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Wednesday, 17 September 2014

O que a Guerra é Realmente

Tem surgido alguma ambiguidade, tanto no Vaticano como na Casa Branca, sobre o que se deve fazer acerca da barbaridade que está a ocorrer no Médio Oriente e que tem chocado todo o mundo. Nem se sabe bem o que se lhe deve chamar.

Começou com um artigo escrito pelo Pe. Luciano Larivera, S.J., no La Civiltà Cattolica (uma revista jesuíta publicada em Roma e que é considerada uma referência, se bem que indirecta, do pensamento do Papa): “Obviamente, para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse. É fundamental estudar e perceber como é que o Estado Islâmico luta. A sua é uma guerra de religião e aniquilação”.

Isto é simples realismo cristão e a mais pura verdade sobre o actual conflito, que os nossos líderes americanos parecem recusar-se a aceitar. Mas depois de muitas distorções nos media, o padre Antonio Spadaro, SJ, o editor chefe do Civiltà, explicou: “O Estado Islâmico pensa que é uma ‘guerra de religião’, mas nós devemos ter o cuidado de não pensar dessa forma.”

Tudo bem. Há muito que o Cristianismo abandonou a ideia de que é legítimo o uso da força para promover a fé – como Bento XVI sublinhou no seu discurso profético em Ratisbona. Mas não deixamos de ter a responsabilidade de dizer a verdade sobre o que se está a passar bem como encarar a questão de como responder a uma força agressiva que mata os inocentes, escraviza sexualmente as mulheres, decapita ocidentais em público e declara ter como objectivo a imposição, pela força das armas, da sua religião aos não-crentes.

Entramos aqui num terreno sempre polémico: onde é que deixamos os princípios morais absolutos – que são a primeira competência da Igreja – e entramos na aplicação prudente desses princípios, em contextos complicados. Excepto em casos de agressão injusta, o juízo sobre o uso legítimo da força cabe aos líderes seculares e não aos papas nem aos bispos.

O mundo secular raramente compreende a distinção. No voo de regresso da Coreia, em meados de Agosto, o Papa disse: “É lícito travar um agressor injusto. Sublinho o verbo: travar. Não digo bombardear nem fazer guerra, digo impedir de alguma maneira”.

Os media seculares, e mesmo alguns órgãos católicos, reagiram mal: Se não é para bombardear, então qual é a estratégia do Papa? Como se o Sumo Pontífice tivesse de ter uma estratégia militar, qual presidente dos EUA. A minha aposta é de que o Papa estava a afirmar a necessidade de agir – naturalmente através do uso da força –, mas deixando claro que, apesar do horror da violência do Estado Islâmico, não cabe ao Papa defender os bombardeamentos americanos nem as decisões práticas de qualquer outra nação.

Mas na semana passada disse à Comunidade de Sant’Egidio: “A guerra nunca é uma forma satisfatória de corrigir injustiças... A guerra conduz as pessoas a uma espiral de violência que se torna difícil de controlar. Destrói aquilo que levou gerações a estabelecer e abre caminho a conflitos e injustiças ainda piores”.

"Diálogo" ao estilo do Estado Islâmico
Calculo que na emoção do momento, como tende a fazer, Francisco foi um bocadinho mais longe do que queria. O pensamento moral católico há muito que aceitou que as autoridades católicas têm por vezes a responsabilidade de recorrer à força. E temos exemplos de guerras boas, como a derrota dos nazis pelos aliados. Como explica o Catecismo da Igreja Católica:

[2307]Cada cidadão e cada governante deve trabalhar no sentido de evitar as guerras.

Apesar desta admoestação da Igreja, por vezes torna-se necessário usar a força para obter os fins da justiça. Este é um direito, e o dever, de todos os que têm responsabilidade pelos outros, tal como líderes civis e forças policiais. Enquanto os indivíduos têm o direito de renunciar a toda a violência, aqueles que preservam a justiça não o podem fazer, embora deva ser sempre um último recurso, “falhados todos os esforços de paz”.

