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Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

Wednesday, 4 May 2022

A Igreja: Corrupta desde Sempre?

Michael Pakaluk

Se a Igreja Católica alguma vez foi corrupta, então foi corrupta desde sempre. Mas como não foi corrupta desde sempre, nunca foi, nem será, corrompida.

Foi isso que me passou pela cabeça recentemente, ao ouvir um podcast sobre Roma antiga. A cidade de Roma – argumentava o autor – pode-se orgulhar de ser a maior da história do mundo: desde a sua população; a extensão geográfica da sua influência; os séculos de primazia; a organização da sociedade; a primazia do direito; a durabilidade das suas construções; e a sua habilidade para integrar o melhor dos seus vizinhos.

Ah, e depois havia o facto de se ter tornado a sede da mais importante religião da história da humanidade…

Estava à espera que, depois desta correcta análise das assinaláveis virtudes de Roma, o autor do podcast elogiasse a sabedoria de São Pedro por ter sedeado a Igreja em Roma. Pareceu-me ser um historiador sério. Certamente veria que a Igreja Católica se tornou tão “importante” porque as suas virtudes espelhavam no campo espiritual as que Roma exibia no secular.

Pelo contrário, ele lamentou a decisão de Pedro, porque “o envolvimento da Igreja com a autoridade romana, depois do édito de Milão, levou rapidamente à sua corrupção”.

Fiquei desiludido por ouvi-lo a repetir esta visão tão familiar, mas não surpreendido, afinal de contas o assunto deste episódio não era a Igreja, talvez ele não tivesse pensado muito no assunto.

Mas os seus comentários demonstravam que ele era um cristão praticante. Mesmo do ponto de vista das Escrituras, dei por mim a pensar se ele alguma vez tinha meditado na Paixão. Porque a “corrupção” começou muito antes do ano 313. Na verdade, esteve presente desde o início, e com o conhecimento e aparente autorização de Nosso Senhor.

Estou a falar, claro, de Judas Iscariote. Olhemos para ele de novo. A fundação da Igreja deu-se com a escolha dos 12 Apóstolos. Judas estava em pé de igualdade com todos eles, à excepção de Pedro. Não o podemos despromover ou excluir retroativamente. Judas era um dos 12, e podemos colocá-lo à mesma altura que qualquer outro, na medida em que o ocupante de um cargo pode substituir qualquer outro com o mesmo cargo.

Uma boa definição de corrupção é o aproveitamento de um cargo de confiança para ganho próprio. Por exemplo, um funcionário que aceita um suborno é, à luz desta definição, corrupto. E por isso Judas era corrupto. Ele aproveitou-se da sua ligação a Jesus, sendo apóstolo, para ganhar 30 moedas de prata.

Sabemos como é que a coisa correu. As autoridades queriam prender, julgar e condenar Jesus em segredo, para que a multidão não se manifestasse. Por isso, Jesus tinha de ser identificado e capturado antes do amanhecer, antes de poder fugir (como acreditavam ser possível). Judas era importante neste processo para o identificar, com um beijo.

Acreditamos que Judas era movido por mais do que apenas avareza. Tendemos a favorecer as ideias especulativas, sem qualquer base nas Escrituras – que, por exemplo, Judas queria provocar uma crise que levaria Jesus a assumir o poder, enquanto Messias; ou que como Caim, Judas estava com ciúmes dos apóstolos que Jesus parecia preferir. E por aí fora.

Porém, o único vício de Judas de que ouvimos falar na Bíblia é o seu amor pelo dinheiro. João diz que Judas se queixou do dinheiro gasto no nardo puro, porque guardava a bolsa comum e dela tirava o que queria (Jo. 12,6). Somos tentados a descartar a ganância como explicação, porque parece demasiado fraca. Trair o Messias por uma pequena soma?

Só que não era assim tão pequena. Se dava para comprar um campo na cidade, serviria para comprar uma quinta no campo. E muitas pessoas fazem coisas inacreditáveis por pequenas quantias de dinheiro. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gen. 25, 29-32). Há quem aposte a aliança. Richard Rich traiu São Tomás Moro “por Gales”. 

São Tomás de Aquino escreve que uma das filhas do vício capital da avareza é a traição. Porquê? Porque a avareza procura possuir por excesso, pela força ou pela fraude, e a fraude, na medida em que afecta outra pessoa, é uma traição – “como no caso de Judas”, diz o santo, “que traiu Cristo por cobiça”. Resistimos a essa simples explicação porque o caso de Judas e de Cristo revela bem a irracionalidade de toda a avareza.

Por isso, a corrupção estava presente desde o início, e a sua consequência foi infinitamente grave.

Mais, a corrupção parece ter-se estendido para além de Judas, pelo menos potencialmente e virtualmente, no sentido de que cada um dos apóstolos, quando ouviram o Senhor dizer que um deles o iria trair, pensou se não seria ele o traidor (Jo. 13, 21-30).

