Showing posts with label Brad Miner. Show all posts
Showing posts with label Brad Miner. Show all posts

Wednesday, 12 July 2023

"Sound of Freedom", com Jim Caviezel

Brad Miner
Ainda que este fosse um filme de fraca qualidade, eu seria tentado a elogiá-lo nem que seja porque trata da prática criminal e pecaminosa de raptar crianças para vender para escravatura sexual… e porque o protagonista é o inestimável Jim Caviezel. Mas a verdade é que é um bom thriller, com boas representações, realizada por Alejandro Monteverde, o mesmo que nos trouxe o fantástico filme pró-vida Bella.

O filme inclui Caviezel, Mira Sorvino, José Zúñiga, Eduardo Verastegui, Gerardo Taracena e Bill Camp (que tem a melhor prestação do filme). O guião é de Monteverde e de Rod Barr, e a produção é de Verastegui.

Tim Ballard (Caviezel) deixa o seu cargo como agente especial da U.S. Homeland Security Investigations, tornando-se freelancer, para poder resgatar crianças raptadas por cartéis que, por sua vez, os vendem a traficantes humanos na América Latina que, por sua vez, os revendem por todo o mundo (incluindo para os Estados Unidos) para serem violadas por pedófilos.

Este filme é, como se diz, baseado numa história verídica. O que levanta a questão: Quem é o verdadeiro Tim Ballard? Duas agências americanas recusaram comentar sobre o papel que ele desempenhou, e Tiffany Kaitlin escreveu no The Atlantic que “porta-vozes da CIA e do DHS dizem que não podem confirmar os registos de emprego de Ballard sem a sua autorização escrita, que ele não forneceu”.

Talvez o Sr. Ballard não veja a necessidade de revelar algumas das repreensões que recebeu por causa dos métodos que adoptou, que podem assemelhar-se às que vemos Caviezel protagonizar no filme. É natural que ele tenha sido insubordinado, tendo em conta as restrições impostas aos agentes da lei, tanto táctica como geograficamente.

O que sabemos ao certo é que Ballard fundou a Operation Underground Railroad (O.U.R.) em 2013, com o objectivo de atravessar fronteiras para resgatar crianças detidas por traficantes e pedófilos.

De acordo com a Wikipedia, a O.U.R. tem um ranking de “ponto de interrogação” por parte de um grupo chamado CharityWatch “porque a organização não divulga informação financeira”.

Interessante. Eu nunca tinha ouvido falar da CharityWatch, que segundo outra página da Wikipedia emprega um total de cinco pessoas. Contudo, a principal agência de avaliação de instituições de solidariedade, a Candid, que emprega 200 pessoas e dirige a GuideStar – que avalia organizações filantrópicas e de solidariedade social com classificações que vão do bronze à platina – a O.U.R. tem uma avaliação de prata. Os salários dos executivos parecem ser invulgarmente altos, mas não estamos a falar dos escuteiros e alguns dos operacionais da O.U.R. põem a vida em risco para cumprir as suas missões.

Mas voltemos ao filme.

Os créditos são acompanhados de imagens a preto e branco do que parecem ser verdadeiras filmagens de câmaras de segurança de miúdos a serem raptados na rua e levados de carro ou de motorizada.

O filme propriamente dito começa com uma falsa agente de talentos (a actriz cubana Yessica Borroto Perryman) a recrutar crianças de várias idades (mas todas menores) sob o pretexto de uma audição. Um pai insuspeito (desempenhado por Zúñiga) deixa ambos os seus filhos entusiasmados na tal audição: Rocio (a suberba Cristal Aparicio, que durante as filmagens devia ter 15 ou 16, mas parece pré-adolescente) e o seu irmão mais novo.

Ballard consegue resgatar o irmão mais novo durante uma rusga na fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas não há sinal de Rocio, o que o leva a cortar as ligações à DHS, uma vez que não consegue mais trabalhar dentro das restrições do sistema oficial dos EUA.

Enquanto procura saber para onde foi levada a Rocio consegue libertar um número significativo de crianças organizando uma golpada – uma espécie de Ilha da Fantasia para pedófilos – com a ajuda de um ex-membro de um cartel, Batman (Bill Camp) e um aventureiro rico chamado Paul (Verastegui). Mas a busca pela Rocio continua.

E isso conduze-o à sede do traficante de droga El Alacrán (uma actuação tipicamente ameaçadora de Taracena). Não vou revelar como é que acaba o confronto violento entre Ballard e El Alacrán.

Só tenho uma crítica a fazer à realização de Monteverde: perde muito tempo com silêncios e faces, sobretudo a de Caviezel. Silêncios, caras e penumbra são as técnicas mais antigas e fiáveis para disfarçar um baixo orçamento. Mesmo algumas das cenas de pancadaria não são visíveis, embora essa possa ter sido uma forma de tentar evitar que o filme fosse classificado para maiores de 18.

O dia depois de ter visto o filme, um amigo enviou-me um artigo do New York magazine chamado: “Os detalhes condenatórios que levaram a JPMorgan Chase a chegar a acordo com as vítimas de Epstein”. Estamos a falar, claro, de Jeffrey Epstein, que entrou para o mundo das finanças internacionais devido à sua amizade com o empreendedor Leslie Wexner.

(Uma nota pessoal: A associação entre Wexner e Epstein entristece-me. Ele tirou o curso na Universidade de Ohio State, no departamento que era chefiado pelo meu pai quando ele era aluno. Wexner nega conhecimento da pedofilia de Epstein. Espero que seja verdade, porque a sua filantropia, especificamente o apoio dado à Ohio State é impressionante.)

Refirmo-me a Epstein porque a realidade do tráfico sexual é maior do que muitos imaginam. Os seus tentáculos satânicos têm um longo alcance, chegando aos corredores do poder e do dinheiro.

A Newsweek elencou os nomes de alguns dos homens que viajaram nos voos privados de Epstein para as Caraíbas (conhecidos como a Lolita Express). Não vou referir todos, mas incluem Donald Trump, Bill Clinton, o Príncipe André, Bill Gates e Robert F. Kennedy Jr. Todos esses nomes, e outros, foram também divulgados pela CNN e a Associated Press.

De certa forma Epstein é como Theodore McCarrick. Lendo histórias sobre a sua vida, encontramos sempre a mesma atitude que víamos em relação a McCarrick: um encolher dos ombros e um piscar de olho: “Toda a gente sabia”.

De acordo com a Human Trafficking Institute há actualmente perto de cinco milhões de vítimas de tráfico humano, das quais um milhão são crianças, na maioria raparigas.

As Nações Unidas dizem que o tráfico humano é um negócio de 32 mil milhões de dólares por ano. Porque razão, perguntam, é que alguém se dedicaria a um pecado tão criminal?

