A semana passada
escrevi um texto em que referi o
problema da polarização na Igreja. Era sobre a frase polémica de D. Américo
Aguiar, e concluí com o seguinte parágrafo.
Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está
a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro
o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo
que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas
civilizadas.
O problema é que no seguimento da publicação deste artigo
recebi vários comentários a sugerir que eu próprio estava a contribuir para a
polarização, atribuindo a culpa da polémica aos conservadores e
tradicionalistas.
Estou habituado a receber críticas pelo meu trabalho e
opiniões, e acho que lido bastante bem com isso. Às vezes respondo, outras
vezes ignoro – sobretudo quando os autores são anónimos – e frequentemente aprendo
com elas. Mas desta vez fui apanhado de surpresa porque as críticas vieram de
vários campos diferentes, desde tradicionalistas revoltados, a pessoas
moderadas e até de amigos próximos cuja opinião estimo e respeito muito.
Transcrevo alguns, para terem uma ideia:
De uma grande amiga: Olá Filipe! Não pondo em questão
a intenção da tua tentativa, para dares a tua opinião não me parece que seja
preciso dares sempre “encostos” “aos mais conservadores”! Na verdade, nem
consigo perceber a quem metes este selo, nem o que este selo significa.
De um “amigo” do Facebook, que não conheço pessoalmente
mas que se dirige a mim sempre com bom-senso e cordialidade: Tomo também a
liberdade de fazer um comentário ao teu comentário. Concretamente, escreveste
que “Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa
má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu,
sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas.”
Tal como tu, sou Católico. E certamente, tal como tu,
não olho para a Igreja como para um parlamento ou um partido político. Por
isso, se me permites a franqueza, creio que não ajuda a ninguém (exceptuando
aos inimigos de Cristo) que se fale em “alas” dentro da Igreja. Todos
conheceremos irmãos nossos a quem parece, p. ex.º, que o VI e o IX mandamentos
deveriam ser abolidos ou reformados. Serão progressistas? Não creio. Hereges?
Talvez também não. Certamente, tal como eu, precisam sim é de conversão. Todos
conheceremos irmãos nossos a quem parece que a Missa deveria ser sempre
celebrada no Rito Tridentino. São conservadores? Liturgicamente, talvez. Mas
talvez também precisem, como eu de conversão.
A Igreja, independentemente da “polaridade” de
opiniões dos seus membros sobre temas opináveis (já que, de um modo geral, o
que é dogma não é, ou não deveria ser, matéria de discussão), é uma família. E
aos filhos de um mesmo Pai penso que não se justifica dividi-los entre
conservadores e progressistas. Se alguém o fizer, que seja quem não é Católico
ou não entende a Igreja.
E incontáveis comentários irónicos no Facebook ao estilo
de: Claro que a culpa aqui também tinha de ser dos tradicionalistas
Eu poderia aqui adoptar uma postura defensiva e dizer que
o meu comentário sobre conservadores e tradicionalistas não era uma atribuição
de culpa, mas apenas a constatação de um facto, que foi nesses meios e
ambientes que a frase – e a pior interpretação possível da mesma – se tornou
viral. Agora, a culpa da polémica, a existir, é de quem profere uma frase que
depois tem de ser explicada, sobretudo quando a pessoa em causa é conhecida por
ser boa comunicadora.
Mas o facto de terem sido estas as reacções ao que eu
escrevi leva-me a pensar que desta vez não me posso safar à defensiva. Tenho de
pensar se de facto não ando a contribuir para esta polarização que tanto
lamento, e tenho de perceber que este último “incidente” não aconteceu apenas por
causa de um texto meu, mas provavelmente porque já fiz o mesmo noutras alturas.
Por mais que eu compreenda a posição do meu amigo do Facebook,
a verdade é que existem tendências e alas na Igreja e não me parece ser
necessário fingir o contrário. Onde concordo com ele é no facto de sermos todos
filhos do mesmo Pai, todos membros da mesma Igreja, e por isso não podemos nem
devemos apontar o dedo aos que se encontram noutro grupo e dizer que nós somos
filhos e eles enteados.
Nem é necessário que a existência de alas seja uma coisa
má, na medida em que cada uma pode contribuir com os seus dons e capacidades, e
na medida em que a sua coexistência seja marcada pela caridade e pela
compreensão. Haverá sempre extremos que não se suportam facilmente, mas também
na família isso acontece.
A questão central para mim está na relação com o sucessor
de Pedro, que deve ser o centro e garante da nossa catolicidade. E é nesse
sentido que eu reajo contra os ataques ao Papa e aos bispos vistos como
próximos dele neste pontificado, da mesma forma como reagia contra os ataques a
Bento XVI ou a João Paulo II. A questão é que nessa altura eu não tinha o “palco”
que tenho hoje, e por isso poucos davam por isso.
Não se põe aqui a questão de defender sempre tudo o que o
Papa diz e faz, mas sim de dar sempre o benefício da dúvida e agir com ele
sempre dentro do respeito, da caridade cristã e da filial obediência. E a
verdade é que fico chocado com alguns dos ataques que vejo ao Papa e à Igreja
actualmente, vindos de pessoas que noutros pontificados defendiam acerrimamente
o Sumo Pontífice.
Dito tudo isto, se me pedissem para me definir a mim
mesmo, diria que sou um conservador em vários sentidos da palavra, embora tente
manter uma mente e um coração aberto, esperando poder discernir entre o trigo e
o joio, mas confiando acima de tudo que o Espírito Santo ajuda quem de direito
a fazer essa discriminação para bem da Igreja e do Reino de Deus.
O que nos traz de volta à questão inicial. Com os meus
sucessivos “encostos” aos conservadores e tradicionalistas, sobretudo quando sinto
que eles estão a atacar o Papa directa ou indirectamente, estou a contribuir
para o bem da Igreja e para o Reino de Deus? A julgar pelas reacções ao meu
post sobre o D. Américo, estou a falhar. Peço por isso desculpa, a todos, mas especialmente
aos que se sentiram visados.
Como disse nesse post, o combate contra a polarização
começa em casa, com cada um de nós. Também eu vou tentar melhorar nesse
aspecto.