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Friday, 20 January 2023

Igreja "portuguesa" destruída na Birmânia e os telhados de vidro dos pecadores

Uma das coisas que mais amo sobre Portugal é o legado humano que os portugueses deixaram em várias partes do mundo. Nos mais recônditos lugares da Ásia, por exemplo, existem comunidades centenárias que se sentem e dizem portuguesas. É o caso dos Bayingyi, na Birmânia, que recentemente viram os soldados da ditadura militar destruir-lhes uma igreja centenária. Porque é que o Governo português não se manifesta contra estes abusos? Também não sei…

Recordo que o episódio do Hospital de Campanha da semana passada foi sobre o Papa Bento XVI. A conversa com o editor Henrique Mota, que conheceu pessoalmente o Papa alemão, foi daquelas que fluiu tão bem, e foi tão interessante, que praticamente nem foi preciso editar no final. Se já ouviram, espero que tenham gostado, se não, ouçam!

As pessoas envelhecem e morrem, é a lei da natureza, e o clero não é excepção. Mas não é todas as semanas que assistimos à morte de dois religiosos centenários. É o caso do Pe. João de Brito, de Lisboa, que morreu aos 100 anos depois de uma vida de notáveis contribuições para a Igreja em Portugal e da irmã André, de França, que aos 118 anos era a mulher mais velha do mundo.

Que tipo de enterro tiveram estas duas figuras? Não faço ideia. Mas suponho que tenha sido um enterro tradicional cristão. Sou capaz de garantir que não optaram pela “compostagem humana”, uma nova moda que ganha terreno entre pessoas que se acham muito sofisticadas, mas que não percebem o horror de tratar o corpo humano como lixo. David G. Bonagura explica porquê no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A guerra na Ucrânia fez mais vítimas inocentes quando a Rússia lançou mísseis contra um bloco de apartamentos. O líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia pede ao mundo que não deixe passar em branco o “massacre de Dnipro”.

Lembram-se do documento que Roma emitiu há vários anos a explicar porque é que homens homossexuais não deviam ser admitidos ao sacerdócio? Um dos principais autores desse documento acaba de ser suspenso do sacerdócio precisamente por ter abusado de jovens rapazes. Isto levanta, naturalmente, várias perguntas. Neste texto eu faço as perguntas e… não dou qualquer resposta. Mas convido-vos a meditar nelas como eu farei.

Monday, 14 June 2021

Francisco oferece riqueza dos pobres à pobreza dos ricos

Cardeal Bo, da Birmânia
A Igreja Católica birmanesa continua apostada em desempenhar um papel no conflito em curso naquele país e apelou esta segunda-feira à abertura de corredores humanitários para os civis ameaçados pelo conflito.

O Papa Francisco disse esta segunda-feira que “há pobrezas dos ricos que podem ser curadas pela riqueza dos pobres”.

Francisco também recordou, no domingo, o drama do trabalho infantil, que abrange mais de 150 milhões. “Uma tragédia”, disse.

No artigo da semana passada do The Catholic Thing, Brad Miner fala da importânciade São Bento de Núrsia, não só para a Europa na Idade Média, mas para a Cristandade em geral

Tuesday, 25 May 2021

Patriarcas e Death Metal Cristão, sem a parte do Death Metal

Morreu esta terça-feira o Patriarca da Cilícia dos Arménios Católicos. Chamava-se Gregório Pedro XX, ou Krikor Bedros XX em arménio. Se andavam à procura de um nome para uma banda de death metal cristã, já sabem. Aliás… Fica o convite para me enviarem as vossas melhores propostas de nome para uma banda de death metal cristão. No próximo Actualidade Religiosa divulgo o vencedor. 

A Conferência Episcopal Portuguesa organiza no sábado um encontro sobre a proteção de menores na Igreja, com a presença do padre especialista Hans Zollner. Recordo que vou mantendo no blogue uma cronologia rigorosa sobre casos de abuso na Igreja em Portugal, e outros desenvolvimentos ligados ao assunto.

