quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Sinodalidade é aquilo que fizermos dela

Stephen P. White
“Sinodalidade” – um termo que tem ganho cada vez mais protagonismo neste pontificado – é o neologismo em busca de uma teologia. Isto não significa que o termo não tenha significado teológico, antes, que na medida em que a palavra descreve a “forma” que o Papa imagina para a Igreja no terceiro milénio, é um conceito ainda um pouco desfocado.  

Começando em Outubro, o Sínodo dos Bispos vai concentrar-se nestas questões na próxima assembleia sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O Papa Francisco está convencido de que a sinodalidade descreve a forma que a Igreja deve assmir no terceiro milénio. Mas ainda não é muito claro precisamente o que é que o Santo Padre quer dizer quando fala de sinodalidade e de uma Igreja sinodal.

Para começar, sabemos algo do que o Papa Francisco não quer dizer com sinodalidade. Ele não está a falar simplesmente da sinodalidade das Igrejas Orientais. Parece ter em mente algo mais do que o Sínodo dos Bispos, que se tem reunido para aconselhar os Papas ao longo dos anos desde o Concílio Vaticano II. Não encara uma Igreja sinodal como uma democracia, nem um sínodo como um plebiscito ou parlamento. O que ele quer dizer é “uma Igreja a caminhar em conjunto”, uma definição suficientemente vaga para justificar todas as clarificações feitas até agora.

 Comissão Teológica Internacional (CTI) estudou o tema da “sinodalidade na vida da Igrea” durante vários anos, o que resultou num relatório de 2018. Esse relatório obteve um parecer favorável do Papa Francisco e dá-nos uma visão mais robusta do que a sinodalidade significa, ou pode significar, para a Igreja Latina. E também, até certo ponto, o que não significa nem pode significar.

A sinodalidade, dizem-nos, não descreve um evento, mas um processo: “O modus vivendi et operandi específico da Igreja, do Povo de Deus, que revela e dá substância ao seu ser enquanto comunhão quando todos os seus membros caminham em conjunto, se reúnem em assembleia e tomam parte activa na sua missão evangelizadora”. O Povo de Deus, em união com os bispos, e com, e sob o Papa, discerne a vontade do Espírito Santo para o trabalho de discipulado missionário da Igreja.

Ainda assim, a ambiguidade da terminologia de sinodalidade – já para não falar da conflitualidade de recentes encontros do Sínodo dos Bispos e a situação complicada a desenrolar-se com o “Caminho Sinodal” da Igreja Alemã – colocam-nos perante uma série de problemas teológicos e práticos. Existem, certamente, razões para cepticismo sobre a forma como alguns possam representar erradamente a sinodalidade, numa tentativa de desconstruir doutrinal, minar a tradição e ameaçar a comunhão eclesial. Estas são preocupações legítimas.

Mas se a sinodalidade é uma caixa por ora vazia, não existem razões para não a preencher com coisas boas. Não há razão para que a ênfase do Papa Francisco na sinodalidade não seja uma ocasião para redescobrir, ou olhar de novo, para a constituição doutrinal do Concílio Vaticano Segundo sobre a Igreja, Lumen Gentium. Nas palavras da CTI: “Embora a sinodalidade não seja referida explicitamente como termo ou como conceito nos ensinamentos do Vaticano II, é justo dizer que a sinodalidade está no cerne do trabalho de renovação que o Concílio estava a encorajar”.  

De facto, o potencial de uma Igreja sinodal é exatamente uma Igreja que incorpora mais inteiramente o seu carácter e a sua missão de forma mais plena, através de todos os seus membros: recorrendo à Escritura e à Tradição, para que o carácter da Igreja se possa manifestar mais autenticamente e a missão universal da Igreja se possa cumprir de forma mais eficaz.

Neste sentido, uma Igreja verdadeiramente sinodal não implica um “recomeçar de novo”, nem a divisão da autoridade eclesial, de uma forma que apela melhor às sensibilidades modernas. Nem se trata de uma questão de mudar o formato da Igreja para se adaptar ao espírito dos tempos, com sínodos locais e regionais a determinar as suas próprias verdades, removendo aquilo de que não gostam, ou a acrescentar, de acordo com as modas locais.


Uma sinodalidade genuína levará a sério a universalidade da missão baptismal: cada fiem, sem excepção, deve comprometer-se inteiramente com a missão da Igreja, na medida em que as formas particulares de cumprimento dessa missão dependem dos dons, talentos, carismas, posição e ocupação de cada um.

Já podemos encontrar exemplos de uma sinodalidade saudável, construtiva e fiel aqui nos Estados Unidos. Pelas minhas contas, pelo menos dez dioceses e arquidioceses americanas já anunciaram, começaram ou completaram sínodos locais nos últimos anos. Bridgeport, Burlington, Dallas, Detroit, Milwaukee, Springfield, San Diego, Sacramento, St. Paul e Minneapolis, e Washington. Os resultados variam, mas no geral têm sido positivos.

Um arcebispo disse-me que a decisão de convocar um sínodo arquidiocesano foi a mais importante e melhor decisão pastoral que alguma vez tomou enquanto bispo. O sínodo local deu uma possibilidade para a sua Igreja local enfrentar desafios consideráveis, enquanto permitiu recentrar os esforços e os recursos no desafio mais importante e, sobretudo, mais fundamental de todos, “libertar o Evangelho”.

Até que ponto este tipo de sinodalidade que tem dado frutos ao nível local pode ser adaptado à escala global, ainda está por determinar. O processo sinodal que começa em Outubro terá uma primeira fase diocesana, seguida um ano mais tarde por uma fase continental e, finalmente, uma fase universal em 2023. Até que ponto é que uma Igreja de mais ou menos mil milhões de almas, espalhadas pelo mundo, pode discernir ou “caminhar em conjunto” através de um programa necessariamente tão impessoal não é nada evidente.

As preocupações com os obstáculos e possíveis abusos de sinodalidade devem ser reconhecidas, mas seria um erro terrível simplesmente descartar esta promessa de sinodalidade à primeira vista. Se a revigoração da missão evangelizadora da Igreja não for razão suficiente para os católicos se aplicarem ao máximo neste sínodo, então talvez esta outra os convença. A recusa ou a incapacidade dos fiéis de se comprometerem com o processo sinodal significa que só as vozes mais cínicas ou ideológicas é que serão ouvidas.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Julho de 2021)

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