Bom, no que diz respeito à prostituição infantil, a resposta está no facto de um chulo poder ganhar até 250 mil dólares por ano com apenas uma rapariga, a quem obriga a praticar actos sexuais até dezenas de vezes por dia.

Depois de ver o filme senti vontade de pesquisar mais um pouco, de pensar um pouco fora da caixa. Mas não quero entrar demasiado fundo nesse pântano, em parte porque os números apresentados por diferentes organizações e agências de segurança variam muito. Os polícias podem preocupar-se com as vítimas, mas as suas estatísticas baseiam-se em detenções. Os activistas podem ser sinceros, mas também procuram financiamento.

Se querem chocar-se com a forma como algumas pessoas estão a tentar normalizar a pedofilia, não precisam de ir mais longe do que o livro The Invincible Family de Kimberly Ellis.

Eu só tenho filhos rapazes, mas tenho uma neta, e a preciosidade da sua vida torna bem presente na minha mente os inimagináveis horrores deste “negócio” profano. E explica porque é que o plano de Deus inclui o Inferno, levantado também questões sobre a forma como a Igreja Católica se tem distanciado da pena de morte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 1 de Julho de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 25 May 2022

Uma Cerveja com C.S. Lewis: “Uma Conversão Contrariada”

Brad Miner

Julgo que nenhum autor protestante tem sido tão citado em artigos do The Catholic Thing como C.S. Lewis (1898-1963). Também deve ser verdade que para além da sua própria obra, ninguém nos meios de comunicação contemporâneos tem feito mais para celebrar Lewis e o seu trabalho do que Max McLean, fundador e diretor artístico do Fellowship for Performing Arts (FPA), de Nova Iorque.

O seu mais recente projecto cinematográfico, feito com o realizador Norman Stone, é “The Most Reluctant Convert: The Untold Story of C.S, Lewis”, em que McLean, que faz de Lewis, narra o percurso do autor do ateísmo para o Cristianismo. E que evangelizador que ele era. No Século XX só o Billy Graham e o Papa São João Paulo se comparam.

Já fiz crítica de duas peças da FPA baseadas em livros de Lewis: “O Grande Divórcio” e “Shadowlands”, e com a minha mulher vi o “Vorazmente Teu”, em 2006 – antes de este site ser criado. Nessa produção McLean foi soberbo a fazer de Screwtape, o demónio mais velho a instruir o seu aprendiz, Wormwood.

O “Most Reluctant Convert” começa e acaba quebrando a chamada “quarta parede”, que separa os actores do público. McLean, na personagem de C.S. Lewis, sai da maquilhagem, passa pelos técnicos, as câmaras e a iluminação e, olhando directamente na nossa direção, começa a contar a história do grande autor. No final sai de casa do próprio Lewis em Oxford “The Kilns” e recebe os aplausos, muito merecidos, da equipa de filmagem.

McLean descreve o filme como “cerebral, mas de acção rápida”. Na verdade, essa é uma das chaves para a sua grandeza.

Através de retrospectivas vemos C.S. Lewis quando era menino (desempenhado por Eddie Ray Martin), como um jovem adulto (Nicholas Ralph) e, claro, com McLean a fazer de homem maduro, a tentar reconciliar-se com os acontecimentos e as verdades que o puxam de um cepticismo ateu rumo à fé cristã.

Foi o livro “Surpreendido pela Alegria” (1955) que deu a McLean a ideia de escrever uma peça sobre a sua conversão. Esse livro, bem como o “Mero Cristianismo” (1952) são boas fontes para a história de Lewis e a forma como usou a razão para chegar à crença, e vários momentos que serão reconhecidos por fãs de Lewis estão representados de forma belíssima no filme.

Vemos a morte da sua mãe, Flora (representada por Amy Alexander), o seu pai Albert, castigador e obstinado (Richard Harrington), e passagens da sua vida como militar na I Guerra Mundial. Todos estes eventos traumáticos contribuíram para o empurrar para longe da fé. Há ainda cenas da sua educação na adolescência, que ficou a cargo do tutor W.T. Kirkpatrick (David Grant) e a sua formação intelectual em Oxford, mais tarde.

E há ainda alusões ao impacto de G.K. Chesterton, com o seu “O Homem Eterno”, e de George MacDonald, com “Phantastes” – livros que iluminaram a imaginação de Lewis, um classicista que viria a escrever alguns dos romances de fantasia cristãos do Século XX, para adultos e para crianças.

Em Oxford, onde foi primeiro aluno e depois professor, conheceu académicos fantásticos como Owen Barfield (Hubert Burton), Hugo Dyson (David Shields) e J.R.R. Tolkien (Tom Glenister).

Enquanto intelectuais, estes homens discutiram muitos assuntos, mas sobretudo a fé. Ouvimos Barfield a desafiar a afirmação de Lewis de que Jesus pode ser aceite como um grande mestre, sem que seja necessário acreditar na sua divindade. Barfield explica aqui o esquema do argumento que o próprio Lewis popularizaria, naquilo que é conhecido como o seu “trilema”. Lendo as palavras do Senhor no Evangelho, só podemos concluir que Jesus é louco, mentiroso, ou o Deus. Isto é, não pode simplesmente ter sido um “grande mestre” se as suas reivindicações de divindade eram fraudulentas.

Depois temos o famoso passeio que ele e Tolkien deram certa noite ao longo da Addison’s Walk, em Oxford. Falam de mitos e Tolkien levanta a questão convincente de que a história de Cristo é como todos os mitos que há muito que encantam ambos os académicos, com a excepção de uma coisa: os relatos do Evangelho são verdadeiros. Naquele momento ouvimos o sussurrar das folhas, que começam a cair:

“O vento sopra onde quer. Pode-se ouvi-lo, mas não se pode dizer de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todos os que nascem do Espírito” (Jo. 3,8)

Lewis sente o Espírito a mover e nunca mais será o mesmo. Assim ficou conhecido como o “convertido mais desalentado e contrariado de toda a Inglaterra”. Mas a alegria não tardaria a chegar.

O filme não é uma autobiografia exaustiva, e alguns dos notáveis excessos da sua juventude, como quando andou medido com o oculto (“luxúria espiritual”, como ele lhe chamou), aparecem apenas na forma de alusões, mas isso é porque o objectivo de “The Most Reluctant Convert” é de mostrar – em menos de 90 minutos – a forma como Lewis chegou à fé e como as suas lutas internas sobre a verdade de Cristo ajudaram a definir aquilo que seriam os seus argumentos enquanto evangelizador, mais tarde.

“The Most Reluctant Convert” é, sem dúvida, o filme mais inteligente que verá em 2022, mas é também um filme muito belo, fruto da cinematografia de Sam Heasman, em muitos dos locais onde se desenrolou a vida verdadeira de Lewis: The Kilns, claro, mas também a Universidade de Oxford, e Oxfordshire e os seus pubs. “Saúde!”, diz “Jack” Lewis. Para todos nós.