A série de entrevistas com bispos portugueses, sobre os efeitos da pandemia, continua e hoje podem ler o D. João Marcos, de Beja, que diz que se passa fome no Alentejo.

A Igreja Católica tem sido uma voz firme na defesa da liberdade na Birmânia. O resultado fez-se sentir nos últimos dias, com a explosão de uma bomba numa igreja, que matou 4 pessoas.

Os frescos descobertos na Igreja do Espírito Santo, em Évora, vão ficar visíveis. É o resultado de um longo processo de restauro daquela Igreja. Aqui podem ver imagens.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que compara a atitude dos bispos que se recusaram a criticar a escravatura nos EUA com a dos que hoje preferem não criticar abertamente os políticos que defendem e promovem o aborto. O tema é complexo e o artigo contribui para o seu aprofundamento.

Sunday, 3 December 2017

Papa ordena Luiz Pinto Costa... No Bangladesh


Não costumo mandar mails ao fim-de-semana, mas não queria deixar de partilhar alguns dos trabalhos relativos à viagem do Papa à Birmânia e ao Bangladesh, e como vou estar fora alguns dias, achei melhor fazê-lo agora. Agradeço a vossa compreensão!

A visita do Papa à Birmânia chegou ao fim com um encontro com os jovens e depois Francisco seguiu para o Bangladesh onde ficou logo claro que a proibição de se dizer “rohingya” já não se aplicava. Mesmo assim, Francisco esperou até ao último dia para pronunciar o termo e aí não só falou dele como se encontrou com membros da comunidade e, admitiu mais tarde, até chorou.

Toda esta viagem foi marcada por marcas da presença dos portugueses. Francisco encontrou-se com os bispos do Bangladesh – incluindo o Costa, o Rozário e o Gomes – e ordenou 16 novos padres, sete dos quais com apelidos portugueses, incluindo o Luís Pinto Costa…

Este tema foi alvo de conversa entre mim e o historiador Miguel Castelo Branco e podem ler a interessantíssima transcrição integral da conversa aqui. Podem também ler a transcrição da conversa com o luso-birmanês James Swe, que diz que não tem cara de português, mas sente-se português.

Hoje começou o Advento. O Papa alertou para a importância da vigilância. Quem quiser ajudas no campo da oração pode recorrer às ferramentas deixadas pelo Apostolado.

Com medo da invasão islâmica? Não stresse… Mas já agora, sabia que há um país na União Europeia onde não só se permite a Sharia como ela é obrigatória para os cidadãos muçulmanos?

"Católicos na Birmânia e no Bangladesh sentem-se (legitimamente) portugueses"

Aqui podem ler a transcrição integral da minha conversa com o historiador Miguel Castelo Branco, a propósito da importância da presença portuguesa na Birmânia e no Bangladesh. Esta entrevista serviu de base para três reportagens, que podem ser lidas aqui, aqui e aqui.

O Papa viaja nos próximos dias para a Birmânia e para o Bangladesh. São dois destinos em que o catolicismo está muito ligado a Portugal…
O primeiro contacto que tiveram com o Ocidente foi com portugueses, muito embora alguns digam que por lá, ocasionalmente pudesse ter chegado algum mercador genovês ou veneziano. Mas a presença impressiva, que deixou sulco e que ainda deixa sulco por todas as comunidades católicas – atrever-me-ia mesmo a dizer do Cabo ao Japão – foram profundamente inspiradas pela matriz do Catolicismo português, porque há estruturas sociais, mentais e de valores que extravasam o campo estritamente religioso e que têm uma marca profunda de Portugal.

No caso da Birmânia desde meados do Século XVI foram chegando portugueses, não propriamente portugueses organizados, porque não eram funcionários ou servidores do Estado da Índia, e que se fizeram no actual Myanmar como soldados.