Se naquele tempo houvesse jornais o facto mais evidente a relatar sobre os apóstolos, a melhor coscuvilhice, seria de que eles eram corruptos e tinham traído o seu mestre.

Mas pensemos agora no seguinte.

1. Esta corrupção estava presente com o tranquilo conhecimento prévio e “vontade permissiva” do Senhor. “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo. 6, 70).

2. De forma alguma o “cargo” Apostólico de Judas foi afetado pela sua corrupção. Matias foi selecionado para o preencher. (Actos 1, 24-25)

3. A pregação de Judas e os seus baptismos mantiveram-se válidos. Nada teve de ser refeito ou desfeito.

4. Jesus chega mesmo a garantir a “limpeza” de todos os Doze, excepto na medida em que alguém peca pessoalmente. “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; todo o seu corpo está limpo. Vocês estão limpos, mas nem todos” (Jo. 13, 10).

A Igreja fundada por Cristo era “corrupta” desde o início, da mesma forma que sempre seria corrupta (incluindo agora), em pessoas particulares, desviadas pelo demónio. Mas enquanto Igreja, nas suas instituições, cargos, poderes, sacramentos e orientação divina – enquanto Corpo de Cristo – era santa da mesma forma que permanece santa.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 18 August 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 11 November 2020

O João e o Jean, reflexões de um pecador sobre a santidade

No dia 7 de maio de 2019 publiquei uma mensagem no Twitter sobre a morte de Jean Vanier que terminava com as palavras “Santo subito!”. Foram anos de enorme admiração por um homem que dedicou a vida à promoção da dignidade dos mais vulneráveis e descartados da nossa sociedade. Como podia não ser santo?

Menos de um ano mais tarde olhei estupefacto para o telemóvel, durante a festa de anos de um sobrinho, a ler a notícia de que Vanier tinha estado envolvido em relações com mulheres adultas de quem supostamente seria diretor espiritual, e que essas relações foram fruto do abuso e manipulação dessa sua posição, sendo muito prejudiciais para as vítimas. Deixo os detalhes para quem quiser ir aprofundar, mas digo apenas que não há qualquer indício de que tenha abusado das pessoas com deficiência que dedicou a vida a servir.

Como é que era possível ser a mesma pessoa?

Hoje aconteceu uma coisa parecida. João Paulo II foi o Papa da minha juventude, ainda hoje fico emocionado quando vejo aquelas montagens com momentos do seu pontificado ou ouço a sua voz. Era como um avô para mim e culminou os seus dias na terra dando o mais magnífico testemunho já visto por parte de uma figura pública de que a velhice e a doença não diminuem a nossa dignidade.

Mas com a publicação do relatório sobre o cardeal McCarrick, aguardado há dois anos, ficámos a saber que João Paulo II tinha sido avisado repetidamente sobre os rumores em torno do ex-cardeal, de que tinha evitado nomeá-lo para duas dioceses antes de finalmente o nomear para Washington. Para isto terá pesado a relação pessoal de amizade entre os dois.

A questão não é assim tão simples, mas no fundo entre acusações que, na altura, não eram mais do que isso mesmo, acusações sem provas, e uma experiência pessoal de proximidade, João Paulo II cometeu dos piores erros do seu pontificado, promovendo e elevando um homem que, segundo a informação disponível agora, era profundamente doente e corrupto, para além de ser mentiroso, tendo jurado em mais do que uma ocasião que era virgem e que jamais tinha tido relações com quem quer que seja.

A situação é parecida, digo, mas não é igual. Por um lado, João Paulo II já foi declarado santo. Concluir agora que afinal não era põe em causa todo o processo de canonização da Igreja. Mas não creio que isso seja necessário.

A grande diferença entre os dois casos é uma que o mundo moderno e descristianizado já não consegue distinguir. É a diferença entre o erro e a corrupção.


João Paulo II cometeu um erro. Foi ingénuo, talvez. Preferiu dar crédito a um homem que não o merecia, e a Igreja pagou por isso. Mas foi isso mesmo, um erro. Não tenho a menor dúvida de que se tivesse sido confrontado com provas concretas não teria promovido o americano como promoveu. Aliás, o facto de ter hesitado em duas ocasiões anteriores parece comprová-lo. Também não chego ao ponto de dizer que teria agido como se espera hoje que um bispo ou o Papa aja nessa situação, aplicando a tolerância zero. Provavelmente teria pedido ao cardeal para se retirar da vida pública, ir para um convento levar uma vida de oração e penitência… Enfim, era assim que se fazia naqueles tempos – erradamente – pensando que o escândalo para os fiéis era pior do que saber a verdade.

Já Jean Vanier, para minha grande tristeza, mostrou ser um homem corrupto. Um homem que aproveita uma posição de superioridade, manipulando uma pessoa frágil para satisfazer as suas vontades, ainda por cima travestindo isso com roupagens pseudo-espirituais, é um homem doente e corrupto. O erro e o pecado já não são fruto de uma fraqueza momentânea, são o fruto natural de um estado de alma em que a pessoa se deixou cair. E isso faz toda a diferença.  

