Recebi alguns pedidos para comentar esta polémica sobre o
livro do Cardeal Sarah sobre o celibato. A primeira coisa que me vem à cabeça é
dizer que tudo isto é uma grande trapalhada e tudo é muito triste e feio. Era
evitável e começa a ganhar contornos absurdos, com as notícias mais recentes de
que apesar do pedido expresso feito por Bento XVI, através do seu secretário
pessoal, e reiterados pelo cardeal Sarah, a editora em língua inglesa recusou e
vai mesmo atribuir o livro aos dois.
Há aqui algo que está mal contado. O Cardeal Sarah
insiste que recebeu luz verde do Papa emérito para avançar com a obra, que
estava sempre entendido que seria um livro assinado pelos dois, incluindo a
introdução e a conclusão, e que Bento XVI viu e aprovou a capa. O arcebispo Ganswein rejeita essa versão dos factos e, embora diga que não põe em causa a boa
fé de Sarah, esclarece que o Papa não quer o seu nome associado à obra enquanto
autor, que não autorizou a capa e que não ajudou a escrever a introdução e a
conclusão.
Mas há aqui um detalhe que está a passar despercebido… A
que capa é que o cardeal Sarah se refere? Que capa é que Bento XVI viu (se é
que viu alguma) e aprovou? É que o livro sai amanhã em duas versões diferentes:
a francesa, original e a tradução inglesa. A versão francesa tem apenas o nome
dos dois na capa e o título e a editora já disse que vai deixar claro que Bento
XVI contribuiu para a obra, e não que é coautor.
Já a edição da Ignatius Press, que insiste em manter a coautoria,
tem um subtítulo que diz: “Sacerdócio, celibato e a crise da Igreja Católica”.
É o mesmo livro, mas estas capas são muito diferentes. A versão inglesa dá a entender
que existe uma crise na Igreja de que Francisco é Papa e deixa subentendido que
Bento XVI está a tomar um partido nessa crise. Julgo que terá sido daí que veio
grande parte do desconforto.
Mas é possível ir mais atrás, à decisão do próprio
cardeal Sarah de escrever este livro e publicá-lo precisamente numa altura em
que o Papa Francisco se prepara para publicar uma exortação pós-sinodal sobre a
Amazónia e em que a questão da ordenação sacerdotal de homens casados está em
cima da mesa.
Não saberia o cardeal Sarah que a publicação deste livro
seria incómoda para a igreja e para o Papa Francisco? Claro que sabia. E a
prova de que sabia é que no comunicado que publicou hoje, defendendo a sua
versão dos factos, diz mesmo que convidou Bento XVI a participar na obra nos
seguintes termos. “Imagino que pense que as suas reflexões poderiam não ser oportunas
por causa das polémicas que causarão na imprensa”.
Ou seja, ele sabia já de antemão que a publicação deste
livro, nesta altura, causaria polémica, ainda mais se viesse com o nome de
Bento XVI. Então porque é que avançou com o projecto? Porque é que insistiu em
colocar Francisco e Bento XVI nesta posição?
Poderão dizer que o fez porque sentia que não tinha outra
hipótese que não falar. Tudo bem, mas então que deixe de insistir em dizer que
a sua obediência filial ao Papa Francisco é absoluta, como teima em fazer. Não se
mostra obediência filial absoluta colocando a pessoa em questão numa situação
embaraçosa e pondo em causa a decisão que está prestes a tomar, seja ela qual
for.
Já pensaram? Imagine-se que Francisco estava a
preparar-se para rejeitar a ideia de ordenar homens casados ao sacerdócio na
Amazónia? Como é que o pode fazer agora sem parecer que está a ceder a
pressões?
Eu não tenho a menor dúvida de que o cardeal Sarah é um homem
bom e espiritualmente profundo, os seus escritos assim o indicam. Mas começo a
ter grandes dúvidas sobre o seu bom-senso. É aflitivo como se tem deixado
manipular, no passado, por fações que lutam contra o magistério do Papa
Francisco e é aflitiva a ingenuidade com que se comportou neste caso, com a
agravante de envolver na polémica o grande Papa Bento XVI.
Muitos católicos, incluindo os mais fiéis, parecem ter
desistido de defender o celibato sacerdotal. Na nossa era pós-revolução sexual,
muitos vêem o celibato como uma repressão pouco saudável das vontades sexuais,
fomentando a epidemia de abusos sexuais na Igreja que hoje conhecemos. Segundo
esta linha de pensamento, se nos queremos livrar dos abusos sexuais na Igreja,
temos de nos livrar do celibato.
Esta é uma solução que, nas palavras de um crítico
literário, é “limpa, plausível e errada”.
O problema não é o celibato. Dizer que os abusos sexuais
entre o clero são causados pelo celibato é como dizer que a culpa do adultério
é do casamento. Em ambos os casos estamos perante violações de votos sagrados,
promessas que beneficiam da ajuda do Senhor para serem vividas fielmente. Por
outras palavras, permitir aos padres que se casem não evitaria as transgressões
sexuais. O casamento, infelizmente, não é um espaço imune ao escândalo e ao
abuso sexual.
O problema não está no celibato, está no celibato mal
vivido. É causado por padres que não vivem castamente. A resposta não é a
eliminação do celibato, mas exigir que os padres, tal como as pessoas casadas,
vivam a exigência da sua vocação.
De facto, o celibato é em si um dom precioso e
insubstituível para a Igreja. Costuma ser definido de forma negativa, como “não
casar”, mas é antes uma escolha positiva, uma forma poderosa de amar, com uma
unicidade de propósito e uma abertura de coração única. Permite a um padre
viver a sua paternidade espiritual com particular força e eficácia.
Durante séculos os benefícios espirituais do celibato
sacerdotal enriqueceram a Igreja e até a cultura mais alargada. Abolir o
celibato num momento de desespero não só não resolveria o problema dos abusos
sexuais, como também privava as gerações futuras das inúmeras graças de
paternidade espiritual que nos chegam através do celibato sacerdotal.
Mas então como é que podemos explicar esta tempestade de
escândalos? A história não é bonita, mas há boas notícias para o fim.
Em primeiro lugar, durante décadas houve
surpreendentemente pouco escrutínio dos candidatos à formação sacerdotal.
Normalmente bastava a recomendação de um pároco e uma demonstração de aptidão
académica, não havendo investigação rigorosa da maturidade espiritual nem do
carácter moral, referências ou exames psicológicos.
A Igreja insistiu persistentemente que homens com
inclinações homossexuais não deviam ser admitidos ao seminário (o documento
mais recente neste sentido foi aprovado pelo Papa Francisco em 2016). Todavia,
estes homens eram admitidos em grande número.
A maioria dos padres com atração pelo mesmo sexo não são,
claro, culpados de abusos sexuais e vivem fielmente. Ainda assim, a grande maioria dos casos de abusos por padres envolvem o abuso homossexual de
rapazes. Por mais controversa que tenha sido, a sabedoria da Igreja tornou-se hoje claríssima.
Ignorá-la tem tido consequências terríveis para a vida de milhares de jovens ao
longo de várias décadas.
Em segundo lugar, durante anos os seminaristas receberam
uma formação lamentavelmente inadequada para viver o celibato casto. Segundo o
testemunho de padres formados nesses anos turbulentos entre as décadas de 70 e
80, a vida interior e as práticas ascéticas necessárias para sustentar uma
castidade saudável não eram inculcadas. Muitos homens foram mesmo ordenados com
a ideia errada, reforçada pelos formadores no seminário, de que a obrigação do
celibato seria em breve abolida.
Nalguns seminários existia uma cultura de libertinagem
sexual entre seminaristas e até entre formadores que corrompia jovens
vulneráveis ou afastava, enojados, os que procuravam a virtude. A situação era
tanto pior quanto, em muitos seminários, a dissidência teológica e a
experimentação litúrgica eram uma praga, levando a uma duplicidade hipócrita
que os homens levaram com eles para o sacerdócio.