Mas há aqui uma série de outras questões engraçadas, que dariam um filme por exemplo, dos aventureiros mercenários portugueses, dois dos quais até se transformaram em reis locais.

Há o caso do Sebastião Tibau, que é um rapaz novo, de 20 anos, que chega à Índia, deserta imediatamente e põe-se ao serviço do Rei do Arracão, que é esta região onde há actualmente este problema dos Rohingyas, chama-se Rakhine. E ele transforma-se lentamente num rei pirata de uma ilha que fica no Golfo de Bengala, em frente ao Bangladesh, onde termina o Bangladesh começa Myanmar.

Ele foi rei de Sundiva, depois é claro que com tantas traições e mudanças de campo acabou por ser destruído pelos birmaneses.  E depois há o famosíssimo Rei do Sirião, ou rei do Pegú, que é um Filipe Brito de Nicote, no primeiro quartel do século XVII, e que era também um mercenário, que ganhou tanto relevo que acabou por ser investido como Senhor do Sirião. Sirião fica no Pegú, o extremo sul da Tailândia, perto do mar de Andaman. Mas a partir do momento em que extravasou a sua lealdade para com o Rei do Arracão...

Tudo isto no que é actualmente a Birmânia?
A Birmânia antigamente, assim de forma muito simplista, eram dois reinos. O Arracão, actualmente o Rakhine – aquele Estado onde está em curso aquele problema dos rohingyas – e o norte, a Birmânia interior, que era o Reino de Ava.

Filipe Brito de Nicote servia o Arracão, mas a partir do momento em que excedeu em liberdade em autonomia, foi eliminado. Temos aqui dois casos de soldados práticos que não têm nada a ver com o Estado da Índia nem com as relações diplomáticas, informais, entre Portugal e a Birmânia.

Esses são dois casos isolados e curiosos. Mas há depois uma presença mais organizada que acaba por ter uma grande influência na história da Birmânia...
Onde há portugueses à solta – que era o nome que se lhes dava – geravam espontaneamente comunidades ditas portuguesas. Casavam com mulheres locais e os filhos recebiam educação portuguesa, o que quer dizer a religião dos portugueses, católica. E por conseguinte, ao fim de 20 ou 30 anos geravam-se os chamados bandéis, que são povoados inteiramente ocupados por esta população mista, neste caso luso-birmanesa, como na actual Tailândia, luso-siamesa e por todo o lado assim aconteceu.
Eram comunidades que desabrochavam espontaneamente e que eram especializadas, isto é, estas comunidades tinham uma função no quadro das monarquias locais. Eram soldados, eram intérpretes (não nos esqueçamos que o português era a língua franca internacional. Até ao Século XIX os ingleses, holandeses e franceses, tinham de aprender português para poderem negociar nessa região, uma região vasta, que vai praticamente até Timor. O inglês é uma coisa muito recente), eram bons agentes diplomáticos para receber europeus, porque dominavam o processo de negociação e conheciam as manhas dos ocidentais, e eram também fundidores.

Até ao século XIX, no caso da Birmânia, estas comunidades, que eram numerosas, tinham um estatuto muito privilegiado e eram muito protegidas pelas monarquias budistas – como é o caso da Tailândia e da Birmânia – que são aliadas dos portugueses, mas no sentido em que há forças que são intermediárias entre Portugal e essas monarquias e essas forças locais, sociais, são estas comunidades católicas.

Claro que com o aumento da expressão demográfica destas minorias católicas portuguesas, porque era assim que eram tratados – a religião dos portugueses era o Catolicismo, logo o Catolicismo só era próprio dos portugueses – eles tiveram de pedir assistência religiosa e assim várias ordens religiosas, nomeadamente os jesuítas, os agostinhos, os franciscanos enviaram missionários e criaram-se missões.

Ainda há quem recorde a presença dos portugueses naquele país? O que é que lá ficou?
Ainda há uma comunidade compacta. Eles foram distribuídos pelo território, por vários motivos históricos.