É claro que existem os limites das condições sobre a decisão de ir para a guerra (ius in bellum) e o comportamento durante o combate (ius in bello). O juízo prudente dos líderes civis nestas matérias é, justamente, alvo de escrutínio cuidadoso. Em retrospectiva, muitos dos que acreditavam que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça vieram mais tarde a concluir que a decisão do presidente Bush de atacar o Iraque foi um erro. Da mesma forma, muitos consideram agora que a decisão de Obama de retirar as tropas do Iraque foi um erro e que, por isso, ele depara-se agora com limites à sua acção contra o Estado Islâmico que podem bem tornar a sua estratégia inútil. Este é um problema grave, uma vez que um dos critérios para a guerra justa é a existência de uma possibilidade razoável de sucesso, que é como quem diz, a existência de um benefício proporcional na decisão de matar pessoas e partir coisas.

É claro que o Papa sente a tragédia de todas as guerras e o pecado que está por detrás delas: “Ganância, intolerância, sede de poder... Estes motivos estão por detrás da decisão para ir para a guerra e, demasiadas vezes são suportadas por uma ideologia; mas em primeiro lugar há uma paixão ou um impulso distorcidos. A ideologia é apresentada como justificação quando não existe qualquer ideologia, mas apenas a resposta de Caim: ‘Que me interessa isso? Serei eu o guarda do meu irmão?’”

Noutras alturas, porém, ele e a Igreja reconhecem que o “uso justo da força” – caso queiram evitar a palavra “Guerra”, como parece ser a vontade da Casa Branca – serve precisamente para podermos ser os “guardas do nosso irmão”. Talvez seja necessário recordar o Vaticano disso. Irmãos cristãos, yazidis, curdos e muçulmanos de várias confissões, foram expulsos das suas casas, mortos ou marcados para genocídio. Não é possível negociar com os agressores. Não há diálogo ao alcance dos homens que seja capaz de fazer a menor diferença na mortandade.

Podemos preferir que não fosse assim. Podemos lamentar a herança da história e da violência do passado. Podemos reconhecer os nossos próprios pecados e pedir a Deus uma solução que não somos capazes de encontrar sozinhos. Mas entretanto temos apenas os meios ao nosso alcance e não podemos demitir-nos da responsabilidade de proteger aqueles que sofrem agressões.

Mesmo que não possamos fazer nada, podemos pelo menos dizer a verdade, porque: “para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse”.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 15 de Setembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 4 October 2013

Seremos católicos de pastelaria?

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Hoje o Papa passou o dia todo em Assis. Está a ser uma avalanche noticiosa, e o programa continua ainda logo à tarde com um discurso aos jovens. Até agora o Papa esteve com crianças deficientes, criticou os “católicos de pastelaria”, avisou que a paz de Cristo não se confunde com sentimentalismo piegas.

Num discurso que acabou há momentos o Papa disse ainda que não basta ler as escrituras, é preciso escutar Jesus que fala através delas.

Já ouviu falar da petição “One of Us”? E já assinou? Então assine! É o Patriarca que pede, mais o Arcebispo de Évora… enfim, toda a Conferência Episcopal.

Por falar no “One of Us”, amanhã há marcha pela vida às 15h, que parte do Marquês de Pombal e segue para o Rossio. Apareçam.

Encontra-se em Portugal o padre Antonio Spadaro SJ, o mesmo que fez a grande (e polémica), entrevista ao Papa Francisco. Em entrevista, o jesuíta diz que temos de aprender a ler este Papa, que comunica de forma diferente, e falou também dos desafios da Igreja na era digital.

Como de costume, podem ler a transcrição completa, em inglês, no blogue. Neste caso dividi em dois blocos, aqui podem ler as perguntas relativas à entrevista papal, e aqui podem ler sobre a “ciberteologia”.

Hoje em Fátima, nas Jornadas da Comunicação Social, o sacerdote disse que este Papa não entra nos clichés de progressista ou conservador.

Ontem foi um dia trágico, com pelo menos 130 imigrantes mortos (provavelmente muito mais) a tentar chegar a Lampedusa. Uma vergonha, considera o Papa Francisco.