Apesar de todo o charme verdejante do filme, este desenrola-se a uma velocidade alucinante e, quando acaba, recostamo-nos na cadeira, praticamente sem fôlego.

De certa forma, C.S. Lewis foi o Agostinho de Hipona dos nossos tempos, e caso tivesse tido uma reacção positiva aos argumentos de Tolkien para a primazia do Catolicismo (e que não constam do filme), por estes dias talvez o estivéssemos a venerar como santo. (Digo eu, que não sou postulador).

Tanto Lewis como Agostinho usaram, de forma enérgica, todas as armas lógicas que conseguiam contra o Cristianismo… até que cada um deles foi forçado, pela sua bondade e integridade essencial, a entregar-se de corpo, alma e intelecto, a Deus.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 24 de Maio de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

 

Wednesday, 2 February 2022

O Jesus de Marc Chagall

Brad Miner

Em “Crucificação Branca” de Marc Chagall, que está actualmente exposta no Instituto de Arte de Chicago, Jesus é representado com um talit, o tradicional xaile de oração usado por judeus religiosos, sobretudo os hassidim. Tem também um pano na cabeça, ao estilo de um pastor. (Tradicionalmente, os homens judeus cobrem sempre a cabeça quando rezam.) Por cima da sua cabeça, praticamente ilegível, está a inscrição INRI em latim e em aramaico. Por baixo dos seus pés vê-se uma menorá. Chagall estava claramente a enfatizar o carácter judaico de Jesus.

O académico Ziva Amishai-Maisels, da Universidade Hebraica de Jerusalém, explica que a forma como Chagall escreve “Nazareno” (HaNotzri), em “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, é um trocadilho do artista, uma vez que Nazareno se tornou um sinónimo de “Cristão”. Assim, escreve Amishai-Maisels, Chagall “sublinha a importância de Jesus tanto para cristãos como para judeus, pois o Jesus judeu com a cabeça coberta e o xaile com franjas é também um cristão”. (Art Institute of Chicago Museum Studies, Vol. 15, No.2, 1991).

(É interessante referir que letra árabe “nun” foi usada pelo Estado Islâmico para identificar as casas de cristãos no Iraque e na Síria. Esta é a primeira letra de Nazareno e indica aqueles que devem ser exilados ou martirizados. A letra nun, ou nün, escreve-se de forma semelhante em Hebraico, Aramaico e árabe.)

Em 1938, quando Chagall pintou “Crucificação Branca”, os judeus da Europa estavam a começar a sofrer a pior perseguição da história. Os nazis tinham-se tornado o principal partido da Alemanha quatro anos antes e, pouco depois, Adolf Hitler foi feito Chanceler. Os judeus estavam a ser sistematicamente privados dos seus direitos civis desde 1934. Foi inaugurado o Gabinete de Política Racial – sede da “raça superior” – e nasceu a Lebensborn, que tinha o objetivo de promover a pureza racial, em parte pela procriação de mulheres arianas solteiras com homens arianos.

Hitler passou de Chanceler a Presidente, e depois a Führer. O campo de concentração de Dachau abriu em 1933. Destinava-se principalmente a prisioneiros políticos, mas em breve abriram outros campos, com o objectivo de levar a cabo o extermínio dos judeus e de outros povos “depravados” na Europa.

E ao longo dos anos trinta e grande parte dos quarenta, o mundo dormia.

Nesta altura Chagall vivia em Paris e as notícias que lhe chegaram do pogrom de Kristallnacht, e outros ataques aos judeus, foram o ímpeto para a criação de “Crucificação Branca”.

Na Noite de Cristal, de 9 para 10 de novembro de 1938, milhares de lojas, casas, hospitais e sinagogas judaicas foram atacadas pelo grupo paramilitar nazi Sturmabteilung (SA). Trinta mil homens judeus foram detidos e enviados para os campos. Tudo isto, e mais ainda, foi concentrado por Chagall em “Crucificação Branca”, embora as cenas do pogrom tenham sido transladadas para a sua terra natal de Vitebsk, actualmente na Bielorrússia.

Chagall estava bem ciente do perigo em que se colocava a si mesmo e à sua família com esta pintura, caso os alemães ocupassem Paris. Quando isso aconteceu, em 1940, os Chagall já tinham partido para Marselhas, onde foram detidos pelos nazis. Tal como no filme Casablanca, de 1942, os Chagall estavam a tentar chegar a Lisboa, onde esperavam assegurar uma passagem para Nova Iorque. Graças a Deus acabaram por conseguir, mas não sem que antes as suas pinturas, já encaixotadas, incluindo a “Crucificação Branca”, tivessem sido brevemente apreendidas, primeiro pelos alemães, no sul de França, depois por fascistas espanhóis, a caminho de Portugal.

Clicar para aumentar


Chagall poderá ter sido ingénuo ao pensar que a União Soviética, outro bastião de antissemitismo, viria em socorro dos judeus da Europa, mas aparentemente é isso que podemos observar no canto superior esquerdo do quadro, na forma de uma turba com bandeiras encarnadas.

Os restantes tableaux que rodeiam Jesus são reconhecíveis, ainda que não nos seja possível entender todas as referências específicas. E não podemos culpar o artista por ter uma visão um pouco romântica da Rússia, o país onde cresceu. Afinal de contas, o “New York Times” também tinha. E Chagall tinha sido o Comissário das Artes em Vitebsk.

Quando deixou a União Soviética, em 1992, foi em parte porque tinha dado por si do lado errado daquilo que significava ser um revolucionário soviético. Nas palavras de Talya Zax, a esperança de Chagall era “um modelo da esperança do seu país, mais frágil do que qualquer dos revolucionários estava pronto a admitir. Tanto para ele como para eles, o equilíbrio não se poderia manter”.

O antissemitismo na Rússia era evidente para todos. Como escreveu Sarah Boxer – numa recensão a uma biografia de Chagall no “New York Times”, “a cegueira de Chagall em relação aos horrores soviéticos é quase patológica”.

Chagall criou pelo menos 100 cenas de crucificações ao longo dos anos, e fez vitrais para igrejas. Porém, nada sugere que fosse um cristão disfarçado. David Lyle Jeffreys nota, contudo, que Chagallera amigo próximo de Raïssa Maritain, mulher do filósofo Jacques Maritain (ambos católicos convertidos, ela do judaísmo ortodoxo, ele do agnosticismo protestante) e ela terá dito que Chagall sempre pintou “Christ étendu a travers le monde perdu” (Cristo estendido no mundo perdido).

Seja porque via Cristo simplesmente como um judeu extraordinário e ético do primeiro século, ou, menos provável, como o Messias, para Chagall Jesus sempre representou a esperança, o que significa que existe verdade na obra do pintor.