A França e a Alemanha daquela região são respectivamente a Birmânia e a Tailândia, e estavam em constantes guerras. Como havia portugueses de um e de outro lado, ao serviço das monarquias, o princípio não era matá-los, era capturá-los, porque nas guerras asiáticas desse tempo a lógica não era exterminar o inimigo, era aprisionar o inimigo, porque havia uma falta crónica de mão-de-obra e de gente e sabiam que estes arcabuzeiros, estes atiradores portugueses eram muito bons, pelo que tentavam capturá-los e cobriam-nos de regalias.

Estando de um lado ou de outro, sendo capturado por um lado ou por outro, sabiam que não seriam mal-tratados.

Actualmente ainda há vestígios razoavelmente importantes. Quem leu as “Burmese Days”, de Orwell, encontra esta figura do português, aquilo a que os ingleses chamavam desdenhosamente “Black Portuguese”, com o seu racismo, porque de facto essas populações foram hostilizadas sobretudo pelas potências coloniais, não foram pelos estados independentes que subsistiram até ao século XIX. No caso da Tailândia felizmente nunca foi colonizada até ao Século XX.

Actualmente estes descendentes vivem alguns em Rangum, que foi até há pouco a capital do Myanmar, mudou para Naipindau, e no Norte. Eles foram acompanhando a monarquia Birmanesa no seu recuo para o interior. Sobretudo no Século XIX quando os ingleses chegaram para invadir pela primeira vez a Birmânia – a Birmânia era um grande Estado, foi agredida três vezes militarmente pelos ingleses até desaparecer, três guerras sucessivas no século XIX – a população católica acompanhou os seus reis, os seus reis budistas, até Mandalay. No Norte do país, perto do Rio Mo, há ainda uma numerosa população portuguesa, com os seus padres católicos, descendentes de portugueses.

Ainda há um ano na Faculdade de Direito, a Nova Portugalidade organizou uma conferência que teve por convidado Sua Alteza Real o Sr. D. Duarte, e ele falou sobre as comunidades e as cristandades portuguesas no Oriente e lembrou que todos os bispos da região têm ascendência portuguesa, o que de facto mostra que são comunidades que mantiveram a sua lealdade e a sua lealdade é tripla: É uma lealdade nacional, porque eles são bons patriotas e bons cidadãos dos países onde nasceram; uma lealdade à sua religião, são católicos, e uma lealdade emocional a Portugal, coisa que certamente nas Necessidades ninguém se lembrará.

São comunidades extremamente importantes e continuam a ser, sobretudo na Tailândia, onde ocupam funções de grande relevo no serviço público.

Neste momento há uma crise humanitária com os Rohingya... Quais são as raízes históricas do que se está a passar aí?
Creio que há uma grande parcialidade, para não dizer uma grande manipulação, em relação á questão dos refugiados rohingyas. Para o Governo birmanês eles não são birmaneses, isto é, não são cidadãos do Myanmar. Chamam-lhes bengalis, porque vieram do Golfo de Bengal.

Acontece que a questão é antiga e é recente. É antiga porque de facto há referências esparsas, de viajantes ingleses, sobretudo, à existências desses rohingyas já no século XVIII. Como era prática no quadro do império, o Raj britânico, havia mudanças de população. Os ingleses levaram para a Malásia milhares, que agora são milhões, de chineses, como levaram para o Uganda indianos, como levaram chineses também para a actual Singapura e levaram estes bengalis para o ocidente de Myanmar, para este Estado de Rakhine.

O que acontece é que durante a Segunda Guerra Mundial a Birmânia tornou-se independente. Teve um Governo fabricado pelos japoneses para demonstrar que o Japão estava na dianteira do processo de luta contra o imperialismo ocidental. Os birmaneses aceitaram naturalmente essa graça da independência e foram fiéis aliados dos japoneses. Quando voltaram os ingleses em 45 já estavam com problemas na Índia, iniciaram o processo de independência da Índia e depois da Birmânia. E ao saírem entregaram todas as armas que tinham aos muçulmanos, ditos rohingyas, que agora estão no centro dos noticiários.