A infidelidade intelectual conduz, invariavelmente, à
infidelidade moral. Se eu posso distorcer os ensinamentos da Igreja ao sabor
das minhas opiniões, preferências e desejos, porque é que hei de limitar essa
arrogância às proposições dogmáticas e normas litúrgicas? Porque não aos
preceitos morais também? O preço a pagar na Igreja pela dissidência que durante
anos fermentou nas faculdades de teologia tem sido muito alto tanto em termos
de confusão doutrinal e litúrgica como, diria, em termos de abusos sexuais.
Por fim, depois de ordenados, alguns dos padres que
cresceram neste clima de duplicidade permissiva foram, sem grandes surpresas,
infiéis. E raramente foram censurados por isso pelos seus superiores. Alguns
foram transferidos para novos serviços, quase nenhum foi demitido do estado
clerical. Muitos bispos perderam a coragem e a confiança. A dimensão da
corrupção entre o clero era uma vergonha embaraçosa para os bispos e o
resultado é que surgiu uma cultura de profundo secretismo que agora está a ser
revelada.
Felizmente a história não acaba aqui. Contra todas as
expectativas, muitos padres e bispos permaneceram fiéis através dessas décadas
negras e hoje honramos o seu testemunho heroico. Depois, em 1992, foi publicado
o documento seminal Pastores Dabo Vobis em que São João Paulo II propôs um retrato estimulante do
sacerdócio e da formação nos seminários.
Nos anos seguintes este documento foi aplicado de forma
desigual pelo mundo, mas o aumento da qualidade da formação foi inquestionável.
Os requisitos para admissão na maioria das dioceses têm aumentado e a qualidade
de formação na maioria dos seminários melhorou drasticamente. Embora muitas
pessoas não o compreendam, a reforma do clero começou há bem mais de duas
décadas.
Claro que ainda há muito para fazer. Uma vez que o
celibato é uma forma privilegiada de viver a paternidade espiritual, devemos
continuar a melhorar a seleção e formação de futuros padres à luz dessa
paternidade. Eles devem estar imbuídos de uma identidade masculina confiante e
um desejo normal e saudável pelo casamento e pela paternidade, bem como a
capacidade madura de poder abdicar destes grandes dons para se poderem focar na
paternidade sobrenatural e possuir, ou demonstrar aptidão para, as qualidades e
virtudes humanas dos melhores pais naturais.
Depois de ordenados, os padres devem ter de viver segundo
os mais altos padrões de castidade. Deve-se lidar com as violações desse
compromisso de forma consistente, imediata e justa, com a seriedade
correspondente a uma violação de confiança grave contra a família espiritual. A
castidade – serena, profunda e alegre – ao serviço da paternidade espiritual é
sem dúvida o caminho para uma reforma genuína no sacerdócio.
Com a melhor das intenções, os médicos medievais
costumavam tratar as doenças sangrando os seus pacientes. Sem o saber, estavam
a privá-los dos nutrientes de que precisavam para se curar. Aqueles que
procuram curar a doença dos abusos sexuais na Igreja sangrando-a da graça do
celibato não conseguirão curar a doença e privarão o corpo de Cristo dos
nutrientes tão necessários à restituição da saúde.
Se queremos abordar o problema dos abusos sexuais
praticados por membros do clero, podemos começar por exigir a mesma fidelidade
aos nossos padres que exigimos a toda a gente, convidando-os a abraçar, através
do dom do celibato, as bênçãos da paternidade sacerdotal de que precisamos mais
do que nunca.
O padre Carter Griffin é sacerdote da Arquidiocese de
Washington. Está envolvido, desde 2011, com a seleção e formação de
seminaristas no Seminário São João Paulo II, em Washington, DC. O padre Griffin
é licenciado pela Universidade de Princeton e é ex-oficial da marinha
americana. O seu livro Why Celibacy?: Reclaiming the Fatherhood of the Priest, será publicado pela Emmaus
Road na Primavera. Uma versão mais longa desta deste artigo pode ser
lido no site do First Things.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de fevereiro de
2019)
Por força das circunstâncias, estive fora vários dias e
sem conseguir mandar o mail noutros. Peço desculpa pelo silêncio, sobretudo
numa altura tão importante para a Igreja portuguesa, com o
anúncio das JMJ de 2022 para Lisboa.
Aqui
encontram todos os textos feitos no âmbito das Jornadas do Panamá, mas
deixem-me destacar estes, que têm a minha mão:
No avião de volta para Roma o Papa falou
do aborto, do
celibato, da
Venezuela e disse que não devemos ter expectativas exageradas sobre a
cimeira dos abusos, marcada para Fevereiro.
Transcrição integral da entrevista feita ao padre Ricardo
Neves em Dezembro de 2009 e que foi incluída na série “Vidas Consagradas” feita
para o Ano Sacerdotal. O padre Ricardo, de quem tive o privilégio de ser próximo e amigo, morreu no passado dia 6 de Agosto.
Pode contar-nos um
pouco da sua história?
Tenho 37 anos e sou filho único, os meus pais são do
Alentejo, casaram e viveram em Lisboa, e depois em Rio de Mouro. Fiz o trajecto
normal de estudos e de catequese. Porque a minha mãe era praticante mas o meu
pai não, e tinham um acordo que o meu pai começava a ir à Igreja quando eu
começasse a ir à catequese.
Vida normalíssima em casa, e na Igreja, em termos de vida
cristã normal e muito gira a partir de certa altura. Na minha adolescência a
participação na vida da comunidade era muito intensa, muito participada, com
muito crescimento quer pessoal quer comunitário, que na altura foi o que me
interpelou, na altura também através da figura do pároco, o célebre padre
Alberto Neto, famoso em Lisboa por causa do caso da Capela do Rato, e que tinha
sido coadjutor em Belém.
Foi um homem que me interpelou imenso pelo tipo de pastor
que era, e porque me foi desinquietando, foi fazendo umas “perguntas indecentes”,
perguntando se já tinha pensado nisto e naquilo.
E começou a crescer dentro de mim… Ao mesmo tempo que havia
uma enorme alegria em ser cristão e fazer parte da vida da Igreja, comecei a
interrogar-me o que é que os outros teriam a ver com isso, especialmente porque
na minha experiência de liceu e de escola havia muita gente que conhecia que
não era cristã e que podia beneficiar muito se conhecesse e experimentasse o
que eu conhecia.
Isso começou a tornar clara a interrogação de ser sacerdote
e de consagrar a minha vida a esse serviço.
Depois entrou um período de reflexão, até que fui dizer a
Deus que se decidisse, para eu saber o que fazer. Pedi-lhe: “Manda-me um sinal,
porque se me disseres o que queres eu faço”. E foi ali um conjunto de
acontecimentos muito giro. Nessa altura morreu o meu pároco, foi um
acontecimento trágico, morreu assassinado, e eu tinha recebido um convite para
ir para o pré-seminário, e fui falar com o padre que o estava a substituir e
perguntei como devia fazer para preencher o nome do pároco. E o padre Armindo
agarrou nos papéis e disse: “Eu acho que devias era entrar no seminário, não
achas que é tempo de entrar no seminário?” E para mim isso foi a resposta ao que
eu tinha pedido de joelhos. E para mim foi muito claro. Disse-me para pensar
nisso e eu fui para casa a pensar que não ia ter que pensar mais, que já lhe
podia dizer.
E então entrei para o seminário aos 15 anos e fiz o trajecto
normal, estive dois anos aqui [em Caparide], mais quatro em Almada e outros quatro
nos Olivais.
Sendo filho único, a vocação
foi bem aceite?
Lembro-me que nesse dia cheguei a casa e os meus pais
estavam no jardim, o meu pai estava em cima de um escadote a apanhar ameixas, e
a minha mãe estava com o balde na mão. Eu abri o portão, cumprimentei-os e
disse: “Olhe, eu vou para o Seminário”, e o meu pai, que estava no alto da
ameixeira nem olhou para mim, disse à minha mãe: “O Rapaz está parvo, acho
melhor ires para casa”.
As semanas que se seguiram foram de debate muito intenso.
