Paulus.

“As Minhas Primeiras Orações” teve muita saída em Portugal, tanto que foi traduzido para italiano, quando normalmente é o inverso que acontece… Como se isso não bastasse, agora vai ser publicado na Coreia do Sul, um feito magnífico para um empreendimento deste género.

Em baixo podem ver a apresentação dos livros:



A Thereza recebe os meus mails diários e enviou-me esta informação. Não me farto de dizer que é também para isto que criei esta mailing list e, mais tarde, o blogue. Deve funcionar nos dois sentidos. Não prometo falar de tudo o que me pedem, mas se não pedirem é que é mais complicado!

Desde já obrigado à Thereza, tenho todo o gosto em divulgar esta obra interessantíssima!

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