É certo que Chagall pintava Cristo sobretudo por razões políticas. Como diz o professor Amishai-Maisels, Chagall nunca tentou “representar o Messias cristão… mas o mártir judeu que não tem qualquer esperança de salvação”. Pelo menos não no mundo como Chagall então o via, um mundo em que os próprios cristãos tinham esquecido a mensagem de Cristo de paz e fraternidade.

Em todo o caso, trata-se de uma paixão que durou toda a vida. Chagall pintou a sua primeira crucificação, “Golgota”, em 1912 (actualmente no MoMA, em Nova Iorque). E continuou a pintá-las até ao início dos anos 70.

Hoje, judeus e cristãos, unidos na tradição bíblica, são cada vez mais sujeitos a perseguição, e não apenas no lugar onde ambas as religiões nasceram – as terras hostis em torno da Terra Santa – mas também nos nossos actuais impérios romanos, onde novos e seculares deuses surgem para desafiar o Senhor.

Resta apenas dizer que “Crucificação Branca” é uma das duas pinturas favoritas do Papa Francisco, a par de “O Chamamento de São Mateus”, de Caravaggio. O Papa tem bom gosto em arte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 1 de Fevereiro de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.


Wednesday, 15 September 2021

De um Céu Limpo e Azul

Sou nova-iorquino por escolha, vivo na região desde 1977. É aqui que espero vir a morrer. E ainda tenho memórias bem vivas do 11 de Setembro de 2001.

Era uma manhã linda. Tinha deixado a minha mulher, Sydny, na estação de Pelham por volta das 8h00 e voltado a casa para levar os meus filhos, de 14 e de 12 anos, para a escola. Depois subi para o meu escritório em casa para trabalhar no meu livro sobre cavalheirismo.

Pouco antes das 9h a Syd ligou do seu escritório na Rockefeller Center e mandou-me ligar a televisão.

Na NBC vi fumo a sair da Torre Norte do World Trade Center (WTC).

Revendo essas imagens hoje, como fiz para escrever esta coluna, em nada diminui o choque. É a mesma coisa quando revemos filmes cujos finais já conhecemos e não deixamos de ficar nervosos. Às 9h ainda ninguém sabia que o primeiro avião não tinha atingido a torre por acidente.

Nestas imagens os pivots da TODAY, no dia 11 de Setembro, não sabem que o fumo e as chamas dessa explosão são do Voo 11 da American Airlines, com origem em Boston. Matt Lauer especula, corretamente, que se os primeiros rumores são verdadeiros, e de facto foi um avião, então não pode ter sido um aparelho pequeno a fazer um buraco tão grande no edifício, casando tantas chamas e fumo.

Ainda assim, a Katie Couric diz que estão a receber informações de que se tratava de uma pequena aeronave de passageiros. Neste momento o oráculo do TODAY diz que são 9h02.

Como disse o bombeiro:

Não reserve um quarto acima do quinto andar

Em qualquer hotel em Nova Iorque.

Eles têm escadotes que chegam mais alto

Mas ninguém os subirá.

Como disse o New York Times:

O Elevador procura sempre

O andar das chamas

E abre automaticamente

E não fecha.

Estes são os avisos de que não se deve esquecer

Se estiver a subir para fora de si mesmo

Se quiser embater no céu*.

É 2021 e estou a tentar manter-me calmo, objetivo e racional – mas só me apetece gritar. Estou a olhar para imagens de há duas décadas e quero gritar. Gritar o quê? Um aviso? Para quem?

Então, precisamente às 9h03h11, o voo da United Airlines 175, também oriundo de Boston, atinge a Torre Sul. Um produtor da NBC questiona-se se não haverá um problema com o controlo de tráfego aéreo. Cerca das 9h05 Matt Lauer diz que os incidentes foram intencionais.

E mais ou menos nesse momento Andy Card, que está com George W. Bush numa sala de aulas na Florida, encosta-se e sussurra ao Presidente, “A América está a ser atacada”.

A próxima coisa que fiz nesse dia foi ligar para o George Marlin, Diretor Executivo da Autoridade Portuária de Nova Iorque e de Nova Jérsia (1995-1997), ou seja, depois do atentado mal-sucedido de 93 na WTC e antes do 11 de Setembro. Encontrei-me com ele uma vez num andar alto na WTC, de onde se podia ver o Rio Hudson. George, que acorda cedo, descreveu-me como às vezes ao nascer o sol iluminava nuvens baixas, pintando-as de dourado, fazendo-as parecer anjos a viajar à velocidade da luz.

Passei muitas vezes

O quinto andar

Subindo a custo

Mas só uma vez

É que subi até lá acima.

Sexagésimo andar:

Pequenas plantas e cisnes a dobrar-se

Para dentro de sepulturas.

Andar duzentos:

Montanhas com a paciência de um gato,

Silêncio calçado com ténis.*

“Estás a ver o que está a acontecer?”, perguntei ao George no 11 de Setembro.

“Não temos uma televisão no escritório”, respondeu, “mas já ouvi. Terroristas?”

“Só pode. Ambos os aviões estavam cheios de combustível, a caminho da costa ocidental.”

“Vai-me mantendo a par, se faz favor.”

Disse-lhe que assim faria.

Então, pouco antes das 10h15, o George ligou de volta.

“O Pentágono e a Pensilvânia também, certo?”

“Sim, e a Torre Sul desmoronou. Caiu diretamente para baixo, sobre si mesmo.”

George suspirou

“Foi isso que os arquitectos me disseram que iria acontecer.”


Algo da minha conversa com o George fez-me querer rezar, mas era complicado. Queria agradecer a Deus o facto de ele ter saído da Autoridade Portuária quatro anos antes, mas entendi que o seu sucessor poderia estar morto (e estava). Ainda assim, rezei. E sabia que não estava sozinho. Imaginei aquilo que certamente era verdade, que através da nação, agora unida, milhões de pessoas se encontravam de joelhos, e não como sinal de rendição.

A Igreja de São Pedro, ali perto, tornou-se por momentos uma morgue, quando o corpo do padre Mychal Judge foi colocado diante do altar. Foi vítima da queda de destroços na Torre Norte depois de ter entrado a correr no edifício para ministrar aos mortos, moribundos e feridos. Foi designado “Vítima 0001”, a primeira pessoa a ser declarada morta no 11 de Setembro.

O escritório da minha mulher foi evacuado porque o Rock Center foi considerado um potencial alvo. Ela tentou ligar-me, mas depois das 10h30 ninguém podia ligar para dentro ou para fora da cidade. Então andou a pé 20 quarteirões até ao apartamento da irmã e depois as duas saíram para ir comer num quiosque local, enquanto ouviam as sirenes infindáveis e começavam a ver pessoas cobertas de pó a subir, em silêncio, vindas da baixa de Manhattan.