Não para contrariar, mas porque queriam saber se era de facto consistente o que
eu queria. Depois deixaram-me vir.
Foi particularmente complicado para a minha mãe, porque
coincidiu com uma fase em que o meu pai passou a estar mais ausente por causa
do trabalho e para a minha mãe houve uma solidão que foi difícil de gerir. À medida que me viam a crescer feliz e realizado, isso foi sendo mais harmonioso
para eles.
Depois de ordenado, foi
logo trabalhar para o seminário?
Imediatamente.
Quando é que se
tornou vice-reitor?
Há sete anos, em 2002.
Qual é o percurso
normal de um seminarista, desde que entra até passar ao seminário maior, e qual
é o seu papel ao longo desse percurso?
A Santa Sé indica que a formação tem de ter pelo menos seis
anos de estudos. No Patriarcado de Lisboa esse percurso está feito em sete,
três aqui, no seminário vocacional, e quatro no seminário dos Olivais que
chamamos o seminário pastoral. Portanto três anos de discernimento e
aprofundamento vocacional e quatro anos de formação pastoral e de preparação
mais imediata para a ordenação.
Aqui o nosso grande objectivo é proporcionar um percurso que
permita àquele candidato, e a nós Igreja, nomeadamente a equipa formadora que
está aqui em nome do Bispo, fazer um discernimento sobre o chamamento de Deus
para aquela pessoa e a capacidade que tem para responder, e chegar a uma
conclusão sobre isso. Portanto todo o processo dos três anos está orientado
para isso, em diferentes dinâmicas: A dinâmica do crescimento espiritual; A
dinâmica do crescimento intelectual e da formação intelectual; E a dinâmica do
crescimento humano e afectivo, que vão concorrendo mutuamente até se chegar a uma
síntese que permita ver.
Claro que o ponto de confronto são aqueles elementos que a
Igreja acha necessários para o ministério ordenado, há um conjunto de exigências,
de ritmos de vida e de conteúdos, que vão sendo oferecidos, e que são aqueles
que se pretendem para quem quer ser padre, que vão servindo por um lado de
motor de crescimento e por outro de margem de confronto, para ver se há
integração e adequação ou não.
Enquanto vice-reitor,
qual é a sua função?
O vice-reitor tem a coordenação-geral pedagógica da casa,
quer o que diz respeito ao percurso global, quer o que diz respeito ao
acompanhamento individual. E depois tenho também a parte administrativa.
Quantos padres
trabalham aqui?
Somos três padres na equipa formadora. Há o director
espiritual, que os acompanha individualmente e quem os confessa, e depois nós
os outros dois padres, eu o Vice-reitor e o padre Nuno Amador, que é o
prefeito, que acompanhamos a parte externa e não fazemos a direcção espiritual,
dividimos os três anos entre nós. Neste momento eu acompanho o primeiro ano, o
chamado propedêutico, e os finalistas. No que diz respeito ao propedêutico
acompanho-os tanto nas actividades de grupo como também no percurso individual,
e aí faço parelha com o director espiritual, e acompanho os finalistas, até
porque como é um ano de decisão é preciso um acompanhamento mais apurado para
chegar a uma conclusão final.
Parte do seu trabalho
é ajudar os seminaristas a discernir se têm mesmo vocação para o sacerdócio ou
não, é fácil detectar isso?
Isso é o mais difícil! Fácil não é. Não se trata de fácil ou
difícil. O processo é um de amadurecimento da pessoa. Não está aqui em jogo
simplesmente a aquisição de competências, um técnico religioso, ou um técnico
sacramental. Pretende-se ver se esta pessoa cresce numa unidade pessoal que se
identifica com aquele projecto. Isso é difícil, porque por um lado e muito
dinâmico, por outro lado os timings são muito diversificados, e porque uma boa
parte disto está dependente da liberdade de Deus, que é um mistério muito
grande.
O segredo é acompanhar e intervir, em cada processo, e temos
pessoas para quem o amadurecimento acontece mais depressa e para quem há uma
clareza sobre a continuidade do percurso mais cedo, e outras para quem acontece
mais tarde. Contudo, a formalidade da decisão no que diz respeito à adesão à
vocação sacerdotal e a passagem para os Olivais, só acontece no terceiro ano,
só aí é que pedimos formalmente uma decisão pública assumida e comprometida, e
nós também tomamos essa decisão.
É verdade que há percursos que são muito turbulentos e que
andam para trás e para a frente, e há outros que são mais lineares, mais
tranquilos.
Há uma taxa bastante
grande de desistências no sacerdócio, como vê isso?
As taxas de desistência são uma coisa… No seminário
vocacional há uma taxa maior do que no pastoral, porque de facto o seminário
vocacional é um seminário para discernir e decidir, por isso é mais normal
haver mais saídas. No Seminário dos Olivais é raríssimo, porque os que passam
para lá já têm uma decisão tomada. Só em casos excepcionais é que saem.
Aqui é natural haver saídas porque é para nós muito claro
que este é um processo aberto, um processo que está começado com indícios de
vocação sacerdotal e de adesão a isso, mas que precisa de ser aprofundado, e a
regra fundamental para ele ser aprofundado é uma grande liberdade de parte a
parte. E portanto, em alguns casos percebe-se que a vocação é o matrimónio, ou
uma vida religiosa, ou uma vida consagrada e por isso reencaminha-se para esses
fins.
Existe mesmo uma
crise de vocações, como tanto ouvimos dizer?
Os anos 60 / 70 foram anos, tecnicamente, de muita crise de
vocações, e isso correspondeu à redefinição dos seminários e do papel do
sacerdote na Igreja. Na segunda metade dos anos 70 os seminários aqui da
diocese passaram de 180 ou 150 alunos para 12 ou 15 alunos, no espaço de dez
anos.
Isso significou que houve um processo de perceber as
motivações profundas que havia nas pessoas que encetavam este caminho, e
aquelas cujas motivações não coincidiam com o que estava definido, era melhor
caminharem para outro sítio.
Progressivamente, desde os anos 70 até agora tem havido um
crescimento sustentado. Creio que o problema é que o número que temos agora não
é o necessário para repor as faltas que temos. Se compararmos com a grande
quebra dos anos 60/70, temos números bons. Não temos é a capacidade de refazer
o tecido dos presbíteros com os números que se pretendia para manter a
organização pastoral como ela está.
Os senhores bispos têm de pensar muito nisso, e isso também
põe em questão a maneira como se organiza o trabalho dos sacerdotes, porque há
um tipo de pastoral que se fazia há muito tempo, que precisava de muitos padres
e de um tipo de presença de padres que hoje já não pode ser assim, e ao mesmo
tempo não temos padres para compensar isso, e depois a realidade do número das
vocações também é muito variável de diocese para diocese. Há dioceses que têm
para a sua estrutura um óptimo número, e outras que têm menos. Isso tem a ver
com a vitalidade cristã das próprias comunidades. Quando essa vitalidade é
crescente e tem preocupações de intervir no mundo, naturalmente aparecem
vocações. Se há um conjunto de comunidades com um Cristianismo mais de
manutenção, mais absorto, o número de vocações também é menor.
E os seminaristas
estão a ser preparados para essa nova realidade, ou para uma realidade que já
não vai existir no tempo deles?
Nós temos a preocupação, principalmente nos Olivais, mas
aqui também, de por um lado dar-lhes a conhecer a realidade como ela é, que não
muda num estalar de dedos, e ao mesmo tempo de levá-los a reflectir sobre as
metas onde queremos chegar. Porque me parece que é preciso muito cuidado e
sabedoria para formar neste percurso de transição.
Porque não podemos formar gente que esteja tão iluminada com
as metas onde vai chegar que depois, quando for para as comunidades concretas
não se revê e não aguenta e dá cabo daquilo, e também não podemos formar para
gente que só faz o que ali está e não evolui com a comunidade para outro lado.
Por isso a nossa preocupação tem sido, por um lado ajudar a integrar na
realidade como ela está, e ao mesmo tempo iluminar para as metas onde queremos
chegar.