Acontece que entre 1948, data da independência da Birmânia, e os anos 60, estes muçulmanos desenvolveram uma guerra de guerrilha intensíssima que foi, finalmente, vencida pelo Exército birmanês.

Agora, uma coisa que as pessoas não sabem é porque é que o Governo do Bangladesh e o Governo da Índia hostilizam de uma forma tão notória os chamados rohingyas. Porquê? Porque o braço armado da chamada resistência rohingya é o nome local para a Al-Qaeda.

Os rohingyas não são só alvo de perseguição, têm morrido milhares de budistas, impalados, queimados vivos, com templos destruídos, pelo chamado exército de defesa rohingya. Portanto os rohingya armados são outro nome para a Al-Qaeda.

Não devemos de uma forma tão afirmativa separar os bons dos maus, porque aqui há de facto um problema grave. Há um problema de populações, um problema de sofrimento humano, mas parece-me que, ao contrário do que se diz, a senhora Aung San Su Kyi tem tentado de uma forma razoavelmente cordata – no pressuposto de que Estado algum aceita uma secessão de uma parte do seu território. Se acontecesse connosco no Algarve ou nos Açores, ou com os espanhóis na Catalunha, a posição do Estado é mais dura – mas não me parece que da parte dela e da parte da grande maioria da população, e sobretudo dos agentes políticos birmaneses, haja qualquer expressão de ódio em relação aos muçulmanos.

Não está em curso uma guerra religiosa, ao contrário do que muitas pessoas julgam. A situação não é tão clara como parece e há, no caso dos rohingyas, um fantasma, um espectro oculto, que é a Al-Qaeda, que também está em Mindanao nas Filipinas, que está no Sul da Tailândia, portanto a questão não é tão linear como alguns pretendem fazer crer.

Independentemente disso, que dá contexto, as imagens que vimos dos refugiados, das tragédias, da limpeza étnica...
Eu não sei se será limpeza étnica, mas há de facto um nível de violência inaceitável.

Mas conviria estudar e saber in loco, porque ao contrário do que o senso comum, que muitas vezes tem um peso imenso, pretende fazer crer, os especialistas na matéria birmanesa tomam todos partido pelo Governo da Birmânia. Estou a falar de grandes autoridades, historiadores, sociólogos e antropólogos e etnólogos, que conhecem profundamente Rakhine, que é o estado onde estão a acontecer estes problemas, e todos eles tomam partido.

Eu creio que tal como aconteceu na Síria, seria conveniente saber quem é quem e saber quem é que faz o quê. Ainda me lembro que há quatro ou cinco anos era impossível falar na Síria sem ter de despejar uma torrente de impropérios sobre o Governo de Bashar al-Assad, quando para nós, católicos e cristãos, era a entidade que estava a defender as cristandades existentes na Síria. Portanto eu creio que é necessário muitas vezes tentar perceber um pouco e ouvir as autoridades certas e no caso da Birmânia aquilo que me parece é que houve um grande exagero, como há estas explosões emocionais, que são próprias, mas que não são esclarecedoras. E depois é necessário dar voz, e ouvir as pessoas que conhecem, sobretudo ocidentais, sem parcialidade e sem cegueiras, para que possam dizer-nos exactamente o que é que está a acontecer.