O que é que isso nos diz sobre as muitas e inegáveis boas acções de Vanier? Da obra de uma vida? Nada que nos deva surpreender. Mostra, antes, da forma mais crua e triste, o paradoxo da humanidade decaída. As boas obras de Vanier permanecem boas e se Deus quiser continuarão a dar muitos frutos.

Ao pensar novamente no seu caso hoje, não pude deixar de me lembrar da parábola, tão difícil de entender, do administrador prudente e da conclusão que Cristo nos deixa:

“Então, o senhor elogiou aquele administrador da injustiça, pois agiu com sabedoria. Porquanto os filhos deste mundo são mais sagazes entre si, na conquista dos seus interesses, do que os filhos da luz em meio à sua própria geração. Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas”

Jean Vanier era um pecador, um homem pelos vistos incapaz de se desprender do pecado que o agarrava. Mas durante a sua vida ganhou muitos amigos, aquelas pessoas com deficiência cuja dignidade promoveu, de quem se fez verdadeiramente próximo. Será que ele vai para Céu, apesar dos abusos que cometeu? Não sei. Espero que sim. Sei que terá uma multidão de amigos a torcer por isso e a interceder por ele.

Monday, 9 September 2019

Crise? Qual crise?

O Papa Francisco termina hoje, de facto, a sua viagem a África, embora só regresse a Roma amanhã. Esta segunda-feira foi passada nas Ilhas Maurícias, onde pediu aos habitantes que sejam fiéis ao seu ADN e acolham os migrantes.

Antes, na homilia da missa que celebrou com 100 mil pessoas, disse que a crise de santidade é mais grave que qualquer crise de vocações.

O fim-de-semana foi dedicado ao Madagáscar, onde Francisco agradeceu à persistência do clero mas advertiu também que “a pobreza não é uma fatalidade”. Criticou ainda a “cultura de parentesco” que dá aso à corrupção. Tudo isto num país que tem um bispo português.

Antes, na sexta-feira, despediu-se de Moçambique, avisando que “Nenhum país tem futuro se o que o une é a vingança e o ódio”.

Fiquem ainda a conhecer o projecto LabOratório.

Thursday, 1 February 2018

Contra a corrupção, pela liberdade religiosa, sempre!

(Clicar para aumentar)
O Cardeal Sandri, da Congregação para as Igrejas Orientais, considera que a luta pela liberdade religiosa está longe de ser vencida e explica que esta é uma batalha pela própria humanidade.

Já é conhecida a intenção de oração para Fevereiro do Papa. Francisco apela à luta contra a corrupção, um tema que lhe é caro.

E como de costume, podem ler aqui a transcrição integral da entrevista que fiz na semana passada ao rabino de Lisboa, Natan Peres. O passado, presente e futuro da comunidade judaica de Lisboa, bem como o antissemitismo e o estatuto de Jerusalém são alguns dos temas abordados.


Termino com um desafio. A paróquia de Carnide organiza uma acção de formação sobre “O comportamento humano face ao sofrimento e à morte”, que deve ser bem interessante! Mais informação na imagem anexa, e inscrições aqui

Friday, 27 November 2015

Mártires de ontem com lições para hoje

Muita música e alegria à chegada do Papa ao Uganda
Hoje foi um dia em cheio para o Papa Francisco, que começou com uma visita a um bairro de lata em Nairobi onde defendeu o acesso à água potável para todos e depois, numa missa e encontro com jovens, criticou a corrupção, dizendo que ela também existe no Vaticano, e que é como o açúcar “algo que se entranha em nós”.

Depois Francisco seguiu para o Uganda. À chegada falou com os políticos locais, mas com os olhos postos na Europa louvou a forma como os ugandeses têm acolhido as centenas de milhares de refugiados que lá procuraram asilo.

De lá o Papa foi-se encontrar com catequistas e professores, a quem falou do exemplo dos mártires do Uganda, apontando-os como exemplos a seguir.

Quem são os mártires do Uganda? Se não conhece não deixe de ler a explicação da Aura Miguel. No blogue também falo do assunto, tirando ilações para o presente.

Pedro Mexia esteve na quarta-feira na Capela do Rato para falar de Deus com Maria João Avillez. Leia aqui alguns excertos da conversa.

A diocese de Bragança está preocupada com a exclusão dos deficientes dos espaços eclesiais.

Thursday, 26 January 2012

Corrupção na Santa Sé e novamente os feriados

Corrupção no Vaticano? A acusação parte do actual representante do Papa em Washington (na imagem). A Santa Sé já reagiu, lamenta a forma “facciosa” como a notícia foi divulgada, mas não desmente os factos…


Foi morto um padre nos protestos na Síria ontem, só não se sabe se pelo regime ou pelos manifestantes.

Ontem o Papa voltou a falar do ecumenismo. Recomendou “tempo e paciência” aos envolvidos.

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