Depois, também numa diocese como é Lisboa, as dinâmicas
pastorais são muito diferentes. A pastoral dentro da cidade, propriamente dita,
na cintura de Lisboa e no Oeste, seja o mais próximo ou o mais distante, como
Alcobaça, Nazaré, etc. são realidades muito diferentes e que vão precisar de
posturas e de sensibilidades muito diferentes. Há comunidades que, a maneira
como se organizam, é muito rural, com esquemas muito tradicionais e que
funcionam naquela comunidade, por isso as posturas vão ser diferentes e tem de
se atender a isso.
A Igreja também se
tem tornado mais exigente com os candidatos que aceita para ordenação?
Nós procurámos, nos últimos 30 anos as pessoas que vêm para
o seminário são pessoas que têm inquietações vocacionais e que têm atracção
pelo ministério sacerdotal. Não vêm para aqui porque querem estudar, ou porque
tiveram um desgosto amoroso, ou porque são o filho mais novo e porque a vida
clerical podia ser uma alternativa. Isso tudo mudou com o concílio Vaticano II.
Depois, nós procuramos que, prévio à entrada para o
seminário, haja um acompanhamento feito ou pelo seminário ou pelas estruturas
da diocese que estão encarregues disto, seja os pré-seminários, seja a pastoral
das vocações, de modo a aferir se de facto às motivações são correctas.
Às vezes ainda nos aparecem pessoas a bater à porta a pedir
para entrar e nem baptizados são. Ainda há pouco tempo esteve aí um rapaz que
não é baptizado, mas que achava que na fase da vida em que está, podia ser
interessante. Ainda aparece isto. Mas nos casos normais fazemos um
acompanhamento por forma a perceber se há condições para entrar.
Nos últimos anos a Igreja tem sido abalada pelos escândalos de abusos sexuais por parte de
sacerdotes. É possível detectar futuros infractores nesta fase do seminário?
Espero que sim! Temos duas ferramentas fundamentais para
isso. Na diocese de Lisboa, há 20 anos que fazemos uma coisa que agora vem
recomendado pela Santa Sé, que é o rastreio psicológico e o acompanhamento
psicológico.
Portanto o seminário actualmente tem uma psicóloga, que
submete todos os seminaristas a uma bateria extensa de testes que têm dois objectivos
fundamentais: Primeiro, traçar o perfil nas áreas fundamentais da pessoa, desde
a área cognitiva à área afectiva e sexual, de modo a que possamos interagir e
formar de uma maneira mais adequada. Depois, os testes têm também o objectivo
de detectar algum desvio psicológico que possa haver, não só nessa área, mas
noutras também, doenças psiquiátricas que possam aparecer.
Quando detectamos algum caso em que há algum caso de traços
objectivos de desvio patológico, e devo dizer que em 12 anos no seminário nunca
nos aconteceu ter algum caso de desvio sexual, graças a Deus. Se há um caso de
desvio patológico, isso é veemente, este tipo de educação implica um equilíbrio
humano que não se compadece com esses desvios.
Mas pode acontecer também haver desequilíbrios
circunstanciais, são etapas do crescimento, e nesses casos a psicóloga também
acompanha durante o tempo que for preciso, em processo psico-terapêutico o
desenvolvimento daquela pessoa, em diálogo com a equipa formadora.
Esta ferramenta tem sido de imensa utilidade, e para os
seminaristas também tem sido, têm tirado imenso proveito.
Depois há uma segunda ferramenta que é o nosso
acompanhamento directo, personalizado, de todos os dias, onde a preocupação de
analisar a maturidade afectiva, a universalidade afectiva, a capacidade de
relação com os dois sexos, a capacidade adequada de estar com os dois sexos, a
normalidade das atracções e dos envolvimentos afectivos com o sexo oposto são
tidos em conta.
Pode acontecer, também nestes anos ainda não aconteceu, que
haja algum caso que seja conhecido externamente. Alguém que entra e que na sua
terra é conhecido por ter uma tendência que não condiz. No processo de
encaminhamento e de formação, o contacto com os priores permite também
complementar esse rastreio.
Recentemente houve
também indicações de Roma no sentido de que homens com tendências homossexuais
não deviam ser ordenados. Já lhe aconteceu ter que expulsar seminaristas por
essa razão?
A instrução indica, aliás, como tem sido comum aos estudos
de psicologia e daqueles de que nos socorremos, que o desenvolvimento
homossexual tem na sua génese uma destruturação na capacidade da relação com os
opostos. E dizem até os dados estatísticos que há instabilidades tanto nos
relacionamentos, como na gestão de situações de grupo, quer na gestão de
situações de tensão entre pessoas que, para um homossexual, é mais difícil.
Portanto a indicação da Santa Sé é que, para uma vida destas
em que se pede celibato, e a implicação disso que é a continência sexual, em
que se pede uma relação universal, abrangente, capaz de ser simultaneamente
próxima, sem ser absorvente, com as pessoas, pensa-se que o perfil de um
homossexual não é o mais indicado para esta vocação.
Aqui no patriarcado nós já tínhamos essa indicação antes de
vir a instrução, portanto quando nos aparece um caso desses, procuramos
encaminhar a pessoa de forma a, por um lado, e essa é a primeira preocupação,
de integrar o que possa ser a sua tendência homossexual, e depois de perceber
como é que ela se há-de se situar em termos vocacionais, e quais podem ser as
opções vocacionais para uma vida como a dela.
O celibato é uma
vocação, ou é algo que se possa educar num futuro padre?
É uma vocação que precisa de ser educada. O celibato não é
uma coisa natural, se fosse natural, não podíamos escolher essa pessoa. Se uma
pessoa for espontaneamente celibatária, se não tiver capacidade de atracção
pelo sexo oposto, se não tiver capacidade de relação com o sexo oposto na
normalidade de homem/mulher, alguma coisa está mal na sua estrutura
psicológica, afectiva, sexual. Alguma coisa não está equilibrada, o que não a
indicaria para uma vocação destas.
Portanto o celibato é sem dúvida um dom de Deus, um
chamamento de Deus em ordem a uma vocação específica que tem a ver com o
serviço às comunidades. Qualquer vocação precisa de educação. Precisa de uma
resposta da pessoa que a vá fazendo socorrer-se dos meios necessários, dos
crescimentos necessários para corresponder com a sua humanidade àquela vocação.
Não me parece que seja possível educar para o celibato uma
pessoa que não tenha de todo vocação. Pode-se educar uma pessoa para ser
celibatária no sentido formal, mas aqui o celibato no sacerdócio é um homem que
se põe de coração inteiro para o serviço das comunidades. O problema do
celibato não é só a continência sexual, “Aquele homem vai ser impecável, não se
vai meter com mulher nenhuma”, não, aquele homem vai ser celibatário porque o
coração dele, os sentimentos dele, a vida dele é para consagrar às comunidades
que apareçam, portanto a vocação do celibato neste caso é uma vocação para dar
mais, para amar mais. Isso só se educa como dom de Deus, isso não se tem se
Deus não concede, essa capacidade de amar, é impossível.
Como é que se explica
a um rapaz que quer ser padre que, afinal, não poderá ser?
Para mim o mais difícil não é dizer… Se eu tenho que dizer a
um seminarista que não, de todo, especialmente se ele tiver muito concentrado
ali… O que é raro acontecer, porque vamos fazendo um acompanhamento que vai
tornando claro o que são capacidades, o que não são capacidades, dimensões mais
sintonizadas com isto ou não.
O mais difícil é ver uma pessoa que podia crescer e não
cresce. Que poderia desabrochar e não desabrocha. Que podia ser brilhante e é
só mediano. Ou, nesse caso, ver sair um seminarista porque foi a opção mais
fácil. Isso é que custa.
Já saíram seminaristas que deram tudo o que tinham para dar,
e perceberam que esta foi uma experiência boa, mas a vocação é o matrimónio… Óptimo.
Uma pessoa que não dá tudo o que tem é uma pessoa que não é inteiramente
pessoa, isso é o que custa mais.