Temos depois o Bangladesh onde, segundo o embaixador em Lisboa, ainda existem 1.500 palavras portuguesas no vocabulário e o principal bispo tem o apelido D’Rozário… Fica surpreendido ao saber estas coisas?
Há uma grande comunidade, aliás, Calcutá, que foi – creio que ainda será – a maior cidade indiana, onde os ingleses se fixaram depois no Século XVII para XVIII, foi criada pelos portugueses. De Calcutá para Leste, ali na foz do Bramaputra, constituíram esses tais bandéis, esses tais acampamentos dos portugueses. A maior cidade portuária, que é agora especialista mundial em desfazer navios, que é Chitacong, foi criada pelos portugueses. E o Bangladesh tem esta curiosidade, tem de facto uma minoria católica forte, muito resistente até à pressão islâmica, o que é um caso notável de sobrevivência. Mas essa presença portuguesa está lá desde o século XVI, também.

Temos alguns piratas e que desenvolvem uma actividade importante, porque escoam os produtos dessas regiões, portanto tornaram-se úteis, ao contrário do que diz alguma historiografia anglo-saxónica, não são parasitas, pelo contrário, são agentes de reprodução de riqueza, dai serem tão estimados.

A India durante 400 anos foi governada pelo chamado Império o Grão Moghol. O Grão Moghol hostilizava os cristãos, mas protegia os portugueses, porque sabia que tinham esta faculdade, eram agentes importantes dinamizadores do comércio e da riqueza. No caso do Bangladesh, um país que se inunda com facilidade, os portugueses penetraram ligeiramente no interior.

Os portugueses não foram os únicos europeus a ter interesses, comércio e a deixar um legado na Ásia. Mas este fenómeno de orgulho nas raízes portuguesas que vemos na Birmânia, na Tailândia, etc. acontece também com ingleses, holandeses, franceses?
No caso holandês e inglês não, decididamente, porque a própria expressão da sua presença e até a sua própria ideologia é marcada por uma profunda desconfiança em relação àquilo. O Grócio dizia que os portugueses eram uma raça decaída, um povo caído, porque se misturavam com os animais. Isto mostra um bocadinho o tipo de atitude holandês e inglês em relação aos povos de pele escura.

No caso dos franceses é tardia, porque a França tem sobretudo uma presença na Índia em Puducherri, a mestiçagem é muito pequena, e depois a França só volta de facto a ter algum impacto no sudeste asiático a partir da década de 60 da década XIX.

No caso português é diferente. As populações católicas que se orgulham das suas raízes portuguesas são imensas. E até têm a faculdade de resgatar do isolamento e da sua condição social marginal os mestiços feitos pelos ingleses e pelos holandeses. Todos eles quer em Batávia, actual Jacarta, quer no actual Ceilão, muitos dos descendentes de marinheiros e soldados holandeses quiseram ficar portugueses e tomaram nomes portugueses, não querem nada com essa memória e com essa ancestralidade cultural holandesa.

Aliás, as marcas são muito pequenas. Eu falo tailandês, estive vários anos na Tailândia, e não há semana que não encontre uma expressão portuguesa já muito corrompida. Perguntaria quantos termos holandeses terão ficado na actual Indonésia.

E o caso inglês e holandês, são casos de companhias, são companhias de accionistas. O império, de jure, inglês na Ásia é do Século XIX. Antes eram iniciativas de uma empresa, de uma companhia, que se chamava Companhia das Índias Orientais. O mesmo acontecia com os holandeses.

A presença portuguesa é efectiva e desenvolve-se em vectores profundíssimos, não é só uma presença de estado, económica e comercial. É uma presença religiosa, cultural e de populações que passam a ser portuguesas, dentro e fora dos limites do próprio império português. Isto é um caso único daí que para muitos ocidentais se consegue demonstrar que há actualmente – isto pode parecer um pouco exagerado – um império. Já lhe chamaram império informal ou império invisível, mas há um império invisível português na Ásia que tem a ver com todas estas comunidades católicas, que continuam vivas, algumas com alguma influência, e que Portugal infelizmente não acompanha, porque são vectores poderosíssimos de relacionamento com os estados onde prosperam estas comunidades.