As escolas fecharam mais cedo. A ansiedade dominava a nossa pequena vila dos subúrbios porque tantas amigos e familiares trabalhavam na zona financeira de Manhattan, alguns mesmo nas Torres Gémeas.

O meu filho mais velho, Bobby, estava preocupado com a mãe e ligou da escola. Tranquilizei-o. Depois encontrou o seu irmão Jon e vieram a pé para casa. O Jon foi para o quarto ler, mas o Bobby queria ir para o jardim jogar à bola.

Estávamos no Jardim a lançar a bola e a apanhar – as minhas mãos ardiam com a força dos seus passes – quando um caça F-15 passou por cima de nós, a voar muito rente. Se o piloto tivesse baixado a asa e olhado para baixo teria visto a sua cara.

Quem vivia onde eu vivo conhece pessoas que morreram no 11 de Setembro, ou pelo menos os seus familiares. Eu tinha-me divertido à brava no casamento do Tommy Hohlweck, em 1978. A minha amiga Debra Burlingame vivia ao virar da esquina e era irmã do Charles “Chic” Burlingame que pilotava o voo da American 77, que atingiu o Pentágono. Apenas dias antes tinha estado junto à linha do campo com o Pat O’Shea, enquanto víamos os nossos filhos a jogar futebol americano. E em um ou dois encontros locais tinha conhecido o seu irmão Danny, bem como o Monty Hoard. Perdemos nove habitantes de Pelham naquele dia, incluindo o bombeiro Joe Leavy, que estava de folga, mas correu para o Ground Zero e nunca regressou.

Eu fui membro do New York Athletic Club até 2011. Na entrada há três memoriais com os nomes dos mortos: Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial e 11 de Setembro de 2001.

Hoje foi declarado o fim da longa guerra que se seguiu ao 11 de Setembro. Rezo para que assim seja. Temo que não.

Andar quinhentos:

Mensagens e cartas de há séculos,

Pássaros para beber,

Uma cozinha de nuvens.

Andar seis mil:

As estrelas,

Esqueletos a arder,

Os seus braços a cantar.

E uma chave,

Uma chave muito grande,

Que abre algo –

Uma porta útil –

Algures –

Ali em cima.*

*Este poema profético “Subindo para o Céu num Elevador”, escrito por Anne Sexton, foi escrito em 1975. A minha mulher publica-o todos os 11 de Setembro na sua página de Facebook.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 11 de Setembro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 9 June 2021

Em Cada Homem um Monge

Brad Miner

O jovem cura do “Diário de um Pároco de Aldeia”, de Georges Bernanos (1937) rumina sobre monges (cartuxos e trapistas):

Que milagre permite a estes semi-lunáticos, estes prisioneiros dos seus próprios sonhos, estes sonâmbulos, entrar aparentemente mais fundo, cada dia, na dor de outros? Um estranho tipo de sonho, um opiáceo pouco comum que, longe de o fazer voltar-se sobre si mesmo e isolar-se dos seus contemporâneos, une o indivíduo com a humanidade num espírito de caridade universal!

O claustro sempre nos separou de tais homens (e mulheres), mas houve uma altura em que a sua presença foi, todavia, poderosa.

Escrevendo sobre o monasticismo medieval, o historiador Friedrich Heer insiste que a busca do monge pela perfeição foi influente a todos os níveis na sociedade. “Há algo de grande importância política e social… Todas as esperanças, orações e exigências que o cristão medieval colocava nos monges e nos mosteiros estavam centrados numa expetativa: que alcançassem a total santidade de uma vida cristã perfeita”.

Claro que a perfeição não é dada a qualquer homem. Mas é possível aspirar à perfeição, isto é, aos padrões mais altos possíveis em todos os aspetos da vida.

O ponto alto do monasticismo chegou à volta do ano 1100, altura em que a grande abadia beneditina de Cluny, em França (e que já contava duzentos anos) mais parecia a sede de uma corporação verdadeiramente multinacional de fé, educação, diplomacia e empreendedorismo, com um milhar de ramos localizados por toda a Europa. O abade de Cluny, democraticamente eleito, era provavelmente o homem mais poderoso da Europa depois do Papa, que era por sua vez a única pessoa no mundo a quem o abade devia obediência. Muitos papas desta era foram antigos monges de Cluny.

Cluny era um mosteiro beneditino, mas deu lugar à ordem cisterciense, que por sua vez deu lugar aos trapistas. Tradicionalmente os beneditinos usavam hábitos pretos, os cistercienses brancos e os trapistas usavam um capuz preto por cima de um hábito branco.

As abadias cistercienses são conhecidas como “viveiros de santidade” por tantos dos seus membros terem sido canonizados. Cada nova ordem representou um impulso para reformar o monasticismo, a Igreja ou a própria fé, e por de trás de cada uma destas sacudidelas estava a imperativo para se viver mais fielmente a Regra, o guia espiritual e organizacional criado por São Bento de Núrsia no Século Sexto.

São Bento pode bem ser o homem mais subestimado da história do Ocidente. Claro que é o Santo Padroeiro da Europa, mas espanta-me quantas pessoas não sabem nada sobre ele (ou não sabiam, até terem lido “A Opção Beneditina” de Rod Dreher). Não foi o primeiro monge, mas foi certamente o maior, o que explica porque é que Joseph Ratzinger escolheu esse nome quando foi eleito Papa.

Os primeiros monges eram anacoretas (grego para “aquele que se retira”), homens que partiam sozinhos para o deserto no Século IV. Raramente interagiam com outros que não fossem também ermitas, a quem talvez se juntassem para a missa dominical. Alguns eram itinerantes e mendicantes.

Pouco depois disso surgiram uma série de casas cenobíticas. A palavra deriva do latim para “vida comum”. Um convertido egípcio, São Pacómio, fundou o primeiro mosteiro em 312 e, quando morreu, em 348, já havia três mil monges, em nove mosteiros, na maioria no Egito e no que hoje chamamos o Médio Oriente. A regra que ele escreveu para governar a vida da comunidade acabou por ser a fonte principal para os estatutos de São Bento. A regra de Pacómio foi traduzida para o latim por São Jerónimo, que foi também responsável pela Bíblia em Latim, a Vulgata. Santo Agostinho utilizou a regra para organizar a sua comunidade no Norte de África.


Mas foi a regra expansiva e compassiva de Bento que tocou mais profundamente a alma, e que desde então a tem mantido a vibrar.

Bento foi anacoreta durante alguns anos antes de se juntar a uma comunidade, onde adaptou várias das constituições monásticas mais populares à sua Regra. Os primeiros monges que estavam sob as suas ordens ficaram irrequietos e até o tentaram envenenar, segundo a lenda. Mas quando Bento benzeu o vinho que lhe ofereceram o copo estilhaçou. Entristecido e enojado, partiu para as montanhas.