Em relação ao seu
trabalho no seminário, ao longo destes anos, qual foi o ponto mais alto e qual
o ponto mais baixo?
Não sei dizer… Todos os anos têm pontos altos e pontos
baixos.
Os pontos altos são os pontos onde a nossa intervenção gera
realmente crescimento, onde as insistências, as atenções, geram crescimento
fazem aquela pessoa desabrochar, mergulhar mais seriamente no mistério de Jesus
Cristo, abrir o coração e dar-se. Isso, graças a Deus, acontece todos os anos,
porque todos os anos temos pessoas aqui em etapas diferentes do processo.
Os pontos mais baixos, para mim, são os pontos da minha
fraqueza, do meu erro, e no exercício aqui do ministério os pontos mais baixos
são os das apostas falhadas. A gente insiste, insiste, ou puxa, puxa e não deu.
Ou só deu metade do que podia dar… São pontos baixos. Claro que, como se
imagina, numa vida de gente em casa há pontos baixos que têm a ver com as tensões
vividas quer pessoalmente quer comunitariamente, com algum problema que houve
com este ou com um grupo, e isso também acontece de vez em quando.
Nestes anos houve aqui dois momentos que me parecem muito
interessantes. Um foi no ano 2001, começarmos com a aventura de instituir o ano
propedêutico, redefinindo a organização pedagógica do seminário, integrando o
ano propedêutico. Isso correspondeu a dois anos prévios de estudo, e debate e
trabalho, e depois a implementação, e ver ao longo destes dois anos a
consolidação do projecto tem sido óptimo.
Depois, um outro ponto alto, ou interessante, foi o ano
passado termos encetado uma experiência para completar o processo de
discernimento vocacional de alguns que precisavam de uma distensão dos três
anos, termos integrado na vida paroquial três alunos, que passaram a viver com
dois priores, fazendo trabalho pastoral full-time, mas mantendo uma ligação de
estudo e relação com o seminário. Foi uma abertura para um formato diferenciado
que pode acrescentar valor.
Vivem em comunidade,
não faz falta um toque feminino?
Por acaso faz… Graças a Deus… Bom, somos trinta homens, 27 seminaristas
e 3 padres, e depois temos a Dona Benedita, que tem 101 anos, que foi
governanta do seminário toda a vida, e que é uma presença feminina já bisavó,
por assim dizer. Mas é uma presença feminina curiosa. Graças a Deus, como ela
mantém muita lucidez, permite-lhe catalisar os afectos dos seminaristas como
uma avó, e por outro lado fazer algumas intervenções de mulher, nas
apreciações, na sensibilidade, que é giro. Mesmo a nós padres às vezes
chama-nos atenção para algumas coisas.
Depois temos as empregadas, que tratam das coisas da casa,
as roupas as comidas, e essas coisas, que são senhoras. E depois, graças a
Deus, temos muita gente feminina que passa por cá. A professora de música é uma
senhora, a professora de jornalismo é uma senhora. Há muitas pessoas que são
acompanhadas por padres aqui do seminário ou que fazem parte de grupos que têm
relação com o seminário, e que passam por aqui, e por isso é muito frequente
termos ou à refeição, ou no bar, ou em reunião senhoras ou raparigas, ou o que
for. Portanto vai havendo aqui um certo contacto com o feminino, para além de
que os universitários têm raparigas de quem são colegas, e os do propedêutico,
no trabalho apostólico que têm, têm contacto com raparigas.
Em permanência, gostaríamos de ter uma governanta que fosse
assim uma espécie de mãe da casa. Mas como ainda não nos apareceu a pessoa com
o perfil certo, porque implica alguma disponibilidade, e uma maturidade humana
e espiritual, não temos. Gostávamos de ter outra D. Benedita.
Nunca teve uma paróquia,
faz-lhe falta um trabalho mais pastoral?
Não sei dizer se me faz falta ou não. Não penso muito no
assunto. Procuro estar concentrado no seminário e nas coisas que tenho para
fazer para lá do seminário. Não sinto falta no que diz respeito ao contacto com
a diversidade de pessoas. Tenho as equipas de casais, tenho muitas pessoas que
acompanho pessoalmente, trabalho no sector de animação espiritual da diocese e
tenho a escola de formação que implica muitas coisas de formação com leigos e
com todo o género de pessoas, por isso essa coisa que podia acontecer, falta de
contacto com gente noutro estádio de vida, com outro tipo de preocupações, não
acontece graças a Deus, por isso não sinto falta de paróquia.
Até porque o trabalho num seminário é um trabalho muito
específico, com um conjunto de limitações humanas, está aqui, não tem a
flexibilidade que um trabalho de paróquia tem, mas é um trabalho que
progressivamente se vai apurando e de que a gente vai aprendendo a gostar. E
actualmente gosto imenso de estar aqui, por isso não penso muito no que seria
se fosse uma paróquia. Eventualmente poderá acontecer, o Sr. Patriarca
mandar-me para uma paróquia e presumo que vai ser divertidíssimo.
Acompanha muitos
casais, seja de namorados, seja casados, porque é que é tão procurado por estas
pessoas?
Não sei dizer se tenho vocação para isso. Cresceu comigo,
nestes anos de sacerdote, muita gente vir procurar-me para acompanhamento
individual, para discernir coisas. O acompanhamento nos namoros e preparação
para o casamento decorreu daí, porque as pessoas que eu acompanhava me pediam
ajuda específica.
Na preparação para os casamentos houve um episódio
engraçado, porque num mesmo ano casavam sete casais e quase todos eram
acompanhados em direcção espiritual por mim. E portanto desafiaram-me a fazer
ao longo desse ano um CPM personalizado para eles, uma vez que os conhecia e
portanto nesse ano fiz um processo, montámos um processo de preparação imediata
para o matrimónio, passando por uma série de temas e objectivos a cumprir, e
essa ferramenta ficou, e tenho-a aplicado quer em grupos mais pequenos, quer em
forma personalizada em outros casais, e isto é como em tudo, vamos apurando a
sensibilidade ao que está bem no casal, o que faz falta, o que não faz, o que é
que são as etapas de crescimento em que é preciso apostar, a experiência
vai-nos trazendo isso, e tem acontecido.
O que faz nos tempos
livres?
É muito pouco tempo livre, muito pouco. No muito pouco tempo
livre, um bocadinho de leitura, alguma coisa que vou tendo como leitura de
cabeceira. Aí especialmente nas férias, recupero o tempo perdido no que diz
respeito a isso. Algum tempo de passeio, de sair um bocado para dar uma volta
com os amigos, e depois umas coisas normais, um ou outro dia para ver o
Sporting, um ou outro filme de cinema, uma ou outra coisa de arte mais
interessante…
No Verão quando tenho tempo, porque às vezes no Verão é
quando faço umas coisas extra para as quais não tenho tempo no ano lectivo, o
descanso continuado, que é óptimo para mim, ficar uma semana no Alentejo,
metido num sítio tranquilo, sem fazer nada, o que muitas vezes faço com colegas
padres, ou então fazer uma viagem, ir a um destino, conhecer, é uma coisa que
me descansa imenso, ir ver outras cores, outras formas.
O que é para si ser
padre?
Para mim é uma experiência muito dolorosa e muito feliz. E
explico porquê. Porque me tem chamado a viver ao limite de mim como pessoa e ao
limite do que sou capaz de dar e do que sou capaz de receber de Deus, e
portanto nisso tem sido uma experiência por um lado muitíssimo feliz, de
encontro às maravilhas do que Deus faz nas vidas das pessoas, da forma como
Jesus é capaz de mudar a vida de uma pessoa, o coração de uma pessoa, e para
mim é surpreendente como Jesus é capaz de fazer isso através de um gajo como
eu.
E tem tido momentos de sofrimento porque amar dói. Há aqui
umas medidas de amor que implicam deixar para trás coisas que eu gostava ou uns
formatos que para mim eram mais confortáveis, e implica um debate com a minha
fragilidade e com o meu pecado, que às vezes é dolorosa.
