quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Formação de uma Consciência Católica

Randall Smith
Agora sei porque é que o Lincoln perdeu para o Douglas [nas eleições presidenciais de 1858].

Há várias semanas escrevi aqui uma coluna em que sugeria que um católico de consciência bem formada não pode votar num candidato que é a favor do aborto quando existe outro que se opõe, tal como no passado um católico de consciência bem formada não poderia justificar votar num candidato pró-escravatura ou pró-nazi.

As respostas que recebi sugerem que é fácil perder de vista o que é realmente importante, no meio de um mar de temas secundários.

Alguns acusaram-me de ter comparado Obama a Hitler, apesar de o nome do Presidente nunca ter aparecido no artigo. Trata-se de uma incompreensão sobre analogias, que envolvem sempre a comparação de coisas diferentes.

Se eu disser que o terço está para o dominicano como a espada está para o soldado, não estou a equiparar os dominicanos aos soldados. Antes, estou a contrastar a relação que o dominicano tem com o seu terço com a que o soldado tem com a sua espada (ambos a usam à cintura). A questão é que, tal  como os nossos antepassados, nós também temos de enfrentar desafios morais cruciais.

Outros responderam com o argumento de que os cortes propostos para o sistema de saúde  Medicare poderão trazer um aumento de abortos, apesar de não haver quaisquer dados estatísticos que o sustentem. Isto sem mesmo ter em conta que, por um lado, se agora não fizermos nada sobre o Medicare terá de haver cortes muito mais preocupantes no futuro e, por outro, que não podemos tomar decisões sólidas com base em consequências imprevisíveis. 

Hoje em dia não teríamos muita paciência para alguém que, em 1858, argumentasse que ia votar em Douglas porque, se a economia melhorasse, talvez diminuísse a pressão para alargar a escravatura.

Que diríamos sobre um eleitor desses se a economia acabasse por não melhorar – se, pelo contrário, piorasse bastante – e ele continuasse a votar no Douglas? Começaríamos a pensar que as preocupações expressas pelos escravos eram afinal uma mentira, para dar cobertura aos seus verdadeiros interesses.

Também houve quem afirmasse que certos candidatos actuais não são suficientemente pró-vida, ou que “não faz qualquer diferença”. Na altura de Lincoln também se faziam argumentos do género, de que não era suficientemente anti-escravatura (e na verdade não era), ou de que não seria capaz de mudar nada. Mas isso não passa de sofismas.

Não vivemos num mundo de candidatos perfeitos, mas pense no seguinte: No dia em que um presidente pró-vida assumir funções: A proibição de usar fundos públicos para promover abortos no estrangeiro volta a aplicar-se; As leis contra a experiências com células estaminais embrionárias também; Isto para não falar na possibilidade de se poder nomear um juiz do Supremo Tribunal (ou dois), que poderia votar contra o aborto em vez de a favor, o que seria certamente o cenário contrário.

A única forma de refutar a proposição de que um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato pró-aborto quando existe outro que seja pró-vida, da mesma forma que não poderia votar a favor de um candidato que fosse pró-escravatura ou pró-nazi, seria argumentar que: (A) Um católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidate pró-escravatura ou pró-nazi (será que alguém acredita nisso?), ou (B) Que o aborto não é um mal tão grave como a escravatura ou o genocídio Nazi.

É importante realçar que o juízo sobre a gravidade moral do aborto não é meu, é da Igreja. Quem praticar, ou cooperar formalmente na prática de um aborto incorre em excomunhão automática à luz do direito canónico (cânone 1398).

A declaração sobre aborto provocado, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1974 afirma: “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais.”

Na exortação apostólica Christifideles Laici, João Paulo II afirma:
“Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humanaÉ totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa.”

Mais, no Evangelium Vitae, João Paulo II deixou claro que, embora haja uma vasta gama de questões ligadas à vida e ataques à dignidade humana sobre as quais nos devemos preocupar, o aborto e a eutanásia são de “outra categoria” e de “gravidade extraordinária”.

Finalmente, em 1998, no documento “Living the Gospel of Life: A Challenge to American Catholics,” os bispos americanos declararam:

“Introduzir o respeito pela dignidade humana na vida política pode ser um tarefa assustadora. Há uma grande variedade de questões que envolvem a protecção da vida  e a promoção da dignidade humana. É frequente pessoas boas discordarem sobre quais os problemas a abordar, que políticas adoptar e a melhor maneira de as aplicar. Mas tanto para cidadãos como para políticos o princípio base é simples: Devemos começar com o compromisso de nunca matar intencionalmente, nem cooperar com a morte de, qualquer vida humana inocente...”

Por outras palavras, há certas escolhas de acção que são sempre incompatíveis com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana criada à sua imagem. O aborto directo nunca é uma opção tolerável. É sempre um acto grave de violência contra uma mulher e o seu filho por nascer.

A Igreja tem sido tudo menos pouco clara sobre este assunto. A questão passa por saber se os católicos se consideram obrigados a formar as suas consciências de acordo com os repetidos ensinamentos da Igreja e depois agir conforme, ou se preferem tomar a atitude equivalente a tapar as orelhas e gritar: “não estou a ouvir, não estou a ouvir!

Quem tem ouvidos que ouça. O sangue dos nossos filhos clama do chão.



Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012)

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2 comentários:

  1. Eu não sou católico romano, mas sou cristão e pergunto: ok, não vou votar num candidato pró-aborto, mas será que vou votar num candidato que apoia a NRA e a sua política de expansão e liberalização de armas (que servem para destruir vidas, até duplas, se a vítima estiver grávida), será que vou votar num candidato que apoia multinacionais que não olham a meios para aumentar os seus lucros e expropriam terrenos e propriedades de indivíduos pobres, será que vou votar num candidato que acha que aqueles que criticam a utilização de combustíveis fósseis e a sua indústria altamente subsidiada são anormais de esquerda? é que para mim sempre me pareceu que esta polarização de escolha de um candidato só porque ele é pró-aborto ou pró-vida se torna redutora. E logo eu que sou anti-aborto.

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  2. É melhor votar num candidato que chama "anornmal de esquerda" até mesmo à Madre Teresa de Calcutá, ou que apoie a venda de armas, do que apoiar aqueles que usam essas mesmas, ou outras armas - o bisturi, aspirador e o que mais - para matar inocentes. Sim; parece-me que um católico tem a obrigação de votar num comuna que proponha a ditadura do proletariado do que num liberal que apoie o aborto. Pode-se dizer que o comunismo acabará por levar a que se liberalise o aborto e a democracia ajudará a que a verdade venha ao de cima. Mas isso são outros 500 mil reis e outras eleições. A primeira obrigação é votar naquele ou naqueles que se comprometam a proteger o bem maior que é a vida. Tudo o resto só existe depois de garantido este.

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