Foi no mosteiro que construiu no Monte Cassino, perto do Rio Rapido, no centro de Itália, a cerca de 130 quilómetros de Roma, que promulgou a sua famosa Regra. Poucos homens antes, ou desde ele possuíram um sentido tão claro das forças e das fraquezas do coração humano. A Regra de São Bento equilibra a autocracia (a autoridade do abade) com a democracia (a voz individual dos monges). Unifica o trabalho manual e o ensino superior.

Tem sido dito que os monges beneditinos salvaram o conhecimento e a literatura da Europa durante a instabilidade da chamada Idade das Trevas. E na medida em que isso é verdade, o crédito deve ser atribuído ao seu fundador. Mas há mais.

O monasticismo foi uma das forças culturais dominantes na Europa durante o milénio que correu do ano 500 até 1500 e a Regra Beneditina foi uma das obras não-bíblicas mais lida e estudada durante esse período. Ainda por cima, foi durante esta era que se formaram os primeiros estados-nação e se fundaram as primeiras universidades e guildas. Cada inovação, à sua maneira, devia muito às lições aprendidas da governação, educação e organização desenvolvidas nas casas beneditinas: de tal forma que podemos mesmo pensar se Bento não deveria ser padroeiro da própria modernidade. Isto é, das partes boas.

E não é de espantar que Alasdair MacIntyre, um dos maiores filósofos católicos ainda vivos, tenha terminado a sua grande obra After Virtue com as palavras: “Aguardamos a vinda não de um Godot, mas de um novo – sem dúvida muito diferente – São Bento.”


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Junho de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 9 December 2020

Um Gentio Justo

Brad Miner
Em 1943 houve uma revolta contra os nazis no gueto judaico de Czestochowa, na Polónia, que foi rapidamente esmagado pelas SS, matando muitos judeus. Muitos outros foram enviados para campos de morte. Os que permaneceram em Czestochowa foram postos a trabalhar como escravos até que o Exército Vermelho libertou a cidade. Nessa altura, como os nazis teriam dito com orgulho, a cidade estava quase Judenfrei.

A história mostrou que a “libertação” da Polónia foi, devido à sua subjugação pelos comunistas, um pau de dois bicos. A Polónia foi verdadeiramente, como disse o arcebispo Fulton Sheen, uma nação “crucificada entre dois ladrões.”

No dia 28 de janeiro de 1945 uma menina judia exausta e subnutrida, Edith Zierer, conseguiu chegar a uma estação do caminho de ferro que atravessava Czestochowa. Acreditando que a família estava viva em Cracóvia, entrou numa carruagem de transporte de carvão, de um comboio que, pensava, a levaria até lá. Mas o vento gélido que entrava pela porta aberta da carruagem era demasiado forte e por isso duas horas mais tarde, e com medo de congelar até à morte, aproveitou uma paragem e saiu. Coxeou até à plataforma da estação em Jedrzejow – uma decisão providencial, até porque Cracóvia ficava a sul o comboio estava a ir para leste.

Sentou-se sozinha na estação. Se alguém a viu, ignoraram-na, embora fosse evidente que era uma refugiada. Envergava a farda numerada, agora em trapos, que os sempre eficientes nazis obrigavam os trabalhadores escravos a vestir. Quem tivesse olhos na cara poderia ver que ela estava fraca e esfomeada. Mas ninguém a veio ajudar.

A Edite estava a começar a pensar que mais valia morrer, até que a Providência interveio. Como o seu sobrinho-neto, Roger Cohen, explica, “A morte aproximava-se, mas um jovem antecipou-se. ‘Era muito bem parecido’, recorda a Edith, e vigoroso”. De acordo com ela, o jovem rapaz perguntou-lhe o que é que ela estava ali a fazer. Ela disse-lhe. Outro relato diz que ele também perguntou o seu nome, mas quando ela lho disse desatou a chorar, porque durante tantos anos tinha sido apenas um número.

O homem afastou-se, mas voltou com uma chávena de chá. Enquanto ela bebia ele disse que também ia para Cracóvia e prometeu ajudar a levá-la até lá. Ela estava desconfiada. Ele voltou ao sítio onde tinha ido buscar o chá e voltou com pão e queijo. Isso ajudou, muito. O estranho, que conhecia as linhas e os horários, sabia que o próximo comboio para Cracóvia partia longe dali e tinha a sensação de que a Edith não tinha muito tempo.

“Tenta levantar-te”, disse ele. Mas ela não conseguia. Por isso ele pegou nela e carregou-a mais de três quilómetros até à estação certa. Mais uma vez encontrava-se numa carruagem de carvão. Estava lá outra família judia escondida. O jovem entrou também. Colocou a sua capa à volta de Edith e fez uma pequena fogueira dentro da carruagem, para proteger do inverno gelado. Finalmente apresentou-se.

“O meu nome é Karol Wojtyla”.

Agora sem a capa, Edith e a família judaica conseguiam ver que ele era um padre católico. Ou pelo menos assim lhes pareceu, por causa da batina. Na verdade, era ainda seminarista.

Quando chegaram a Cracóvia o Karol saiu do comboio, talvez para arranjar informação que pudesse ajudar a Edith a encontrar a família. Quando regressou ela tinha partido. Um dos outros passageiros tinha-lhe dito que fugisse, não fosse este padre querer metê-la num convento. “Fugi”, disse ela, “porque as pessoas começaram a perguntar porque é que um padre estava a viajar com uma menina judia”.

Ela recorda-se de se ter escondido atrás de um monte de vasos de leite metálicos quando o homem que a tinha ajudado começou a chamar por ela em polaco: “Edyta, Edyta!”

Como escreve o senhor Cohen:


Aqui estavam duas pessoas numa terra devastada, um católico de 24 anos e uma judia de 13. O futuro Papa já tinha perdido a sua mãe, o seu pai e o seu irmão. A Edith, embora ainda não o soubesse, já tinha perdido a mãe em Belzec, o pai em Maidaneck e a irmãzinha em Auschwitz. Não podiam estar mais sozinhos.

Naquele momento Edith Zierer fez aquilo que achou necessário para preservar a vida e a sua fé. Mas nunca se esqueceu de Karol Wojtyla.

Quando leu num jornal, em 1978, que este homem extraordinário tinha sido eleito Papa, chorou. Escreveu-lhe várias vezes, mas não recebeu qualquer resposta… Durante 20 anos. Mas em 1998 voltaram e encontrar-se no Vaticano. Naquele encontro, de acordo com Cohen, o Papa pôs-lhe a mão na cabeça e disse: “Volta, minha filha”, uma coisa estranha de se dizer meio-século depois.