Estar no meio de um ministério tão grande, estar no meio da
vida das pessoas que é encontrar em mim coisas mesquinhas, menores, é um debate
complicado. Para mim tem sido muito extraordinário o milagre que é poder estar
no meio da vida das pessoas, o sacerdote tem o privilégio de poder estar na
intimidade das pessoas, no santuário mais interior das pessoas, e aí ser
condutor. Isso para mim é extraordinário.
Depois, para mim também tem sido a graça de celebrar missa
todos os dias, de ir mastigando mais seriamente o Evangelho de Jesus e de ver
que aquele Evangelho faz efeito, quando ele é dado e recebido, faz mesmo
efeito. Tenho, nesta parte do trabalho da formação sacerdotal, tenho sempre uma
interrogação e uma inquietação. Os padres nos próximos 30, 40, 50 anos também
vão ser o que eu fiz.
Epá, espero que Nosso Senhor não me cobre muito, vamos ver,
é uma coisa muito séria. Às vezes aqui em casa falamos disso, uma parte deste
clero vai ser o que a gente fez… Fazemos o que podemos.
Há quanto tempo acompanha
pastoralmente homossexuais?
Eu
não trabalho propriamente numa “pastoral dos homossexuais”. Faço um trabalho
pastoral com jovens ou adultos onde aparecem pessoas que são homossexuais.
A
primeira vez que alguém me contou que temia ser homossexual, foi há uns 14-15
anos e a primeira vez que acompanhei uma pessoa homossexual foi há cerca de 10
anos.
O seu trabalho é
especificamente com mulheres, ou também com homens?
O meu trabalho pastoral é com todas as pessoas, homens e
mulheres. No entanto, é verdade que para um acompanhamento espiritual me
procuram mais mulheres que homens. Talvez pela simples razão de que uma mulher
se pode sentir mais à vontade, para falar da sua intimidade, com outra mulher.
Quais diria
serem as principais questões entre os homossexuais?
A
primeira questão que me põem é a possibilidade do amor de Deus: “Deus, e os
outros, podem gostar de mim ‘assim’? E a luta interior que esta dúvida causa: “Mas
foi Deus que me criou ‘assim’!...” Depois, vem a questão da aceitação pessoal: “Como
é que aquilo que define melhor uma pessoa, a sua capacidade de amar, em mim
está ‘errado’”?
A proposta da
Igreja para estes casos é de uma vida casta. Na prática, considera que é útil
ou fácil fazer esta proposta às pessoas com quem trabalha?
Diria
que é necessário fazer essa proposta por fidelidade à Igreja.
Também
diria que não é fácil, sobretudo quando a pessoa não se sente capaz ou chamada
a viver uma vida de celibato, ou já escolheu uma vida sexual activa.
Aí
aparecem muitas vezes os problemas de pertença ou de experiência de exclusão da
Igreja: “Como é que a Igreja pode pedir a todas as pessoas homossexuais que
sejam celibatárias? Eu não me sinto chamado a ser celibatário… Então, não posso
pertencer à Igreja? Não posso aceder aos sacramentos? Não tenho lugar nela?”
O facto de ser
celibatária permite-lhe transmitir essa ideia com outra credibilidade?
O
facto de ser celibatária permite-me dizer às pessoas – a qualquer pessoa – que
é possível amar plenamente sendo celibatária, e acho que pode ajudar a
relativizar ou dissociar a ideia de que para ser feliz é necessário ser casado
ou ter uma vida sexual activa.
Para os casos em
que a pessoa diz que não pode, ou não quer, viver em castidade, que abordagem
procura?
Procuro
fazer caminho com a pessoa a partir do “lugar” em que ela está; ajudá-la a
encontrar-se com o amor de Deus e, desde aí, “responder-Lhe” com uma vida de
amor e serviço aos outros. Se a pessoa, conhecendo a orientação da Igreja, em
consciência e no pleno uso da sua liberdade, vê que não pode, ou não quer,
viver o celibato que a Igreja lhe propõe, procuro ajudá-la a viver uma relação
estável, um “amor até ao fim”, em fidelidade, generosidade e entrega totais.
Existe revolta
entre estas pessoas para com a Igreja?
Em
algumas, sim, mas não em todas.
Algumas,
sentem-se excluídas ou muito culpabilizadas por não poderem viver o que a
Igreja propõe e, por isso, revoltam-se e zangam-se muito. Essas, geralmente,
afastam-se da Igreja e chegam mesmo a cortar a relação com Deus.
Outras
vivem o seu sentimento de pertença à Igreja com luta e sofrimento mas não com
revolta, esperando que a Igreja, um dia, possa reconhecer a condição
homossexual como uma possibilidade antropológica e não como perversão ou
pecado.
Na sua
experiência, os homossexuais defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo
ou a adopção por homossexuais e consideram que quem se opõe a estas questões é
homofóbico?
Eu
não generalizaria: Nem todas pensam dessa maneira.
Algumas
vivem fielmente a proposta da Igreja e, por isso, o casamento e a adopção estão
fora do seu mundo de possibilidades. Por outro lado, muitas das que desejam
para si o casamento e adopção, fizeram um longo caminho até chegar aí e
reconhecem, por isso, que as outras pessoas também têm direito a fazer esse
caminho de aceitação e respeito, que leva tempo. No entanto, parece-me que, a
todas, lhes custará muito não poderem viver o amor como as pessoas
heterossexuais o vivem.
Certamente
haverá muitos homossexuais que sentem um conflito interior entre a sua fé e a
sua orientação sexual. Que mensagem tem para eles?
Que
não duvidem nunca do amor infinito de Deus por eles, tal como são e como estão.
Que
procurem com seriedade a sua verdade mais profunda, sem se deixarem influenciar
por correntes, amizades ou relações casuais, que os arrastem para onde não
querem ir ou os levem a fingir ser outra coisa diferente daquilo que são.
Que
sejam fieis a essa verdade que vão descobrindo de si próprios e ao caminho que
Deus vai fazendo com e em cada um e cada uma.
Que
não se deixem prender pelo egoísmo numa autocomplacência vitimista nem numa
agressividade castigadora, mas que se abram aos outros, generosamente, numa
vida de amor, entrega e serviço.
E para as
famílias de pessoas que são homossexuais? Como é que uma família cristã devia
reagir num caso destes?
Às
famílias eu diria que, antes de ser um ou uma “homossexual”, o seu familiar é filho
ou filha, irmão ou irmã, primo ou prima, sobrinho ou sobrinha… E que, ainda
antes disso, é uma pessoa humana cheia de dignidade, filho ou filha de Deus. E
que, assim como Deus nos ama tal como somos, não há outro caminho para nós
senão o do amor incondicional.
Publicamos aqui as respostas, na íntegra, de Rimont, de
25 anos e membro da Courage no Brasil. As respostas foram enviadas por escrito.
Alguma da linguagem foi “aportuguesada” e fiz emendas de pontuação, mas não
cortei qualquer resposta.
Está a decorrer em
Lisboa um encontro de associações homossexuais católicas. Ouviram falar nesse
encontro?
Não soubemos do evento. Além da distância geográfica
óbvia, pesou neste desconhecimento, provavelmente, a natureza do encontro, que
se dirige às pessoas que tomaram outras resoluções diante da fé católica e os
desafios da atracção pelo mesmo sexo (AMS).
Nós, membros do apostolado Coragem, fiéis ao que nos pede
a Santa Madre Igreja no Catecismo e em tantos outros documentos, optamos por
viver castamente e buscar a santidade, tal como nos pede também Nosso Senhor
Jesus Cristo e tal como viveram os santos homens e mulheres que nos inspiram
até hoje e por nós intercedem no Céu.
A associação
brasileira que participa chama-se “Diversidade Católica”. Que comentário lhes
merece essa associação?