Antonio Spadaro on the Papal Interview

This is a full transcript of my interview with Fr. Antonio Spadaro SJ, regarding the papal interview. Questions on his work on "cybertheology" are here. The Portuguese, published version of the interview can be found here.

Esta é uma transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista com o Pe. Antonio Spadaro SJ, relativa à entrevista papal. A secção relativa ao seu trabalho na área de "ciberteologia" está noutro post. A versão portuguesa, publicada, encontra-se aqui.

It has been about two weeks since your interview with the Pope was published, all over the world. Looking back, what do you make of the fallout of this interview?
For me this interview wasn’t an interview, it was a spiritual experience. It is very hard for me to talk about this. I know that the Pope was very straightforward. He tries not to defend himself, but to speak very openly. So he can be misunderstood, of course, but at the same time I got more than one thousand messages from people who’se life changed after reading the interview. For me it was a huge spiritual experience even to read the feedback. Feedback from ordinary people. I think the ordinary people understood the Pope well and that the interview had a very good impact on their spirituality, even for people who are not living in the church, or who had left the church many years ago. I received one message from somebody who said that if he had read the interview he would never have left the Church.

Many people felt uncomfortable with the Pope’s key quote about how the Church cannot speak only about contraception, gay marriage and abortion. People who dedicate their lives to these issues, in a loving way, and felt disheartened by what the Pope said. What would you say to them?
For the Pope the very important thing is to spread the Gospel and to talk about the big heart of God. The Gospel has to reach everyone, it doesn’t matter if the people are sinners, or whatever. This is what he means. He is a son of the Church, he said that, so he believes what is in the catechism. But for him it is very important that the Gospel should reach people wherever they are.

This interview went back and forth, I understand that it was approved by the Vatican…
We read the text of the interview together with the Pope, yes.

Yet there were parts left in it which were easy to misinterpret. I am thinking of what the Pope says about not being a right-winger… you later clarified that he was actually talking about support of the military junta in Argentina. Wasn’t it obvious that this could cause confusion? Shouldn’t it have been detected and clarified at the outset?
No, I don’t think so. An interview is not a Church document, so you have to be very careful reading it. It is up to you, in a sense. It is not a document; it has not been revised word for word. It is heart to heart communication, it is completely different.

You have to understand how this Pope likes to communicate; it is a completely different way. We don’t need to clarify anything. I sent the tweet about understanding the right wing expression, because we need to understand that the Pope speaks about experience. He doesn’t usually speak of concepts and abstractions, he speaks about experience, so you have to connect what he says to his own experience. I am not the interpreter of the Pope.

He said what he said, I wrote what he said. But you have to be careful, we have to change our mind, the old categories of the vaticanists are useless. Now the Pope is acting like a Human Being and he is talking by heart, what he says comes from his own experience, you have to be careful reading it.

You have to make an effort to understand what he says, considering his living experience. You cannot interpret his sentences as theoretical, as abstract from reality.

In the interview he speaks also about nurses and physicians, he says he doesn’t like physicians who only work in laboratories, he likes nurses, and a nurse saved his life. But of course he didn’t mean he doesn’t like physicians. He said that because that was his own experience. So you can’t say he is not right wing in an abstract sense and meaning. He lived in a time when Argentina was a dictatorship, so when he speaks about right wing he is referring to his experience and to what right wing means in his experience.

Antonio Spadaro on "Cybertheology"

This is a full transcript of my interview with Fr. Antonio Spadaro SJ, regarding his work on "cybertheology". Questions on the papal interview is here. The Portuguese, published version of the interview can be found here.

Esta é uma transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista com o Pe. Antonio Spadaro SJ, relativa ao seu trabalho na área de "ciberteologia". A secção relativa à entrevista papal está aqui. A versão portuguesa, publicada, encontra-se aqui.

You are here to speak about communications and religion. Do you believe that the communications at our disposal can aid the church’s mission? In what way?
Communication is not a tool now, it is an environment, so the church has to understand better what communication means. The goal of the church is not to use a tool, but to live well in the time of the internet.