Hoje em dia temos comunidades em vários pontos da Ásia que reivindicam ser descendentes dos portugueses. O Governo português faz alguma coisa para cultivar estes laços? Que mais poderia ou deveria ser feito?
Poderia fazer muito, creio que deveria. Da mesma forma que a Assembleia da República, há cerca de um ano, aprovou a concessão da nacionalidade portuguesa a sefarditas que façam testemunho e prova da sua ancestralidade portuguesa – é claro que não poderíamos fazê-lo de uma forma despreocupada – mas julgo que se deveria estudar, devia-se conhecer e de uma forma, mesmo que fosse simbólica, restituir parte da cidadania portuguesa.

Até ao século XIX a cidadania antiga portuguesa era para todo aquele que fosse católico, vivesse ou não em domínio português e que fosse leal, de uma certa forma, ao Rei de Portugal que era o responsável pelo padroado português no Oriente. Todos eles se consideravam portugueses. Subitamente há uma revolução em 1820, fazem uma Constituição escrita a dizer que são portugueses os cidadãos nascidos em Portugal... Essa gente sofre desde então uma certa orfandade, porque eles consideram-se, e legitimamente, na sua perspectiva, portugueses.

Portanto caberia ao Estado português tentar encontrar uma fórmula e sobretudo investir um bocadinho mais. Creio que a Igreja portuguesa poderia ser neste caso apoiada, e todas as organizações católicas, que enviam tantos jovens para África, poderiam ajudar. Há pouco tempo uma Cátia Ferreira esteve em Malaca, professora de português, e tinha centenas de miúdos a querer aprender português.

O Governo português poderia enviar – e isto custaria menos que um dos milhares de bolsas da FCT – uns 20 professores primários, professores de português básico, para o Bangladesh, para as nossas comunidades portugueses no Myanmar, para os bairros católicos de Banguecoque, para tanto lado onde há uma fome imensa de aprendizagem da língua portuguesa, porque eles consideram-se portugueses. São portugueses, mas não têm cidadania, não são ouvidos, nem se quer, julgo eu, para nosso mal, haverá muitas pessoas nas Necessidades que tenham sequer a percepção de que este problema existe. 

Leia também


Wednesday, 29 November 2017

Buda, São Francisco de Assis e Donald Trump

Católicos de diferentes regiões na missa com o Papa Francisco
O Papa Francisco continua a sua viagem pela Birmânia e esta manhã teve o primeiro verdadeiro encontro com o povo católico, vendo uma Igreja viva que nos últimos anos tem multiplicado o número de padres, freiras e até dioceses.

Depois o Papa encontrou-se com líderes budistas, traçando uma comparação entre Buda e São Francisco de Assis. No respectivo artigo pode encontrar ainda alguma contextualização sobre a politização do budismo naquele país.

Em Portugal, a diocese de Bragança-Miranda quer despertar a consciência das pessoas para a deficiência.

Nos EUA Donald Trump achou que seria boa ideia publicar vídeos partilhados por elementos da extrema direita inglesa que mostram actos de violência alegadamente praticados por muçulmanos.

E já que falamos de Trump, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português David Warren pega no famoso slogan do Presidente americano, adapta-o e pergunta se não seria preferível “Make America Christian Again”?

Tuesday, 28 November 2017

Gémeos guerreiros e israelitas perdidos na Birmânia

Fumadores, líderes do Exército de Deus, amigos do Rambo
O Papa continua na Birmânia e hoje viajou para a capital onde discursou juntamente com a primeira-ministra Aung Suu Kyi. Francisco não referiu os rohingya, embora Kyi tenha falado especificamente daquele conflito sem dizer a “palavra proibida”.

É inegável que o conflito que afecta os rohingya é uma tragédia, mas esta situação tem mais que se lhe diga. Conheça as raízes do problema, que envolve grupos militantes de inspiração jihadista.