Desconhecemos o trabalho em detalhes. O que conhecemos é
a unidade em Cristo e Sua Igreja. A diversidade da Igreja existe apenas
enquanto permanece ligada à mesma raiz que é Cristo e não há outra forma de
mostrar esse vínculo senão pela fidelidade ao que nos ensinou Jesus, Nosso
Senhor, e que foi transmitido pelos Apóstolos e seus sucessores ao longo dos
séculos.
Elementos que diferem entre si apenas pela negação e pelo
protesto em favor de novidades desordenadas não podem naturalmente coexistir e
formar uma unidade orgânica - se fosse possível, seria como um corpo cujos
membros se repelem entre si, pois não aceitam os comandos da Cabeça.
A verdadeira e justa diferença só encontra sua vitalidade
na obediência e na humildade, mesmo quando são virtudes difíceis de se praticar
- o que, aliás, as torna ainda mais heróicas e meritórias.
Acreditamos que Deus tem, com respeito a cada um de nós,
um amor particular e infinito, um caminho de santidade próprio e a cruz
correspondente, que não falta a ninguém. Assim, todos nos identificamos uns com
os outros porque nos vemos irmãos na mesma fé e filhos do mesmo Pai do Céu,
fiéis ao mesmo propósito de conversão e santidade, o que não nos impede de ver
também as diferenças dos dons, que colocamos a serviço de Deus e do próximo, e
das cruzes, que carregamos cotidianamente a exemplo de Nosso Senhor. Essa é,
assim cremos, uma autêntica diversidade católica.
Há ideia de
quantas pessoas a Courage acompanha no Brasil? Há quanto tempo existe no vosso
país?
Acompanhamos directamente cerca de cinquenta pessoas, actualmente,
e outras centenas indirectamente, por meio das publicações na Internet.
Acreditamos, porém, que conseguimos falar a outras mais, devido às várias
ferramentas de compartilhamento disponíveis no mundo virtual. Muitos irmãos e
muitas irmãs, que carregam a mesma cruz, devem-nos acompanhar em silêncio,
lendo nossos textos e ouvindo nossas palestras, talvez esperando que algum dia
demos a grata notícia que começaremos um grupo na sua paróquia.
Somos poucos e temos algumas limitações que as obrigações
de estado nos impõem, mas estamos disponíveis sempre para acolher, mesmo que
simplesmente pelo correio electrónico. Buscamos responder a todos que nos
escrevem e fazer um acompanhamento mais próximo, se for o caso - pois há os que
nos escrevem apenas para saber do apostolado; informação que damos com muito
gosto.
O nosso serviço começou há pouco tempo, desde 2009, e
cresce a cada dia, graças ao Bom Deus.
A Courage encoraja
os seus membros a viver uma vida de castidade no celibato. Isto é difícil para
qualquer pessoa solteira… há uma dificuldade acrescida quando se tem atracção
por pessoas do mesmo sexo?
Nosso director, Pe. Paul Check, gosta de citar que a
castidade, como qualquer virtude, é uma força da alma. A própria etimologia da
palavra nos sugere: uirtus que, em latim, significa a força viril.
De facto, a castidade não é uma dificuldade, nem
acrescenta um fardo, mas ela é o motor que nos põe em marcha para praticar mais
livremente e perfeitamente o amor que nos ensina Nosso Senhor. Muitas vezes nos
queixamos que a vida é difícil e fazemos isso enquanto apontamos os obstáculos
ou o grande número de tarefas. Porém nós nos esquecemos frequentemente que a
dificuldade não nos fala sobre a complexidade e as exigências das nossas
tarefas, mas, sim, da nossa fraqueza em atendê-las.
Eis que Deus nos dá a castidade para nos fortalecer e, se
houver alguma dúvida sobre as nossas capacidades naturais, Ele nos oferece,
ainda, a Sua graça, em abundância. "Pedi e recebereis", diz o Senhor.
Ora, o sexo e os desejos sexuais trazem consigo muitos
desafios, especialmente: o desafio de amar alguém do sexo oposto dentro de uma
aliança para a vida inteira, com aquela obediente e responsável abertura à vida
dos filhos que Deus enviar.
Semelhantemente, no que toca à situação da pessoa com
AMS, os desafios mais decisivos não se resumem à libido, como muitos fazem
parecer. A moderação do apetite sexual se consegue com as ferramentas que
Igreja sempre indicou: fuga das ocasiões de pecado, oração, recebimento dos
sacramentos e jejum. Resta, contudo, o desafio de sair das atitudes de
vitimismo e de isolamento. É necessário amar assim como Cristo nos pede para
fazer. Por isso, o apostolado Coragem insiste na recomendação da Igreja e dos
santos, como São Francisco de Sales e Santo Afonso Maria de Ligório, de que a
pessoa precisa se abrir ao próximo, sair de si mesmo, cultivar as amizades
espirituais e castas.
Para esse desafio também, Deus nos ajuda e, cremos, o
apostolado Coragem é um dos meios dos quais Ele se vale para fazer isso.
Alguns activistas
homossexuais dizem que esta recomendação de celibato pode levar a danos
psicológicos, frustração, repressão de sentimentos… Como comentam?
O celibato não é a frustração de um desejo, mas a
recondução dele ao seu propósito original, nem é sua repressão, mas sua
moderação, para que se expresse ordenadamente, segundo o seu fim próprio.
A conversa de que pessoas celibatárias degeneram-se até a
loucura é bem antiga. Não é estranha também sua associação com a frieza, o
distanciamento emocional, o farisaísmo e atitudes semelhantes.
Entretanto, qualquer um que conheça um convento de
freiras – eu, ao menos, conheço alguns muito bons – conhece também como as
irmãs cultivam um grave senso de realidade – melhor que o de muitos
experimentados na vida –, são muito afectuosas e conservam sempre, não importa
a idade, um brilho jovial nos olhos, próprio da pureza mantida desde a mais
tenra idade. Qualquer um que tenha bons amigos monges - até mesmo um monge
budista, quem sabe – pode ter a mesma impressão com respeito a eles.
Como diz o padre Groeschel, morto recentemente, em seu
livro "Courage to be chaste", o problema existe no irrealismo com que
alguns buscam a castidade, ou quando tentam negar sua realidade sexual e afectiva,
ou quando tentam abraçá-la sem a prudência necessária. O segredo, como nos
ensina o padre, é viver castamente, enquanto admitimos sem máscaras as nossas
fraquezas, trabalhamos para cultivar as castas amizades e progredimos
alegremente no amor cristão, buscando lidar criativamente com os desafios que
aparecerem. Ao invés de uma prisão de regras, o celibato é, na verdade,
libertador. Ele nos ensina que podemos amar e sermos amados, independentemente
da atracção pelo mesmo sexo e seus desafios.
Pe. Groeschel
O que pensam da
forma como a Igreja acolhe as pessoas com atracção pelo mesmo sexo? Que
recomendariam à hierarquia?
A Igreja, enquanto Corpo Místico de Cristo, é perfeita na
sua acolhida. Pessoalmente, quando eu me vi aos 14 anos sendo amado por Jesus e
pela multidão dos santos e dos anjos, fiquei muitíssimo tocado e soube que não
havia nenhum outro lugar que me acolheria daquele jeito.
O que preocupa, porém, leigos e padres, muito
provavelmente também os leitores, é o testemunho do cristão que está na
comunidade paroquial. Sejamos claros e coloquemo-nos todos no lugar desse
cristão, pois somos ele. Nós já gastamos muito tempo apontando o dedo para os
outros, denunciando suas atitudes enquanto mostramos nossos elevados
princípios. A hora é de exame de consciência e conversão.
O mandamento já nos foi dado: "Amar ao próximo como
a si mesmo". Então, como eu tenho acolhido meu irmão, minha irmã, em
Cristo, na comunidade? Seja ele quem for, tenha ele feito o que for. Eu o
escuto? Eu o aconselho a se aproximar de Deus? Busco compreendê-lo? Adianto-me
em ver e atender suas necessidades, se isto estiver ao meu alcance? Ajudo-o a
fazer um exame de consciência, que o desperte para o mal que esteja
eventualmente fazendo a si mesmo ou a outros? Mostro com acções concretas que
estou próximo e que não lhe virarei as costas, nem o abandonarei de uma hora
para outra?