Talvez se estivesse a recordar dos seus gritos ansiosos naquela estação em Cracóvia: “Edyta, Edyta! Volta, minha filha.” Ou talvez estivesse a convidá-la a voltar a Roma para outra visita. Isso nunca aconteceu, mas os dois voltaram a encontrar-se em 2000 no Yad Vashem, quando João Paulo fez uma peregrinação a Jerusalém. “Ele era um espírito irmão no sentido mais puro da palavra. Um homem capaz de salvar uma menina naquele estado, congelada, esfomeada e cheia de piolhos, e levá-la até segurança”, disse ela, depois de São João Paulo II morrer, em 2005. “Eu não teria sobrevivido se não fosse ele”.

Naquela visita a Yad Vashem o santo octogenário foi cumprimentar seis sobreviventes do Holocausto, uma das quais era a senhora Zierer. O Papa falou a cada um, até chegar a Edith. Então colocou uma mão sobre o seu ombro, enquanto conversavam. Ela diria depois que “não chorei no Vaticano, mas em Yad Vashem, desfiz-me em lágrimas”. 

Edith morreu em 2014. 


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Dezembro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 


Wednesday, 15 April 2020

Ao Terceiro Dia: uma Fantasia

Brad Miner
Quando o escriba informou Pôncio Pilatos de que Tito queria falar com ele, percebeu que algo estava mal. O prefeito da Judeia tinha enviado Tito, o seu melhor oficial, fazer o que seria sem dúvida a tarefa mais simples de toda a carreira de um dos melhores soldados de Roma. Porque é que tinha voltado cedo?

Tito era um homem velho – pelos padrões da Legião – mas ainda assim era duas vezes melhor guerreiro do que homens com metade da sua idade, e o mais fiável de todos.

Mas aqui estava ele, depois de ter abandonado o seu posto. Porquê?

Tito entrou na sala, batendo com o punho direito contra o peito: “Prefeito!”

Pilatos olhou de trás de uma secretária cheia de despachos. Fixou os olhos do militar e franziu. Depois olhou de volta para os seus papeis e perguntou:

“Porque é que está aqui, sargento?”

Tito sabia que o prefeito estava mais irritado do que zangado. Por enquanto.

“Prefeito, o sepulcro abriu-se e o homem, Jesus, desapareceu.”

O escriba estava à direita de Pilatos. Tinha estado a escrevinhar as mensagens que o prefeito ditava. À entrada do quarto – por onde Tito acabara de entrar – estavam dois guardas em sentido.

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se. Os seus olhos cruzaram-se com os do escriba.

“Saia”, disse Pilatos, acenando também aos guardas para o seguir. Fecharam a porta atrás deles.

De repente Pilatos sentiu-se muito cansado. Levantou-se e deu a volta à secretária, encostando-se a ela, e cruzou os braços.

 “Explica-te”

Tito olhou em frente e, como sempre, contou a verdade.

“Prefeito, deu-se uma explosão silenciosa. Só consigo descrever como se fosse uma rajada a abrir uma porta. Não ouvimos nada, mas sentimos o ar projectado, que nos lançou por terra. Tapei os olhos com as mãos mas… Havia uma luz brilhante toda a volta. Cerrei os olhos e obriguei-me a olhar para cima, no meio da luz estava a figura de um homem. A luz vinha dele. Depois houve outra rajada, ou explosão, e a luz desapareceu. Só se via a luz da aurora, como antes. E silêncio prefeito: nem passarinhos, nem grilos, mas ouvia a minha própria respiração e a dos meus homens. O homem tinha desaparecido. Levantei-me e vi que a pedra já não cobria a entrada do sepulcro. Então entrei e vi a coisa mais estranha –”

Pilatos quase que se riu. O que é que poderia ser mais estranho do que Tito já tinha dito?

“ – lá dentro”, disse Tito, “onde o corpo tinha repousado, vi a mortalha cuidadosamente dobrada e colocada de lado”.

Pilatos reparou que enquanto falava, a voz de Tito não tinha aquela calma clínica que costumava ter quando fazia os seus relatórios em Cesareia ou em Jerusalém. Era porque o velho – já tinha cinquenta anos – já tinha estado em todo o lado e lutado contra todos e visto tudo que Pilatos o tinha trazido com ele para a Judeia. Se alguém podia ajudar a lidar com os israelitas, raciocinou Pilatos, era Tito.

“E quem é que dirias que era o homem na luz?”

“Jesús de Nazaré.”

Pôncio Pilates
Pilatos sabia que o Galileu tinha dito que isto iria acontecer. Era por isso que os sacerdotes do Templo tinham pedinchado um destacamento de soldados romanos para guardar o sepulcro. Na altura tinha estado demasiado cansado para insistir, como deveria ter feito, que esse era um assunto deles e não do Pretório. Gostaria de ter dito: Eu matei um inocente por vocês; tratem vocês de guardar o seu sepulcro. Mas tinha parecido mais fácil aceder. E então enviou o seu melhor homem para supervisionar os turnos durante os três dias.

Partiu do princípio que isso seria o fim da história, porque homens crucificados não se levantam e põem-se a andar.

Por isso é que era tão perturbador ouvir uma testemunha de confiança dizer que Jesus – um homem como qualquer outro, que tinha, na verdade, sangrado e sofrido e morrido como qualquer outro – estava de novo vivo.

“Então a crucifixão falhou.”

“Não, Prefeito.”

“Então tu e os teus homens embebedaram-se e adormeceram em serviço –”

“– Prefeito, não! Eu tinha acabado de regressar com o turno da manhã. Estávamos todos acordadíssimos!”

Se fosse qualquer outro a dizê-lo, que não Tito, Pilatos tê-lo-ia mandado prender imediatamente. Olharam um para o outro.

“Os teus homens estão por perto?

“Lá fora.”

Pilatos olhou-o diretamente nos olhos. É tudo verdade, pensou. Agora o que é que dizemos aos anciãos do Templo?

Para a surpresa de Tito, o prefeito ordenou-o a ir imediatamente ao Templo para dar conta da situação aos sacerdotes: “Exatamente como me contaste a mim, mas sem dizer que estiveste aqui primeiro”, disse.

Então Tito saiu e levou os seus homens. Ficou admirado quando eles lhes deram dinheiro para se manterem calados sobre o que tinham visto. Muito dinheiro, prata suficiente para comprar o silêncio de uma dúzia de homens.

“Digam”, disse o Sumo Sacerdote, “que os seus discípulos vieram durante a noite e roubaram o seu corpo enquanto vocês dormiam”.

Perante o olhar zangado dos soldados romanos (que sabiam bem o castigo que enfrentariam por tamanha negligência), os sacerdotes acrescentaram logo:

“Se isto chegar ao governador nós damos-lhe uma explicação que vos livre de problemas.”

Tito queria rir-se na cara dele, mas pegou nas moedas e dividiu-as igualmente entre os soldados satisfeitos. Não ficou com nada para ele.

O Prefeito da Judeia sorriu quando ouviu as novidades.

“Então eles também acreditam?”