Mas os rohingya não são os únicos com queixas sobre o regime birmanês. Há mais de uma dúzia de grupos étnicos ou políticos armados. Conheça os gémeos baptistas que aos 9 anos lideravam o “Exército de Deus” e a insurreição da tribo perdida de Israel…

Entretanto o Governo anunciou a realização de uma conferência para as minorias étnicas. Efeito Francisco?

Antes de se encontrar com as autoridades, o Papa Francisco esteve com líderes religiosos, a quem disse também que unidade não é necessariamente uniformidade.

E o santuário de Fátima anunciou um novo ciclo de anos temáticos para os próximos três anos. O tema será “Graça e Misericórdia”.

Monday, 27 November 2017

Católicos portugueses na Birmânia e padres que não existem

O Papa Francisco chegou esta segunda-feira à Birmânia e já se encontrou com o responsável das Forças Armadas que – aqui entre nós – é quem manda verdadeiramente no país.

Francisco vai ser calorosamente acolhido pelos católicos birmaneses que são todos, sim todos, descendentes de portugueses. Nesta reportagem, que me deu muito gozo fazer, pode ver imagens de alguns destes luso-birmaneses e ler o testemunho de um deles que, quando visitou Portugal a primeira vez, diz que se sentiu em casa.

Lembram-se da “correcção filial” que um grupo de padres e de teólogos simpaticamente fez chegar ao Papa, acusando-o de propagar heresias? Pois esse documento tinha um único signatário português. Fomos à procura dele… O resultado foi bastante surpreendente.


E temos ainda a notícia terrível do pior ataque terrorista dos últimos anos no Egipto. Desta vez não foram os coptas, foram os muçulmanos sufis que foram massacrados. O Papa rezou pelas vítimas e os cristãos do Egipto tocaram os sinos de todas as igrejas em solidariedade.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre duastendências preocupantes. Primeiro, a recusa em discutir criticamente a relação entre o Islão e a violência e, segundo, a recusa em aceitar vozes dissonantes do politicamente correcto nas universidades americanas. Há-de cá chegar…

Friday, 17 November 2017

Liberdade Religiosa nos quartéis e dia Mundial dos Pobres

Existe liberdade religiosa nas Forças Armadas? Os militares evangélicos têm dúvidas e o assunto foi discutido ontem numa conferência na Academia Militar. Leia e conheça o capelão do hospital das Forças Armadas que só pode trabalhar como voluntário.


Hoje é o primeiro Dia Mundial dos Pobres, mas em muitos sítios a data será assinalada no Domingo. Em Lisboa a Cáritas organiza uma caminhada, em Roma o Papa almoça com 1.500 pobres.

O Papa publicou esta sexta-feira uma mensagem a dizer que visita a Birmânia com uma “mensagem de reconciliação, de perdão e de paz”.

Terminou ontem a reunião plenária dos bispos portugueses. Na conferência de imprensa final D. Manuel Clemente falou sobre a (não) admissão de homossexuais no seminário e do padre madeirense que assumiu ter tido um filho. No campo da educação os bispos têm recados para o Governo.

Decorre no Vaticano um encontro sobre os cuidados no final da vida. O Papa enviou uma mensagem aos participantes, criticando tanto a eutanásia – que é sempre errada – como a distanásia.

Friday, 6 January 2017

Falsos ídolos e massacres reais

Uma mulher de etnia rohingya
O Papa pediu esta sexta-feira que os fiéis evitem os “ídolos” do poder e do dinheiro.

Ontem Francisco recebeu uma delegação de 800 peregrinos vindos das zonas afectadas pelos terramotos que assolaram Itália no último ano, e deixou-lhes palavras de conforto e de coragem.

Estão novamente na boca do mundo os Rohingya, da Birmânia, que são maltratados pelo Governo. O regime nega, mas as ONG confirmam. As crianças e os inocentes morrem.

Realiza-se este fim-de-semana o Concerto de Ano Novo da Sé de Lisboa. A não perder para quem puder!

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