Se cada um se dedicar a este exame de consciência, fizer
novo propósito de amar como Cristo nos pede e agir, creio que não haverá
nenhuma recomendação a acrescentar a quem quer que seja e sobre o assunto que
for.
O que resta dizer, na verdade, é um pedido. Que os bispos
e os presbíteros nos ajudem a levar este trabalho do apostolado Coragem para as
várias dioceses, paróquias e comunidades. Qualquer católico pode, com a sua
amizade, ajudar uma pessoa que tenha AMS, porém o apostolado possui o programa
e as ferramentas apropriados para atender às questões que nem sempre alguém com
AMS se sente à vontade para partilhar com quem não passa pelo mesmo. A
especificidade do nosso serviço só tem a somar e contribuir com as comunidades.
Pode contar-nos um
pouco da sua experiência pessoal? Sempre foi católica, ou converteu-se? Sempre
teve esta forma de viver a sua orientação sexual? A sua família acompanha e
apoia, ou não sabe sequer? No caso de ter amigos homossexuais que não optam por
esta via, como é que reagem à sua opção?
Eu nasci numa família católica, porém o meu pai e a minha
mãe tornaram-se espíritas depois de um tempo e eu não tive formação religiosa
na infância.
No meu coração, notei sempre um chamado à vida com Deus.
Mais tarde, minha imaginação juvenil tacteou muitas crenças confusas em
espíritos, magia e realidades ocultas, à procura desse Alguém que me via tal
como eu era. Isto era-me muito caro, pois eu notava em mim a atracção pelo
mesmo sexo desde os cinco anos. Não era algo erotizado, mas tornou-se depois,
com o tempo.
Aos catorze anos, dentro de um processo de toda família
de retornar à fé Católica, participei num retiro espiritual, organizado por
jovens da minha paróquia, e lá eu ouvi pela primeira vez e aceitei que Jesus
Cristo é o Senhor, meu Salvador, Aquele que sempre esteve comigo e me amou
infinitamente.
Quando li o Evangelho segundo São Mateus pela primeira
vez, lágrimas caíam copiosamente dos meus olhos e um desejo ardente queimava no
meu peito, dizendo-me que naquelas páginas estava uma palavra verdadeira, que
fazia ressonância total com todas as aspirações da minha alma.
Foi quando eu me converti à fé Católica, que decidi abrir-me
com os meus pais sobre a minha situação. Contei-lhes tudo depois daquele
retiro. Graças ao Bom Deus, eles me acolheram e apoiaram-me. Conversaram comigo
sobre suas adolescências e seus namoros, seus desafios e como se conheceram e
se casaram. Os meus pais casaram-se virgens, os dois. Comemoram 26 anos de
matrimónio este ano. Eles me ajudaram a procurar ajuda, primeiro psicológica e,
depois, pastoral.
A psicóloga ajudou-me muito. Contrariamente ao que devem
pensar agora os leitores – suspeito –, eu não fui fazer terapia reparativa.
Nunca passou pela minha cabeça seriamente a ideia de superar a AMS. De algum
modo que não sei explicar, eu via que, no máximo, eu aprenderia a lidar com
ela, conhecer suas raízes e tratá-las, na expectativa de que, pelo menos, a
forma de eu me relacionar comigo mesmo e com os outros melhorasse. Os padres
com quem conversei me ajudaram no mesmo sentido.
No site do
apostolado, eu falo mais da minha história. Basta procurar por
"testemunho de Rimont".
Eu tenho amigos que aderiram às práticas homossexuais e
alguns estão em relacionamentos. Não me abro com eles sobre o assunto e isso
porque eles não têm o mesmo propósito de vida. Amo-os e respeito-os. Sei que
eles não compreendem uma decisão como a minha, mas não os culpo, pois julgam de
acordo com o que sabem da realidade. Vejo as suas dificuldades e rezo por eles,
sempre. Noto também como sofrem por razões que ignoram, mas que eu vejo
claramente hoje, graças à fé. Busco não os confrontar sobre o assunto, pois,
antes de lhes falar sobre moral, eu tento apresenta-los ao Jesus que os ama.
Tudo começou para mim no encontro com a pessoa de Nosso
Senhor. Amparado nas catequeses de Bento XVI e Francisco, estou persuadido que
será assim com eles, também.
Que mensagem tem
para quem vive actualmente o dilema de tentar conciliar a sua orientação sexual
com a sua fé?
Ao meu irmão e à minha irmã de cruz, eu dirijo as
seguintes palavras. Eu sei que é difícil. Você não está sozinho.
Andamos neste mundo à procura de alguém que nos veja, nos
escute e entenda. Sentimos a falta da proximidade de um amigo que nos enxergue
além das máscaras, mesmo aquelas que colocamos com a desculpa de "sermos
livres" ou "nós mesmos".
Como você, eu já chorei muitas vezes, no quarto, antes de
dormir, abafando os soluços com o travesseiro, porque eu me sentia muito
sozinho. Nada me doía mais do que esse isolamento, nem mesmo os xingamentos de
"viado", "bixa", "maricas".
Eu vivi assim por nove anos, até que eu conheci Jesus e
Seu amor por mim.
Não sei como posso descrever isto. Em meu coração eu
ouvia uma voz que me dizia para amar o próximo e Jesus me disse o mesmo nos Evangelhos.
Em meu coração eu ouvia uma voz que me dizia estar próximo de mim e Jesus me
disse o mesmo no Apocalipse: "Eis que eu estou à porta e bato. Quem abrir,
eu entrarei e nós cearemos juntos". Eu queria conhecer alguém que me
acolhesse e me amasse, independentemente dos meu erros do passado, e eu vi
aquele homem, Jesus de Nazaré, chamar a Levi, o cobrador de impostos, e
dizer-lhe "Hoje eu vou a sua casa". E Jesus foi. E ele esteve entre
pecadores públicos, como um médico perto dos enfermos. Ele não os repeliu, não
os rejeitou, mas amou e apostou neles, que eles podiam mudar de vida e ser
pessoas melhores.
Ele entregou-se na cruz por mim, por eles e por você,
deixando jorrar o sangue até Lhe secar as medulas. Fez para pagar o preço das
nossas almas e fê-lo gratuitamente.
Nunca ninguém nos amará assim, nem é possível que alguém
assim nos proponha algo que nos faça mal, ou que nos afaste de si. Assim, Ele
nos deixou um caminho de amor que exige a castidade, também para nós que temos
este espinho na carne. Tantas vezes pensei - creio que você também - que seria
mais feliz se não o tivesse. Talvez eu conseguisse ser uma pessoa melhor. Mas
eu enganei-me. Os sofrimentos que me afligiam antes, trazem-me hoje o consolo
da presença e união com o Senhor. Cristo abraçou a cruz e Ele nos pede para
abraçar, também, junto com ele.
Pe. Paul Check
"Basta-te a minha graça", disse Ele a São
Paulo. Ele está connosco. Jesus não nos propõe com a castidade nada que seja
contra nossa natureza, nada que nos violenta. Pelo contrário, Ele nos propõe
algo que atende ao mais profundo dos nossos anseios. Amar!
Para isso, não tenha medo. As pessoas não vão saber mais
sobre você, se algum dia você lhes contar sobre a AMS. Isso não fará diferença,
pois os desejos homossexuais não definem quem você é.
Então não tema que as pessoas se aproximem, não tema se
aproximar delas, não tema servir os mais necessitados e amar o Cristo presente
neles. Deixe seu coração se alargar com generosidade e não desista de investir
na prática do bem e da virtude. O isolamento não é o melhor jeito de lidar com
a AMS, nem a fuga para as práticas homossexuais.
Coragem! Ame como Cristo ama. Seus irmãos e irmãs no
Brasil rezam por você.
Escreva-nos, que estamos aqui para ajudar também. Mais
uma vez: você não está sozinho. Nos corações de Jesus e Maria. Um abraço
fraterno.