Recebi alguns pedidos para comentar esta polémica sobre o
livro do Cardeal Sarah sobre o celibato. A primeira coisa que me vem à cabeça é
dizer que tudo isto é uma grande trapalhada e tudo é muito triste e feio. Era
evitável e começa a ganhar contornos absurdos, com as notícias mais recentes de
que apesar do pedido expresso feito por Bento XVI, através do seu secretário
pessoal, e reiterados pelo cardeal Sarah, a editora em língua inglesa recusou e
vai mesmo atribuir o livro aos dois.
Há aqui algo que está mal contado. O Cardeal Sarah
insiste que recebeu luz verde do Papa emérito para avançar com a obra, que
estava sempre entendido que seria um livro assinado pelos dois, incluindo a
introdução e a conclusão, e que Bento XVI viu e aprovou a capa. O arcebispo Ganswein rejeita essa versão dos factos e, embora diga que não põe em causa a boa
fé de Sarah, esclarece que o Papa não quer o seu nome associado à obra enquanto
autor, que não autorizou a capa e que não ajudou a escrever a introdução e a
conclusão.
Mas há aqui um detalhe que está a passar despercebido… A
que capa é que o cardeal Sarah se refere? Que capa é que Bento XVI viu (se é
que viu alguma) e aprovou? É que o livro sai amanhã em duas versões diferentes:
a francesa, original e a tradução inglesa. A versão francesa tem apenas o nome
dos dois na capa e o título e a editora já disse que vai deixar claro que Bento
XVI contribuiu para a obra, e não que é coautor.
Já a edição da Ignatius Press, que insiste em manter a coautoria,
tem um subtítulo que diz: “Sacerdócio, celibato e a crise da Igreja Católica”.
É o mesmo livro, mas estas capas são muito diferentes. A versão inglesa dá a entender
que existe uma crise na Igreja de que Francisco é Papa e deixa subentendido que
Bento XVI está a tomar um partido nessa crise. Julgo que terá sido daí que veio
grande parte do desconforto.
Mas é possível ir mais atrás, à decisão do próprio
cardeal Sarah de escrever este livro e publicá-lo precisamente numa altura em
que o Papa Francisco se prepara para publicar uma exortação pós-sinodal sobre a
Amazónia e em que a questão da ordenação sacerdotal de homens casados está em
cima da mesa.
Não saberia o cardeal Sarah que a publicação deste livro
seria incómoda para a igreja e para o Papa Francisco? Claro que sabia. E a
prova de que sabia é que no comunicado que publicou hoje, defendendo a sua
versão dos factos, diz mesmo que convidou Bento XVI a participar na obra nos
seguintes termos. “Imagino que pense que as suas reflexões poderiam não ser oportunas
por causa das polémicas que causarão na imprensa”.
Ou seja, ele sabia já de antemão que a publicação deste
livro, nesta altura, causaria polémica, ainda mais se viesse com o nome de
Bento XVI. Então porque é que avançou com o projecto? Porque é que insistiu em
colocar Francisco e Bento XVI nesta posição?
Poderão dizer que o fez porque sentia que não tinha outra
hipótese que não falar. Tudo bem, mas então que deixe de insistir em dizer que
a sua obediência filial ao Papa Francisco é absoluta, como teima em fazer. Não se
mostra obediência filial absoluta colocando a pessoa em questão numa situação
embaraçosa e pondo em causa a decisão que está prestes a tomar, seja ela qual
for.
Já pensaram? Imagine-se que Francisco estava a
preparar-se para rejeitar a ideia de ordenar homens casados ao sacerdócio na
Amazónia? Como é que o pode fazer agora sem parecer que está a ceder a
pressões?
Eu não tenho a menor dúvida de que o cardeal Sarah é um homem
bom e espiritualmente profundo, os seus escritos assim o indicam. Mas começo a
ter grandes dúvidas sobre o seu bom-senso. É aflitivo como se tem deixado
manipular, no passado, por fações que lutam contra o magistério do Papa
Francisco e é aflitiva a ingenuidade com que se comportou neste caso, com a
agravante de envolver na polémica o grande Papa Bento XVI.