How far can we go with this… in your book you mention that some Christian churches and confessions are talking about on-line sacraments…
This is the problem. We’ll see… The Church has a mission to walk with the people, it is a job of enculturation. Since the people live in a digital environment, the Church has to be in this digital environment as well. The Church has to be with the people, where the people are.

But do you imagine on-line confessions in the future, or things like that?
We have to understand well what the digital environment is. It is not something that substitutes the physical environment. We have only one life and we live it in different environments, the physical and the digital. There is no opposition between the two, we have to live well in both. The best environment for confession, for example, is the physical environment. Because you have to be there, with a person, you have to relate with the confessor, face to face. It is different, they are different opportunities. That is why we can’t confess online, or by Skype for example. You have to be present.

There are different ways of having communities on-line, but the Church has always stressed the importance of physical presence. You believe this is irreplaceable?
Irreplaceable, yes.

In your book you ask two main questions: What impact does the net have on the way we understand the church and ecclesial communion? And what impact does it have on the way we think about Revelation, Grace, the Liturgy, the Sacraments and classical theological issues?
The main conclusion is that the internet has a big impact on our way of thinking in general. Since Theology is thinking about faith, my question is how can the internet have a big impact on our way of thinking about faith. It is an open question, we have to work a lot. The goal of this work, that I call Cybertheology is to understand how the net has an impact on our thinking about faith.

How “plugged in” are you? How much do you use the social media?
I am on twitter, facebook, instagram. I try to be present. I lived on Second Life for one month, so I try only to write about things I really know. For me it is very important to be with the people where they are, in this digital environment. From here I feel questions rising, like how can we search for God in a time of search engines. Or how can we live a spiritual presence, when we live in a virtual environment.

We hear so much coming from the Vatican about the importance of social communications. Do you think there are enough people at the Vatican who are present in the digital environment?
Oh yes! The Pontifical Council for Social Communications is doing a very good job. They are very open minded, they are trying to understand how the Church can be present in a very good way in the digital environment. It is not about research, it is about life.

Within the digital world, where people can become quite isolated, do you feel there is a rise in the search for God?
The internet is not a revolution, rather it is an old revolution. The desires we find there are the traditional desires. Searching for God in the digital environment means exactly the same as it means in the physical environment. There isn’t a difference. The human being who is in the digital environment is the same one in the physical environment, the desires are the same. We are experiencing great desire for God in the digital environment, as well.

Are there enough answers for people who search for God online, or does the Church need to do more?
The Church needs to do more, of course, and to understand better how to be there.


Wednesday, 25 September 2013

O Espírito de Bergoglio?

Quem costuma falar ou escrever em público sabe que dizer uma coisa é diferente de comunicá-la. Qualquer afirmação pode ser mal interpretada e é preciso ter coragem, ou ser simplesmente impertinente, para arriscar dizer o que quer que seja.

É por isso que, como Richard Weaver argumenta de forma brilhante, existe uma ética da retórica. É preciso ter cuidado não só com o que se diz, mas como se diz. O como faz parte do quê. Um apelo moral cuidadosamente preparado mas insípido não chega a lado nenhum. A apresentação descuidada de um argumento complexo deixa as pessoas mais incertas e ansiosas do que antes.

O que nos conduz à recentemente publicada e longa entrevista com o Papa Francisco. Os media agarraram-se a várias frases sobre como a Igreja não deve falar sempre e só de aborto, contracepção e homossexualidade, que precisa de “um melhor equilíbrio”, com mais enfoque no amor de Deus e menos “insistência” ou “obsessão” sobre regras rígidas e por vezes triviais. Previsivelmente, a imprensa está a clamar que o Papa quer dizer que os ensinamentos morais da Igreja mais controversos são “secundários”.

Têm surgido defesas eloquentes do Papa, entre os quais destaco esta do meu ex-colega George Weigel. O George contextualiza correctamente as afirmações de Francisco – bem como o seu papado em geral – numa ofensiva evangélica. Ao colocar as pessoas novamente em contacto com o amor de Deus, argumenta o Papa, elas estarão disponíveis novamente para acatar os ensinamentos morais mais difíceis.

Quem quiser sentire cum Ecclesia (pensar com a Igreja) e acredita que o Espírito Santo age nas eleições papais, tem de adaptar-se a este novo espírito de Francisco.

Já devem estar a antever um “mas”, por isso deixem-me pôr o dedo na ferida. Não obstante tudo o que escrevi acima, quando este Papa dá entrevistas (algo que não gosta de fazer), o resultado é quase sempre desconcertante. E pode haver boas razões para isso. Não se pode impedir as pessoas de nos interpretar mal, mas entre outras coisas o Papa é um professor, e um bom professor tem uma responsabilidade moral para se proteger das más-interpretações.

Já lá vou às especificidades, mas quero só indicar – na esperança de que esteja enganado – algo que temo já ter começado.

Depois do Vaticano II a Igreja atravessou décadas de sobressalto por causa do “Espírito do Vaticano II”, um espírito que contradizia muitos dos documentos conciliares e muita da história do Cristianismo, mas isso não interessa, esse “espírito” progressista levava tudo à sua frente.

Creio que estamos perto do que se poderá chamar o “Espírito de Bergoglio”, outro período de confusão baseado, mais uma vez, não nas palavras do Papa, mas nas emoções desequilibradas que algumas das suas afirmações mais casuais provocam.

As palavras em si, embora sempre ortodoxas, não deixam de ter os seus problemas. O meu colega Brad Miner realça que 1.300.000.000 bebés foram abortados em todo o mundo desde os anos 80. A Igreja acabou de falar firmemente sobre a necessidade de se impedir a morte de inocentes na Síria. É uma obsessão gritar aos quatro ventos sobre a enorme matança moderna dos inocentes?

O Papa tem razão quando diz que é um erro pastoral obcecar ou insistir a toda a hora sobre certos pecados. É completamente contraproducente, de um ponto de vista meramente humano, interagir com as pessoas dessa forma.

A questão aqui, porém, não tem tanto a ver com uma abordagem pastoral. Devo admitir que não sei a quem é que o Papa se referia em relação à obsessão, para além de uns poucos zelotas. Nos Estados Unidos – e podemos dizer o mesmo sobre a Europa e a América Latina – temos falado do amor salvífico de Deus para com os pecadores há décadas. Os papados de João Paulo II e de Bento XVI não foram eras de moralismo autoritário. Foram esforços sofisticados para nos dar o verdadeiro Concílio Vaticano II – uma proclamação do poder salvífico de Deus e um claro farol moral, em conjunto. Essa é que tem sido a experiência da maioria de nós na Igreja ao longo das últimas décadas.



Mas o Papa Francisco acrescenta algo:

Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais.

Essa urgência, irradiação e frescura são novas – e bem-vindas.

Mas se o Papa me ligasse – e ele é o género de fazer essas coisas, mas não vou esperar sentado – eu apontar-lhe-ia a frase ambígua com que inicia a passagem. É verdade: nem udo no Catolicismo se encontra no mesmo plano. Bento XVI e os bispos americanos, por exemplo, tentaram durante anos explicar que a vida tem precedência sobre questões secundárias de política. Não duvido que Francisco esteja de acordo, mas antes de chegar ao seu ponto forte evangélico, concedeu a todos os que gostariam de distorcer-lhe as palavras uma abertura desnecessária.

Aqueles que travam estes combates em público já conseguem prever as bocas do outro lado: “E se parassem de falar o tempo todo sobre o aborto [ou contracepção ou casamento gay]. Até o Papa já vos pediu para largarem o osso”. E não estarão totalmente errados.

O mundo agradece que a Igreja abandone o campo de batalha e permita ao mundo secular continuar a matar bebés em quantidades inimagináveis, destruir o casamento e, pelo caminho, reduzir a liberdade religiosa. Nenhuma destas coisas será benéfica para os esforços de Francisco a longo prazo.

Francisco procura trazer um novo espírito católico para o mundo, e isso é louvável. Esperemos que o resultado seja o que ele procura, e não um espírito progressista que outros imponham a ele e à Igreja.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 21 de Setembro 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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