Tito respondeu: “Talvez partam do princípio que nós retirámos o corpo… ou simplesmente queiram acabar com um boato.”

“Era escusado. Em breve tudo isto será esquecido”, disse Pilatos.

Tito saiu pelas portas altas. Não sabia em que é que o Prefeito acreditava verdadeiramente, mas sabia que ele, certamente, nunca se iria esquecer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Abril de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Tuesday, 18 February 2020

Fra Angelico

Brad Miner
Passam-se hoje 565 anos sobre a morte do artista renascentista Fra Angelico.

Nascido Guido di Pietro, cerca de 1395, cresceu no bairro de Rupecanina, em Vicchio, uma vila da República de Florença. Não sabemos com quem é que ele e o seu irmão Benedetto aprenderam a pintar e a iluminar – a especialidade de Benedetto – mas Guido já era um pintor bem conhecido quando entrou para o mosteiro dominicano em Fiesole, nos anos 20 do Século XV, altura em que assumiu o nome Fra Giovanni, isto é, Irmão João.

Só após a sua morte é que se viria a tornar, nas palavras do “Martyrologium Romanum”, “Beato Giovanni de Fiesole, apelidado ‘o Angelico’”, daí que seja conhecido como Fra Angelico, o irmão angélico. Mesmo para historiadores de arte seculares ele é o Pictor Angelicus, tal como o seu antecessor dominicano, o Doctor Angelicus, São Tomás de Aquino.

Repare-se no “Beato”. O irmão Giovanni foi beatificado pelo Papa São João Paulo II em 1982. Claro que a sua causa não avançará se as pessoas não rezarem por sua intercessão e isso não resultar em milagres. Mas a sua piedade era de tal ordem que, mesmo em vida, era conhecido pela alcunha angélico. Foi também são João Paulo II que declarou Fra Angelico padroeiro dos artistas católicos, em 1984.

Quando o Metropolitan Museum de Nova Iorque fez uma exposição da sua obra, em 2005, juntou obras de alguns sessenta museus e colecções privadas mas que – naturalmente – não incluíam frescos. Como escreveu o diretor do MET, na altura, as novas investigações sobre o homem e a sua obra moderaram a imagem de Fra Angelico como apenas “um irmão santo que nunca pegava no pincel sem rezar primeiro”. Diz ele que Fra Angelico possuía “um intelecto competitivo e foi um participante ativo na revolução cultural em Florença do início do Século XV”. Não tenho a menor dúvida que assim seja, mas isso não significa que ele não fosse um cristão devoto. Pode bem ter tido a esperteza das víboras (em termos de política eclesial, modas artísticas e até economia renascentista), mas era também manso como um pombo.

Em 1436 um grupo de dominicanos de Fiesole mudou-se para o convento de San Marco, em Florença, recentemente renovado pelo arquitecto Michelozzo di Barolomeo Michelozzi e Fra Giovanni foi posto a trabalhar na decoração do mosteiro, o que resultou em algumas das melhores pinturas dos primórdios do Renascimento. Também aceitou trabalhos em Roma (veja-se a Capela Nicolina no Vaticano) e noutros lados, deixando um legado inigualado no património católico artístico.

Nas palavras de São João Paulo:
Consta-se que Angelico terá dito que “quem faz a obra de Cristo deve permanecer sempre com Cristo”. Este lema valeu-lhe o epíteto “Beato Angelico”, por causa da integridade perfeita da sua vida e da beleza quase divina das imagens que pintou, de forma superlativa as da bem-aventurada Virgem Maria.

 
A Deposição de Cristo
A mais famosa das suas pinturas marianas é o fresco da Anunciação, pintado numa das paredes em torno do claustro em San Marco, sobre o qual o grande artista James Patrick Reid escreve de forma tão bonita aqui, há vários anos. Como dizia o sr. Reid: “Uma grande pintura reflete a divina providência. Tal como nada escapa ao governo divino da criação, assim nada escapa à mestria do artista; não há nada que seja meramente acidental”.

Na sua obra “As vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitectos” (publicado em duas edições, em 1550 e 1568 e reeditado várias vezes desde então), Giorgio Vasari escreveu que a figura de Gabriel na Anunciação é “tão devota, delicada e bem pintada que não parece a obra de mão mortal, mas parece que foi pintado no Paraíso (…) Daí que é verdadeiramente justo que este bom monge tenha sido conhecido como Frate Giovanni Angelico.”

Isto vê-se em quase tudo o que Fra Angelico pintou – só não digo tudo mesmo porque não vi a sua obra completa – e nota-se especialmente em duas outras obras, ambas no seu antigo mosteiro, que é agora o Museu Nazionale di San Marco: A Deposição de Cristo e o Juízo Final.

A magnífica Deposição começou na verdade como um tríptico para a Capela Strozzi, na Santa Trinità, em Florença, pelo pintor Lorenzo Monaco, que morreu cerca de 1425 depois de ter acabado só os pináculos por cima dos três arcos. Passou uma década antes de Fra Angelico assumir o trabalho de completar a obra. Os trípticos têm três painéis, cada um dos quais apresenta, tradicionalmente, três cenas relacionadas, mas distintas. Mas Angelico tratou a Deposição de outra forma, criando um cenário lotado que mostra apenas um panorama. Como é costume com a arte da Idade Média e do Renascimento – eras em que não existia historiografia nem arqueologia – as pessoas e os lugares representados são contemporâneos de Itália do Século XV.

 
Juízo Final
E aqui encontram o artigo do Wikipedia sobre A Última Ceia de Fra Angelico. Adoro a sua Deposição de Cristo, mas O Juízo Final é possivelmente uma composição ainda mais maravilhosa. A imagem no topo do artigo, à direita, pode ser aumentada várias vezes, clicando em cima, permitindo um exame cuidadoso (convido-vos a fazê-lo) dos detalhes que o artista colocou na pintura (sobre fundo de madeira), incluindo o horror de todos aqueles (incluindo clérigos) que são conduzidos pelos demónios através das portas do Inferno, mas também a alegria orante da comunidade dos salvos, abraçando-se e dando as mãos, “as suas caras radiantes com o amor de Deus”.

Mas, em verdade, a contemplação das caras dos que descem para o abismo traduz o horror desta perspectiva. Alguns parecem esconder os olhos, outros metem as mãos e os dedos na boca e outros ainda tapam os ouvidos com as palmas das mãos, esperando abafar o clamor dos atormentados. Alguns estão a ser arrastados, outros parecem estar simplesmente a caminhar para a perdição. É uma imagem de arrependimento e pânico. Se existe alguma pinga de esperança em qualquer um deles, está prestes a ser extinta. Para sempre. E eles sabem-no.

Fra Angelico captou tudo isto porque se deixava guiar pelo Espírito Santo.

 
Pensa-se que esta imagem, do centro da Deposição,
é um autorretrato de Fra Angelico 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar